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RESUMO - CASO 5
Histeria 
Com Breuer, Freud descobre, antes de mais nada, que há um vínculo simbólico entre o sintoma somático e sua causa, isto é, um traumatismo de ordem psíquica. Trata-se de fato de algum afeto penoso que, provocado por um ou vários acontecimentos, persistiu inalterado por não ter encontrado sua solução por uma resposta adaptada, em razão de um recalcamento. Assim é que o histérico sofre de reminiscências inconscientes, ligadas a um afeto insuportável. Seu efeito somático que é o sintoma como retorno do recalcado. 
Ao ir além de Breuer, Freud descobre que esse traumatismo psíquico, causa da histeria, é uma experiência sexual prematura que surpreendeu o sujeito. De fato, esta não foi desejada, mas sofrida em decorrência de uma intervenção sedutora de um adulto (na maioria das vezes o pai) junto à criança. A histeria era, portanto, uma reação a posteriori à sexualidade enquanto "perversão recusada". O sintoma é o próprio signo desse conflito.
A partir de 1897, Freud descobre que a criança tem uma sexualidade e que os relatos posteriores de sedução pelo pai ocorrem no lugar das lembranças recalcadas de uma atividade sexual própria. Mas os sintomas ainda são o retorno do recalcado. A histeria não passa, portanto, de um caso entre outros desse fenômeno geral que é o infantilismo da sexualidade humana e das fantasias de desejo edipiano (incesto e parricídio). Esse infantilismo decorre do fato de que a sexualidade é traumática em si mesma, e não por acidente. De fato, não há nenhuma iniciação humana à sexualidade. 
Em 1900, Freud modifica sua teoria sobre a histeria e determina que sua origem é uma fantasia inconsciente, e não mais uma representação. Ou seja, já não é mais necessário descobrir um evento traumático real na história do paciente, que explicaria o aparecimento do sintoma de conversão. A representação dolorosa já não precisava surgir de uma sedução longínqua, praticada por um adulto. Bastava, agora, pensar em nossa infância, imaginar o desenvolvimento de nosso corpo pulsional e compreender que cada experiência vivida quando éramos crianças, no nível das diferentes zonas erógenas (boca, ânus, músculos, pele, olhos) tinha o valor exato de um trauma. Sem ter que sofrer uma experiência traumática real (desencadeada por um agente externo), o próprio corpo infantil, ao longo de sua maturação sexual, seria a sede natural da eclosão espontânea e violenta de uma tensão excessiva, denominada desejo. 
Formação dos Sintomas
O sujeito histérico apresenta uma inclinação favorável aos sintomas de conversão, se caracterizaria também pela predominância da formação de sintomas fóbicos mais frequentemente conjugados com estados de angústia.
Freud diz: "Os sintomas histéricos não são nada além de fantasias inconscientes que encontram, por conversão, uma forma figurada". Os sintomas histéricos se dão no corpo por conta do deslocamento do afeto que está ligado à representação para o corpo: se inicia com o recalcamento do trauma advindo do tabu do incesto, ou seja, a ideia é recalcada, mas o afeto associado a ela não, então, no histérico, ele é convertido no corpo, pois essa é a maneira que tal pessoa encontra de suportar esse excesso de afeto.
A histeria procura substituir os órgãos genitais por outros órgãos, que passam a se comportar como órgãos genitais substitutos, órgãos que, além de sua função normal, desempenhariam também um papel sexual, erógeno, que às vezes se torna dominante.
O corpo sofre por se dividir na parte genital, anestesiada e atingida por fortes inibições sexuais (ejaculação precoce, frigidez, impotência, aversão sexual etc.) e todo o resto não-genital do corpo, que, paradoxalmente, aparece muito erotizado e sujeito a excitações sexuais permanentes.
Neurose geralmente latente que, na maioria das vezes, eclode por ocasião de acontecimentos marcantes ou em períodos críticos da vida de um sujeito. Essa neurose se manifesta sob a forma de distúrbios diversificados e com frequência passageiros, dentre os quais os mais clássicos são sintomas somáticos como perturbações da motricidade (contraturas musculares, dificuldades da marcha, paralisias dos membros, paralisias faciais etc.), os distúrbios da sensibilidade (dores localizadas, enxaquecas, anestesias de uma região limitada do corpo e etc.), e os distúrbios sensoriais (cegueira, surdez, afonia etc.). Outros sintomas também encontrados vão desde as insônias e desmaios até alterações na consciência, da memória ou da inteligência (ausências, amnésias etc.), chegando a estados graves de pesudocoma. Todos esses sintomas se caracterizam, em sua maioria, por serem transitórios, não resultarem de nenhuma causa orgânica e, em sua localização corporal, não obedecerem a nenhuma lei da anatomia ou da fisiologia do corpo. 
Dialética ou lógica fálica
A passagem do ser ao ter é um acontecimento geral da dialética edipiana, trata-se de uma dimensão que intervém no horizonte de todos os processos de organização psíquica. Entretanto, o que é representativo da estrutura histérica é o modo estereotipado de se encarregar do jogo constituído por esta problemática do ter, os pontos de cristalização em que a lógica fálica do histérico inflete se fixam em torno da problemática do ter e do seu correlato não ter. 
A passagem do ser ao ter é determinada principalmente pela intrusão paterna. O pai imaginário aí se manifesta intervindo especificamente como pai privador e frustrador, aparece à criança como um pai proibidor. Enquanto o pai privador arranca a questão do desejo da criança da dimensão do ser (ser o falo da mãe), este pai conduz inevitavelmente a criança para o registro da castração.
Esse pressentimento da castração é aquilo através do que a criança descobre não ser, não só o falo, mas também não o ter, à exemplo da mãe. 
