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calçada. Embora houvesse 
indignação generalizada por parte da população, surpreendentemente o juiz decretou que 
os jovens não seriam condenados, pois não houve intenção dos rapazes em queimar o índio. 
Ele interpretou o incidente como uma brincadeira malsucedida.
Adentrando no campo das raízes da violência, é notória a diversidade de 
perspectivas teóricas que se propõem a explicar o comportamento agressivo dos 
seres humanos. Rodrigues, Assmar e Jablonski (1999) citam três categorias gerais 
de explicação da agressão. A primeira a tem como associada à natureza humana. 
Desta forma, inevitavelmente o ser humano terá que encontrar uma forma de 
expressá-la. A segunda parte do princípio de que a mesma é uma resposta à 
frustração. A terceira e última acredita que a agressão é essencialmente aprendida, 
resultado das relações sociais que estabelecemos e que se dá no processo de 
socialização. Em geral a Psicologia social acaba privilegiando a última, por ter 
severas restrições às teorias instintivas, o que não significa desmerecimento de 
uma base biológica. Já em relação à hipótese da frustração-agressão, o grande 
entrave parece estar na relação direta entre esta dicotomia. Não necessariamente 
a frustração gera agressão.
A partir de uma perspectiva bastante objetiva, Bandura (apud 
RODRIGUES; ASSMAR; JABLONSKI, 1999) sugere dois tipos básicos de 
aprendizagem: a aprendizagem instrumental, que defende que qualquer 
TÓPICO 5 | COMPORTAMENTO ANTISSOCIAL E PRÓ-SOCIAL
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comportamento que é reforçado ou recompensado tem maior probabilidade 
de ocorrer no futuro, e a aprendizagem observacional, que prevê que podemos 
aprender novos comportamentos pela observação das ações de outras pessoas 
tidas como modelos. 
IMPORTANT
E
Não há como negar a influência da mídia atualmente (televisão, internet etc.) no 
tocante à agressão. Não é possível dizer que há uma relação direta entre estímulos agressivos 
e comportamento agressivo, embora pareça que a mesma pode servir como amplificadora 
de padrões societários.
Quanto à possibilidade de controlarmos e prevenirmos a agressão, 
vislumbram-se perspectivas mais pessimistas ou mais otimistas, dependendo 
do ponto de vista adotado. Os que concebem a agressão como algo inerente 
ao ser humano serão pessimistas. Já os mais otimistas se valem de explicações 
sociopsicológicas. Se fatores ambientais e sociais são responsáveis pela aquisição 
e manutenção de comportamentos agressivos, mudanças nesse sentido levariam 
a decréscimos da agressão e da violência. 
Os fatores ambientais e sociais são centrais para a Psicologia social, e isso 
nos faz questionar muitas coisas nas quais somos submetidos. Isto fica claro na 
colocação de Auzelle (apud MORAIS, 1981, p. 16):
O consumo faz as cidades e o excesso de consumo as desfaz. Os 
espaços das metrópoles estão literalmente tomados por uma noção 
comercial da vida. É ali que se fabricam febrilmente necessidades, 
é ali que os moradores se têm que render ao feitiço dos objetos, de 
possuir objetos. Especialistas afirmam que a objetalidade (consumo 
desvairado de coisas) excita a ambição, e esta instala a frustração. Há 
os que não podem seguir o ritmo terrível do consumo, mas, ao longo de 
sua história de vida, desenvolveram alguma possibilidade de assumir 
suas impossibilidades. Mas há também aqueles que, não podendo 
acompanhar a maratona do possuir, transformam a fragilidade que 
suas frustrações impõem num feroz potencial de agressividade.
Desta forma, embora possamos dizer que a agressividade, de alguma 
forma, sempre se fez presente, tal como compreendida hoje, está bastante arraigada 
ao homem moderno. