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MARIA DA GLORIA HAZAN

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às suas ações e decisões e que modela suas aspirações e seu 
comportamento. 
 Para o autor, o interesse geral de uma pessoa que a leva a ver ou a descobrir 
certas situações e esquecer outras é orientado pela mente e pelo coração, e 
significa um equívoco observar o comportamento humano por atos isolados de 
percepção. Conforme vimos anteriormente, o interesse é uma apreensão seletiva 
baseado em idéias anteriores, percepções, reconhecimentos ou predileções 
precedentes. O interesse de um homem piedoso é determinado por sua fé, de 
maneira que a piedade é a fé traduzida em vida, quando um espírito encontra-se 
encarnado em uma pessoa. 
 
 
 
90 Abraham Joshua HESCHEL, O homem não está só, p. 284-285. 
 167
IV. 4.1 - O anonimato interior 
Para Heschel a consciência do homem piedoso abre-se para a perspectiva de 
uma visão em relação às suas forças interiores, que direcionada à pureza busca 
uma atitude que se volta contra sua própria vaidade, sujeitando seu egoísmo ao 
poder divino. Nesse sentido, introverte-se numa auto-exclusão que lhe favorece a 
renúncia de si mesmo abrindo-se à consciência das sensações. Esse estado 
contemplativo expande a consciência para percepção da sutileza de impressões 
subjetivas, e possibilita-lhe atingir sua meta, a vivência de um anonimato interior que 
dirige ao serviço religioso, buscando a união com Deus. 
 O homem piedoso, cônscio da avareza humana, sabe que necessita proteger 
a pureza de suas intenções, portanto precisa manter-se atento a esse aspecto de 
sua natureza. Não exerce seus atos para beneficiar-se e obter recompensas, mas, 
sim, busca a humildade, consciente da força que a vaidade opera dentro de si 
mesmo. Sabe que a vaidade agrega orgulho, e esse representa o único lugar em 
que o inefável está ausente. 
Enfim, ele está absolutamente “absorto na beleza do que adora e dedica-se a 
fins cuja grandeza supera sua capacidade de adoração” 91. 
De alguma forma, é constante o seu esforço em superar-se a fim de 
apreender a dimensão da presença. Nesse esforço ele está atento para não tornar 
seus atos em um hábito, numa rotina estereotipada, prejudicando a qualidade 
espontânea de sua dedicação amorosa ao cumprir as observâncias. Segundo 
Heschel, este é um ímpeto ao qual ninguém que alguma vez tenha sido impelido por 
sua força conseguiu livrar-se. O autor comenta: 
 
Nos momentos de tensão, quando o homem piedoso tropeça, erra ou desvia-
se do caminho sucumbindo em sua fraqueza temporariamente ao agradável, 
esta queda servirá de novo estimulo para voltar à meta de seguir fiel à 
verdade do simples e sólido ao invés do aparatoso, corrobora, pois à sua 
aderência ao que é santo que apenas vacila, mas nunca se rompe. 92 
 
 
 
91 Abraham Joshua HESCHEL, O homem não está só, p. 285. 
92 Ibid., p. 285-286. 
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IV. 4.2 - A fé, a sabedoria e a piedade 
Na concepção hescheliana tanto a sabedoria quanto a piedade demandam as 
seguintes qualidades: autocontrole, autodomínio, abnegação força de vontade e 
firmeza de propósitos, as quais servem como instrumentos que atuam sobre a ação 
da vontade na busca da piedade, mas não constituem sua natureza. “Porém são 
imprescindíveis tanto para o homem piedoso como para o sábio, o domínio de si 
mesmo, como vital, apesar do piedoso julgar-se não como senhor autônomo, mas 
um mediador que administra sua vida em nome de Deus” 93. 
Outra característica importante da piedade é o esforço de atender a vida no 
compromisso firmado na inserção da sua atuação em relação à 
experiência. Heschel descreve o homem piedoso como sensível à percepção em 
tudo o que é solene no que é simples, ao que é sublime no sensual, porém não se 
propõe a penetrar no sagrado, ao contrário, procura ser penetrado e atuado pelo 
sagrado, aspira a se entregar a ele. Tem a noção, num nível profundo, de que tudo 
se encontra exatamente como deve estar. 
Para ele o valor não está no visível, mas na impressão que este lhe causa, 
assim como não se encontra na noção, mas no sentimento que desperta, tampouco 
no conhecimento, mas em sua apreciação, também não na ciência, mas na 
veracidade que nela encontra. 
 Para o homem piedoso, é antes o cuidado e a afeição que há na prática, o 
toque pessoal que imprime a importância legada a vida. 
 Para Heschel, fundamentalmente a piedade é a realização e a verificação do 
transcendente na vida humana, compreende não só um sentido da realidade do 
transcendente, mas também a tomada de uma atitude adequada em relação a 
ele. Não só uma visão, uma forma de crença, mas uma adaptação, uma resposta ao 
chamado, um modo de vida: 
 
