A maior rede de estudos do Brasil

Grátis
191 pág.
MARIA DA GLORIA HAZAN

Pré-visualização | Página 8 de 50

país. Chegou a obter um convite para lecionar na Inglaterra, 
mas seu visto foi negado. Também foi convidado pela comunidade judaica de 
Praga para lecionar em uma escola rabínica, projeto que não se realizou em razão 
da crise política no fim de 1937. 
Heschel levado pela Gestapo, no meio da noite, com todos os seus livros, 
para uma delegacia e passou três dias de pé em um trem lotado de judeus 
deportados. Após a terrível jornada, enfim encontrou sua família em Varsóvia. Na 
Polônia, o clima era de otimismo frente a uma possível invasão alemã. Os 
poloneses subestimavam os perigos desta ameaça, pois confiavam em sua 
poderosa cavalaria. Mas Heschel continuava a buscar uma maneira de sair da 
Europa. Apenas seis semanas antes da invasão alemã acontecer, ele conseguiu 
sair de Varsóvia e viajar para Londres. Lá, ele encontra seu irmão, Jacob, e 
durante seis meses vive como refugiado junto a vários outros intelectuais judeus, 
que, unidos, fundaram o Instituto para o Aprendizado Judaico, até conseguir um 
visto para os Estados Unidos. 
Seu visto foi obtido graças ao esforço de Julian Morgenstern, presidente do 
Hebrew Union College, em Cincinatti, que havia alguns anos vinha tentando 
conseguir vistos para eruditos judeus da Europa. O nome de Heschel foi escolhido 
entre os cinco que Morgenstern obteve, em razão de ter sido recomendado por 
muitos colegas graças às suas publicações e pela reputação conquistada na 
Alemanha. Formalmente, Heschel foi convidado para trabalhar como pesquisador 
da Bíblia e da filosofia judaica durante dois anos na universidade. Ele recebeu seu 
visto em janeiro de 1940 e em março chegou a Nova York. 
Quando os nazistas invadiram Varsóvia, uma irmã de Heschel foi morta 
durante um bombardeio, e sua mãe, junto com uma outra irmã, teve que 
abandonar a casa onde morava. Passaram a viver momentos muito difíceis desde 
então. As duas acabaram sendo mortas pelos alemães algum tempo depois. Uma 
outra irmã que morava em Viena foi levada para Auschwitz, onde também foi 
assassinada logo após sua chegada. Somente uma irmã e seu marido 
conseguiram refugiar-se nos Estados Unidos e sobreviveram. Assistir ao 
 29
assassinato de toda a sua família e ao genocídio generalizado dos judeus na 
Europa foi um acontecimento que abalou tremendamente a vida deste homem. Ele 
também assistiu involuntariamente a destruição de todo o universo cultural, em 
meio ao qual foi criado, com o aniquilamento das várias comunidades tradicionais 
judaicas da Europa central, que preservavam a riqueza espiritual, cultural e 
material do mundo judaico asquenazi27. 
 Heschel considerava-se uma “tocha arrancada do fogo da Europa” 28, que 
assistiu a todo o resto de sua família, seu povo e sua cultura incinerarem durante 
os cinco longos anos da guerra. É incrível que ele tenha sobrevivido a tamanha 
aniquilação. Para Susannah Heschel29, a sobrevivência de seu pai foi uma dádiva, 
pois ele se tornou um importante porta-voz da religião, em uma época em que a 
espiritualidade estava em grande perigo. Ela afirma que apesar de ter vivido todo 
esse horror, “sua vida continuou a refletir a dimensão sagrada que ele era capaz 
de despertar com suas palavras tão originais” 30. 
A dimensão trágica do que havia acontecido a seu povo e seu luto pelo que 
havia ocorrido foram expressos primeiramente em 1945, quando ele ministrou 
uma conferência no Instituto Para a Pesquisa Científica de Nova YorK. Ao falar 
sobre os costumes e os valores tradicionais da cultura judaica do leste europeu, 
Heschel fez uma elegia em yidish, muito comovente, que provocou na platéia uma 
reação emocionada. Todos se levantaram e recitaram o kadish, a oração judaica 
para os mortos. Nesta conferência, ele deu um testemunho do espírito que 
norteou sua vida na infância e na juventude, fundado sobre a busca ativa da 
transcendência e sobre o cultivo da reverência ao ser humano por meio do estudo 
e da oração. Em 1949, ele publicou esta conferência com o título The Earth is the 
Lord. 
Para Leone31, Heschel transformou essas vivências terríveis em um 
sentimento de responsabilidade com seu povo e com todos os outros povos que 
 
