ANTROPOLOGIA_DA_RELIGIAO
69 pág.

ANTROPOLOGIA_DA_RELIGIAO


DisciplinaO Humano e O Fenômeno Religioso102 materiais456 seguidores
Pré-visualização16 páginas
âmbito da linguagem familiar, geralmente a identificamos com maturidade e 
responsabilidade. É quase como dizer \u201cestá ficando gente\u201d. Representa, pois, uma aproximação 
com bom comportamento. Todavia, pensar o conceito de pessoa apenas pelo aspecto ético-
moral, seria empobrecer muito seu significado. Por isto, torna-se importante a recuperação da 
origem etimológica e semântica da palavra \u201cpessoa\u201d. O conceito mais antigo relaciona 
\u201cpessoa\u201d a \u201cmáscara\u201d. 
Os etruscos, um dos povos que formaram a cultura latina, usavam há mil e quinhentos 
anos antes de Cristo, o termo PERSHU para designar as máscaras de modelos usados em 
representações teatrais. No ambiente grego, cerca de quinhentos anos antes de Cristo, a 
conotação dada ao termo máscara equivalia a rosto ou cara, nas representações que os atores 
faziam de outros personagens. Na cultura grega, no entanto, o ser humano não era valorizado 
pela sua dimensão corpórea, mas pelo seu espírito, ou seja, pelas idéias poderiam levar a 
estabelecer contatos com o divino, com o perfeito e com o eterno. Por isso a preocupação grega 
 
 
15 
15 
não girava em torno dos seres humanos, mas em torno do que fosse universal. O ser 
individualizado não representava foco de maiores interesses de entendimento. 
O verbo latino PERSONARE, muito próximo do termo \u201cpersona\u201d e, também do verbo 
\u201cressonare\u201d (= ser sonoro ou ressoar), faz lembrar o mesmo papel do ator que procura fazer 
ressoar no auditório o som imitado de quem representa. Mesmo neste quadro, o termo pessoa 
ficou associado à máscara. Como uma mesma máscara não se prestava para representar 
distintos personagens, a máscara passou a representar o papel ou um procedimento da pessoa 
que o ator procurava destacar através da imitação, quer fosse real ou fictícia. 
Destes antecedentes todos, resultou uma conseqüência prática: uma pessoa é um alguém, 
real ou fictício, escondido atrás de uma máscara. Em outras palavras, trata-se da personalidade 
que se esconde atrás de cada rosto. 
O Segundo Testamento aprofundou esta noção de boa relação com Deus, pois assimilou 
que esta honra era também uma graça concedida por Deus para fazer acontecer a \u201cnova 
criação\u201d. 
Na concepção do Primeiro Testamento já havia sido salientado que o ser humano é um 
ser que dialoga com Deus e capaz de assumir responsabilidades através do dom que Deus 
oferecia. O ser humano era visto como um agente relacional de conversa. Nesta perspectiva o 
Segundo Testamento apresentou Jesus Cristo como um primoroso modelo desta relação de 
conversa com Deus. Tal noção evidenciou dois aspectos importantes: um ser humano é 
convidado por Deus a estabelecer relações de diálogo com outros seres humanos para se sentir 
ele mesmo. 
Este duplo aspecto oferecia ao ser humano a condição de ser único. Portanto, um ser 
humano não é a mesma coisa do que as outras pessoas. Ainda q1ue o agir com os outros tenha 
em vista uma auto-realização, Deus apresenta um projeto para melhor viabilizar esta dupla 
fonte de realização. Aceitar o projeto de Deus não significaria, pois, negar-se a si mesmo, mas 
acolher uma mediação para melhores relações com os outros e, evidentemente, consigo mesmo. 
Dali também resultou a tríplice dimensão de abertura ao mundo, aos outros e a Deus. A 
 
