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sistema de Gestão e Planejamento AMBIENTAL

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da percepção do ambiente pelo ser humano que se pretende identificar como 
homens e mulheres veem e classificam seus ambientes, como se colocam nos ambientes que 
criam, e que referências usam para escolher tais ambientes. Nossa mente organiza e repre-
senta essa realidade percebida por meio de esquemas perceptivos e imagens mentais, com 
atributos específicos (DEL RIO e OLIVEIRA, 1999) e que servem para avaliar a qualidade dos 
ambientes (PILOTTO, 2003). Uma imagem é uma representação internalizada do ambiente, 
por meio da experiência, e incorpora ideais, isto é, a avaliação da qualidade ambiental traz 
a organização do meio ambiente como o resultado da aplicação de conjuntos de regras que 
refletem de diferentes concepções de qualidade ambiental (OJEDA, 1995). Além disso, é pela 
percepção que o ser humano estrutura sua representação cognitiva do ambiente. 
De acordo com Del Rio e Oliveira (1999) a percepção consiste em trocas funcionais do 
indivíduo com o meio exterior, as quais têm dois aspectos: cognitivo e o afetivo. O primeiro 
ocorre paralelamente, quando o indivíduo conhece o mundo exterior e começa a ter senti-
mentos em relação a ele e o segundo é a energia do sistema. Para Ojeda (1995) é cada vez 
mais necessário considerar os costumes cognitivos com a finalidade de entender a manei-
ra pela qual o meio ambiente é conhecido e estruturado pelos indivíduos e pela socieda-
de. As pessoas, como organismos ativos, adaptativos e procuradores de objetivos ou fins, 
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(paisagem, sociedade e ambiente)
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estruturam o mundo a partir de três fatores: o organismo, o meio ambiente e o meio cultural, 
os quais se relacionam para formar representações cognitivas. 
Segundo este mesmo autor, existem dois significados diferentes do termo cognição am-
biental; um é psicológico, o outro antropológico, sendo que o primeiro ressalta o conheci-
mento do meio ambiente, enquanto que o antropológico afirma que os processos cognitivos 
convertem o mundo em algo significativo. Decifrar e valorizar os costumes cognitivos das 
paisagens deveria ser uma ferramenta indispensável na gestão dos espaços, sejam eles pú-
blicos ou privados, a partir do momento que identifica não somente os diferentes ideários 
na busca da qualidade ambiental como também os saberes e significados socioambientais 
específicos das inter-relações evolutivas entre natureza e populações locais.
Dentro dessa dinâmica insere-se a questão paisagística, incluindo-se a necessidade de 
investigar o significado das diversas expressões do verde dentro das diferentes culturas. O 
verde existe como objeto dado no mundo e como idealização. Por exemplo, ao se projetar 
áreas verdes, como nas áreas protegidas, navega-se, portanto, na semiótica de significantes e 
significados, não como elementos isolados, mas como partes de um todo em que, aquele que 
habita, é indissociável do espaço onde exerce sua autopoiesis1 (MATURANA e VARELLA, 
1980). A paisagem está presente em cada situação da história dos seres humanos, traçando 
uma relação vital para ambos, em que as pessoas necessitam da paisagem que ordena os 
serviços ambientais que a natureza oferece e esta depende das ações e percepções, ideias e 
ações das pessoas (DEL RIO e OLIVEIRA, 1999). 
Além disso, o ser humano, assim como os organismos, impõe uma ordem espacial, social 
e temporal diferentes, porém relacionadas entre si, já que têm de coexistir na trama espa-
ço-temporal de um mesmo mundo, e porque todas as ordenações se apoiam nos mesmos 
processos de aprendizagem, memória, identidade, localização e orientação (PILOTTO, 1997).
Este tipo de estudo de percepção ambiental tem se tornado uma ferramenta importante 
para o desenvolvimento de processos educadores e participativos, pois, segundo Pilotto 
(1997, p. 30),
a percepção ambiental é, pois, a experiência sensitiva mais direta e imediata do 
meio ambiente, e, ainda que afetada pela memória e cognição, é muito indepen-
dente. A percepção sempre se relaciona com a ação, pelo que tem de envolvente, 
participativa e relacionada com a motivação e o significado.
