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DisciplinaFilosofia e Ética5.014 materiais98.205 seguidores
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as partículas do meu
ser, não vejo que necessidade tenho de uma alma. Para que um pequeno ente subalterno, quando sou
animado do próprio Deus? De que me serviria essa alma? Nossas próprias idéias, não somos nós quem as
elaboramos: acodem-nos não raro a despeito de nós mesmos; temo-las enquanto dormimos. Tudo em nós
se opera sem a nossa intervenção. Por mais que a alma dissesse ao sangue e aos espíritos animais:
Circulai, peço-vos, de tal ou tal maneira, eles circulariam eternamente e impassivelmente da forma que
Deus lhes ditou. Prefiro ser máquina de um Deus que se me evidencia a sê-la de uma alma de cuja
existência duvido.
C. S.
 Pois bem! Se vos anima o próprio Deus, nunca profaneis com crimes a sua presença. E se vos deu
uma alma, que essa alma jamais o ofenda. Num sistema como noutro tendes vontade. Sois livre,
dispondes do poder de fazer o que quiserdes; usai desse poder para servir a Deus que vo-lo outorgou.
Bom é que sejais filósofo: necessário que sejais justo. Sê-lo-eis ainda mais quando crerdes possuir uma
alma imortal.
Dicionário Filosófico.
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 Dignai-vos responder-me: não é verdade ser Deus a suma justiça?
C.
 Sem dúvida. E ainda que fosse possível deixar de sê-la (o que é uma blasfêmia) eu mesmo quereria
proceder com eqüidade.
C. S.
 Quando estiverdes no trono, não é verdade ser vosso dever recompensar as ações virtuosas e punir as
culposas? Quereríeis que Deus não fizesse o que vós mesmo fareis? Sabeis que há e sempre haverá nesta
vida virtudes infelizes e crimes impunes. Necessário é pois que bem e mal encontrem seu julgamento em
outra existência. Foi esta idéia tão simples, tão natural, tão geral que gerou em tantas nações a crença da
imortalidade da alma e da justiça divina, que a julgará quando se despir do despojo mortal. Haverá
sistema mais razoável, mais conforme à Divindade e mais útil ao gênero humano?
C.
 Por que então muitas nações não o abraçaram? Sabeis haver em nossa província coisa de duzentas
famílias de antigos sinús(13) que habitaram outrora parte da Arábia Pétrea. Pois nem eles nem seus
avitos jamais creram a alma imortal. Têm seus Cinco Livros, como nós temos nossos Cinco Quings(14).
Li-lhes a tradução; suas leis, necessariamente semelhantes às de todos os outros povos, ordenam-lhes
respeitar os pais, não furtar, não mentir, não cometer o adultério nem o homicídio. Não lhes falam,
porém, de recompensas e castigos em outra vida.
C. S.
 Se essa idéia ainda não se desenvolveu nesse pobre povo, desenvolver-se-á sem dúvida algum dia.
Demais, que nos importa uma insignificante e miserável nação quando babilônios, egípcios, hindus,
todos os povos civilizados admitiram esse dogma tão salutar? Se estivésseis doente, refugaríeis um
remédio aprovado por todos os chineses só porque meia dúzia de bárbaros das montanhas não o
tomariam? Deus concedeu-vos a razão, e diz-vos a razão que a alma deve ser imortal. É o próprio Deus
que vo-lo diz, portanto.
Dicionário Filosófico.
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C.
 Mas como poderei ser recompensado ou punido quando já não for eu mesmo, quando nada existir do
que constitui a minha pessoa? Tão somente por força da memória é que sou sempre eu mesmo. Ora, a
memória, perdê-la-ei na derradeira doença. Haverá então um milagre depois de minha morte que ma
restitua, para que eu retorne à existência?
C. S.
 Nesse caso um príncipe que houvesse decapitado a família para reinar, tiranizado os súditos,
eximir-se-ia de culpa dizendo a Deus: - Não fui eu, eu perdi a memória, vós vos equivocais, eu já não sou
a mesma pessoa. - Julgais que Deus se daria por achado com semelhante sofisma?
C.
