Malthus_-_Princpios_de_Economia_Poltica_E_Consideraes_Sobre_Sua_Aplicao_Prtica_-_Os_Economistas
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DisciplinaPensamento Econômico I41 materiais415 seguidores
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mas quando o trigo é um dos principais
artigos a serem medidos, como numa estimativa do valor de troca da
produção total de um país, a capacidade desse produto de adquirir
trabalho nacional e estrangeiro ainda é o melhor critério ao qual po-
demos recorrer.
OS ECONOMISTAS
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CAPÍTULO III
A Renda da Terra
Seção I
A natureza e as causas da renda da terra
Podemos definir a renda da terra como a parcela do produto
total que fica para o proprietário da terra depois de pagas todas as
despesas, de qualquer tipo, referentes a seu cultivo, inclusive os lucros
do capital empregado, estimados segundo a taxa usual e ordinária de
lucro do capital agrícola no período considerado.
Pode ocorrer, devido a circunstâncias acidentais e temporárias, que
o arrendatário pague mais ou menos que isso, mas é em torno desse ponto
que as rendas efetivamente pagas sempre gravitam. Por essa razão, esse
é o ponto de referência quando o termo \u201crenda\u201d é usado em sentido genérico.
Visto que a renda da terra é o excedente do preço sobre o que
é necessário para pagar os salários do trabalho e os lucros do capital
empregados no cultivo da terra, o primeiro objeto de investigação que
se nos apresenta é a causa ou causas desse excedente de preço.
Depois de examinar a questão repetida e cuidadosamente, não
posso concordar de todo nem com o ponto de vista apresentado por
Adam Smith, nem com o dos Economistas, e menos ainda com o de
alguns autores modernos.
Parece-me que quase todos esses autores consideram a renda da
terra como algo que lembra muito de perto, em sua natureza e nas
leis que a governam, aquele excedente de preço sobre o custo de pro-
dução, característica de um monopólio comum.
Embora Adam Smith se aproxime muito da verdade51 em algumas
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51 Todavia, não posso concordar quando ele considera que toda terra que produz alimentos
deve necessariamente produzir renda. A terra que começa a ser cultivada em países prósperos
só pode pagar os lucros e o trabalho. Um bom lucro sobre o capital aplicado, incluindo,
partes do capítulo XI de seu Livro Primeiro, e apesar de ter feito em seu
trabalho um número maior de observações corretas sobre o assunto que
qualquer outro autor, não explicou com suficiente clareza a causa mais
essencial do elevado preço dos produtos agrícolas; como o autor aplica
ocasionalmente o termo monopólio a renda da terra, sem se deter em
suas peculiaridades mais fundamentais, ele deixa o leitor sem uma noção
clara da verdadeira diferença entre a causa do preço elevado dos bens de
primeira necessidade e das mercadorias monopolizadas.
Algumas observações dos economistas sobre a natureza da renda
da terra parece-me também bastante corretas; mas estão misturadas
com tantos erros e delas foram tiradas conclusões tão injustificadas,
que o válido em suas teorias não teve grande repercussão. A conclusão
prática mais importante dos economistas, qual seja, a de que se deve
tributar com exclusividade a renda líquida dos proprietários de terra,
decorre, por certo, de que eles consideram essas rendas inteiramente
disponíveis como o excedente do preço sobre o custo de produção que
distingue um monopólio comum.
O Sr. Say, em seu valioso Tratado da Economia Política, em que
explica com grande clareza muitos pontos que não foram suficiente-
mente desenvolvidos por Adam Smith, não tratou a questão da renda
da terra de maneira de todo satisfatória. Ao falar dos diferentes agentes
naturais que, assim como a terra, cooperam com o trabalho do homem,
observa: \u201cHereusement personne n\u2019a pu dire, le vent et le soleil m\u2019ap-
partiennent, et le service qu\u2019ils rendent doit m\u2019être payé\u201d.52 Embora ele
admita, por razões óbvias, que a apropriação da terra é necessária,
torna-se claro em seu trabalho que considera a renda da terra como
algo que se deve quase exclusivamente a essa apropriação e à demanda
externa.
