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DisciplinaO Humano e O Fenômeno Religioso102 materiais456 seguidores
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deles se pode dizer que podem erigir um reino de um monarca hu-
mano); o próprio Deus tem de ser o autor do seu reino. Como,
porém, não sabemos o que Deus imediatamente faz para exibir na
realidade efectiva a ideia do seu reino, de que encontramos em
nós a determinação moral para ser cidadãos e súbditos, embora
saibamos decerto o que temos de fazer para de um modo adequado
nos tornarmos membros seus, tal ideia \u2013 tenha ela sido despertada
no género humano e feita pública pela razão ou mediante a Escrit-
ura \u2013 ligar-nos-á em vista do ordenamento de uma Igreja, de cuja
constituição é, no último caso, autor o próprio Deus enquanto fun-
dador, mas de cuja organização os autores são em todos os casos
os homens, como membros e cidadãos livres deste reino; pois os
que no meio deles, de acordo com esta organização, superinten-
dem os negócios públicos dela constituem a sua administração en-
quanto servidores da Igreja, do mesmo modo que todos os demais
formam uma associação submetida às suas leis, a congregação.
Dado que uma religião racional pura, como fé religiosa pública,
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dá lugar somente à simples ideia de uma Igreja (a saber, de uma
Igreja invisível), e só a visível, fundada em estatutos, necessita e
é susceptível de uma organização feita por homens, o serviço sob
o domínio do princípio bom na primeira não pode considerar-se
como serviço eclesial, e aquela religião não tem servidores legais
como funcionários de uma comunidade ética; cada membro seu re-
cebe imediatamente as suas ordens do supremo legislador.Mas uma
vez que relativamente a todos os nossos deveres (que temos de con-
siderar ao mesmo tempo, na sua totalidade, como mandamentos
divinos) estamos sempre no serviço de Deus, a religião racional
pura terá como servidores (sem ser funcionários) todos os homens
de bom pensa-mento; só que em tal medida não poderão chamar-
se servidores de uma Igreja (a saber, de uma Igreja visível, a única
de que aqui se fala). \u2013 Contudo, já que uma Igreja erigida sobre
leis estatutárias só pode ser a verdadeira na medida em que con-
tém em si um princípio de avizinhamento incessante da fé racional
pura (como daquela que, quando é prática, constitui em rigor, em
toda a fé, a religião), e pode com o tempo prescindir da fé ecle-
sial (segundo o que nela é histórico), poderemos estabelecer nestas
leis e nos funcionários da Igreja nelas fundada um serviço (cultus)
eclesial na medida em que orientam em qualquer altura as suas
doutrinas e ordenamento para aquele fim último (uma fé religiosa
pública). Pelo contrário, os servidores de uma Igreja que a tal não
atendem, mais ainda, têm por condenável a máxima da incessante
aproximação desse fim e por apenas beatificante a lealdade à parte
histórica e estatutária da fé eclesial, podem com razão ser acusa-
dos de falso culto da Igreja ou (do que por ela se representa) da
comunidade ética sob a dominação do princípio bom.
Por pseudo-serviço (cultus spurius) entende-se a persuasão de
servir alguém mediante acções que, de facto, fazem recuar o seu
intento. Mas isto acontece numa comunidade em virtude de o que
apenas tem valor de meio para satisfazer a vontade de um superior
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se fez passar por e substituiu aquilo que nos torna imediatamente
agradáveis a ele; e assim se frustra o propósito daquele.
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6.1 ...
