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MARIA DA GLORIA HAZAN

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funciona em Heschel como uma interface entre a visão tradicional 
judaica e os temas considerados relevantes no mundo intelectual ocidental. Com 
isso, os temas judaicos podem ser debatidos pela intelectualidade ocidental, pois 
podem ser revestidos por uma linguagem conhecida. 
Dessa possibilidade de encontro surgiu a tese de doutorado de Abraham 
Joshua Heschel, na Universidade de Berlim: Die Prophetie, um estudo da 
consciência dos profetas bíblicos, sob o ponto de vista do que teria sido a 
experiência desses homens no encontro com Deus. Ele se propõe a investigar, 
por meio de uma abordagem fenomenológica, o tema judaico da revelação, do 
encontro com a dimensão divina, tentando compreender o sentido que o homem 
bíblico deu a esse encontro. Sua tese é bem aceita pela academia alemã, mesmo 
durante a ascensão nazista. Porém, teve dificuldade em publicá-la, o que só 
aconteceu em 1936. 
 
20 Cf. Alexandre LEONE, A imagem divina e o pó da terra, p. 31. 
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O pensamento hescheliano propõe que o profeta seria diferente de outros 
místicos, pois estaria profundamente conectado ao seu tempo, participando de 
maneira crítica de sua sociedade, e sentiria, através do encontro com a dimensão 
divina, o pesar de sua época. Ele também sugere que a qualidade mais importante 
do profeta seria “a sensibilidade com o mal e a iniqüidade” 21. Essa sensibilidade 
seria responsável por canalizar a compaixão divina à dor humana, o que Heschel22 
definiu como “pathos divino”. Deus, ao se revelar, não revela sua essência, que é 
inefável, mas, sim, sua mensagem, que exprime seu compromisso com a 
existência humana. A mensagem bíblica é direcionada ao homem, não somente 
sensível às suas dores e mesquinharias, mas também à qualidade inerente ao 
homem da realização plena de sua semente de imagem divina23. 
A dissertação de Heschel foi finalmente apresentada em 1932 e avaliada 
por dois professores, ambos do departamento de teologia e interessados em 
Fenomenologia da Religião. O diploma de doutorado lhe seria entregue dali a 
poucos meses, mas algumas complicações ocorreram. Ele precisaria publicar sua 
dissertação para a obtenção do diploma e não dispunha de recursos para tal. 
Além disso, nessa mesma época, mais precisamente a partir de 1933, a ascensão 
dos nazistas ao poder passou a restringir as possibilidades de seu percurso 
acadêmico. Ele insistiu na publicação, fazendo petições ao reitor da faculdade a 
cada dois meses durante anos. Finalmente, em 1936, sua dissertação é publicada 
pela Academia Polonesa de Ciências da Cracóvia. Além da publicação, a 
Academia interveio, com o consulado polonês na Alemanha, para pedir permissão 
ao governo alemão para distribuir o livro de um autor judeu nas livrarias alemãs. 
Com permissão especial, a Universidade de Berlim legitimou uma publicação não 
alemã e Heschel recebeu seu diploma em dezembro de 1935. 
O livro de Heschel foi muito bem aceito pela academia alemã, o que 
difundiu seu nome nos centros intelectuais daquele país. É notável que ele tenha 
conseguido ser reconhecido como intelectual de respeito por seus pares, em meio 
 
