Malthus_-_Princpios_de_Economia_Poltica_E_Consideraes_Sobre_Sua_Aplicao_Prtica_-_Os_Economistas
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fazer essa comparação, deveríamos considerar o solo um presente com-
posto por um grande número de máquinas, todas passíveis de melhorias
contínuas mediante a aplicação de capital, mas mesmo assim com ca-
pacidades e características próprias muito diferentes.
Essa grande desigualdade nas capacidades da maquinaria empre-
gada na produção de matéria-prima constitui um dos traços mais notáveis
que diferenciam a maquinaria agrícola da empregada nas manufaturas.
No caso da invenção de uma máquina para aplicação da manu-
fatura, produzindo resultados mais perfeitos com menos trabalho e
capital, e no caso de não haver patente, ou da patente expirar, pode-se
construir um número suficiente dessas máquinas para suprir toda a
demanda e substituir inteiramente a maquinaria antiga. A conseqüên-
cia natural disso é que o preço se reduz ao preço de produção da
melhor maquinaria; se o preço cair ainda mais, toda a mercadoria será
retirada do mercado.
As máquinas que produzem trigo e matérias-primas, ao contrário,
são dádivas da Natureza, não obra humana. E sabemos pela experiência
que essas dádivas têm características e capacidades muito diferentes. As
terras mais férteis de um país que, como as melhores máquinas manu-
fatureiras, proporcionam a maior quantidade de produção com o mínimo
de trabalho e capital, nunca são suficientes, devido à segunda das prin-
cipais causas da renda acima citadas, para suprir a demanda efetiva de
uma população em crescimento. Portanto, o preço dos produtos agrícolas
sobe naturalmente até cobrir o custo de produzi-los com máquinas infe-
riores e por um processo mais caro; como não pode haver dois preços
para o trigo de mesma qualidade, todas as outras máquinas, cujo funcio-
namento requer menos capital, comparativamente à produção, devem pro-
porcionar renda de acordo com seu grau de eficiência.
Desse modo, pode-se considerar que toda extensão de terra possui
máquinas de diferentes graus de eficiência para a produção de trigo
e de matérias-primas, incluindo nessas diferenças não apenas todas
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as várias qualidades de terra pobre, que todo grande território tem
em abundância, mas também a maquinaria inferior, por assim dizer,
empregada nas terras férteis quando elas são forçadas a produzir um
adicional cada vez maior. À medida que o preço dos produtos agrícolas
continua subindo, essas máquinas inferiores são sucessivamente postas
em funcionamento; à medida que o preço dos produtos agrícolas con-
tinua caindo, elas são sucessivamente paralisadas. O exemplo que usa-
mos aqui serve para mostrar logo o caráter necessário do preço efetivo
do trigo em relação à produção efetiva nas condições dominantes na
maioria dos países que conhecemos, e os diferentes resultados de uma
grande redução no preço de qualquer manufatura e de uma grande
redução no preço dos produtos agrícolas.
Entretanto, não devemos tirar conclusões excessivas dessa gra-
dação da maquinaria da terra. É isso que acontece em quase todos os
países e é claramente responsável pelo nascimento e evolução da renda
enquanto ainda existe uma quantidade considerável de terras. Essa
gradação não é estritamente necessária nem para a formação original
nem para a elevação regular e subseqüente da renda. Tudo que é
necessário para produzir esses resultados é a existência das duas pri-
meiras causas da renda anteriormente mencionadas, somadas à limi-
tação do território ou à escassez de terras férteis.
Quaisquer que sejam as características de uma mercadoria, todos
sabem que ela não pode ter nenhum valor de troca se existe numa
quantidade muito superior às necessidades daqueles que devem usá-la.
Mas são tais as características dos bens de primeira necessidade que,
num território limitado e em circunstâncias normais, eles não podem
estar em excesso de maneira permanente. Se todas as terras desse
país fossem exatamente da mesma qualidade, e todas muito ricas, não
há a menor dúvida de que após toda a terra ter sido cultivada, tanto
os lucros do capital quanto os salários reais do trabalho começariam
a diminuir até que os lucros se reduzissem ao necessário para manter
o capital existente, e os salários ao necessário para manter a população
existente, enquanto as rendas seriam altas, na proporção exata da
fertilidade do solo.
