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Alimentação e cultura p nutri

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palavras.
Figura 1. Criança com uma pequena enxada removendo a terra. Fonte: imagem ex-
traída do documentário “Despossuídos” (Mathieu Roy) de 2017.
Outras referências em língua portuguesa 
para continuar a leitura
Silva I, Pais-Ribeiro J, Cardoso H. 2008. Porque comemos o 
que comemos: Determinantes psicossociais da selecção alimen-
tar. Psicologia, saúde e doenças, 9:189-208. 
27 ALIMENTAÇÃO E CULTURA PARA NUTRIÇÃO
2. A dieta define 
quem somos?
Objetivo da aula
Compreender como a dieta pode atuar como fator modulador 
na evolução biocultural.
Sequência pedagógica 
• Leia a “Fundamentação”.
• Revise os “Pontos-chave”.
• Responda ao “Exercício”.
Fundamentação 
Quando estudamos os fatores que condicionam nossa escolha 
alimentar é difícil demarcar características herdadas apenas pelos 
genes ou apenas pela cultura, visto que o desenvolvimento de cada as-
pecto daquilo que nos torna humano depende de uma mistura com-
plexa de fatores. Pense que se por um lado os fatores culturais regu-
lam de diversas formas nosso acesso aos alimentos, por outro, o que 
comemos tem consequências biológicas. Por exemplo, a introdução 
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da agricultura de corte e queima para o cultivo de inhame na África 
Ocidental criou um terreno fértil para o mosquito Anopheles, um 
vetor da malária. À medida que os mosquitos proliferavam no meio 
ambiente, a malária se tornou endêmica e criou uma pressão de sele-
ção para a mutação falciforme, que fornece uma vantagem protetora 
para os humanos contra a malária (Armelagos 2014). A resposta bio-
lógica à prática cultural do cultivo do inhame foi a seleção dos indiví-
duos com anemia falciforme. Neste exemplo temos um traço cultural 
(mudança no sistema de cultivo) que provocou uma mudança bio-
lógica (seleção da população com anemia falciforme). Se você com-
preendeu esse exemplo, você já entendeu do que se trata a abordagem 
biocultural na análise de dietas: ela tenta assimilar, pelo recorte das 
dietas, como os genes e a cultura interferem de forma simultânea na 
evolução da espécie humana.
Como a complexidade dos problemas não deve ser justificati-
va para que não tentemos abordá-los, nesta aula iremos reduzir pas-
so-a-passo esses níveis de complexidade para que você possa enten-
der como a evolução gene-cultura (i.e., evolução biocultural) pode 
ser modulada pelas dietas. Para isso, iremos (1) definir o que é evo-
lução, (2) fornecer dois exemplos clássicos de evolução gene-cultura 
com foco em dietas e, por fim, (3) discutir algumas das implicações 
desse debate gene-cultura para o campo de estudos denominado hoje 
de “nutrigenômica”.
1) O que é evolução? 
A teoria da evolução por seleção natural, formulada por 
Charles Darwin em A origem das espécies em 1859, postulou que 
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todas as criaturas vivas na terra descendem de um único ancestral 
comum e que a seleção natural é o processo pelo qual os organismos 
mudam ao longo do tempo (ex.: alterações hereditárias físicas ou 
comportamentais) (Darwin 2014). As mudanças que permitem que 
um organismo se adapte melhor ao seu ambiente o ajudarão a so-
breviver e a ter mais descendentes. Assim, os pontos centrais dessa 
teoria podem ser resumidos em: (1) toda forma de vida na terra está 
conectada e descende de um único ancestral comum (uma célula 
primordial com mais de 3,7 bilhões de anos) e (2) a diversidade da 
vida é produto de modificações populacionais, fruto da seleção na-
tural, que favorece alguns traços em detrimento de outros. 
A teoria da evolução por vezes é descrita de forma incorre-
ta como a “sobrevivência do mais apto” ou ainda como progresso. 
