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DisciplinaO Humano e O Fenômeno Religioso102 materiais456 seguidores
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um homem em geral) (pois então seria necessária), mas o homem,
tal como se conhece pela experiência, não se pode julgar de outro
modo, ou: pode pressupor-se como subjectivamente necessário em
todo o homem, inclusive no melhor. Ora visto que esta própria in-
clinação se deve considerar como moralmente má, portanto, não
como disposição natural, mas como algo que pode ser imputado ao
homem, e, consequentemente, deve consistir em máximas do ar-
bítrio contrárias à lei; estas, porém, por causa da liberdade devem
por si considerar-se como contingentes, o que por seu turno não se
coaduna com a universalidade deste mal, se o supremo fundamento
subjectivo de todas as máximas não estiver, seja como se quiser,
entretecido na humanidade e, por assim dizer, nela radicado: pode-
mos então chamar a esta propensão uma inclinação natural para
o mal, e, visto que ela deve ser, no entanto, sempre autoculpada,
podemos denominá-la a ela própria um mal radical inato (mas nem
por isso menos contraído por nós próprios) na natureza humana.
Ora a prova formal de que semelhante propensão corrupta tem
de estar radicada no homem podemos a nós poupá-la em vista
da multidão de exemplos gritantes que, nos actos dos homens, a
experiência põe diante dos olhos. Se alguém os pretende obter
daquele estado em que alguns filósofos esperavam encontrar em es-
pecial a bondade natural da natureza humana, a saber, do chamado
estado de natureza, então pode comparar com esta hipótese as
manifestações de crueldade não provocada nas cenas sanguinárias
de Tofoa, Nova Zelândia, Ilhas dos Navegantes, e as que nunca ces-
sam nos amplos desertos da América norte-ocidental (mencionadas
pelo capitão Hearne), onde nem sequer homem algum obtém a
mínima vantagem10 , e ter-se-ão vícios de brutalidade, mais do que
10 Como a guerra permanente entre os índios Arathavescau e os índios Coste-
las de Cão não tem nenhum outro fito a não ser a simples matança. A valentia
guerreira é a suprema virtude dos selvagens, na sua opinião. Inclusive no estado
civilizado, é um objecto de admiração e um fundamento do respeito especial que
aquela posição exige, em que ela é o único mérito; e isto não sem fundamento
algum na razão. De facto, que o homem possa ter e estabelecer como fim algo
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é necessário, para se afastar daquela opinião.Mas se alguém se de-
cidiu pela opinião de que a natureza humana se deixa conhecer
melhor no estado civilizado (em que as suas disposições se podem
desfraldar de modo mais completo), deverá então ouvir uma longa
ladaínha melancólica de acusações à humanidade: de secreta falsi-
dade, mesmo na mais íntima amizade, de modo que a moderação
da confiança na notificação recíproca, inclusive dos melhores ami-
gos, se conta como máxima geral de prudência no trato; de uma
propensão para odiar aquele a quem se está obrigado, para o que
deve estar sempre preparado o benfeitor; de uma benevolência cor-
dial que, no entanto, acata a observação de que\u201d há na infelicidade
dos nossos melhores amigos algo que de todo nos não desagrada";
e de muitos outros vícios escondidos sob a aparência de virtude,
sem falar daqueles que nem sequer se mascaram porque, para nós,
se apelida já de bom quem é um homem mau da classe geral; e
satisfazer-se-á com os vícios da cultura e da civilização (entre to-
dos os mais mortificantes) para preferir desviar os olhos da conduta
dos homens, a fim de ele próprio não contrair um outro vício, o
da misantropia.Mas se ainda assim não está satisfeito, pode tomar
em consideração o estado dos povos nas suas relações externas,
estranhamente composto de ambos, pois povos civilizados estão
uns frente aos outros na situação do grosseiro estado de natureza
(de um estado em constante disposição de guerra) e estabeleceram
também firmemente na sua cabeça nunca dele sair; e discernirá os
princípios das grandes sociedades, chamadas Estados11 , princípios
que aprecia ainda mais altamente do que a sua vida (a honra), em que renun-
cia a todo o egoísmo, demonstra, apesar de tudo, uma certa sublimidade na sua
disposição. Mas na facilidade com que os vencedores enaltecem as suas façan-
has (da trucidação, do derrubar sem remissão, e quejandos) vê-se que só a sua
superioridade e a destruição que conseguiram causar, sem qualquer outro fim, é
aquilo de que propriamente se ufanam.