O resultado não seria essencialmente diferente se a quantidade
de capital que pode ser empregada com vantagem nessas terras férteis
fosse extremamente limitada, de modo que nenhum capital seria ne-
cessário além do indispensável para arar e semear. Também não há
dúvida de que o capital e a população cresceriam em outros setores,
até que ambos estacionassem e a renda tivesse alcançado os limites
prescritos pelas capacidades do solo e pelos hábitos do povo.
Nesses casos, é óbvio que a renda não é regulada pelas gradações
do solo ou pelos diferentes rendimentos do capital na mesma terra. É
um despropósito concluir-se da teoria da renda da terra, como fez o
Sr. Ricardo, que \u201cé apenas porque a terra tem características diferentes
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em relação à sua capacidade produtiva e porque, com o aumento da
população, terras de qualidade inferior ou desfavoravelmente localiza-
das começam a ser cultivadas que se paga renda para usá-las\u201d.73
Há outra dedução tirada da teoria da renda da terra que implica
um erro de muito maior importância e contra o qual devemos resguar-
dar-nos com o maior cuidado.
Com o avanço da agricultura, à medida que terras cada vez mais
pobres começam a ser cultivadas, a taxa de lucros é limitada pela
capacidade produtiva das terras cultivadas por último, como demons-
traremos cabalmente num capítulo posterior. Desse fato tem-se dedu-
zido que, quando parcelas sucessivas de terras deixam de ser cultivadas,
a taxa de lucros será alta em proporção à fertilidade natural superior
da terra que, nesse caso, será a terra cultivada menos fértil.
Se a terra, pobre ou fértil, não proporcionasse nenhuma renda
em seu estado natural, e se os preços relativos do capital e da produção
permanecessem os mesmos e toda a produção fosse dividida entre lucros
e salários, a conclusão poderia ser correta. Mas não são essas as pre-
missas que supomos aqui. Num país civilizado, as terras não cultivadas
sempre proporcionam renda de acordo com sua capacidade natural de
alimentar o gado ou de produzir madeira. E é claro que quando parcelas
de terra deixaram de ser cultivadas, particularmente quando isso foi
ocasionado pela importação de trigo mais barato e, em conseqüência,
sem uma redução de população, a última parcela que deixou de ser
cultivada pôde proporcionar uma pequena renda em pastagens, embora
consideravelmente menor que antes. Como afirmamos na seção ante-
rior, a renda diminuirá, mas não muito, seja em proporção ao capital
empregado na terra, seja em proporção à produção dela derivada. Ne-
nhum proprietário permitirá que sua terra seja cultivada por um ar-
rendatário que paga pouca ou nenhuma renda, quando pode obter uma
renda muito maior deixando-a para pastagens e economizando as des-
pesas anuais do capital nela empregado. Em conseqüência disso, como
a produção das piores terras efetivamente cultivadas nunca pode ser
inteiramente dividida entre lucros e salários, e no caso que supomos
acima, nem mesmo de modo aproximado, as condições dessa terra ou
seu grau de fertilidade não podem regular a taxa de lucros sobre ela.
Se a essa situação acrescentamos o efeito decorrente de uma alta
no valor do dinheiro e a provável queda do trigo, mais que a do gado
usado no trabalho, é óbvio que surgirão dificuldades permanentes no
cultivo e que terras mais ricas não proporcionarão lucros superiores.
A renda mais alta, paga pela terra que começou a ser cultivada por
último, somada a maior despesa do capital, comparativamente ao preço
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73 Principles of Political Economy. Cap. II, p. 70, nota. Essa passagem foi tirada da 1ª edição
e está ligeiramente diferente na 2ª, p. 70, mas não tanto que tenha mudado de sentido.
do produto, pode compensar plenamente, e até mais que