21 Alexandre LEONE, A imagem divina e o pó da terra, p. 31. 
22 Cf. Ibid., p. 31. 
23 Cf. Ibid., p. 32. 
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ao clima desfavorável que existia na Alemanha daquela época. Além disso, o livro 
de Heschel recebeu críticas favoráveis de diversos segmentos religiosos, inclusive 
de protestantes e de católicos. Tais críticas consideraram o texto como uma das 
mais importantes contribuições à filosofia da religião produzida naqueles tempos e 
chamavam a atenção para a correta e importante leitura que ele fazia sobre o 
Deus da Bíblia. Diante do ataque ao Velho Testamento, que acontecia na época 
em razão da tentativa de erradicar o judaísmo das escrituras cristãs, a recepção 
positiva de seu trabalho foi surpreendente. 
Após a publicação de sua dissertação, Heschel ainda consegue publicar 
dois estudos sobre pensadores judeus da Idade Média: Maimônides e Abravanel. 
No primeiro, o que chama a atenção dos leitores é a maneira como Heschel 
aborda questões da vida pessoal de Maimônides e as articula à sua produção 
intelectual, de forma a transformar a imagem, até então austera deste pensador, 
na imagem de um ser humano complexo e sensível. Neste livro Heschel também 
levanta o tema dos próprios esforços de Maimônides para obter inspiração 
profética, um assunto controverso que ele discute vários anos mais tarde. O livro 
sobre Abravanel foi finalizado em 1937 e publicado como parte das 
comemorações do 500º aniversário de nascimento deste ilustre filósofo, que viveu 
durante o período das expulsões dos judeus da Espanha e de Portugal, no final do 
século XV. 
Heschel permanece na Alemanha até 1938. Em 1937, Martin Buber 
convida-o para ser seu sucessor no Judiches Leherhaus em Frankfurt. A ida a 
este centro de estudos judaicos, fundado por Franz Rozenweig24, coloca-o em 
contato efetivo com uma geração de pensadores denominada por Michael Löwy25 
como “messiânico-libertária”. Estes intelectuais judeus expressavam, em suas 
produções, a visão messiânico-redentora judaica, articulada aos ideais libertários 
e humanistas do ocidente, que teve grande influência sobre o pensamento 
ocidental, especialmente no período de pós-guerra do início do século XX. 
 
24 Franz ROZENWEIG, pensador judeu e autor do livro El libro del sentido común sano y enfermo. 
25 Michael LOWY realizou um estudo sobre um grupo de intelectuais judeus que aliaram uma forte 
crítica à sociedade moderna a um retorno difícil à tradição. Cf. Michael LOWY apud Franz 
ROZENWEIG, El libro del sentido común sano y enfermo. 
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Segundo Leone26, essa concepção de mundo foi fortemente influenciada pelo 
romantismo e se colocou como forte crítica ao processo de modernização da 
sociedade, já que entendia que a modernidade manifesta uma tendência 
desumanizante. 
Nessa época, em Frankfurt, funcionava o Instituto de Pesquisa Social, onde 
os intelectuais, do que mais tarde ficou conhecido como Escola de Frankfurt, se 
reuniam. O pensamento frankfurtiano também propunha uma crítica ao processo 
de modernização, por sua tendência desumanizante, apesar de ter sido muito 
mais influenciado, evidentemente, pelo pensamento marxista do que pelo 
pensamento religioso. Apesar disso, entre os frankfurtianos, estava presente 
Walter Benjamin, ligado fortemente ao movimento comunista e tendo recebido 
grande influência judaica, sua obra se assemelha em muitos pontos à obra 
hescheliana, no sentido da dimensão da crítica à sociedade moderna, a partir de 
uma matriz judaica. 
Os anos vividos em Frankfurt foram muito enriquecedores para Heschel, 
que se alimentou intelectualmente das excelentes discussões filosóficas que seus 
companheiros proporcionaram. Nesta época, a relação com os admiradores e 
interlocutores cristãos e mesmo os contatos com comunidades religiosas não 
foram rompidos, mas Heschel ficava estarrecido diante do não posicionamento 
político desses pares, em relação ao tratamento que vinha sendo destinado aos 
judeus naquele período. 
Em 1938, os judeus que residiam na Alemanha e tinham passaportes 
poloneses foram repentinamente presos e deportados para a Polônia. Heschel 
havia passado sua temporada em Frankfurt com uma família judaica que morava 
em uma região tranqüila, nos arredores da cidade. Neste período nunca deixou de 
cumprir os rituais judaicos, sustentando sua vida religiosa, mesmo em meio a uma 
Alemanha nazista cada vez menos tolerante. 
Nos anos anteriores a deportação, Heschel vinha tentando conseguir 
alguma possibilidade de sair da Alemanha, através de seus contatos com 
 
26 Alexandre LEONE, A imagem divina e o pó da terra, p. 23. 
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intelectuais fora deste