A maior rede de estudos do Brasil

Grátis
191 pág.
MARIA DA GLORIA HAZAN

Pré-visualização | Página 3 de 50

Um dos aspectos que justificam este trabalho é nossa preocupação em 
compreender a maneira pela qual o pensamento judaico pode ser distorcido pela 
ação contundente de um sistema considerado radical, se compreendido como 
aquele que pretende o judaísmo isolado do mundo que o rodeia; uma experiência 
religiosa que se encontra voltada somente para o aspecto formal da prática. Um 
exemplo são os que buscam um caminho espiritual e se tornam vítimas de um 
processo de condicionamento psicológico, o que pode desembocar na paralisação 
da capacidade de reflexão, bem como em supressão da história de vida pregressa. 
 12
Nesses casos, os métodos persuasivos utilizados (o tudo ou nada) agem 
sobre o sujeito de forma avassaladora e geram atitudes aversivas que negam, em 
sua totalidade, as experiências anteriormente vividas, tidas como radicalmente 
transgressoras e profanas. Isso acontece por medo subliminar incutido de punição 
divina e não como experiência de temor reverencial, tão bem elucidado por Heschel, 
como sentimento pertinente à fé e que será um do temas de reflexão nesse trabalho. 
Uma das conseqüências deste processo pode ser o sofrimento que advém da 
grave experiência de abrupta ruptura emocional dos laços familiares e sociais, que 
resulta em prejuízo da saúde mental e psicológica. É possível que isso ocorra pela 
maneira como a transmissão da tradição é feita no âmbito da família nuclear e 
social, especialmente, o aprendizado do ritual quando ele visa atender unicamente o 
aspecto formal, e deixa explícita a experiência do vazio espiritual. 
Desta forma, podemos pensar que além da influência da família nuclear, 
também há a interferência da problemática social maior, no que se refere à crise de 
valores comunitários, aí considerado o alto índice de criminalidade, as drogas e a 
violência cotidiana. O homem, relegado à contemporaneidade por demasiado 
materialista, tem necessidade de algo que o transcenda. Assim, o homem torna-se 
presa de atitudes espúrias em nome da religião, sob critérios baseados em interesse 
próprio e na oferta da ilusão de redenção da alma, uma situação que pode conduzir, 
ao nosso ver, ao fundamentalismo formando o “exército” em nome de Deus. Para 
Heschel, a ênfase na defesa da observância dos mandamentos, pode se desdobrar 
em uma forma de behaviorismo religioso, que não promove a expressão da 
totalidade da experiência religiosa em seu valor afetivo emocional.1
Heschel resgata o símbolo vivo religioso que surge da tensão existente entre 
fé e dúvida, certo e errado, para fazer uma reflexão da consciência religiosa na 
busca da verdade espiritual. O autor apresenta uma abordagem distinta da filosofia 
da religião judaica, oferecendo ferramental para a reflexão a respeito da postura 
exclusiva e preconceituosa adotada no ensino religioso dos jovens por instituições 
que fomentam essas orientações. 
Cônscio das dificuldades encontradas no caminho religioso, Heschel aponta 
para o risco da função noética da religião ser negligenciada e os sentimentos 
 
