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RESUMO_DE_DIREITO_PENAL_ok

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presentes no contexto do crime. Se, eliminada, o resultado desaparecer, pode-
se afirmar que aquela conduta é causa. Caso contrário, ou seja, se a despeito 
de suprimida, o resultado ainda assim existir, não será considerada conduta. 
Atente-se para o fato de que ser causa do resultado não é bastante para 
ensejar a responsabilização penal. É preciso, ainda, verificar se a conduta do 
agente considerada causa do resultado foi praticada mediante dolo ou culpa, 
pois nosso Direito Penal não se coaduna com a responsabilidade objetiva, isto 
é, aquela que se contenta com a demonstração do nexo de causalidade, sem 
levar em conta o elemento subjetivo da conduta. 
Portanto, dizer que alguém causou o resultado não basta para ensejar a 
responsabilidade penal. É mister ainda que esteja presente o elemento 
subjetivo (dolo ou culpa) nessa conduta que foi causa do evento. 
O art. 13 caput aplica-se, exclusivamente, aos crimes materiais porque, ao 
dizer "o resultado, de que depende a existência do crime", refere-se ao 
resultado naturalístico da infração penal (aquele que é perceptível aos sentidos 
do homem e não apenas ao mundo jurídico), e a única modalidade de crime 
que depende da ocorrência do resultado naturalístico para se consumar 
(existir) é o material, como por exemplo; o homicídio (121 CP), em que a morte 
da vítima é o resultado naturalístico. 
Aos crimes formais (exemplo; concussão - 316 CP) e os de mera conduta 
(exemplo; violação de domicílio - 150 CP), o art. 13 caput não tem incidência, 
pois prescindem da ocorrência do resultado naturalístico para existirem. 
 
SUPERVENIÊNCIA DE CAUSA INDEPENDENTE 
 
§ 1º - A superveniência de causa relativamente 
independente exclui a imputação quando, por si só, 
produziu o resultado; os fatos anteriores, entretanto, 
imputam-se a quem os praticou. 
 
O primeiro parágrafo do art. 13 nos diz que: "a superveniência de causa 
independente exclui a imputação quando, por si só, produziu o resultado; os 
fatos anteriores, entretanto, imputam-se a quem os praticou". Admite, o referido 
mandamento legal, a interrupção do nexo causal entre a conduta do agente e o 
resultado, sob determinadas hipótese, quais sejam: 
a) a causa que produza o resultado seja superveniente à conduta do agente, 
isto é, ocorra depois de sua ação; 
b) que a causa superveniente seja relativamente independente da conduta 
do agente, isto é, mantenha relação com a conduta inaugurada pelo autor; 
c) que a causa superveniente independente produza o resultado por si só, 
isto é, seja causa bastante para a produção do resultado. 
Exemplo: Telma ministra veneno mortal a Clarice, que, socorrida por uma 
equipe de médicos e enfermeiros, vem a morrer, poucos minutos após a 
ingestão da substância, em função de acidente sofrido pela ambulância a 
caminho do hospital. 
Encontram-se aqui todas as características elencadas acima: 
a) o acidente com a ambulância que transportava Clarice ocorreu após a 
ingestão do veneno ministrado por Telma (superveniência); 
b) o acidente não teria acontecido se Clarice não tivesse sido envenenada 
por Telma (independência relativa); 
c) as lesões causadas pelo acidente foram determinantes para a morte de 
Clarice ("por si só"). 
Dessa forma: Telma responderá pelos fatos que praticou, qual seja, tentativa 
de homicídio. 
Não obstante, caso somente aplicássemos o caput do art. 13 ao caso em 
tela, Telma seria responsável pela morte de Clarice uma vez que, eliminando-
se o envenenamento, o acidente da ambulância, que provocou a morte de 
Clarice, não teria ocorrido; logo é causa. 
Contudo, vejamos outros exemplos: 
a) Telma, mesmo sabendo ser Clarice é cardiopata, tendo certeza de que 
sua conduta não virá a provocar sua morte, aplica, em Clarice, um terrível 
susto, vindo esta a falecer vítima de um infarto fulminante; 
b) Telma, não sabendo ser Clarice cardiopata, ministra-lhe remédio para 
descongestionar-lhe as vias respiratórias, porém acelera-lhe o batimento 
cardíaco e Clarice vem a sofrer um infarto fulminante; 
c) Telma, sabendo ser Clarice cardiopata e desejando o resultado morte, a 
expõe, deliberadamente, a situação de alta tensão emocional (criada por ela 
mesma, Telma), vindo Clarice a sofrer um infarto fulminante. 
Para cada uma dessas situações, teríamos uma situação jurídico-penal 
distinta para Telma. No primeiro exemplo, a conduta de Telma poderia ser 
tipificada como homicídio culposo; no segundo caso, não haverá crime; na 
terceira hipótese, haveria homicídio doloso. 
Note-se que em todas as soluções apresentadas, o simples estabelecimento 
do nexo de causalidade entre a conduta de Telma e o resultado "morte de 
Clarice" não são suficientes para resolvermos o problema. Há de se analisar, 
como estabelece a doutrina, os demais elementos do fato típico (além do nexo 
de causalidade e do resultado morte). 
Cabe ainda analisarmos se a conduta humana é dolosa ou culposa e, 
também, a subsunção do fato à norma penal incriminadora - tipicidade. 
Voltemos aos nossos exemplos: no primeiro caso, Telma agiu com culpa 
consciente (o agente esperava levianamente que o resultado não ocorresse); 
no segundo não houve dolo nem culpa na conduta de Telam, sendo, portanto, 
o fato atípico; na terceira houve dolo, com consciência e voluntariedade no 
preparo da situação que causou o resultado morte. 
Não restam dúvidas que soluções apoiadas exclusivamente no 
estabelecimento de um nexo de causalidade objetivo entre conduta e resultado 
e na simples existência do próprio resultado, que são características 
necessárias, mas não suficientes, para se construir o fato típico, cometem 
grave erro no que diz respeito a sua formação completa. Dada a superação da 
Teoria Causal da conduta humana e da Responsabilidade Penal Objetiva, não 
poderíamos aceitar, em nenhuma das três hipóteses acima colocadas, o 
mesmo desfecho jurídico-penal para Telma. Outrossim, além do fato típico, 
também a antijuridicidade e a culpabilidade são requisitos para a existência do 
crime, estendendo-se, então, a análise para conceitos como a ilicitude do fato e 
sua reprovabilidade social. 
 
