Malthus_-_Princpios_de_Economia_Poltica_E_Consideraes_Sobre_Sua_Aplicao_Prtica_-_Os_Economistas
384 pág.

Malthus_-_Princpios_de_Economia_Poltica_E_Consideraes_Sobre_Sua_Aplicao_Prtica_-_Os_Economistas


DisciplinaPensamento Econômico I41 materiais415 seguidores
Pré-visualização50 páginas
para século. Durante o rei-
nado de Henrique VII, um dia de trabalho \u2014 de acordo com a afirmação
anterior \u2014 comprava aproximadamente 1/2 bushel de trigo, que era o
bem mais necessário à vida, e, por conseguinte, o artigo mais importante
numa estimativa geral do valor real de troca. Um século depois, um
dia de trabalho comprava apenas 1/6 de bushel de trigo: uma diferença
prodigiosa nesse artigo tão importante. E embora possamos supor que
um dia de trabalho comprava, nos dois períodos, quantidades menos
dessemelhantes de artigos em que o trabalho entra como ingrediente
importante, do que as quantidades que adquiria de trigo, mesmo assim
apenas as variações em sua capacidade de adquirir o bem mais ne-
cessário à vida, em períodos diferentes, já desqualificam o trabalho
como medida exata do valor real de troca de século para século.
Todavia, embora nenhum desses dois artigos, tomados isolada-
mente, possa ser considerado medida satisfatória de valor, a combinação
dos dois talvez possa levar a uma precisão maior.
Quando o trigo é caro, comparado ao trabalho, o trabalho com-
parado ao trigo será necessariamente barato. No período em que dada
quantidade de trigo adquire uma quantidade maior de bens de primeira
necessidade e de conforto determinada quantidade de trabalho sempre
adquire uma quantidade menor desses artigos; no período em que o
trigo adquire uma quantidade menor desses artigos, o trabalho adquire
uma quantidade maior.
Por isso, se tirarmos uma média dos dois, evidentemente teremos
uma medida corrigida pelas variações contemporâneas de cada um em
direções opostas, e provavelmente representaremos, com maior precisão
do que apenas com um deles, a mesma quantidade de bens de primeira
necessidade e de conforto, nos períodos mais distantes e sob todas as
circunstâncias variáveis às quais estão sujeitos o aumento da população
e o cultivo da terra.
Para esse propósito é necessário, entretanto, fixarmos uma me-
dida de trigo que possa ser considerada, no que se refere à quantidade,
MALTHUS
77
equivalente a um dia de trabalho; neste país, talvez 1 peck49 de trigo,
que constitui aproximadamente o ganho diário médio de um bom tra-
balhador em tempos de abundância, seja bastante preciso para o ob-
jetivo proposto. Portanto, qualquer mercadoria que, em períodos dife-
rentes, adquire o mesmo número de dias de trabalho e de pecks de
trigo \u2014 ou frações dessas unidades, tomadas em proporções iguais \u2014
pode ser considerada, segundo esse princípio, como uma mercadoria
que adquire, de forma bem aproximada, a mesma quantidade de bens
de primeira necessidade e de conforto e, em conseqüência, preserva
de modo bastante aproximado o valor real de troca em períodos dife-
rentes. E toda mercadoria que, em períodos diferentes, compra dife-
rentes quantidades de trigo e de trabalho assim considerados, eviden-
temente terá variado em relação a uma medida que varia pouco, e por
isso podemos supor que a mercadoria em questão variou proporcional-
mente a seu valor real de troca.
Ao calcular o valor real de troca de mercadorias de diferentes
países, devemos levar em conta os tipos de alimento consumidos pelas
classes trabalhadoras. A regra geral seria compará-los, em cada país,
a um dia de trabalho e à quantidade do tipo de cereal existente, equi-
valente ao ganho diário médio de um bom trabalhador. Desse modo,
se na Inglaterra o preço monetário de uma mercadoria compra 5 dias
de trabalho e 5 pecks de trigo, e o preço monetário de uma mercadoria,
em Bengala, compra cinco dias de trabalho e cinco vezes a quantidade
de arroz que um bom trabalhador costuma ganhar, segundo a média
de um período longo, pode-se supor que essas mercadorias têm, em
cada país, o mesmo valor real de troca; a diferença entre seus valores
monetários expressa de forma bem aproximada os diferentes valores
da prata na Inglaterra e em Bengala.