 
16 
16 
salvação de uma pessoa não poderia acontecer sem simultâneo processo de salvação sócio-
política e do ambiente macro-social. Bem sabemos que num momento histórico relativamente 
recente, esta noção passou a ser assimilada como salvação individual da própria alma. 
 Para nossas ponderações, muda alguma coisa se damos uma ou outra conotação ao 
termo \u201cpessoa\u201d? 
 O pensamento moderno tende a usar mais o termo \u201cindivíduo\u201d do que o de \u201cpessoa\u201d, 
uma conotação mais ligada ao aspecto físico de um ser humano. Diversos pensadores cristãos 
como Mounier, Marcel e Maritain enfatizaram que o termo pessoa deve realçar sua capacidade 
de transcendência sobre o mundo: é capaz de estabelecer comunhão e ao mesmo tempo é livre e 
capaz de abrir-se a múltiplas formas de vida. 
 O pensamento moderno, por sua vez, ao dar ênfase ao termo indivíduo, justifica que ele, 
na verdade, não é algo original e genuíno e tampouco vive o que é especificamente seu, pois é 
mero fruto da socialização e das estruturas sociais, políticas, econômicas, educacionais, etc. Do 
empirismo inglês herdamos a noção de que, ao nascer, somos como uma folha em branco sobre 
a qual se escreve a história, boa ou má, segundo a educação. Na verdade, atualmente, tudo 
indica que uma pessoa se caracteriza por traços bem mais amplos e variados do que os da 
influência do meio social. 
 A conciliação destes enfoques não desvia certas polêmicas: mesmo que a declaração 
universal dos direitos humanos insista que todos os seres humanos são constituídos de 
dignidade, fica no ar a dúvida sobre que dignidade e que grau de dignidade. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
17 
17 
 
 
 
 
 
V 
 
PERSPECTIVA ANTROPOLÓGICA DAS EXPERIÊNCIAS DO 
SAGRADO 
 
 
 Um traço marcante dos seres humanos, mais profundo do que aparentemente parece ser, 
é o de que eles tendem a fazer experiências muito variadas do sagrado ou do divino. Estas 
experiências são chamadas de hierofanias. 
Hierofanias são as formas como as pessoas experimentam a manifestação do sagrado ou 
do divino. 
A história das religiões revela grande quantidade de hierofanias, desde as do encanto 
ante uma pedra, até a revelação de Jesus Cristo ou a aparição de santos e de santas. 
 Atualmente, poucas pessoas tendem a aceitar as experiências do sagrado a partir 
de pedras, árvores ou flores e bichos. Na verdade, não significa uma adoração de pedras, 
imagens ou lugares, mas, de constatar como estas pedras ou os outros objetos revelam algo 
sagrado. Ainda que uma pedra continue sendo pedra, acaba, ao mesmo tempo, sendo outra 
coisa. Por isso, as pessoas mais arcaicas e primitivas procuravam viver no sagrado ou perto de 
objetos sagrados. Para elas, o sagrado era sinônimo de poder perene e eficaz. Disso, resultou o 
estabelecimento de uma oposição entre sagrado e profano. A pessoa religiosa, através deste 
 
 
18 
18 
poder, quer encher-se do sagrado e estar profundamente dentro da realidade. Ela quer 
permanecer o máximo de tempo no espaço sagrado. Quer saturar-se deste poder. 
Somente a partir dos últimos séculos é que começou a ser pensado o mundo, na sua 
totalidade, sem vínculo com a sacralidade. Por este motivo, percebemos, hoje, um grande 
precipício entre sagrado e profano. A natureza, os objetos, as casas, certas relações e até o sexo, 
bem como, muitos lugares, foram considerados sagrados ou como meios para entrar em contato 
com o sagrado. 
 O homem moderno dessacraliza estes espaços e estas mediações. Bastaria comparar o 
entendimento da terra para um agricultor, um caçador e um cidadão urbano... 
Conforme Eliade, \u201cpara o homem religioso, o espaço não é homogêneo: o espaço 
apresenta rupturas, quebras, há porções de espaço qualitativamente diferentes das outras\u201d.5 
Como ilustração, serve o texto de Ex, 3,5. 
 Enquanto o espaço sagrado é forte, os outros espaços são amorfos. O sagrado é visto 
como o único elemento real e que dá forma e sentido ao que o rodeia. Neste sentido, o sagrado 
acaba dando um sentido ontológico ao mundo. Em outras palavras, o sagrado faz o espaço 
tornar-se homogêneo a partir de um centro que o organiza. 
 Já a concepção dessacralizada do profano, entende o espaço como neutro e homogêneo. 
No entanto, mesmo que existam posturas profanas, estas geralmente não são puras, pois, até 
mesmo na concepção do profano, ocorre mescla de elementos da concepção do sagrado. 
Como é destacado o sagrado na Bíblia? Que Deus se manifesta como um Ser pessoal e 
que se dirige aos seres humanos (aos fiéis) e lhes propõe uma aliança: dispõe-se a guiá-los ou 
conduzi-los no caminho da vida. Este Deus pode aparecer a qualquer pessoa. Isaías, por 
exemplo, destaca