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MARIA DA GLORIA HAZAN

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na busca pelo reencontro com a utopia humanista. Jacó 
Levi MORENO é um intelectual judeu que viveu grande parte de sua vida nos Estados Unidos, 
onde desenvolveu o recurso da dinâmica de grupo e do Psicodrama no trabalho psicoterápico. 
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crescendo, ampliou seus estudos para além do Talmud, passando a ler livros 
seculares. 
Aos 17 anos, decidiu realizar algo inusual para aquela comunidade. 
Pretendia se inscrever em um curso secundário secular moderno com o objetivo 
de chegar à faculdade, o que se situava fora das perspectivas de um judeu 
tradicional da Polônia naquela época. Com a aprovação da família, ele vai para 
Vilna, onde se matricula no Yidish Realgymnasium. Neste período, participa de um 
grupo de poesia Yidish, conhecido como “Yung Vilna”, no qual escreve muitos 
poemas que são publicados em 1933, na coletânea Der Shem Hamefoiresh: 
Mensch (O Nome Divino: Humano). Segundo Leone, nesta coletânea aparece 
pela primeira vez um importante alicerce do pensamento hescheliano, “a idéia de 
que o homo sapiens só desperta para o humano, que lhe é imanente, quando 
desperta para o encontro com Deus” 15. 
O humano hescheliano, como no hassidismo, é concebido como sendo 
inteiramente corpo e espírito, criado a partir da ‘imagem divina’. Neste momento, 
já está presente em Heschel o “humanismo sagrado” 16, que vai transparecer mais 
intensamente na posteridade. Este primeiro contato com a cultura moderna marca 
uma mudança de paradigma na visão de mundo de Heschel, que deixa de ser, a 
partir de então, apenas um judeu tradicional. 
Segundo Kaplan17, Heschel funda um método que lhe permite alcançar 
pessoas fora de sua comunidade de fé, pois esse método consiste em interpretar 
as sutis modalidades da emoção. Em Heschel opera-se, nessa perspectiva, uma 
 
15 Alexandre LEONE, A imagem divina e o pó da terra, p. 29. 
Para Heschel, a divindade é concebida como infinita e imanente, mas, por outro lado, esse infinito 
também é transcendente. Por isso, a concepção hescheliana de divindade é denominada de pan-
enteísmo. Este conceito preserva a dimensão de transcendência, no qual Deus está além de tudo, 
mas se diferencia do conceito de panteísmo, em que Deus é a totalidade do mundo, ou seja, que 
tudo em Deus é mais do que o Universo. Cf. R. M. SELTZER apud Alexandre LEONE, A imagem 
divina e o pó da terra. 
Também se diferencia de Espinosa por pensar que o divino imanente se manifesta através dos 
olhos humanos, principalmente olhos que choram e que, portanto, é sensível à experiência 
emocional, contrariamente a idéia de que a divindade se manifesta apenas na experiência 
intelectual. 
16 Essa foi a maneira como KAPLAN definiu o pensamento hescheliano. Cf. KAPLAN apud 
Alexandre LEONE, A imagem divina e o pó da terra. 
17 Cf. Ibid. 
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somatória entre a piedade hassídica, a experiência poética e a fenomenologia de 
vertente scheleriana18. 
Após completar seus exames em 1927, Heschel foi estudar em Berlim para 
participar do que era considerado o grande centro da vida intelectual e cultural da 
época na Europa. Inscreveu-se na Universidade de Berlim, no curso de filosofia e 
na Hoschule für die Wissenchaft des Judentum, um seminário rabínico liberal. Na 
Universidade de Berlim, concentrou-se primordialmente no estudo da filosofia e 
secundariamente em história da arte e em filologia semítica. Nesta escola, 
especializou-se no moderno estudo dos textos judaicos e em história. 
Susannah Heschel19 conta, no pequeno texto biográfico que escreve sobre 
o pai, que havia um outro seminário ortodoxo, com enormes diferenças teológicas 
em relação ao seminário rabínico de Heschel, que se situava na mesma rua. Entre 
 
