ANTROPOLOGIA_DA_RELIGIAO
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DisciplinaO Humano e O Fenômeno Religioso102 materiais456 seguidores
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de um Deus que 
aponta caminhos de experiências mais místicas, de um Ser superior capaz de vencer as vivas, 
vagas e indeterminadas manifestações do mal com tudo quanto a ele associamos. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
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XIII 
 
TEMPLO E CORPO 
 
 Se nos reportamos às origens do cristianismo, podemos lembrar que uma grande 
polêmica se estabeleceu em torno da relativização do Templo, feita por Jesus Cristo. O Templo 
constituía o símbolo do sagrado. Jesus, ao proclamar a importância do corpo, relegou a 
primazia do Templo e, por isto mesmo, acabou atingido na sua vulnerabilidade corpórea: uma 
morte humilhante. 
O conceito sacralizado do templo fez com que, em nome de Deus, fosse tramada a morte 
de quem mais queria a vida e um projeto humano a favor da vida. O que mais pesou para a 
execução de Jesus Cristo foi o sentimento ferido que partiu de dentro do Templo, lugar 
considerado como o da moradia de Deus. 
Algo similar a este episódio já se repetiu inúmeras vezes ao longo da história. De 
instâncias consideradas especiais da parte de Deus, desrespeitou-se o corpo humano e, a partir 
das \u201cluzes\u201d oriundas dos templos, massacraram-se templos corpóreos. 
A experiência das comunidades cristãs primitivas, que procurou orientar-se no modo de 
ser como Jesus lidou com as pessoas, procurou sacralizar o corpo humano, como espaço das 
fragilidades humanas, mas também, como lugar eminente da manifestação de Deus e de 
irradiação das interpelações de Deus. A dimensão sagrada do corpo, todavia, não foi suficiente 
para que dos espaços de templos de grande aparato arquitetônico fossem profanadores de 
sagrados templos corpóreos. A história da Igreja católica ofereceu tristes ilustrações de abusos 
de poder, exercidos no interior de Templos e em nome de Deus. Por isto, ainda em nossos dias, 
parece ser mais fácil construir uma edificação pomposa do que elevar algumas milésimas 
instâncias o respeito e a dignidade aos seres humanos. 
 
 
 
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XIV 
 
 A VIOLÊNCIA HUMANA 
 
Trata-se de um tema extremamente difícil. Dada a sua amplitude e as variadas formas 
em que aparecem violências humanas, cabe até mesmo uma pergunta cabal: é possível dar uma 
resposta mais adequada do que aquelas que as ciências e as explicações religiosas forneceram 
até o momento? 
A dificuldade de delimitação nasce da variedade de violências que se cruzam nas 
relações humanas. Podem ser físicas como as de bandidos, assaltantes e policiais; ou mesmo as 
que ocorrem nas famílias, em grupos, comunidades e relações internacionais. Mesmo esta 
variedade de agressões pode variar entre formas psicológicas, simbólicas e morais, e ainda, 
podem ser as que provocam fome, extorsão abusiva, descaso, roubo, homicídio, etc. 
Seguidamente nos envolvemos em situações nas quais sentimos pessoas agredidas 
vivenciarem medos, traumas, pânicos e outros mecanismos de perturbação emocional. De 
modo geral, tendemos a pensar a agressão como manifestação em que nos sentimos vítimas. No 
entanto, há também outro lado, o de que nós que nos interpretamos não agressivos, também 
enfrentamos ímpetos de raiva, de ódio, de vingança e de outros descontroles que levam a 
ameaçar e até a atentar contra a vida de outras pessoas. Da nossa parte, também decorrem 
sadismos que implicam em sentir certa intensidade de prazer quando outros fracassam ou são 
agredidos. Ao lado deste traço, temos facilidade de apelar para punições e castigos, sejam os 
prescritos em códigos de justiça ou os que nós mesmos inventamos. Até mesmo em muitas 
manifestações religiosas um forte sadismo se expressa quando se espera que Deus execute a 
tarefa da vingança em nosso lugar. 
 
