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O ENSINO DA MÚSICA NA EDUCAÇÃO FUNDAMENTAL_ Caminho para Construção de uma Educação Cidadã

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estrutura cognitiva mais desenvolvida. Na Hungria, por exemplo, esta processo é 
simultâneo. 
 Há, ainda, o aspecto que se refere a função social das linguagens: verbal e 
musical. A primeira é considerada, em nossa sociedade, meio indispensável para a 
socialização, ou seja, fator primordial para a sobrevivência social. A segunda, 
embora possua sua própria função social, não está fortemente demarcada como a 
primeira e não é fator que de sobrevivência social no mesmo grau, por isso menos 
valorizada. 
 
 
3.1.1 Os Estágios e a forma de contato com a música 
 
 
As faixas etárias, que compreendem cada estágio, não são rigidamente 
demarcadas, elas são uma média de idades onde determinadas construções 
prevalecem. O que vai, efetivamente, demarcar a mudança de estágio é a 
maturação que demonstrará o alcance de um novo e mais completo equilíbrio. 
 
a) Sensório-motor – 1º Estágio (0 a 2 anos) 
Neste estágio, a criança conhece o mundo pela manipulação: os bebês, através de 
reflexos neurológicos (percepções sensoriais), constróem esquemas de ação para 
assimilar o meio. Sendo o contato direto e imediato, não há representação ou 
pensamento. Há uma conduta inteligente. 
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Exemplo: Ao oferecer um brinquedo ao bebê, fazendo-o tocar em sua mão, 
imediatamente ele o pega, e o que é posto em sua boca, ele suga (mama), e o que 
está diante do bebê, ele vê. 
Estes esquemas são aprimorados pelo bebê quando ao ver um novo objeto, ele o 
pega e, imediatamente, o leva à boca para sugar. Desta forma, neste estágio, as 
crianças aprendem através de ações perceptíveis. A partir delas iniciam os 
movimentos organizados que são bases para a formação de sua comunicação. Esta 
etapa finaliza com o aparecimento dos processos simbólicos. 
A criança utiliza a combinação dos esquemas existentes para imaginar o 
resultado da ação antes dela ocorrer, assim evoca a imagem de um objeto ou de 
uma pessoa ausente. Para a criança, nesta etapa, a permanência do objeto constitui 
um nível elevado da inteligência sensório-motor, de suma importância para o nível 
posterior. 
Por ser esta etapa basicamente de caráter perceptível a aquisição da 
linguagem musical9 neste estágio é viável apenas, em ações precursoras que visem 
a futura aquisição da linguagem musical. Tais ações compreendem aquelas que 
trazem embutidas noções preliminares dos quatro elementos musicais: altura, 
timbre, duração e intensidade. Neste momento, estes elementos não assumiriam 
sua real função musical, mas seriam condutores para os níveis posteriores. Sua 
importância está na sustentação das etapas posteriores que irão efetivar o discurso 
musical. 
 
 
 
 
9 Esta relação não está presente na teoria de Piaget, mas pode ser encontrada em José Nunes 
Fernandes, Análise da Didática da Música em Escolas Públicas do Rio de Janeiro, 1998, PUC/UFRJ. 
 
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b) Pré-operatório – 2º Estágio (2 a 7 anos) 
 
 Neste estágio as crianças priorizam produções individuais, mesmo estando 
em grupos, interiorizando os esquemas de ação construídos no estágio anterior. Há 
um maior desenvolvimento em função da aquisição da linguagem, pois, através dela, 
a criança irá exteriorizar sua vida interior, ou seja, ela antecipa o que pretende fazer, 
falando. 
 Esta etapa é o da pré-escola onde a criança representa o mundo externo 
através de símbolos já estabelecidos. Novos significados ganham suas percepções 
e ações integrando-se à novas estruturas. É como se a criança reaprendesse uma 
lição do nível anterior (sensório-motor). Para que surja o pensamento conceitual é 
necessário uma versão simbólica, ou seja, a transformação de sua experiência que 
ocorre da seguinte maneira: 
 
Experiência – imitação representativa da experiência. 
Imagem do imitado – invenção do símbolo para transmitir a imagem. 
 