No excelente trabalho do Sr. de Sismondi, De la Richesse Com-
merciale, diz ele em nota referente à questão da renda: \u201cCette partie
de la rente foncière est celle que les Economistes ont décorée du nom
du produit net, comme étant le seul fruit du travail qui ajoutât quelque
chose à la richesse nationale. On pourroit, au contraire, soutenir contre
eux, que c\u2019est la seule partie du produit du travail, dont la valeur soit
purement nominale, et n\u2019ait rien de réelle: c\u2019est en effet le résultat de
OS ECONOMISTAS
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naturalmente, o pagamento do trabalho, sempre será um estímulo suficiente para a agri-
cultura. Mas, na prática, são muito raros os casos em que a terra pertence a qualquer um
que a deseje; provavelmente é uma verdade quase universal o fato de que toda terra
apropriada, que produz alimentos em seu estado natural, sempre proporcione renda, seja
ela cultivada ou não.
52 Ver v. II, p. 124. Uma nova edição desse trabalho, muito melhorada, foi publicada recen-
temente e merece toda a atenção de quem se interessa por esse assunto. A passagem citada
pode ser encontrada em SAY, Jean-Baptiste. Tratado de Economia Política. São Paulo,
Abril Cultural, 1983, p. 337. \u201cFelizmente, porém, ninguém jamais pode dizer: O vento e o
sol me pertencem e o serviço que prestam me deve ser pago.\u201d (N. do E.)
l\u2019augmentation de prix qu\u2019obtient un vendeur en vertu de son privilège,
sans que la chose vendue en vaille réellement davantage\u201d.53
Parece-me que as opiniões dos mais modernos autores de nosso
país tendem a uma visão semelhante da questão. Para não multiplicar
as citações acrescentarei apenas que, numa edição respeitável de A
Riqueza das Nações, publicada recentemente pelo Sr. Buchanan, de
Edimburgo, a idéia de monopólio vai mais longe ainda. Embora os
autores mais antigos acreditassem que a renda da terra é governada
pelas leis do monopólio, ainda assim pensavam que esse monopólio,
no caso da terra, é necessário e útil. Ao contrário deles, o Sr. Buchanan
às vezes chega a dizer que a renda é prejudicial e que priva o consumidor
daquilo que concede ao proprietário da terra.
Ao tratar do trabalho produtivo e improdutivo no último volume,
o Sr. Buchanan observa que \u201co excedente líquido, por meio do qual os
economistas estimam a utilidade da agricultura, surge obviamente do
alto preço de seu produto, o qual, embora vantajoso para o proprietário
de terra que o recebe, por certo não traz vantagem nenhuma para o
consumidor que o paga. Se o produto agrícola fosse vendido por um
preço mais baixo, não haveria o mesmo excedente líquido depois de
pagas as despesas do cultivo, mas a agricultura continuaria igualmente
rendosa para o capital em geral; a única diferença seria que, em vez
de enriquecer o proprietário de terras com o preço alto, às expensas
da comunidade, como acontecia antes, agora seria a comunidade que
lucraria com o preço baixo, às expensas do proprietário de terras. O
alto preço, do qual se origina a renda da terra ou o excedente líquido,
ao mesmo tempo que enriquece o proprietário de terras que tem o
produto agrícola para vender, diminui, na mesma proporção, a riqueza
de seus compradores; por causa disso não é correto considerar a renda
do proprietário de terras um acréscimo inequívoco à riqueza nacional\u201d.54
Em outras partes de seu trabalho, ele usa a mesma linguagem
\u2014 quando não mais forte \u2014 e, numa nota a respeito de impostos,
refere-se ao alto preço do produto da terra como vantajoso para aqueles
que o recebem, mas prejudicial para aqueles que o pagam. \u201cSegundo
essa visão\u201d, acrescenta ele, \u201co alto preço do produto agrícola não pode
constituir nenhum acréscimo geral ao capital da comunidade, pois o
excedente líquido em questão é apenas um rendimento transferido de
uma classe para outra, e é claro que da mera circunstância do excedente
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53 V. I, p. 49. \u201cEssa parte da renda fundiária recebeu dos economistas o nome de produto
líquido, ou seja, o único produto do trabalho humano que adiciona alguma coisa à riqueza
nacional. Contudo, seria possível argüir contra eles que, bem ao contrário, essa é a única
parcela do trabalho humano cujo valor é puramente nominal, nada possuindo de real: com
efeito, ela resulta