Malthus_-_Princpios_de_Economia_Poltica_E_Consideraes_Sobre_Sua_Aplicao_Prtica_-_Os_Economistas
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DisciplinaPensamento Econômico I41 materiais415 seguidores
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de lã e algodão etc. entram todos em
quantidades maiores ou menores no capital do arrendatário ou nos
salários do trabalhador, e os preços de todos esses artigos são influen-
ciados em grau maior ou menor pela importação. Enquanto o valor da
produção do arrendatário aumenta, esses artigos não aumentam na
mesma proporção e, em conseqüência, determinado valor de capital
proporciona um valor maior da produção.
Todas as três circunstâncias tendem fortemente, é óbvio, a con-
trabalançar os efeitos decorrentes da necessidade de cultivar terras
cada vez mais pobres. Veremos que, como sua eficiência aumenta com
o desenvolvimento natural da população e com o progresso técnico,
não é fácil dizer durante quanto tempo e em que medida essas cir-
cunstâncias podem contrabalançar ou superar aqueles efeitos.
O leitor deve entender a razão pela qual, ao tratar de lucros,
insisto tanto nos lucros agrícolas: é que a base da questão está nesse
ponto. O argumento contra a visão mais comum dos lucros, ou seja, a
de que dependem principalmente da concorrência do capital, baseia-se
na necessidade física de uma queda de lucros na agricultura, decorrente
da quantidade crescente de trabalho requerida para obter a mesma
quantidade de alimento; e é claro que, se os lucros agrícolas caem
permanentemente devido a essa ou a outra causa qualquer, os lucros
das manufaturas e do comércio caem também, pois é uma verdade
reconhecida que, num país desenvolvido e civilizado, os lucros do ca-
pital, com poucas exceções temporárias que podem ser facilmente ex-
plicadas, estão aproximadamente no mesmo nível em todos os diferentes
setores da indústria aos quais se aplica capital.
Pois bem, estou totalmente disposto a admitir a verdade desse
argumento quando aplicado aos lucros agrícolas e também às suas
conseqüências naturais sobre todos os lucros. Essa verdade está suposta
necessariamente tanto no Principle of Population como na teoria da
renda, que publiquei em separado em 1815. Mas pretendo demonstrar
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teórica e praticamente que essa causa é tão poderosa e incontestável
em sua atuação final que suplanta todas as outras, embora, nas cir-
cunstâncias reais do mundo, seu desenvolvimento natural seja não
apenas muito lento, mas também com freqüência contrabalançado e
sobrepujado por outras causas, de modo a deixar um espaço muito
grande para a concorrência do capital; tanto que, para qualquer período
razoavelmente longo nos últimos ou nos próximos cem anos, podemos
afirmar com segurança que os lucros dependeram ou podem depender
muito mais das causas que geram uma oferta comparativamente es-
cassa ou abundante de capital que da fertilidade natural da terra cul-
tivada por último.
Os fatos que sustentam essa posição são óbvios e incontestáveis.
Alguns deles foram apresentados na seção anterior, e seu número pode
aumentar facilmente. Todavia, acrescentarei apenas mais um, que cons-
titui um exemplo tão convincente que, por si só, praticamente decide
a questão. Tendo ocorrido em nosso país, esse fato pode ser minucio-
samente examinado.
Após a posse de George II, em 1727, até o começo da guerra, em
1739, os juros do dinheiro eram pouco mais de 3%. Os títulos públicos,
cujo rendimento havia caído a 4%, elevaram-se consideravelmente de-
pois disso. Segundo Chalmers, a taxa de juros natural estabilizou-se
em 3%;109 e, de um discurso de Sir John Barnard, depreende-se que
as ações a 3% eram vendidas com ágio. Em 1750, depois do término
da guerra, as ações a 4% foram reduzidas para 3,5% durante 7 anos
e, após esse período, para 3% de forma permanente.110
Excluindo, pois, o intervalo da guerra, temos aqui um período
de 22 anos, durante o qual a taxa de juros situou-se entre 3,5% e 3%.
