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MARIA DA GLORIA HAZAN

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4 Gershom SHOLEM, A Cabala e seu simbolismo, p. 23. 
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humano com a historia sagrada, que transcende o tempo, supera a linha divisória do 
passado e do presente e atualiza o passado pela presença constante de Deus. 
 
A consciência religiosa também brota da fé e do temor, de estarmos sempre 
expostos à presença de Deus, da ansiedade, em respondermos ao seu desafio, e do 
sentido, de que nosso ser está sendo convidado. A religião e a consciência religiosa 
acontecem no encontro da pergunta de Deus com a resposta do homem. Na 
consciência religiosa, abre-se o caminho para a fé e o caminho da fé. O caminho 
para Deus é um caminho de Deus. Se Deus não fizer a pergunta, todas as nossas 
indagações são vãs.5
 
Este trabalho pretende pesquisar o conceito de consciência religiosa judaica 
proposto por Abraham Joshua Heschel, em Deus em Busca do Homem, livro no qual 
o autor entende o pensamento religioso como fonte de conhecimento e examina os 
diversos aspectos que objetivam o Retorno (teshuvá) à Religião. 
Esperamos, com esta pesquisa, tanto aprofundar a compreensão dos 
conceitos que o autor propõe, como evidenciar o aspecto da experiência mística de 
revelação experimentada pelo Profeta no pathos6 divino. Num segundo momento, 
gostaríamos de ressaltar a possibilidade de um novo olhar sobre o significado dos 
conteúdos implícitos na filosofia religiosa judaica proposta por Heschel, com a 
intenção de oferecer possibilidade de novas respostas aos problemas relativos aos 
diversos âmbitos de relacionamento, resgatando virtudes e valores imprescindíveis 
de convivência. 
Dentre as nossas categorias de análise, trabalharemos com o pathos divino, a 
consciência religiosa, o inefável e Deus. Escolhemos fazer a leitura de Heschel 
buscando compreender mais profundamente, pelo enfoque da fenomenologia 
existencial, a análise dos conceitos por ele desenvolvidos, quando elege como 
modelo o Profeta e quando, na Revelação, encontra a experiência do pathos divino. 
Uma experiência religiosa que resgata a fé na relação viva com o divino; o profeta 
 