O principal defeito da medida aqui proposta decorre dos efeitos
variáveis do capital, da maquinaria e da divisão de trabalho em países
diferentes e em períodos diferentes, sobre o produto de um dia de
trabalho e sobre os preços das mercadorias manufaturadas. Mas ne-
nhuma estimativa até agora sugerida teve sequer a pretensão de avaliar
essas variações \u2014 na verdade, essas variações referem-se mais à ri-
queza que ao valor de troca, categorias essas que, embora intimamente
relacionadas, nem sempre são a mesma coisa; por causa disso, numa
estimativa de valor, o barateamento decorrente de maior destreza ou
do uso de maquinaria pode ser negligenciado sem que isso implique
erro grave.
O Sr. Ricardo pergunta \u201cpor que o ouro, o trigo ou o trabalho
seriam uma medida padrão de valor mais adequada que o carvão ou
o ferro, ou que as roupas, o sabão, velas e outros bens necessários ao
OS ECONOMISTAS
78
49 Medida de capacidade para secos, contendo aproximadamente 9 litros. (N. do E.)
trabalhador? Por que, em síntese, uma mercadoria ou o conjunto das
mercadorias deveria ser o padrão se este próprio padrão está sujeito
a flutuações de valor?\u201d.50 Confio em que a questão aqui colocada tenha
sido respondida de maneira satisfatória no decorrer desta investigação
sobre a natureza e as medidas do valor. Só gostaria de acrescentar
que uma mercadoria qualquer, mais de uma, ou seu conjunto devem
necessariamente ser tomadas para expressar o valor de troca, porque
abrangem todas as coisas que podem ser trocadas. No entanto, uma
medida de valor de troca assim configurada é imperfeita, como todos
sabem; certamente seríamos gratos ao Sr. Ricardo se ele tivesse pro-
posto uma melhor. Mas qual a medida proposta por ele? O dispêndio
de trabalho na produção de uma mercadoria, isto é, o seu custo ou,
mais precisamente, uma parte de seu custo, em função do qual seu
valor de troca, na prática e sob diferentes circunstâncias, varia enor-
memente. Custo e valor são sempre essencialmente diferentes. Uma
mercadoria cujo custo dobrou não pode ter um valor de troca maior
que antes se outras mercadorias também dobraram. No entanto, quando
o custo das mercadorias é estimado segundo os princípios de Adam
Smith, seu custo monetário e seu valor monetário médio geralmente
coincidem. Mas, quando o custo é avaliado segundo os princípios do
Sr. Ricardo, ou seja, pela quantidade de trabalho despendida, o custo
e o valor do trabalho quase nunca coincidem. Onde quer que haja
lucros (e são muito raros os casos em que não há nenhum), o valor de
uma mercadoria, ao ser trocada por trabalho, é invariavelmente maior
que o trabalho nela empregado.
Portanto, temos de escolher entre uma medida imperfeita do valor
de troca, e outra que é necessária e fundamentalmente errada.
Se o Sr. Ricardo disser que com o termo valor, quando usado
isoladamente, ele não quer dizer valor de troca, então por certo indu-
ziu-nos em grande erro em muitas partes de seu trabalho. Afinal, dei-
xou-nos sem propor uma medida de valor de troca que substitua a que
ele critica. Não há a menor dificuldade em encontrar uma medida de
custo, ou mesmo de valor, se definimos o valor como custo. A dificuldade
consiste em encontrar uma medida do valor real de troca, em contra-
posição ao valor nominal ou preço. Ninguém está procurando um padrão
exato, acertadamente considerado inalcançável. Mas de todos os artigos
trocados, o trabalho é, sem nenhuma comparação, o mais abrangente
e o mais importante. Em seguida, vem o trigo. A razão pela qual o
trigo é preferível ao carvão é muito compreensível. A mesma razão,
combinada a outras, é válida para a preferência dada ao trabalho em
relação ao trigo. E as razões formuladas nesta seção são suficientes,
creio eu, para dar preferência, em alguns casos, à média entre o trigo
MALTHUS
79
50 Princípios de Economia Política e Tributação. Op. cit. Cap. XX, p. 190.
e o trabalho em vez de tomar qualquer um deles isoladamente. Quando
o trigo não é um dos artigos a serem medidos, como no caso de uma
estimativa do valor dos metais preciosos, ou qualquer mercadoria es-
pecífica, um meio-termo entre o trigo e o trabalho é preferível ao tra-
balho tomado isoladamente;