A piedade situa-se inteiramente dentro do subjetivo e nasce da iniciativa 
humana. É geralmente precedida pela fé e assim constitui a realização da fé, 
um esforço para por em prática as idéias da fé, para seguir as suas 
sugestões. Não deseja apenas aprender a verdade da fé, mas também 
 
93 Abraham Joshua HESCHEL, O homem não está só, p. 286. 
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concordar com ela; não só encontrar a Deus, mas aderir a ele, concordar com 
as sua vontade, ressoar as suas palavras e responder à sua voz. 94
 
Dessa forma, quando nos colocamos a serviço do bem, quando o homem 
toma consciência da dimensão do inefável, a vida encontra recursos para ser 
plenamente realizada no mundo. No estado de integridade, sentimos uma profunda 
paz e uma aceitação que nos dão a capacidade de saber o que é preciso em cada 
situação e em cada momento, e ganhamos força mediante este conhecimento direto 
de que somos parte de algo que vai muito além da consciência do ego. Para 
Heschel: 
... é da piedade que nasce a revelação do eu superior, a manifestação do que 
é mais delicado na alma humana, dos elementos mais puros da aventura 
humana. Trata-se essencialmente de uma atitude em relação a Deus e ao 
mundo, em relação aos homens e às coisas, em relação à vida e ao destino.95
 
IV. 4.3 - Reverência, gratidão e responsabilidade 
Quando aprendemos a observar nossos hábitos e a nos conscientizar dos 
mecanismos da personalidade que aprisionam, vendo o que surge em nós a cada 
momento, bem como o que nos distrai do aqui e agora, podemos modificar a reação 
aos acontecimentos numa escolha ativa da atitude apropriada ao momento que 
vivemos. Essa percepção mais acurada permite-nos apreender experiências em 
vários níveis diferentes. Heschel comenta que a piedade é uma atitude em relação à 
realidade total, as relações com o valor espiritual que homem piedoso está tanto 
atento são tanto em relação à dignidade de cada ser humano, como à das coisas 
inanimadas. Podemos compreender que esta capacidade de percepção da relação 
das coisas com os valores transcendentes, presentes na atitude de homem piedoso, 
deve-se à habilidade dele em perceber que a parte de nós que vê é algo de 
instância mais onipresente e, no entanto, fugidio. Portanto, o homem piedoso nada 
despreza, pois em tudo vislumbra um sentido espiritual. Descobrimos, junto com 
Heschel, que: 
 
 
94 Abraham Joshua HESCHEL, O homem não está só, p. 287-288. 
95 Ibid., p. 288. 
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O segredo de cada ser é o cuidado e o interesse divino nele investido. Em 
cada acontecimento há algo de sagrado em jogo. Está é a razão da 
reverência com que o homem piedoso trata a realidade. Isso explica a sua 
solenidade e a sua atitude conscienciosa ao tratar as coisas tanto grandes 
como pequenas. Há uma transparência única nas coisas e nos fatos. O 
mundo é transparente. Não há véu algum que possa ocultar completamente 
a Deus. O homem piedoso está sempre atento para ver através da aparência 
das coisas um traço do divino. Por isso a sua atitude para com a vida é de 
esperançosa reverencia.96
 
 Quando participamos plenamente do momento permitimo-nos