Malthus_-_Princpios_de_Economia_Poltica_E_Consideraes_Sobre_Sua_Aplicao_Prtica_-_Os_Economistas
384 pág.

Malthus_-_Princpios_de_Economia_Poltica_E_Consideraes_Sobre_Sua_Aplicao_Prtica_-_Os_Economistas


DisciplinaPensamento Econômico I41 materiais415 seguidores
Pré-visualização50 páginas
além do necessário para o seu
próprio consumo.
A prosperidade ou a miséria para as camadas mais baixas da po-
pulação dependeria, em última análise, do acréscimo ou decréscimo desse
MALTHUS
13
8 Ibid., p. 67.
9 Ibid., p. 69.
fundo. De acordo com as idéias malthusianas, se em dado período de
tempo a população crescesse a uma taxa inferior à dos produtos agrí-
colas, o fundo cresceria, haveria maior prosperidade, e o preço do tra-
balho se elevaria. Mas, com a melhoria na situação dos trabalhadores,
estes veriam menores impedimentos ao aumento de suas famílias, com
o que a população deveria se elevar, anulando, assim, o maior bem-estar
derivado do aumento do fundo. Obviamente, se a população crescesse
mais que os alimentos, haveria miséria e menor preço do trabalho.
Mas não termina aí a série de objeções de Malthus a Godwin.
Este pensador achava que se deixasse de dar atenção ao \u201ccomércio dos
sexos\u201d, se esse comércio fosse livre, ele fatalmente desapareceria. À
contestação desse pensamento, Malthus dedicou o capítulo XI do En-
saio. Nesse capítulo, Malthus lança-se ao ataque dos abusos dos pra-
zeres sexuais. Diz: \u201co mais saudável e revigorante dos alimentos, comido
com apetite irrestrito, produz fraqueza ao invés de força\u201d.10
Defende ele a idéia de que \u201ca superioridade dos prazeres inte-
lectuais sobre os sensuais consiste mais no maior tempo que duram,
na sua maior extensão, na sua menor sujeição à saciedade, do que em
serem mais reais ou essenciais\u201d.11
Godwin, na opinião de Malthus, idealiza o homem comum, ao
pensar nele como um ser meramente intelectual. Isso porque, da mesma
forma que os atos voluntários são determinados pela mente, as sen-
sações corpóreas afetam poderosamente as decisões que provêm da
mente. Assim é que \u201cos apelos da fome, o amor à bebida, o desejo de
possuir uma bela mulher, forçarão os homens a ações\u201d.12
Malthus entendia que \u201cem algum tempo futuro, talvez, a real
saciedade dos prazeres sensuais, ou algumas impressões incidentais
que despertem as energias da mente, possam efetivar, em um mês, o
que as mais pacientes e hábeis postulações podem ser incapazes de
efetuar em quarenta anos\u201d.13
Admitia Malthus que \u201cas classes mais baixas do povo na Europa
podem, em algum período futuro, ser muito melhor instruídas do que
elas são no presente; podem empregar o pouco tempo livre de modo
muito melhor do que em cervejarias; podem viver, sob as melhores e
mais eqüitativas leis até então elaboradas em qualquer país, talvez;
e posso mesmo conceber possível, embora não provável,14 que possam
ter maior lazer; mas não é da natureza das coisas que eles possam
vir a ser premiados com tanto dinheiro ou subsistência que poderão,
todos eles, casar cedo, na plena confiança de que serão capazes de
OS ECONOMISTAS
14
10 Ibid., p. 75.
11 Ibid., p. 75.
12 Ibid., p. 88.
13 Ibid., p. 92.
14 Os grifos são do apresentador.
prover facilmente uma família numerosa\u201d.15 Mais uma vez a história
mostrou-se cruel com os que se atrevem a fazer previsões por um período
indeterminado (ou mesmo um pouco mais longo) de tempo.