27 Judeus do leste europeu. 
28 Susannah HESCHEL, Introdução, In: Abraham Joshua HESCHEL, O último dos profetas, p. 8. 
29 Cf. Ibid. 
30 Ibid., p. 8. 
31 Cf. Alexandre LEONE, A imagem divina e o pó da terra. 
 30
pudessem sofrer tamanha injustiça. Ele toma para si a tarefa de despertar a 
consciência dos homens através do apelo profético bíblico de reverência à pessoa 
humana, considerada como imagem divina. Até o final dos anos 50, o apelo 
profético hescheliano é exercido apenas por meio de seus escritos, que vão 
paulatinamente tornando-o conhecido nos círculos acadêmicos americanos. 
Somente no início dos anos 1960, Heschel passou a participar ativamente da 
militância política e social, em prol do diálogo entre religiões e a favor dos direitos 
civis (principalmente dos negros norte-americanos), da liberdade dos judeus na 
União Soviética e do fim da guerra do Vietnã. A partir daí, ele passou a ser 
conhecido pelo público em geral, apareceu em manifestações políticas e foi 
solicitado para entrevistas na televisão, nas quais falou como representante judeu 
do hassidismo contemporâneo. 
O apelo profético, na concepção de Heschel, pretende que o homem 
alcance a superação da situação humana por intermédio da ação no mundo, o que 
o torna parceiro de Deus na criação do universo, portanto, criador do próprio 
humano, de si mesmo. Para ele, a redenção é fruto de uma escolha ativa, que faz 
com que, através do ato, um atributo essencial de Deus seja qualidade humana, 
dando sentido à condição humana. O homem portaria, inerentemente a sua 
condição, uma dignidade básica que o tornaria capaz de chegar à humanização. 
Nessa dignidade estaria presente o sagrado inerente ao humano. A jornada até a 
redenção acontece através das mitzvás, ações sagradas que pela tradição judaica 
são mandamentos ordenados aos judeus, que humanizam o ser, convertendo-o 
em uma imagem divina. Explicitam a responsabilidade individual pelo coletivo, 
tornando imperativa a percepção do sofrimento do outro e a tomada de atitude 
com o objetivo de eliminar ou atenuar tal sentimento. 
Segundo Heschel32, o homem moderno esqueceu-se que representa a 
imagem divina, que é um símbolo, e esse esquecimento torna extremamente difícil 
ao homem encontrar o sentido para sua própria existência. Diferentemente disso, 
o homem moderno cria símbolos aos quais serve, alienando-se de seu próprio 
 
32 Cf. Abraham Joshua HESCHEL apud Alexandre LEONE, A imagem divina e o pó da terra, p.47. 
 31
sentido. Esta análise seria chamada de fetichismo de mercadoria por Marx33, o 
que significa a coisificação da existência humana, a desumanização em sua 
essência. Heschel 34propõe que no cerne dessa fetichização está a definição do 
objetivo da existência como mera satisfação das necessidades, contrária ao 
processo humanizante, em que é imprescindível que o homem descubra a si 
mesmo como uma necessidade. 
Após a catástrofe do holocausto, muitos intelectuais humanistas e não 
humanistas puseram-se a pensar sobre a crise da humanidade na sociedade 
moderna e sobre suas possibilidades de renovação e de colapso. Heschel propôs 
a realização desta tarefa através da religião, não de maneira ingênua, mas 
acrescendo uma reflexão de caráter emocional, coerente com o pathos divino, 
apelando para a atitude e para a busca da renovação do mistério que envolve a 
existência humana, em contraposição à apatia e à alienação que qualificam o 
homem moderno. 
O tempo vivido em Cincinatti, como instrutor e não professor, foi bastante 
solitário. Heschel morava em um dormitório de estudantes, entre as cartas de 
pedido de ajuda que chegavam de seus familiares da Europa e de estudantes