 Assim ocorre o jogo simbólico, permitindo a imitação se converter em 
importantes viés para o pensamento. 
 É oportuno ressaltar uma grande característica desta etapa, que é o domínio 
perceptível do pensamento, onde o objeto de interesse da criança é o que parece 
ser no campo perceptível imediato. Neste momento, há uma grande carga de 
concentração focada, exclusivamente, em seu objeto de interesse quando a criança 
não se envolve com outros aspectos. E é justamente em função deste pensamento 
pré-conceitual, que a criança faz-se permanecer concentrada em sua ação e 
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percepção imediata e, também, manter-se em sua postura de caráter individual, 
responsável pelo egocentrismo e a inflexibilidade infantil deste momento. 
A aquisição da linguagem musical neste estágio, onde os processos 
perceptíveis estão mais definidos (pois os órgãos dos sentidos alcançaram maior 
desenvolvimento) há mais possibilidade de um fazer musical mais estruturado. 
Existem estruturas de pensamento que permitem a exploração dos elementos do 
som. Entretanto, ainda não há grande maturidade, as crianças começam a fazer 
relação entre significante e significado; o chamado Jogo Simbólico. A música será 
vista, pela criança, por imagem e passará desta para imagem-símbolo e em seguida, 
concluirá com a representação, ou seja, ela iniciará imitando sons, em seguida, 
passará pelas partes principais da canção, e, finalmente, por suas extremidades 
levando-a à canção completa. 
 
c) Operatório-concreto – 3º Estágio (7 a 11 anos) 
 
 Neste estágio, a capacidade de reflexão das crianças é exercida através de 
situações concretas e começam a desenvolver noções de tempo, espaço, 
velocidade, ordem e causalidade. Assim, tornam-se capazes de relacionar diferentes 
aspectos e abstrair dados da realidade. Porém, precisam de dados concretos para 
chegarem à abstração. Nesta fase desenvolvem, ainda, a capacidade da 
reversibilidade, ou seja, representar uma ação no sentido inverso de uma anterior, 
anulando a transformação observada. Assim, com o pensamento já dominado pela 
percepção, a criança age de forma automatizada como conseqüência de seus 
costumes diários. O pensamento concreto inicia-se por meio das ações 
internalizadas. 
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Nesta etapa, a aquisição da linguagem musical pela criança passa do domínio 
figurativo para o domínio operativo da música. Houve maior desenvolvimento das 
estruturas cognitivas, quando a criança já conquistou o domínio das operações, 
ou seja, das relações mentais. A noção da reversibilidade está bem clara, o que 
permite compreensão de lógica das situações vivenciadas. Com base nisto, a 
criança é capaz de desmontar uma canção e remontá-la novamente, entendendo 
como se dá a relação entre as partes da qual compões a canção. Neste 
momento, poderá acontecer a necessidade da escrita musical onde algumas 
tentativas serão traçadas (como acontece na fase da alfabetização da linguagem 
verbal). Porém, para uma efetiva escrita musical são exigidas estruturas 
cognitivas de seriação, classificação, relação e conservação. Contudo, estas 
estruturas se completam no estágio posterior, por esta razão acontece, muitas 
vezes, um atraso na alfabetização musical associado ao muito tempo que se 
perde na apresentação da linguagem musical sem signo. 
 
d) Operatório-formal – 4º Estágio (12 anos em diante) 
 
 Nesta fase a abstração ocorre de forma total. As crianças utilizam o 
pensamento, não necessitam mais de representações imediatas ou de relações 
previamente, existentes. A partir de hipóteses, pela lógica, buscam soluções para os 
problemas pois, suas estruturas cognitivas alcançam seu nível mais elevado de 
desenvolvimento. São capazes, então, de aplicar o raciocínio lógico a qualquer 
classe de problemas. Esta etapa marca a natureza reflexiva do pensamento adulto 
quando o indivíduo começa a valorizar as possibilidades teóricas. 
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A aquisição da linguagem musical neste estágio é demarcada pelo 
pensamento hipotético-dedutivo10. Os adolescentes possuem a capacidade de 
deduzirem conclusões lógicas. Ou

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