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WL-OO-Apostila-01-Direito Administrativo-04

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Sem a conjunção desses elementos não há 
autarquia. Pode haver ente paraestatal, com maior ou menor delegação do Estado, para a 
realização de obras, atividades ou serviços de interesse coletivo. Não, porém, autarquia. 
 A autarquia não age por delegação; age por direito próprio e com 
autoridade pública, na medida do jus imperii que lhe foi outorgado pela lei que a criou. 
Como pessoa jurídica de Direito Público Interno, a autarquia traz ínsita, para a consecução 
de seus fins, uma parcela do poder estatal que lhe deu vida. Sendo um ente autônomo, não 
há subordinação hierárquica da autarquia para com a entidade estatal a que pertence, 
porque, se isto ocorresse, anularia seu caráter autárquico. Há mera vinculação à entidade-
matriz, que, por isso, passa a exercer um controle legal, expresso no poder de correção 
finalística do serviço autárquico. 
 A autarquia, sendo um prolongamento do Poder Público, uma longa 
manus do Estado, deve executar serviços próprios do Estado, em condições idênticas às do 
Estado, com os mesmos privilégios da Administração-matriz e passíveis dos mesmos 
controles dos atos administrativos. O que diversifica a autarquia do Estado são os métodos 
operacionais de seus serviços, mais especializados e mais flexíveis que os da 
Administração centralizada. 
 Embora identificada com o Estado, a autarquia não é entidade estatal; 
é simples desmembramento administrativo do Poder Público. E, assim sendo, pode 
diversificar-se das repartições públicas para adaptar-se às exigências específicas dos 
serviços que lhe são cometidos. Para tanto, assume as mais variadas formas e rege-se por 
estatutos peculiares à sua desatinação. Essa necessidade de adaptação dos meios aos fins é 
que justifica a criação de autarquias, com estrutura adequada à prestação de determinados 
serviços públicos especializados. 
 A instituição das autarquias, ou seja, sua criação, faz-se por lei 
específica (art. 37, XIX), mas a organização se opera por decreto, que aprova o 
regulamento ou estatuto da entidade, e daí por diante sua implantação se completa por atos 
da diretoria, na forma regulamentar ou estatutária, independentemente de quaisquer 
registros públicos. 
 O patrimônio inicial das autarquias é formado com a transferência de 
bens móveis e imóveis da entidade matriz, os quais se incorporam ao ativo da nova pessoa 
jurídica. A transferência de imóveis ou é feita diretamente pela lei instituidora, caso em que 
dispensa transcrição, ou a lei apenas autoriza a incorporação, a qual se efetivará por termo 
administrativo ou por escritura pública, para a necessária transcrição no registro imobiliário 
competente. O que não se admite é a transferência de bens imóveis por decreto ou qualquer 
outro ato administrativo unilateral. 
 Os bens e rendas das autarquias são considerados patrimônio público, 
mas com destinação especial e administração própria da entidade a que foram incorporados, 
para realização dos objetivos legais e estatutários. Daí por que podem ser utilizados, 
onerados e alienados, para os fins da instituição, na forma regulamentar ou estatutária, 
independentemente de autorização legislativa especial, porque essa autorização está 
implícita na lei que a criou e outorgou-lhe os serviços com os conseqüentes poderes para 
bem executá-los. Por essa razão, os atos lesivos ao patrimônio autárquico são passíveis de 
anulação por ação popular (Lei 4.717/65, art. 1º). Por idêntico motivo, extinguindo-se a 
autarquia, todo o seu patrimônio reincorpora-se no da entidade estatal que a criou (v. cap. 
VIII, item I). 
 O orçamento das autarquias é formalmente idêntico ao das entidades 
estatais, com as peculiaridades indicadas nos arts. 107 a 110 da Lei 4.320/64 e adequação 
ao disposto no art. 165, § 5º, da CF. 
 Os dirigentes das autarquias são investidos nos respectivos cargos na 
forma que a lei ou seu estatuto estabelecer. 
 Os atos dos dirigentes das autarquias equiparam-se aos atos 
administrativos e, por isso, devem observar os mesmos requisitos para sua expedição, com 
atendimento específico das normas regulamentares e estatutárias da instituição, sujeitando-
se aos controles internos e ao exame de legalidade pelo Judiciário, pelas vias comuns 
(ações ordinárias) ou especiais (mandado de segurança e ação popular). 