As variações temporárias no valor dos títulos públicos não são,
naturalmente, em todos os períodos, um critério exato para a aferição
da taxa de lucros, ou mesmo da taxa de juros; mas, quando o valor
dos títulos permanece estável durante algum tempo, pode ser consi-
derado uma aproximação da medida exata dos juros, e quando os cre-
dores do governo preferem uma grande queda dos juros a deixar de
recebê-los, essa é a demonstração decisiva de uma grande dificuldade
de empregar o capital lucrativamente e, em conseqüência, comprova
o baixo nível dos lucros.
Depois de um intervalo de cerca de 70 anos, a partir do período
aqui mencionado, e 40 anos desde o seu final, durante o qual ocorreu
uma grande acumulação de capital e quando uma quantidade inusitada
de novas terras passou a ser cultivada, verificamos que se seguiu um
período de 20 anos em que a taxa média de juros no mercado esteve
mais freqüentemente acima que abaixo de 5%, e é claro que temos
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109 Estimate of the Strenght of Great Britain. Cap. VII, p. 115.
110 Id., Cap. VII, p. 120.
todos os motivos para pensar que, a partir da extraordinária rapidez
com que o capital se recuperou depois de ter sido destruído, a taxa de
lucros geral correspondia a essa alta taxa de juros.
A dificuldade de tomar dinheiro emprestado sob hipoteca, durante
uma parte considerável desse período, é bem conhecida; e embora se
possa supor que a pressão da dívida pública naturalmente gere in-
quietação e incline os donos de fundos disponíveis a dar preferência
aos títulos com garantia fundiária, mesmo assim se conclui, a partir
dos levantamentos de Arthur Young, que, em 1811, o período de amor-
tização do valor da terra era de 29 e 1/4 e, quarenta anos antes, de
32 ou 32 e 1/2.111 Essa é a prova mais decisiva que se pode imaginar
de um aumento nos lucros do capital empregado na terra.
As diferentes taxas de juros e lucros nos dois períodos aqui men-
cionados são diametralmente opostas à teoria dos lucros baseada nas
características naturais da terra cultivada por último. Os fatos, que
são incontestáveis, contradizem essa teoria. O que nos ensina essa
teoria, seja tomando esses fatos de forma absoluta, seja como o fator
mais importante, é exatamente o oposto do que mostra a realidade.
A natureza desses fatos e as circunstâncias em que ocorreram (num
caso, em período de paz com pequena demanda de produtos agrícolas, e
no outro, em período de guerra com uma demanda inusitada desses pro-
dutos), óbvia e claramente mostram a relativa abundância ou insuficiência
de capital em cada uma dessas circunstâncias. E a questão que ainda falta
considerar é se as circunstâncias apresentadas nesta seção são suficientes
para explicar teoricamente a operação de tal modo livre desse princípio \u2014
não obstante a progressiva acumulação de capital e o progressivo cultivo
de terras virgens \u2014 a ponto de compreender lucros baixos num período
inicial de desenvolvimento e lucros altos num período posterior. Em todo
caso, os fatos devem ser levados em conta, abrangentes e esclarecedores
como são, assim como outros fatos recorrentes do mesmo tipo; em face
desses fatos, nada posso fazer senão considerá-los evidência decisiva contra
qualquer teoria dos lucros que não seja compatível com eles.
No primeiro dos dois períodos aqui mencionados, sabe-se que o
preço do trigo caiu, mas que os salários do trabalho não apenas não
caíram proporcionalmente como, segundo o julgamento de algumas au-
toridades, subiram. Adam Smith fala da queda do trigo e da alta do
trabalho durante os primeiros 64 anos do século passado como se fossem
fatos consumados;112 mas Arthur Young, em suas utilíssimas investi-
gações sobre os preços do trigo e do trabalho, publicadas nos Annals
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111 Annals of Agriculture. Nº 270, pp. 96-97; nº 271, p. 215. O Sr. Young expressa surpresa
considerável em relação a esses resultados e parece não se dar conta de que os rendimentos
anuais da terra nada tinham a ver com os preços, mas expressavam basicamente a abun-
dância ou escassez do capital móvel (movable) comparado aos meios de empregá-lo.
112 Wealth of Nations. 6ª ed. Livro Primeiro. Cap. XI, pp. 309-313.
of Agriculture, parece pensar, com alguma razão, que o fato não é tão
evidente e, além disso, é incompatível com a demanda aparentemente
pequena