O jogo histérico é a questão desse "passo a dar" na assunção da conquista do falo. O histérico interroga e contesta infatigavelmente a atribuição fálica numa oscilação em torno desta "alguma coisa" que vai se desenvolver sob o fundo de uma indeterminação entre duas opções psíquicas: de um lado, o pai tem, de direito, o falo, e é por esta razão que a mãe o deseja junto a ele; por outro lado o pai só o tem por dele privar a mãe. É sobretudo esta última opção que alimentará a colocação a prova constante mantida pelo histérico com relação à atribuição fálica. Nesta reivindicação do ter, identificam-se alguns dos traços mais notáveis da histeria. 
A histeria se inscreve numa dinâmica de apropriar-se do atributo fálico de que o sujeito se estima injustamente desprovido.
Traços estruturais da histeria
Dentre as estruturas existentes na psicanálise, a histeria se localiza na neurose, sendo uma das três neuroses clássicas (histérica, obsessiva e fóbica), que podem se definir segundo o modo particular que o eu tem de se defender, ou seja, existem três maneiras de lutar contra o gozo inconsciente intolerável, e, por conseguinte, três modos diferentes de viver a própria neurose. Sofrer segundo o modo histérico é sofrer conscientemente no corpo, ou seja, converter o gozo inconsciente e intolerável num sofrimento corporal. O histérico demanda do Outro, pois ele sempre supõe que este detém a resposta ao seu enigma. E ao colocar esse Outro na posição de saber, fica desafiando ele. 
· Alienação subjetiva do histérico em sua relação com o desejo do Outro
Se, fundamentalmente, o objeto do desejo edipiano, o falo, é aquilo de que o histérico se sente injustamente privado, ele não pode delegar a questão de seu desejo a não ser àquele que é suposto tê-lo. Neste sentido, o histérico interroga seu desejo junto ao Outro, que é sempre suposto deter a resposta ao enigma da origem e do processo do desejo em questão, que lhe trará a solução para sua questão. O outro serve de suporte privilegiado aos mecanismos identificatórios.
	Sujeitos histéricos fazem uma abstração de todas as manifestações pessoais com o único fim de reforçar as de seu parceiro. Estes histéricos se colocam em cena, de preferência, como os defensores incondicionais das ideias, dasconvicções, das opções do outro.
· Dimensão do dado a ver
O histérico se coloca a serviço do Outro como uma forma de mostrar a si mesmo através dele, pela realização do desejo do outro ele tira um pouco de prazer nisso, uma “solidariedade egoísta”. O histérico é o militante do desejo do outro. Colocar-se a serviço do outro é sempre tentar mostrar-se a si mesmo através deste e, assim, beneficiar-se de seu "esplendor". Um tal modo de dependência traduz sempre o fato de abdicar alguma coisa de seu próprio desejo em benefício de um outro. Trata-se portanto de uma captura, que é dupla: encantar-se a si próprio na expressão de seu desejo, mas igualmente emboscar o outro com ele se confundindo e fazendo valer sem cessar o desejo que se crê ser o seu. Para agradar e tentar preencher o que ele imagina ser o prazer do outro, o histérico se engajará de bom grado na cruzada da abnegação sacrificial. 
· Pela falta do ter, o histérico vai privilegiar sua identificação com o ser
Em todo sujeito histérico persistem os vestígios de um queixa arcaica que se desenvolve sobre o fundo de uma reivindicação de amor concernente à mãe. De fato, o histérico se viu frequentemente como não tendo sido amado o bastante pelo Outro, como não tendo recebido todas as provas de amor esperadas da mãe. O histérico investe-se assim, nesta frustração, como um objeto desvalorizado e incompleto, ou seja, como um objeto irrisório para o desejo da mãe face ao que poderia ser, pelo contrário, um objeto completo e ideal: o falo. A identidade do histérico é sempre insatisfatória, frágil, ou, dito de outra forma, parcial, em relação a uma identidade plenamente realizada, ou seja, ideal. Assim, o sujeito histérico trata-se de tentar tornar-se o objeto ideal do Outro que ele supõe jamais ter sido.
· Insatisfação permanente
Ele permanece insatisfeito, pois ainda fica entre o ter e não ter o falo - “eu deveria ter um falo e não tenho porque você me privou, você é um carrasco”. O histérico impõe no outro a fantasia inconsciente de insatisfação permanente, sempre faltoso, sempre reclamando, sempre querendo se distanciar da satisfação. 
Deseja, sobretudo, que seu desejo permaneça insatisfeito. O histérico sempre foge do falo apesar de querer tê-lo. É como se ao se deixar entrar num estado de satisfação o histérico seria eliminado, culminaria em sua morte. Para manter seu desejo, o sujeito esforça-se por jamais lhe dar um objeto substituto possível, a fim de que a insatisfação que daí resulta remobilize o desejo nesta aspiração rumo a um ideal de ser.
Aquilo que o histérico persegue é, antes de tudo, ordenado por esta identificação com o objeto ideal do desejo do Outro, podemos daí concluir que todos seus esforços são então colocados a serviço da identificação fálica.
· Posição de semblante/narcisismo fálico
O histérico se oferece ao olhar do Outro como encarnação do objeto ideal de seu desejo, se mostra de uma forma sedutora, sensual, flertante. É preciso fazer desejar o outro, fazer-lhe desejar este objeto fascinante que se dá a ver como o objeto que poderia preencher sua falta. Enquanto o outro corre atrás de tal objeto, o histérico pode assim manter o fantasma de sua identificação fálica. 
A partir do momento em que o outro deixa de apenas "correr" e põe a prova o desejo o histérico foge, dispensando-o de forma clara e devida. Os histéricos têm, com efeito, um grande domínio do "fim de não receber". O histérico demanda uma resposta, mas na hora que o Outro é capturado, ele se afasta.

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