 
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Considerando apenas estes dois aspectos, a violência que vem dos outros e a que 
resulta da nossa parte, dá para acreditar que possamos ser não agressivos? 
Segundo Darwin, somos agressivos porque herdamos este traço dos animais. Como 
eles, também nós seres humanos estaríamos agredindo porque estamos mergulhados na luta 
pela sobrevivência e, nesta disputa sempre ocorre uma relação de fortes e de fracos. Entretanto, 
não existem animais que cooperam e que levam vida coletiva? Seria isto apenas um instinto de 
auto-defesa? Nós, de fato, não temos o veneno de certas cobras perigosas e nem garras ou 
dentes afiados como certos animais. No entanto, somos capazes de potencializar estas formas 
através de nossos inventos e de armas de destruição que utilizamos com toda facilidade. Apesar 
disso, porque somos agressivos? 
a) Um dos elementos de nossa agressividade está relacionado aos nossos interesses. Como 
estes interesses estão sendo re-criados, estimulados, e justificados, o planeta Terra está 
longe de oferecer tanto quanto os seres humanos desejam. Se desejos quase infinitos 
provocam desrespeito das regras estabelecidas e aos mecanismos de controle social, seria 
isto culpa do Estado que não regula os limites dos interesses? E, se tivesse tal capacidade, 
como iria conter as cargas de frustração que este controle geraria e as conseqüentes 
formas agressivas resultantes deste controle? 
 Esta situação já é suficiente para nos apontar que um governo forte e uma 
rigorosa legislação ainda não significam erradicação da violência humana, especialmente 
se pensamos a vida nos espaços urbanos porque ali naturalmente vão sendo gerados 
grupos marginais e fora do âmbito das leis estabelecidas. 
 
b) Se nos pensamos totalmente distintos do mundo animal, ou se nos pensamos filhos do 
mundo animal, mas dotados da positividade dos traços de cooperação, como explicar 
tanta injustiça e agressão entre grupos humanos? 
 
 
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 Mesmo que sustentamos nossa natural predisposição para simpatia, para a 
compaixão, para o entendimento ou da racionalidade que deve prevalecer para que possa 
haver convivência pacífica, seria possível uma sociedade sem violências? 
c) Caso assumamos o ponto de vista do pensamento cristão, que aponta perdão como 
caminho de comunhão e de solidariedade e entendimento, quem é que propiciaria uma 
possível condição de paz e harmonia: o rigor das autoridades, ou a submissão á instância 
divina? A história nos ilustra que muitos argumentos autoritários, mesmo religiosos, 
apelaram para os castigos e para as retaliações divinas sobre os infratores das regras 
estabelecidas. E quando estas regras já são caducas, como significam violência, até mesmo 
da parte de quem, em nome de Deus, quer implantar a ordem e a paz! 
 Precisamos necessariamente reconhecer que toda a história do pensamento 
cristão nunca esteve imune de situações de agressão e violência, seja na relação com 
outras formas de expressão religiosa ou na relação do interior da própria organização da 
Igreja. 
 Estes três aspectos permitem formular uma pergunta sobre as raízes mais distantes da 
agressividade humana: ela é marca registrada da criação? 
Se nos reportamos ao referencial bíblico, aparece ali a noção de que a criação foi um ato de 
bondade e que veio a ser depravada pela fraqueza humana. Ou começou a criação numa 
situação caótica e que, com a ação redentora de Jesus Cristo nos redime aos poucos? E os que 
não estão neste projeto, podem restaurar-se por meio do amor e da justiça? Uma interpretação 
possível é a de que somos agressivos por natureza, mas, que podemos redimir-nos pela graça 
que Deus nos oferece. Mas quem não entra nesta estrutura salvadora, teria a perspectiva de 
ameaçar com atos agressivos? Ou seria a agressividade, apenas um fruto da desigualdade 
social? 
Toda a evangelização, toda a boa vontade e todos os atos empreendidos para diminuir a 
desigualdade social, ou movidos pela graça de Deus ou pela iniciativa humana, ainda não 
deram passos definitivos para erradicar a agressividade humana. Mesmo que bruxas foram 
 
 
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queimadas e tantas outras pessoas foram condenadas à morte, com vistas