Em sua defesa do sistema de propriedade reinante na economia
capitalista, dizia Malthus: \u201cÉ à administração estabelecida da proprie-
dade e ao princípio evidentemente estreito do egoísmo que devemos
todas as mais nobres realizações do gênio humano, todas as mais finas
e delicadas emoções da alma, e tudo, enfim, que distingue o estado
civilizado do selvagem...\u201d16
Embora Malthus considerasse necessária a existência \u201cde uma
classe de proprietários e de uma classe de trabalhadores\u201d, sentia que
não poderia inferir daí, de nenhum modo, \u201cque o estado atual de de-
sigualdade da propriedade é necessário e útil à sociedade. Pelo con-
trário, deve ser considerado um mal... mas se um Governo poderia,
com vantagens para a sociedade, interferir ativamente para reprimir
a desigualdade de fortunas, é questão duvidosa...\u201d17
Malthus faz, ainda, interessante defesa do sistema de trocas: \u201c...o
homem que faz o trabalho de alguns dias tem tanta obrigação perante
mim quanto eu perante ele... nós fazemos uma troca amigável. O homem
pobre segue ereto, com independência consciente, e a mente de seu
empregador não é visitada pelo sentimento do poder\u201d.18
Mais adiante: \u201cmesmo os maiores inimigos do comércio e das
manufaturas, e eu não me considero muito amigo deles, devem reco-
nhecer que quando eles foram introduzidos na Inglaterra, a liberdade
veio em seu rastro\u201d.19
c) Malthus e Adam Smith
Adam Smith, em seu famoso livro An Inquiry into the Nature
and Causes of the Wealth of Nations (1776), definiu \u201criqueza de uma
nação\u201d como sendo a produção anual de sua terra e trabalho.
Ponderou Malthus que se tomarmos como correta a definição,
poderemos verificar que de um período de tempo para outro pode ter
havido aumento de riqueza da nação sem que sua classe de trabalha-
dores obtivesse qualquer ganho real. Isso porque a riqueza pode ter-se
originado apenas da produção de bens manufaturados. Claro está que
os trabalhadores, em posse da renda gerada pela locação da sua força
de trabalho às indústrias manufatureiras, poderiam dirigir-se ao mer-
cado e comprar bens de subsistência. Lembremo-nos que são os exce-
dentes agrícolas, na visão malthusiana, que formam o fundo de ma-
MALTHUS
15
15 Ibid., p. 97.
16 Ibid., p. 100.
17 Ibid., p. 101.
18 Ibid., p. 102.
19 Ibid., p. 103.
nutenção dos trabalhadores e que dão a medida do benefício concreto
para a classe obreira. Assim, quando os trabalhadores fossem ao mer-
cado para comprar alimentos, encontrariam o mesmo estoque. A pressão
de um maior poder de compra sobre uma oferta fixa desses bens eli-
minaria, na realidade, qualquer possibilidade de ganho real para os
trabalhadores.
Coerente com seu ponto de vista, Malthus propunha que o Governo
deveria incentivar a agricultura, mais do que a indústria. Assim, haveria
maior produção agrícola, maior emprego no setor, maior remuneração ao
trabalhador e, com a diminuição nos preços dos produtos agrícolas, maior
ganho real para todos. Os trabalhadores viveriam melhor, pelo menos até
que a população crescesse. De qualquer forma, se a riqueza smithiana
da nação ocorresse com algum aumento na produção agrícola, haveria,
de início, algum ganho real para os trabalhadores.
Malthus acrescentava que a troca de emprego, da agricultura
para a indústria, representava dano para a saúde do empregado, além
da grande incerteza do trabalho manufatureiro, que aumenta \u201ccom o
caprichoso gosto do homem\u201d, com a guerra e outras causas.
Malthus admitia a possibilidade de o aumento nos preços dos
produtos agrícolas induzir investimentos no setor, com o que aumen-
taria a oferta de alimentos. Dizia, porém, que a variação nesse sentido
seria muito lenta. Além disso, o aumento dos salários teria precedido
o dos preços dos produtos agrícolas, reduzindo os \u201cbons efeitos\u201d para
os investimentos.
Admitiu ainda a possibilidade de, via importação, num país pe-
queno mas com grande Marinha, como a Holanda, que tinha, ainda,
grande capacidade de armazenamento, contornar o problema. Isso seria
difícil, dados os custos, para países maiores.
d) Malthus e os \u201ceconomistas franceses\u201d
Para os economistas franceses, tendo à frente François Quesnay,
somente seria produtivo o trabalho aplicado à agricultura. \u201cEles dizem
que o trabalho empregado na terra é produtivo porque o produto, após
pagar totalmente o trabalhador e o fazendeiro, fornece uma clara renda
para o dono da terra, e que o trabalho empregado em uma peça de
tecido rendado é improdutivo porque ele meramente repõe as provisões
que o trabalhador tinha consumido, assim como o estoque do seu em-
pregador, sem fornecer qualquer nítida renda, qualquer que ela seja\u201d...
\u201cEle não terá adicionado nada ao produto bruto da terra: consumiu uma
porção desse produto bruto e deixou em troca um pedaço de tecido\u201d.20
Malthus contesta esses economistas, dizendo que uma pessoa em-
pregada em manufatura pode produzir acima do necessário para cobrir
OS ECONOMISTAS
16
20 Ibid., p. 115.
o que consome e para repor