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Estrutura do Artigo Científico [Artigos científicos_Redigir, Publicar, Avaliar]

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Estrutura do Artigo Científico
A simplicidade é o último degrau da sabedoria.
Victor Hugo, 1802-1885, escritor francês.
4.1 Advento dos periódicos científicos
4.2 Subdivisão progressiva dos textos científicos
4.3 Lógica do texto científico
4.4 Estrutura do relato de uma investigação
4.5 Transparência do relato
4.6 Evidências científicas
4.7 Hierarquia das evidências
4.8 Diretrizes gerais para o relato de investigações
4.9 Diretrizes específicas para o relato de investigações
4.10 Diretrizes de redação científica: vale a pena?
4.11 Quem é o responsável pela redação?
4.12 Por onde começar a redação?
4.13 Sugestões
4.14 Comentários finais
4.15 Referências
A mesma disposição de assuntos é encontrada na maioria dos artigos científicos originais recentes da área da saúde. Uma estrutura padrão para o relato de investigação é o tema central do presente capítulo. Outros assuntos abordados são o advento dos periódicos científicos, a organização das evidências científicas em hierarquias e as diretrizes para a comunicação dos resultados de uma investigação. Entremeados aos temas do capítulo estão inseridos conceitos de metodologia científica e epidemiologia, úteis para a análise crítica das evidências e para
aprimorar o relato da investigação.
▸4.1 Advento dos periódicos científicos
Antes do aparecimento dos periódicos científicos, a comunicação entre as pessoas eruditas se fazia por meio de contatos pessoais, cartas e livros. No fim da Idade Média, um alemão, Johannes Gutenberg, 1400-1468, revelou para o mundo ocidental a técnica de impressão por caracteres móveis. Por volta de 1440, gravou as letras do alfabeto, isoladas, de modo a organizá-las para formar palavras, frases e páginas. Em meados da mesma década, imprimiu a Bíblia, dita de 42 linhas – esse é o número de linhas por página, dispostas em duas colunas – conhecida como a Bíblia de Gutenberg ou Bíblia de Mogúncia, a cidade da Alemanha onde foi impressa. O novo procedimento de composição de palavras, os aperfeiçoamentos no processo de impressão e o aumento da produção de papel concorreram para baixar os custos e possibilitaram o rápido aumento do número de livros editados, assim como de exemplares em cada edição ou reimpressão. Foi uma revolução cultural. Incrementou-se a alfabetização e o hábito de leitura passou a fazer parte do estilo de vida do europeu. O ano de 1543 ficou para a história como particularmente frutífero na produção de livros célebres. Nele surgiram dois dos mais influentes da história da humanidade.
Exemplos 4.1 Os livros de Copérnico e de Vesalius
Exemplo 1 Nicolau Copérnico, 1473-1543
O livro do astrônomo polonês, Sobre as rotações das esferas celestiais, publicado em latim – De revolutionibus orbitum celestium –, é considerado o início da moderna astronomia. Nele, Copérnico defende a teoria heliocêntrica – de que a terra e os outros planetas giram em torno do sol – em detrimento da explicação geocêntrica, na qual a terra assumia a posição central no universo e constituía o paradigma até então dominante.
Exemplo 2 Andreas Vesalius, 1514-1564
Nas ciências da saúde, constitui marco o livro desse médico, nascido em Bruxelas, hoje a capital da Bélgica, intitulado Sobre a estrutura do corpo humano – em latim, De humani corporis fabrica, também conhecido como Fabrica. É considerada a primeira obra moderna sobre anatomia humana. Por meio da dissecação humana, esse autor pode corrigir muitos erros até então dominantes. O renomado médico canadense, William Osler, 1849-1919, classificou-o como o livro médico mais importante publicado e do qual derivou a medicina moderna.1 Hoje, Vesalius é considerado o pai da anatomia.
▸A As primeiras revistas científicas
As revistas científicas só apareceram na segunda metade do século 17. Desde então, multiplicaram-se pelo mundo e em todos os campos do saber.