 Pois bem. Seja, rendo-me. Se praticaria o bem por mim próprio, fá-lo-ei igualmente para comprazer
ao Ser Supremo. Eu pensava bastar minha alma ser justa nesta vida para ser feliz em outra. Vejo que tal
opinião é boa para os povos e para os príncipes, mas o culto de Deus me preocupa.
Quarto diálogo
C. S.
 Que achais de esquisito em nosso Chu Quing, esse primeiro livro canônico tão respeitado por todos os
imperadores chineses? Para servir de exemplo ao povo trabalhais um campo com as próprias mãos reais e
dele ofertais as primícias a Chang-ti, a Tien, ao Ser Supremo. A ele sacrificais quatro vezes ao ano. Sois
rei e pontífice. Prometeis a Deus todo o bem que estiver em vosso poder. Não há nisso algo que repugne?
C.
Dicionário Filosófico.
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 Sei que Deus não tem nenhuma necessidade de nossos sacrifícios e de nossas preces. Nós é que temos
precisão de nos sacrificarmos e de orar. O culto de Deus não foi estabelecido por ele, mas por nós. Muito
me apraz orar, e quero sobretudo que minhas orações não sejam ridículas. Porque se me ponho a gritar
que "a montanha do Chang-ti é uma montanha gorda, é que não se deve olhar para as montanhas
gordas,"(15) e faço fugir o Sol e apagar a Lua, seriam essas algarvias do agrado do Ser Supremo, úteis a
meus súdito e a mim mesmo?
 Não suporto principalmente a demência das seitas. De um lado vejo Lao Tseu concebido pela união
do céu e da terra e cuja mãe o carregou no ventre durante oitenta anos. Não tenho mais fé em sua
doutrina do aniquilamento e da renúncia universal que nos cabelos brancos com que nasceu ou na vaca
preta que montou para ir pregar sua doutrina.
 Não creio mais no deus Fo, ainda que tenha tido por pai um elefante branco e prometa a vida eterna.
 Mais que tudo me desagrada serem tais fantasias continuamente pregadas pelos bonzos, que seduzem
o povo para governá-lo. Fazem-se respeitáveis por mortificações que repugnam à natureza. Uns se
privam toda a vida dos alimentos mais salutares, como se não se pudesse agradar a Deus senão com um
mau regime. Outros põem argolas de ferro no pescoço, o que por vezes lhes dá um ar digníssimo.
Enterram cravos nas coxas, como se fossem tábuas. E o povo segue-os em chusma. Se um rei decreta um
édito que os desagrada, dizem-vos friamente que tal édito não se encontra no comentário do deus Fo, e
que mais vale obedecer a Deus que aos homens. Como remediar tão extravagante e nociva doença
popular? Sabeis ser a tolerância o princípio do governo da China como de todos os povos da Ásia. Não
vos parece, porém, funesta semelhante indulgência, quando expõe um império a ser transtornado por
opiniões fanáticas?
C. S.
 Que o Chang-ti me livre de querer desenvolver em vós o espírito de tolerância, virtude tão respeitável,
que é para a alma o que é para o corpo a liberdade de saciar a fome. Permite a lei natural a cada um crer o
que quiser, como se alimentar do que bem entender. O médico não pode matar os clientes por não terem
observado a dieta prescrita. Não assiste ao príncipe o direito de mandar prender os súdito que não
pensarem como ele. Mas cumpre-lhe prevenir perturbações, e se for sábio, facílimo lhe será extirpar as
superstições. Sabeis o que se passou com Daão, sexto rei da Caldéia, há cerca de quatro mil anos?
C.
 Não. Dar-me-eis prazer contando-mo.
Dicionário Filosófico.
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C. S.
 Os sacerdotes caldeus adoravam as solhas do Eufrates. Diziam que uma solha memorável - Oanés -
ensinara-lhes outrora a teologia, que essa solha era imortal, tinha três pés de comprido e um pequeno
crescente na cauda. Por amor de Oanés era proibido comer solhas. Levantou-se grande barulho entre os
teólogos a fim de saber se a solha Oanés era macho ou fêmea Os dois partidos se excomungaram
reciprocamente e por não poucas vezes chegou-se a vias de fato. Eis o que fez o rei Daão para pôr termo
à referta.
 Ordenou a ambas as facções um