1 Cf. Abraham Joshua HESCHEL, O último dos profetas, p. 164. 
 13
desqualificados. Ao falar da natureza humana, o autor compreende o homem como 
reflexo da Criação, com a finalidade de complementar a obra divina e justifica a 
necessidade de discriminação entre os elementos de sua natureza instintiva egoísta 
e da natureza divina capaz de alteridade, a fim de que escolhas possam ser feitas 
pela consciência da responsabilidade ética, que dignifica o homem, baseadas no 
estudo da Torá (Pentateuco). A palavra Torá é usada em dois sentidos. Num senso 
mais estrito, refere-se ao Pentateuco – os Cinco Livros de Moisés. Noutro sentido, 
abrange todo o corpo da lei, a prática, os costumes e os conceitos que 
compreendem o judaísmo. 
Um outro aspecto que torna este trabalho relevante é a forma como o 
pensamento de Heschel pode ser apreciado no âmbito psico-pedagógico. Leone2, 
num comentário de Merkle sobre Heschel, diz que esse propõe uma pedagogia do 
retorno, por meio de uma escala de observância. Nota que essa pedagogia busca 
proporcionar a volta do homem moderno à experiência de sensibilidade religiosa, 
fundamental para a retomada do caminho da humanização. Somente por meio 
dessa sensibilidade o homem moderno pode superar o fetichismo que o aliena na 
sociedade industrial. Leone compreende que a pedagogia do retorno hescheliana, 
por outro lado, está fortemente vinculada aos modelos das práticas religiosas que o 
filósofo aprendeu e viveu no mundo de sua infância. 
Dentre os conceitos desenvolvidos por Heschel, vamos enfocar 
especialmente o de insight espiritual e de autoconhecimento. Focalizamos a relação 
entre a consciência religiosa judaica, Deus e o mundo, as características dessa 
consciência; as possibilidades que ela prospecta para conhecer, para viver a 
condição humana e para propor novos rumos para o conhecimento, sendo o 
pensamento religioso um instrumento eficaz. 
Sholem fala-nos do homem religioso, citando uma passagem do Zohar3 que 
descreve a experiência mística do processo de evolução da consciência religiosa e 
do insight espiritual, em que sugere: 
 
... o significado literal é preservado, mas simplesmente como um portão 
através do qual o místico passa, um portão que se lhe abre sempre de novo. 
 
2 Cf. Alexandre LEONE, A imagem divina e o pó da terra, p.184. 
3 Cf. Gershom SHOLEM, A Mística Judaica, p.157. 
 14
O Zohar define muito sucintamente esta atitude do místico numa exegese 
memorável do versículo 12,1, do Gênesis. As palavras de Deus a Abraão, 
Lech lecha, são tomadas não apenas no seu sentido literal, “Vai-te”, ou seja, 
não são interpretadas como se referindo unicamente à ordem de Deus a 
Abraão para ele ir pelo mundo agora, mas são lidas também com literalidade 
mística como significando “Vai-te a ti mesmo” isto é, “Encontra-te a ti 
próprio”.4 
 
Para Heschel, a obediência deste mandamento faz nascer uma nova 
perspectiva da filosofia da religião, perspectiva da qual surgem nossos problemas: 
Quais as implicações desta perspectiva? Como surge e se caracteriza a consciência 
religiosa em Heschel? Heschel enfatiza o cuidado em não se reduzir à compreensão 
a respeito de Deus, a uma dimensão simbólica ou psicológica, guardando o mistério. 
Como Heschel propõe abordar este mistério? Como se dá a relação da consciência 
religiosa com Deus? 
Para Heschel, há a necessidade de uma renovada leitura da filosofia religiosa 
judaica, no intuito de aclarar a possibilidade de desenvolvimento ético e de resgatar, 
pela ação no mundo, o compromisso com a retidão diante do que Deus espera de 
nós e a preservação ética no relacionamento humano. Como obter, na religião, um 
lugar de questionamento para desenvolver a consciência religiosa? Quais as 
perspectivas ou as possibilidades dessa relação para a filosofia e para as ciências 
da religião? Esses são os problemas que buscaremos responder. 
A hipótese de nossa pesquisa é de que, em Heschel, há a possibilidade 
noética, ou seja, de conhecimento pela via da consciência religiosa. A relação da 
consciência religiosa e Deus se dá na abertura da consciência judaica ao Deus 
Abraãmico, que não se restringe ao povo judaico, mas que tem, na voz do Profeta, 
uma abrangência universal, pois o conceito de consciência religiosa em Heschel, no 
livro Deus em busca do homem, na parte que escolhemos trabalhar, o capítulo 
“Deus”, passa a existir na discussão da relação entre Deus e a condição humana. A 
relação da consciência religiosa com Deus caracteriza-se pelas seguintes 
categorias: sublime, perplexidade radical, temor, mistério entre outras. 
Outra hipótese que deriva desta primeira diz respeito à consciência religiosa. 
Para Heschel, a consciência religiosa acontece no evento, isto é, no encontro do