Exemplo 4.1A Os dois primeiros periódicos científicos2,3
O pioneiro foi o Journal des Savants , em Paris, que não mais circula hoje. Seu primeiro número data de 5 de janeiro de 1665.
Dois meses depois, em 6 de março, na cidade de Londres, surgiu o Philosophical Transactions, publicado pela Royal Society – The Royal Society of London for the Improvement of Natural Knowledge (Sociedade Real de Londres para o Progresso do Conhecimento da Natureza). É o periódico científico há mais tempo editado e que continua em circulação.
▸B Que razões são aventadas para explicar o aparecimento das revistas científicas?
As razões são múltiplas e complexas, dentre as quais, a melhoria da instrução, a extensão do lazer, em especial, do hábito da leitura, o progresso científico e o avanço da tecnologia de produção e distribuição de material impresso.3 O Renascimento trouxe enorme impulso às letras e às artes, o que repercutiu mais tardiamente nas ciências. A revolução científica do século 17 passou a exigir melhor comunicação com clientela crescente, interessada em novas realizações. Havia crença de que, para estimular descobertas, era preciso debate mais ágil. Os periódicos científicos vieram preencher essa lacuna e sistematizar a comunicação entre os cientistas.
▸4.2 Subdivisão progressiva dos textos científicos
Todo texto reflete uma forma de pensar e de se comunicar. Nos primeiros periódicos científicos, apresentavam-se artigos sob forma de cartas, polidas e formais, em que os autores relatavam suas observações e respondiam a outras cartas.4 Vários temas eram tratados simultaneamente. Durante os dois séculos seguintes, a situação foi mudando, com as cartas centradas no autor substituídas por artigos impessoais sobre um único tema, como hoje.
Os textos iniciais eram compostos de maneira narrativa, a critério de cada autor, sem haver compromisso com a padronização de sua estrutura. O progresso científico fez as pesquisas se tornarem mais complexas e os leitores mais exigentes. Cresceu a demanda por detalhes sobre o que foi feito, notadamente, como o problema tinha
sido investigado. No relato de estudos experimentais, os pesquisadores passaram a esmerar-se na descrição do método empregado. Atribui-se ao francês Louis Pasteur, 1822-1895, e aos brilhantes micro-biologistas de então a ênfase na descrição metódica da investigação, nos textos que publicaram.5 À época, predominava a geração espontânea e os miasmas como explicação para as doenças. Pasteur e outros cientistas, como o alemão Robert Koch, 1843-1910, advogaram a teoria microbiana e a submetiam a comprovação experimental. Confirmando a teoria que postulavam, tornou-se imperioso descrever as pesquisas, em detalhes, para convencer a comunidade científica. O fito era possibilitar aos interessados, e aos inimigos, melhor avaliação das investigações que faziam, mesmo a repetição dos seus procedimentos, e sua consequente aceitação ou refutação.
A preocupação em revelar detalhes e fundamentar as conclusões da investigação em sólida argumentação resultou na progressiva estruturação dos textos, chegando à forma atual de apresentação dos assuntos, assim como todo o processo de normatização da publicação periódica. Esse movimento de padronização intensificou-se nas últimas décadas do século 20, com os enormes avanços da informática, da comunicação e da publicação.
A estrutura do artigo científico atual, a ser mostrada no capítulo, espelha o modo de comunicação científica de nossos dias. Um texto com tal estrutura facilita, para o revisor, o julgamento de seu conteúdo e da oportunidade de sua publicação e, para o leitor, o entendimento dele. O autor de artigo científico escreve para outros cientistas, os quais lêem textos de maneira peculiar. Raramente o fazem do começo ao fim. O mais comum consiste em inspecionarem o material, procurando aqui e ali tópicos que lhes interessem, fazendo-o o mais rapidamente possível em virtude da enorme quantidade de outros textos a serem lidos. Um artigo estruturado, composto por subdivisões padronizadas, facilita a leitura e o encontro de determinadas informações. Isso porque o leitor espera encontrá-las no lugar
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