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MARIA DA GLORIA HAZAN

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do nosso trabalho. 
Abraham Joshua Heschel nasceu em Varsóvia, no dia 11 de janeiro de 
1907. Seus pais eram Moshé Mordehai, que morreu quando ele tinha nove anos 
de idade, e Reizel Heschel, descendentes de rebbes hassídicos o que significa 
que constituíam uma família nobre no universo judaico. Várias lideranças 
judaicas, ligadas ao movimento hassídico do leste europeu desde o século XVIII, 
estavam entre os ancestrais de Heschel e mereceram grande reverência de sua 
parte. Sete gerações de mestres do hassidismo o antecediam, o que, segundo o 
rabino Marshall T. Meyer2, fez com que este homem se tornasse o maior expoente 
do pensamento desta tradição judaica. 
A comunidade hassídica onde Heschel cresceu era constituída de judeus 
místicos e piedosos, formando um ambiente religioso de pietismo místico, em que 
as tradições eram cuidadosamente mantidas e a influência da sociedade moderna 
era pouco significante. Predominava o estudo da Torá permeado por lendas e por 
histórias de rabinos do passado, a oração meditativa era praticada 
 
1 Alexandre LEONE, A imagem divina e o pó da terra, p. 69. 
2 Cf. Marshall T. MEYER, In Memorian, In: Abraham Joshua HESCHEL, O último dos profetas, p.1-
5. 
Marshall T. MEYER é um importante líder judaico na América Latina, discípulo de Heschel. 
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sistematicamente e a todas as ações dos homens era atribuído um sentido 
cósmico. 
À sua filha, Susannah Heschel3, ele dizia ter sorte por haver nascido em um 
ambiente onde as pessoas estavam envolvidas com os problemas da vida interior, 
com a espiritualidade e com a integridade. O pensamento deste homem foi 
profundamente influenciado por essas vivências, o que se evidenciou na sua 
admiração por dois importantes líderes hassídicos, Rebbe Israel Baal Shem Tov e 
Kotzker Rebbe, que vieram a inspirá-lo enormemente na fundamentação de seu 
trabalho, determinando uma certa concepção de mundo. 
 Israel Baal Shem Tov, Mestre do Bom Nome, religioso fervoroso, conhecido 
pela sua grande misericórdia e capacidade em despertar a natureza amorosa dos 
homens, que assim expressa a chesed (a misericórdia). Ele veio a representar o 
universo da alegria, do êxtase, da admiração, da espontaneidade, da compaixão, 
da misericórdia e das inesgotáveis fontes de significado presentes na formação de 
Heschel. Segundo Meyer4, Baal Shem Tov era a lembrança de que poderia haver 
um paraíso na terra, enquanto o Reb Menachem Mendel de Kotz, o Kotzer, seu 
outro grande ídolo, o escandalizou ao fazer com que descobrisse o inferno nos 
lugares supostamente celestiais do nosso mundo. Sua visão severa a respeito da 
natureza humana denunciava a mentira e a falsidade nas intenções dos homens. 
 Kotzer representava o horror, a consternação, o desespero, o perigo, a 
indignação e a presença da dor e da dúvida. Ele desvelou, para Heschel, a 
dimensão de humildade do homem, alertando-o para o perigo da felicidade 
ilusória, em contraposição à tristeza daquele que sabe, que conhece. Esta 
influência é fundamental para a construção da filosofia do judaísmo proposta por 
Heschel. 
 Heschel nos conta que seu nome é o mesmo de seu avô, Rebbe Abraham 
Joshua Heschel de Apt, o “Apter Rav”, contemporâneo de Baal Shem e o último 
grande rabino de Mezbizh, pequena cidade na província da Podolia na Ucrânia, 
 
