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MARIA DA GLORIA HAZAN

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pouco interessados em textos judaicos. Alguns estudantes rabínicos do Hebrew 
Union College tornaram-se seus amigos, como também alguns professores da 
faculdade. 
Foi neste lugar que Heschel veio a conhecer sua esposa, Sylvia Straus, por 
intermédio de um desses professores. Ela era uma pianista vinda de sua cidade 
natal, Cleveland, para estudar em Cincinatti. Como conta Susannah Heschel35, 
seu pai se apaixonou por sua mãe logo no primeiro encontro, ao ouvi-la tocar 
piano na casa desses amigos em comum. Eles se casaram em dezembro de 
1946, em Los Angeles, cidade para onde haviam emigrado os pais de Sylvia. 
Pouco tempo antes, ele havia recebido um convite da Jewish Theological 
 
33 Karl MARX apud Alexandre LEONE, A imagem divina e o pó da terra, p. 48. 
34 Cf. Abraham Joshua HESCHEL apud Alexandre LEONE, A imagem divina e o pó da terra, p. 48. 
35 Cf. Susannah HESCHEL, Introdução, In: Abraham Joshua HESCHEL, O último dos profetas, p. 
21. 
 32
Seminary para ocupar uma cadeira do movimento conservador, enquanto Sylvia 
havia sido incentivada a estudar com um pianista nova-iorquino. Assim, mudaram-
se para Nova York logo após o casamento. 
Durante os próximos anos, Heschel produziria as obras mais importantes 
de sua vida. Em 1951, escreveu Man is Not Alone e The Sabbath; em 1952, God 
in Search of Man e em 1954, Man’s Quest for God. A maneira como ele expressou 
a espiritualidade do hassidismo e a vida judaica do leste europeu nesta época 
constituiu um desafio em relação às categorias convencionais usadas pelos 
cientistas da religião na América pós-guerra, no que se refere à interpretação da 
experiência religiosa. 
Os eruditos da religião acabavam por reduzir a experiência religiosa a uma 
experiência de devoção psicológica, ou, muitas vezes, criticavam-na como um 
fenômeno irracional e improdutivo. Sustentando uma posição contrária, Heschel 
não concebia que a religião fosse pensada em termos do racionalismo, mas sim, 
que deveria ser descrita em seus próprios termos. Ele atribuía à experiência 
religiosa a qualidade de um ato, de um modo de pensar em que a pessoa devota 
sente que Deus está próximo, sente a presença de Deus e tem consciência disto. 
A afinidade da pessoa devota com Deus seria sua persistente aspiração para ir 
além de si mesmo, na busca por contribuir com a dimensão divina. 
Heschel também criticava a concepção objetiva da religião, em que se 
caracterizava o evento religioso como restrito a um determinado tempo ou a uma 
resposta a uma crise social; por exemplo, ao risco de ruptura da coletividade: 
reza-se para manter a coesão social. Ele pensava que estas abordagens do 
conceito de religião dariam conta de descrever o que seriam os efeitos e as 
conseqüências do fenômeno religioso, mas não tratavam dele em si. A religião 
não era contemplada em termos do que ela significava. Para Heschel36, a religião 
é, sobretudo, a sagrada dimensão da existência que está presente, sendo ou não 
percebida por nós. 
 