PRIMEIRA SECCÇÃO
Do serviço de Deus numa religião em geral
A religião (subjectivamente considerada) é o conhecimento de to-
dos os nossos deveres como mandamentos divinos58 . Aquela em
58 Por meio desta definição estorvam-se algumas interpretações viciosas do
conceito de uma religião em geral. Primeiro: nela, no tocante ao conhecimento
e à confissão teoréticos, não se exige saber assertórico algum (nem sequer o da
existência de Deus), porque, na deficiência do nosso discernimento de objec-
tos supra-sensíveis, esta confissão poderia já ser fingida; unicamente se pres-
supõe uma suposição (hipótese), problemática segundo a especulação, acerca da
causa suprema das coisas. Mas em atenção ao objecto em vista do qual a nossa
razão, que ordena moralmente, nos ensina a agir, pressupõe-se uma fé prática
que promete um efeito para o propósito final desta razão, por conseguinte, uma fé
assertórica livre \u2013 suposição que apenas necessita da ideia de Deus, na qual deve
inevitavelmente desembocar todo o trabalho moral sério (e, portanto, crente) em
prol do bem, sem poder garantir a tal ideia, graças ao conhecimento teorético, a
realidade objectiva. Para o que se pode estabelecer como dever a todo o homem,
o minimum do conhecimento (é possível que exista um Deus) deve ser já subjec-
tivamente suficiente. Em segundo lugar, pela definição de uma religião em geral
atalha-se a representação errónea de que a religião é um conjunto de deveres
particulares, imediatamente referidos a Deus, e evita-se assim que aceitemos
(como, aliás, os homens estão muito inclinados a fazer), além dos deveres hu-
manos ético-civis (de homem para homem), serviços de corte e, em relação a tal,
pretendamos reparar, graças a esses últimos, a deficiência dos primeiros. Não
há numa religião universal nenhum dever particular para com Deus; pois Deus
nada de nós pode receber; não podemos agir nem sobre Ele nem para Ele. Se da
reverência que lhe é devida se pretender fazer semelhante dever, não se tem conta
que esta reverência não é uma acção particular da religião, mas a disposição de
ânimo religiosa em todas as nossas acções conformes ao dever em geral. Se
se disser: "Importa obedecer mais a Deus do que aos homens", isto significa
apenas que: se mandamentos estatutários, a cujo respeito os homens podem ser
legisladores e juízes, entram em conflito com deveres que a razão incondicional-
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que eu devo previamente saber que algo é um mandamento divino
para o reconhecer como dever meu é a religião revelada (ou neces-
sitada de uma revelação); pelo contrário, aquela em que de antemão
devo saber que algo é dever, antes de o poder conhecer como man-
damento divino, é a religião natural. \u2013 Quem declara como moral-
mente neces-sária, i.e., como dever, somente a religião natural pode
também chamar-se racionalista (em matérias de fé). Se nega a
realidade efectiva de toda a revelação divina sobrenatural, diz-se
naturalista; se admite tal revelação, mas afirma que conhecê-la e
aceitá-la como efectivamente real não se requer com necessidade
para a religião, pode então chamar-se racionalista puro; mas se
considera necessária para a religião universal a fé em tal revelação,
poderia chamar-se sobrenaturalista em matérias de fé.
O racionalista, em virtude deste seu título, deve já por si mesmo
manter-se dentro dos limites do discernimento humano. Por isso,
como naturalista, nunca negará nem discutirá a possibilidade in-
terna de uma revelação em geral, nem a necessidade de uma reve-
lação como meio divino para a introdução da religião verdadeira;
pois a tal respeito nenhum homem pode decidir algo mediante a
razão. Por conseguinte, a questão só pode concernir às pretensões
recíprocas do racionalista puro e do sobrenaturalista em matérias
de fé, ou àquilo que um ou outro aceita como necessário e sufi-
ciente para a única religião verdadeira, ou só como nela contin-
gente.
mente prescreve e sobre cujo seguimento ou transgressão somente Deus pode ser
juiz, a autoridade daqueles deve ceder perante a destes. Mas se por aquilo em
que se deve obedecer mais a Deus do que ao homem se pretendesse entender os
mandamentos estatutários de Deus feitos passar por tais por uma Igreja, então,
tal princípio facilmente se poderia transformar no grito de guerra, muito ouvido,