11 Se esta sua história se olhar simplesmente como o fenómeno da disposição
interna \u2013 em grande parte a nós oculta \u2013 da humanidade, é possível cair na conta
de um certo curso maquinal da natureza segundo fins que não são fins deles (dos
povos), mas fins da natureza. Cada Estado, enquanto tem a seu lado outro que
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directamente contraditórios com o que publicamente se alega e que,
no entanto, nunca se devem abandonar, os quais ainda nenhum filó-
sofo conseguiu pôr em consonância com a moral, nem também (o
que é grave) sugerir outros melhores que se deixassem unir com a
natureza humana: de modo que o quiliasmo filosófico, que espera
o estado de uma paz perpétua fundada numa liga de povos como
república mundial, justamente como o teológico, que aguarda o
melhoramento moral completo de todo o género humano, é univer-
salmente ridicularizado como fanatismo.
Ora, 1) o fundamento deste mal não pode pôr-se, como se cos-
tuma habitualmente declarar, na sensibilidade do homem e nas in-
clinações naturais dela decorrentes. Pois, além de não terem qual-
quer relação directa com o mal (pelo contrário, proporcionam a
ocasião para aquilo que a disposição moral pode mostrar na sua
força, para a virtude), nós não temos de responder pela sua existên-
cia (nem sequer podemos, porque, enquanto congénitas, não nos
têm como autores), mas sim pela inclinação para o mal, a qual, en-
quanto concerne à moralidade do sujeito, por conseguinte, nele se
encontra como num sujeito livremente operante, tem de poder ser-
lhe imputada como algo de que ele é culpado, não obstante a pro-
funda radicação de tal propensão no arbítrio, pelo que se deve dizer
que se encontra no homem por natureza. - 2) O fundamento deste
mal também não pode pôr-se numa corrupção da razão moral-
pode esperar dominar, tende a engrandecer-se mediante esta sujeição e, portanto,
aspira à monarquia universal, constituição em que toda a liberdade e, com ela (o
que é consequência sua), toda a virtude, gosto e ciência se deveriam extinguir.
Mas este monstro (em que as leis perdem, pouco a pouco, a sua força), após
ter devorado todos os vizinhos, acaba por se dissolver a si próprio e, graças à
insurreição e à discórdia, divide-se em muitos Estados mais pequenos, os quais,
em vez de tender para uma associação de Estados (república de povos livres
aliados), começam cada um por seu lado o mesmo jogo, para não deixar que
cesse a guerra (este flagelo do género humano), guerra que, embora não seja tão
incuravelmente má como o sepulcro da monarquia universal (ou também uma
liga de povos para não deixar desaparecer o despotismo em nenhum Estado),
contudo, como dizia um antigo, faz mais homens maus do que os que arrebata.
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mente legisladora, como se esta pudesse aniquilar em si a autori-
dade da própria lei e negar a obrigação dela dimanante; pois isso é
pura e simplesmente impossível. Pensar-se como um ser que age
livremente e, no entanto, desligado da lei adequada a semelhante
ser (a lei moral) equivaleria a pensar uma causa que actua sem qual-
quer lei (pois a determinação segundo leis naturais fica excluída por
causa da liberdade): o que se contradiz. \u2013 Por conseguinte, para
fornecer um fundamento do mal moral no homem, a sensibilidade
contém demasiado pouco; efectivamente, faz do homem, enquanto
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