36 Cf. Alexandre LEONE, A imagem divina e o pó da terra, p. 47. 
 33
Foi no começo dos anos 1960 que ele passou a participar ativamente de 
movimentos sociais, tornando-se um ativista político de grande importância nos 
Estados Unidos. Em uma entrevista relatada por sua filha, Heschel explica que foi 
em uma revisão de sua dissertação sobre os profetas para uma edição americana, 
que ele se convenceu de que deveria estar envolvido concretamente nas questões 
do sofrimento humano. 
Em 1963, ele encontrou pela primeira vez Martin Luther King, em uma 
conferência nacional de cristãos e de judeus, onde se tornam amigos. A partir de 
então, Heschel passa a se envolver ativamente na questão dos direitos civis 
nos Estados Unidos, escrevendo, ministrando palestras e fazendo manifestações. 
Em março de 1965, ele participou da famosa marcha pelos direitos civis dos 
negros, ao lado de Luther King, em Selma, no Alabama. Era um dos líderes que 
marchavam na primeira fila de manifestantes. Pouco antes de iniciarem o 
percurso, foi realizada uma missa em uma capela, onde Heschel leu o salmo 27: 
”O Eterno é a luz que me guia e a fonte de minha salvação; a quem então 
temerei?”37. King realizou um sermão em que descreveu três tipologias entre as 
crianças de Israel e o deserto. Para esse judeu, a marcha foi um momento 
religioso, em que ele sentiu a consciência do Sagrado. Depois da experiência, 
ressentiu-se por perceber que muitos ativistas judeus participavam de 
manifestações sem estarem conscientes da tradição profética que esses atos 
realizavam. 
Um comentário de Heschel sobre a marcha se tornou célebre: ”Quando 
marchei com Martin Luther King em Selma, Alabama, senti que minhas pernas 
rezavam” 38. Para ele, a ação política em defesa dos direitos civis era um ato 
religioso, uma prece pronunciada com fervoroso compromisso com a humanidade. 
Para ele, as pessoas religiosas deveriam participar da luta pelo triunfo do espírito 
contra a blasfêmia religiosa do preconceito racial. Em abril de 1968, King foi 
convidado a compartilhar com a família Heschel o Sêder de Pessach, mas antes 
desta data foi assassinado. 
 
37 Abraham Joshua HESCHEL, O último dos profetas, p. 25. 
38 Marshal T. MEYER, In Memorian, In: Abraham Joshua HESCHEL, O último dos profetas, p. 2. 
 34
A partir de sua participação nessa manifestação, este religioso judeu 
passou a despertar a atenção do público norte-americano, tornando-se a figura 
mais conhecida naqueles domínios. Tornou-se um líder simbólico, como diz 
Leone39, que passou a inspirar a ação de negros e brancos, judeus e cristãos, 
românticos e esquerdistas e da juventude universitária daquela época. Alguns 
depoimentos, a favor do ativismo político de religiosos e das causas humanitárias 
eram escritos e pronunciados com uma linguagem emocionada, que tinha a 
finalidade de levar a experiência do pathos divino e inspirar a ação nos ouvintes e 
nos leitores. Em uma conferência nacional de religiões e de raças, em 1963, ele 
comparou a saída dos judeus do Egito e sua passagem pelo Mar Vermelho com a 
restrição da entrada dos negros nas universidades americanas, qualificando a 
segunda tarefa como ainda mais difícil que a primeira. 
Heschel também trabalhou muito para o fim das restrições dos direitos 
culturais sofridas pelos judeus que moravam na União Soviética. Eles eram os 
últimos representantes do judaísmo do leste europeu, aquele que Heschel tanto 
queria preservar. Esta questão e a dos direitos civis dos negros eram tratadas sob 
o ponto de vista da desumanização e da profanação da pessoa humana, processo 
radical existente nas sociedades modernas, contra o qual os religiosos deveriam 
se posicionar de forma comprometida. 
Outra grande causa defendida por Heschel, nos anos 1960, foi a luta contra 
a guerra do Vietnã. Juntamente com Martin Luther King, ele participou do 
movimento pacifista que envolveu todo o país. Heschel ocupava o lugar de um 
ombudsman moral, que questionava e criticava o assassinato injustificado de civis 
vietnamitas, tendo uma posição de autoridade suficiente para que fosse ouvido por 
toda a sociedade, até pelo congresso e pelo presidente americano. Quanto aos 
capelães militares, Heschel proferiu duras críticas, acusando-os de hipocrisia 
religiosa e de indiferença humana. Estas posições são radicalmente contrárias à 
concepção religiosa hescheliana, que afirma que a tarefa do religioso na 
sociedade moderna é a de denunciar e de se levantar contra a injustiça, em nome 
 
39 Cf. Alexandre LEONE, A imagem divina e o pó da terra, p.197. 
 
 35
da reverência a Deus e à sua imagem no mundo – a do ser humano. A fé no 
contexto da civilização moderna é um chamado para a ação. 
Ao interpretar de maneira religiosa