Para Del Rio (1999), nosso cotidiano se conforma e se realiza por meio da percepção de 
paisagens, num amálgama entre realidade e imaginário. O ser humano age e reage de acor-
do com a maneira que percebe seu entorno, e que a percepção ambiental tem se mostrado 
cada vez mais útil como instrumento de análise da atuação antrópica sobre a paisagem. A 
partir do paradigma de que só percebemos o que conseguimos interpretar, a legibilidade 
1 Autopoiese ou autopoiesis (do grego auto “próprio”, poiesis “criação”) é um termo criado na década 
de 1970 pelos biólogos e filósofos chilenos Francisco Varela e Humberto Maturana para designar a ca-
pacidade dos seres vivos de produzirem a si próprios. Segundo esta teoria, um ser vivo é um sistema 
autopoiético, caracterizado como uma rede fechada de produções moleculares (processos) em que as 
moléculas produzidas geram com suas interações a mesma rede de moléculas que as produziu.
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da paisagem evidencia-se quando fragmentos da realidade são retidos para a observação 
atenta, permitindo a qualificação do ambiente e sua interpretação (PELLEGRINO, 1996). 
Portanto, é do ponto de vista da percepção, da forma como o ser humano percebe e 
interage com o meio ambiente, em função de influências históricas e culturais, que se pode 
avaliar as necessidades e anseios da população e fornecer aos órgãos dirigentes orientações 
mais adequadas para as decisões em nível político, socioeconômico e de desenvolvimento, 
seja rural, urbano ou regional.
1.2 A paisagem no contexto da 
percepção ambiental e sociedade
A paisagem é uma unidade heterogênea, composta por um complexo de unidades in-
terativas (ecossistemas, unidades de vegetação ou de uso e ocupação das terras), cuja estru-
tura pode ser definida pela área, forma e disposição espacial (por exemplo, uma paisagem 
urbana de uma pequena cidade e de uma grande cidade) desta unidade. A estrutura da 
paisagem interfere na dinâmica de populações, em suas culturas e representações sociais e 
também as formas de como se deslocam e relacionam.
O renomado geógrafo Milton Santos (1985, p. 61), define que a paisagem é “tudo aquilo 
que nós vemos, o que nossa visão alcança. Esta pode ser definida como o domínio do visível, 
aquilo que a vista abarca. Não é formada apenas de volumes, mas também de cores, movi-
mentos, odores, sons etc.”.
Ainda o mesmo autor discorre que a dimensão da paisagem vai até onde as pessoas 
conseguem perceber com seus ouvidos, seu cheiro, sua visão, e sensações, sendo, portanto, 
até onde as sensações conseguem chegar e desenhar os limites da paisagem. Assim, a com-
preensão cognitiva possui relevância na formatação e definição dos limites da paisagem e 
o que é a paisagem para o indivíduo conforme sua percepção. Desta forma, a história de 
vida das pessoas, que são em grande parte formatadas pelos processos educativos, formais 
e informais podem e devem gerar heterogeneidade entre si sob a visão para o mesmo fato.
Uma pessoa que mora no campo desde pequena e sua paisagem é diversificada com la-
vouras agrícolas, florestas, rios e outras pessoas também morando no campo e se relacionan-
do tanto em atividades de produção agrícola como de lazer, tem uma percepção diferente 
de outra pessoa que mora na cidade desde pequena e tem a paisagem urbana como referen-
cial. Se pedirmos para a pessoa do campo andar pelo ambiente urbano e descrever as suas 
percepções, ela vai apontar situações diferentes da pessoa que vive na cidade. Da mesma 
forma, o contrário é verdadeiro. Talvez essa pessoa da cidade que observa o campo não verá 
detalhes que o morador do campo verá como, por exemplo, uma revoada de andorinhas, 
uma árvore frutífera em flores e que logo dará frutos, um pequeno riacho ou nascente etc.
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