Essa leitura é equivocada, visto que a aptidão na teoria descrita por 
Darwin não se refere à capacidade atlética de um indivíduo ou or-
ganismo, mas sim à capacidade de populações sobreviverem e se re-
produzirem em determinado ambiente (Than 2018). Por exemplo, 
estudos com tentilhões (um tipo de ave) em Galápagos mostraram 
que durante um ano em que as aves enfrentaram uma seca prolon-
gada – que gerou uma intensa escassez de alimentos – os animais 
capazes de comer sementes grande e duras, ou seja, os com bico 
maior, sobreviveram melhor (Weiner 1994). A escassez de alimen-
tos, neste caso, funcionou como uma pressão seletiva sobre a popu-
lação de tentilhões. Essa pressão foi tão intensa que apenas 15% da 
população, formada pelas aves de bico mais resistente, sobreviveu. 
As mudanças selecionadas foram transmitidas para prole, ou seja, 
para a descendência. Como resultado, em um intervalo de poucos 
anos a população de tentilhões de bico grande havia sido seleciona-
da e dominava o cenário. Por isso, muitos defendem (corretamente) 
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que a teoria da evolução possa ser resumida à ideia de “modifica-
ção com descendência”. A comunidade de tentilhões com bico duro 
não era melhor que a anterior por si mesma, ela apenas se adaptou 
melhor ao ambiente naquele momento. É tanto que com o fim da 
seca, e com o restabelecimento da vegetação anterior, em 15 anos a 
população de aves com bicos menores voltou a aparecer. Lembre-se: 
evolução tem a ver com adaptação e não com progresso. 
Partindo do caso dos tentilhões é possível explicar as premis-
sas necessárias para que a seleção natural entre em cena: variação, 
seleção e reprodução. Primeiro, a variação ocorre em decorrência de 
processos naturais (ex.: reprodução, mutação) do próprio organismo 
ou por exposição a fatores externos (ex.: fatores ambientais). Como 
resultado, no nosso exemplo, tínhamos tentilhões com tamanhos 
diferentes de bicos. Segundo, as variações precisam ser selecionadas. 
As aves foram selecionadas devido a alterações ambientais: a seca 
selecionou aquelas aptas a consumirem os alimentos disponíveis, as 
sementes duras. Por fim, essas variações selecionadas foram preser-
vadas, duplicadas ou reproduzidas de alguma forma. Reprodução 
sexuada, no caso dos pássaros de Galápagos. Neste caso, temos um 
exemplo de seleção natural. 
2) Exemplos de evolução biocultural
Como você percebeu no exemplo dos pássaros de Galápagos 
a dieta é um poderoso motor da evolução biocultural. Como a dieta 
nos ajudou a evoluir e a adaptar nosso metabolismo a condições am-
bientais específicas? Nesta seção você conhecerá dois exemplos: a 
persistência da lactose e o controle do fogo. 
31 ALIMENTAÇÃO E CULTURA PARA NUTRIÇÃO
2.1) A persistência da lactase em adultos
Você deve saber que a lactase é a enzima responsável pela di-
gestão do açúcar do leite - a lactose - e que a sua produção dimi-
nui após a fase de desmame na maioria dos mamíferos, incluindo a 
maioria dos humanos. Todavia, conforme comentamos no capítulo 
anterior, algumas pessoas continuam a produzir lactase durante a 
vida adulta, uma característica conhecida como persistência da lac-
tase (PL). Essa característica é observada em algumas populações 
europeias, do Oriente Médio, da Ásia Central e de algumas localida-
des da África. Esse é um exemplo concreto de variabilidade genética 
(primeira condição da seleção natural): reações diferentes da popu-
lação humana ao açúcar do leite. A frequência do traço PL ocorre 
em cerca de 35% dos adultos que vivem no mundo hoje, mas a va-
riação é ampla entre as populações humanas, como demonstram 
Gerbault et al. (2011). Os mesmos autores afirmam que a frequência 
de PL pode chegar a até 89–96% nas Ilhas Britânicas e Escandinávia. 
Por que essa variação foi selecionada nessas regiões? 
A PL foi identificada em populações com algo em comum: 
domesticação de animais que produziam leite (cultura de pasto-
reio). Em consequência, nessas culturas, leite fresco e laticínios 
eram (e ainda são) fonte importante de energia. Nestes ambientes, 
indivíduos com mutações que ajudariam na digestão do leite (PL), 
teriam mais chance de sobreviver e se reproduzir do que aqueles 
intolerantes à lactose. Lembre-se que a seleção natural tende a sele-
cionar mutações bem-sucedidas. Consequentemente,

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