 
RELEVÂNCIA DA OMISSÃO 
 
§ 2º - A omissão é penalmente relevante quando o 
omitente devia e podia agir para evitar o resultado. O 
dever de agir incumbe a quem: 
a) tenha por lei obrigação de cuidado, proteção ou 
vigilância; 
b) de outra forma, assumiu a responsabilidade de impedir 
o resultado; 
c) com seu comportamento anterior, criou o risco da 
ocorrência do resultado. 
 
Da mesma forma que ação, em Direito Penal, não significa “fazer algo”, mas 
fazer o que o ordenamento jurídico proíbe, a omissão não é um “não fazer”, 
mas não fazer o que o ordenamento jurídico obriga. 
Omissão relevante para o Direito Penal é o não cumprimento de um dever 
jurídico de agir em circunstâncias tais que o omitente tinha a possibilidade 
física ou material de realizar a atividade devida. 
Conseqüentemente, a omissão passa a ter existência jurídica desde que 
preencha os seguintes pressupostos: 
� Dever jurídico que impõe uma obrigação de agir ou uma obrigação de 
evitar um resultado proibido; 
� Possibilidade física, ou material, de agir. 
O primeiro pressuposto (dever jurídico de agir ou de evitar um resultado 
lesivo) exige o conhecimento dos meios pelos quais o ordenamento jurídico 
pode impor às pessoas a obrigação de não se omitir, em determinadas 
circunstâncias. 
Em segundo lugar, o dever jurídico pode ser imposto ao garantidor, ou seja, 
a pessoas que, pela sua peculiar posição diante do bem jurídico, recebem ou 
assumem a obrigação de assegurar sua conservação. A posição de garantidor 
requer essencialmente que o sujeito esteja encarregado da proteção ou 
custódia do bem jurídico que aparece lesionado ou ameaçado de agressão. 
O essencial para compreender a posição de garantidor é o reconhecimento 
de que determinadas pessoas estabelecem um vínculo, uma relação especial 
com o bem jurídico, criando no ordenamento a expectativa de que o protegerá 
de eventuais danos.