18 Heschel trabalha numa perspectiva scheleriana do pensar fenomenológico. Referimos-nos ao 
artigo escrito por Anna Escher DI STEFANO, A Dimensão Fenomenológica do Sagrado, a respeito 
de SCHELER, a fim de esclarecer a perspectiva fenomenológica adotada no pensamento 
hescheliano. O que SCHELER faz questão de ressaltar é, mais uma vez, a autonomia da ética em 
relação a qualquer pressuposto acerca da essência, da idéia e da vontade de Deus. De qualquer 
forma, no último SCHELER, a relação do homem com o divino sofre uma reviravolta: o ser primeiro 
interioriza-se no homem no ato mesmo em que o homem se funda nele. O lugar, portanto, da 
auto-realização do ser, ou seja, da unidade de impulso e de espírito vem a ser o homem, o eu E o 
coração humano. Homem e Deus são correlativos: o homem não pode realizar o seu destino sem 
participar dos dois atributos do ente supremo e sem ser imanente a ele. Mas, nem mesmo o Ens a 
se pode realizar o seu próprio destino sem a cooperação do homem. O espírito e o impulso, dois 
atributos do ser, não são completos em si, independentemente de sua mútua penetração, eles se 
desenvolvem justamente manifestando-se na história do espírito humano e na evolução da vida 
universal. O homem, que na concepção anterior, fora definido como idéia eterna de Deus, torna-se 
agora o único lugar em que e pelo que o ser originário se auto compreende e se auto-reconhece; 
não só isso, mas também o ser em cuja livre decisão Deus pode agir e tornar sagrada a sua 
essência simples. Para DI STEFANO, SCHELER, ao referir-se a metafísica, compreende que esta 
detém a resposta ao apelo do homem, contanto, porém, que por metafísica entenda-se a esfera de 
um ser absoluto como constitutiva da essência mesma do homem, bem como a autoconsciência ou 
a consciência do mundo. Segundo Anna Escher DI STEFANO, A Dimensão Fenomenológica do 
Sagrado, In: Giorgio PENZO; Rosino GIBELLINI, Deus na Filosofia do século XX, p. 173-174: “se 
com a expressão; ‘origem da religião’ e ‘origem da metafísica’ não entendermos apenas o 
conteúdo de determinadas hipóteses e crenças dessa esfera, mas a origem dessa mesma esfera 
podemos dizer que tal origem vem a coincidir exatamente com o aparecimento do homem”. Nessa 
perspectiva, a relação com o divino sofre, assim uma reviravolta: Deus não mais existe para o 
homem, para apóia-lo, mas o homem existe para Deus, é o lugar do seu fazer-se concreto na 
Terra. A norma, o valor não são mais colocados em Deus, mas no próprio eu, na consciência da 
sua colocação no cosmos. A nova posição de Deus leva, pois, a uma nova concepção de mundo. 
O mundo torna-se a história de Deus, o espaço onde se manifesta a sua racionalidade e 
irracionalidade. O Deus onisciente, onipotente, infinitamente bom do teísmo está no final do devir 
divino, mas no inicio da história do mundo. Ele constitui um fim ideal, que, como vimos, é 
alcançado quando o mundo torna-se o corpo de Deus”. 
19 Cf. Susannah HESCHEL, Introdução, In: Abraham Joshua HESCHEL, O último dos profetas. 
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seus estudantes e os estudantes da faculdade não havia comumente um trânsito 
freqüente. Heschel era um dos únicos que transitava por esses ambientes, 
mantendo amizade e respeito em todos eles, um vislumbre da função de 
intercâmbio entre diferentes universos, que esse pensador veio a exercer 
posteriormente com tanta propriedade. 
Nessa escola, este pensador judeu foi aprovado em seus exames 
curriculares em 1929, recebendo um prêmio da escola por um ensaio intitulado 
Visões na Bíblia, e foi nomeado instrutor, passando a ensinar exegeses 
talmúdicas para estudantes avançados. Em 1934, foi aprovado nos exames orais 
e recebeu o diploma rabínico pela Hoschule für die Wissenchaft des Judentum, 
com uma tese de graduação sobre Apocrifia, Pseudo-epígrafe e Halachá. 
Enquanto isso permanecia bastante envolvido com seus estudos filosóficos. 
É importante notar que foi na Universidade de Berlim que Heschel teve o primeiro 
contato com a fenomenologia, que naquela época começava a ganhar muitos 
adeptos entre os intelectuais alemães. Esta corrente filosófica viria a constituir 
uma matriz do pensamento hescheliano. Segundo Leone20, a linguagem 
fenomenológica