 Os contratos das autarquias estão sujeitos a licitação por expressa 
determinação do art. 1º do Dec.-lei 2.300/86 e do art. 37, XXI, da CF, sendo nulos os que 
não a realizarem ou fraudarem o procedimento licitatório (Lei 4.717/65, arts. 1º e 4º, I1I, IV 
e V). Tratando-se de obras ou serviços de Engenharia de interesse de autarquia federal, a 
licitação e o contrato deverão atender, também, ao regulamento aprovado pelo Dec. 
73.140/73 no que não contrariar o Dec.-lei 2.300/86. 
 O pessoal das autarquias está sujeito ao regime jurídico único da 
entidade-matriz, como dispõe o art. 39, caput, da CF. As proibições de acumulação 
remunerada de cargos, empregos e funções atingem também os servidores das autarquias, 
nos expressos termos dos incs. XVI e XVII do art. 37 da CF. Por outro lado, para efeitos 
criminais (CP, art. 327), os servidores e dirigentes de autarquias igualam-se a funcionários 
públicos, na terminologia dessa norma, que ainda se refere a “funcionários públicos” 
quando, hoje, são todos “servidores públicos”. Para as sanções decorrentes de atos de 
improbidade administrativa, são agentes públicos (Lei 8.429/92, art. 2º). 
 Se, não obstante, a autarquia dedicar-se à exploração de atividade 
econômica, impõe-se-lhe, por força do art. 173, § 1º, da CF, nas relações de trabalho com 
os seus empregados, o mesmo regime das empresas privadas (cf. STF, Pleno, ADIn 83-7-
DF, DJU 18.10.92). 
 As autarquias brasileiras nascem com os privilégios administrativos 
(não políticos) da entidade estatal que as institui, auferindo também as vantagens tributárias 
e as prerrogativas processuais da Fazenda Pública, além dos que lhe forem outorgados por 
lei especial, como necessários ao bom desempenho das atribuições da instituição. 
 Os privilégios das autarquias em geral são os seguintes: imunidade de 
impostos sobre seu patrimônio, renda e serviços vinculados às suas finalidades essenciais 
ou delas decorrentes (CF, art. 150, § 2º); prescrição qüinqüenal de suas dívidas passivas 
(Dec.-lei 4.597, de 19.8.42); execução fiscal de seus créditos inscritos (CPC, art. 578); ação 
regressiva contra seus servidores culpados por danos a terceiros (CF, art. 37, § 6º); 
impenhorabilidade de seus bens e rendas (CF, art. 100 e §§); impossibilidade de usucapião 
de seus bens imóveis (Dec.-lei 9.760, de 5.9.46, art. 200); recurso de ofício nas sentenças 
que julgarem improcedente a execução de seus créditos fiscais (CPC, art. 475, III – STF 
Súmula 620); prazo em quádruplo para contestar e em dobro para recorrer (CPC, art. 188, e 
Dec.-lei 7.659, de 21.6.45); pagamento de custas só a final, quando vencidas (CPC, art. 27); 
juízo privativo da entidade estatal a que pertencem (CF, art. 109, I); ampliação do prazo 
para desocupação de prédio locado para seus serviços, quando decretado o despejo (Lei 
8.245, de 18.10.91, art. 63, § 3º); não sujeição a concurso de credores ou a habilitação de 
crédito em falência, concordata ou inventário, para cobrança de seus créditos, salvo para o 
estabelecimento de preferência entre as três Fazendas Públicas (CC, art. 1.571); retomada 
dos bens havidos ilicitamente por seus servidores (Lei 8.429/92); impedimento de 
acumulação de cargos, empregos e funções para seus servidores (CF, art. 37, XVI e XVII); 
dispensa de exibição de instrumento de mandato em juízo, pelos procuradores de seu 
quadro, para os atos ad judicia. 
 As autarquias não se igualam às entidades estatais, nem se sobrepõem 
a qualquer delas em direitos ou poderes públicos, ainda que pertençam a uma entidade 
político-administrativa de grau superior. 
 Entre as autarquias deve ser observada a mesma precedência federal, 
estadual ou municipal caso concorram seus interesses