3 Cf. Susannah HESCHEL, Introdução, In: Abraham Joshua HESCHEL,O último dos profetas, p. 9. 
4 Cf. Marshal T. MEYER, In Memorian, In: Abraham Joshua HESCHEL,O último dos profetas, p. 5. 
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mesmo lugar em que Baal Shem, fundador do movimento Hassídico, viveu seus 
últimos vinte anos. 
Heschel passou a infância nesse lugar, onde sua imaginação infantil, 
envolvida por um clima de mistério e de magia, viajou em muitas jornadas, como 
ele mesmo diz: “Cada etapa feita no caminho era a resposta a uma oração, e cada 
pedra era a memória de uma maravilha” 5. Encantado por um mundo de tradições 
e de contos, ele realmente se sentia em casa em Mezbizh. Para Heschel, sua 
memória de maior fascinação é associada a Baal Shem, cujas parábolas 
despertaram um dos seus primeiros insights (introspecções), quando ainda 
criança: “Por um lado [Baal Shem] se manteve como um modelo muito sublime a 
ser seguido e por outro lado por demais grandioso para ser ignorado” 6. 
Foi com nove anos de idade que Heschel encontrou Kotzker. Desde então, 
ele permaneceu como um fiel companheiro e, também, como um desafio 
assombroso para Heschel: “Apesar de ele freqüentemente me paralisar, me levava 
a confrontar perplexidades das quais eu preferiria me evadir” 7. Anos mais tarde, 
Heschel percebeu que era guiado por ambos, Baal Shem Tov e o Kotzker, pois 
entendeu que essas duas forças em tensão coexistem internamente e, por vezes, 
uma polaridade era mais forte que a outra, o que o levava a se perguntar: “Mas 
qual iria prevalecer, qual haveria de ser seu guia? As duas falavam de forma 
convincente, e cada uma se provava certa num nível e questionável num outro” 8. 
Heschel 9 comenta que encontrou a morada da alma com Baal Shem, mas 
orientado por Kotzker. Esses dois homens representavam duas vertentes da visão 
judaico-hassídica de mundo: de um lado a misericórdia e do outro a justiça severa, 
ambivalências que vieram a contribuir para a densidade e a complexidade da obra 
hescheliana. 
Para Alexandre G.Leone, “Heschel não nega nem rejeita simplesmente a 
civilização ocidental moderna, ele a critica a partir de um ponto de vista não 
 
5 Abraham Joshua HESCHEL, Passion for Truth, p. xiii. (Tradução nossa) 
6 Ibid., p. xiv. (Tradução nossa) 
7 Ibid., p. xiv. (Tradução nossa) 
8 Ibid., p. xiv. (Tradução nossa) 
9 Cf. Ibid., p. xiv.. 
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ocidental, o da mística judaica, usando, porém, a linguagem da filosofia ocidental” 
10. Ainda segundo Leone11, no judaísmo não devemos nos preocupar com uma 
nova teologia, mas sim, com o resgate da dignidade humana que pode ser 
recuperada. Para Heschel12, a dignidade humana pode ser resgatada na 
consideração à realidade existencial, no aqui e agora da relação. 
A mística judaica, inclusive, é o foco de um artigo daquele mesmo autor, 
denominado A Oração como Experiência Mística em Heschel. Neste artigo 
Leone13 cita os dois mestres do hassidismo, Baal Schem Tov e Kotzker, que são 
tratados em profundidade no livro A Passion for Truth, obra de Heschel publicada 
postumamente em 1973. A espontaneidade, algo muito importante para o 
hassidismo, é um valor que Heschel persegue e acaba por confrontar a ortodoxia 
no que se refere à forma recrudescida na transmissão dos conceitos encontrados 
na Torá. Talvez essa postura crítica explique o fato do autor não ser citado na 
comunidade religiosa judaica, segundo seus próprios integrantes. Fato que 
também ocorre no âmbito acadêmico, no qual ele é ainda pouco conhecido e 
estudado. 
Assim como Heschel, outros intelectuais judeus importantes, como Martin 
Buber e Jacó Levi Moreno14, foram muito inspirados pelo hassidismo, mas 
somente Heschel nasceu nesse meio, sendo marcado, desde suas origens, afetiva 
e intelectualmente por esta cultura religiosa. 
Ainda adolescente este futuro filósofo da religião começou a publicar seus 
primeiros artigos, estudos em hebraico sobre literatura talmúdica, apresentados 
em publicação rabínica,1922-1923. Até então, possivelmente, não havia cursado 
outras matérias, além de Torá, Talmud e temas da mística judaica. Conforme foi 
 
10 Alexandre LEONE, A imagem divina e o pó da terra, p. 220. 
11 Cf. Ibid., p. 220. 
12 Cf. IDEM, A oração como experiência mística em Heschel, Revista de Estudos da Religião. 
13 Cf. Ibid. 
14 Martin BUBER é um intelectual judeu que tem sua obra marcada por uma crítica a sociedade 
moderna aliada a um retorno a tradição,