5 Abraham Joshua HESCHEL, Deus em busca do Homem, p.179. 
6 O conceito de pathos divino de HESCHEL “seria o ‘fundo da consciência’ do profeta (ou do místico), 
o lugar onde o místico está diretamente unido a Deus. O profeta é aquele que sabe o que Deus quer, 
ele é ‘visitado por Deus’”. Luiz Felipe PONDÉ, Crítica e profecia, p. 57-58. 
Para HESCHEL, idéia do pathos divino sugere que não só o homem está aberto para o inefável, mas 
que Deus procura por ele e, segundo o autor, o ser humano é capaz de responder a essa procura; a 
religião é a sua resposta. Cf. Abraham Joshua HESCHEL, Deus a procura do homem. 
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vive uma experiência não objetivada com Deus, mas sim uma experiência relacional. 
E, é neste vínculo que ele testemunha a preocupação de Deus com o homem. 
A compreensão de Deus não é idéia abstrata, mas o conteúdo primário da 
consciência do Profeta é a atenção e a solicitude divina. O problema fundamental da 
filosofia da religião não são as categorias como o credo, o rito e a experiência 
religiosa, mas a condição total do homem. A Bíblia como antropologia de Deus, 
permite chegar a Deus pela via prática e não pela teórica, ou seja, na tensão entre a 
prática e teórica. O acontecimento entendido como o pacto do homem com Deus no 
Sinai, ligado à possibilidade da resposta humana no sentido espiritual. A noção de 
evento em Heschel trata da dialética entre a razão superficial e a razão profunda, 
que estão no escopo da teologia da profundidade propostas pelo autor. 
Nosso procedimento metodológico inclui uma revisão bibliográfica de uma 
seleção de textos; leitura, análise e interpretação das obras de Heschel, bem como 
de outros autores que podem nos servir de apoio. 
A organização do trabalho está dividida em quatro capítulos. O capítulo I 
pretende contextualizar o autor, as suas obras e a obra estudada, assim como o 
homem, o tempo, as suas preocupações e o núcleo do pensamento hescheliano. 
O capítulo II apresenta os fundamentos e as características dessa consciência 
religiosa. Neste capítulo veremos como Heschel indica a via religiosa como um 
trajeto para o conhecimento. E, também, acompanharemos sua preocupação com 
uma filosofia da religião, especificamente com uma filosofia do judaísmo, onde o 
autor trabalha as diferenças entre o pensamento grego e o judaico, a fim de relevar 
aspectos prioritários à consciência religiosa, demonstrando a importância 
epistemológica dessa abordagem. 
O capítulo III pretende pesquisar os caminhos para a presença de Deus na 
consciência religiosa, propostos por Heschel. A partir da visão bíblica de mundo, o 
autor propõe as seguintes categorias: sublime, maravilhoso, mistério, temor e glória, 
para o resgate da religião como fundamental para a experiência da fé. Apresenta os 
três caminhos que correspondem na tradição judaica, aos aspectos essenciais da 
existência religiosa: adoração, ciência e ação. Em suas palavras: “Os três, são um” 
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para alcançar um único destino. “Pois foi isto o que Israel descobriu: o Deus da 
natureza é o Deus da história, e o caminho para conhecê-lo é fazer a sua vontade” 7. 
No capítulo IV, trabalhamos a busca do significado da Presença de Deus e os 
elementos para a construção da consciência religiosa. Tratamos dos elementos da 
Presença de Deus para a compreensão da dimensão do inefável e do significado do 
transcendente na religião, também em resposta ao mistério e parte do insight 
humano à procura de Deus. 
As Ciências da Religião buscam o aprofundamento do conhecimento das 
diversas dimensões que subjazem ao fenômeno religioso. Heschel, segundo Leone, 
é “um intérprete e tradutor dos conceitos da mística judaica, especialmente o 
hassidismo, para a linguagem filosófica do ocidente moderno”8. Heschel nos oferece 
uma nova leitura filosófico-religiosa do pensamento judaico, em grande parte 
negligenciado pela filosofia grega. Propõe o pensamento judaico baseado na Torá, 
apontando para um percurso de autoconhecimento encontrado nas escrituras 
sagradas. O autor, um pensador religioso, tem na mística judaica a base de estudos 
da experiência religiosa e, especialmente, no movimento hassídico, o resgate da 
expressão da alma, praticado no cotidiano do homem religioso embriagado pela 
presença divina no mundo. 
Por isso, acreditamos que para o pesquisador em Ciências da Religião, o 
ganho epistemológico pode ser valioso, porque estabelecemos o encontro com um 
pensador que propõe uma nova perspectiva para a compreensão do pensamento 
religioso judaico. É importante ler Heschel porque, ao desenvolver a relação entre a 
consciência religiosa e Deus, ele traz uma importante contribuição para aprofundar o 
conhecimento religioso, o que redunda em ganho epistemológico para se fazer 
Ciências da Religião. 
As idéias de Heschel também se direcionam para uma interface possível 
entre a religião e a psicologia, fontes fecundas de criatividade quando devidamente 
avaliadas em seus respectivos contextos de ação. 
 
 
7 Abraham Joshua HESCHEL, Deus em busca do homem, p. 51. 
8 Alexandre LEONE, A Oração como Experiência Mística em Abraham J. Heschel, Revista de Estudos 
da Religião, p. 42. 
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CAPÍTULO I: Abraham Joshua Heschel – o homem, o autor e 
sua obra 
 
Deus me persegue em toda parte 
Tecendo sua teia em torno de mim, 
Brilhando sobre minhas costas/cegas como o Sol1. 
 
Neste capítulo pretendemos revelar alguns aspectos da biografia de 
Abraham Joshua Heschel, no intuito de apreciar o clima que envolve o contexto de 
sua obra, tendo como pano de fundo suas principais indagações filosóficas, 
religiosas, políticas e sociais. Construímos um percurso que nos permite conhecer 
o lugar de onde este homem fala, instrumentalizando o leitor para uma melhor 
compreensão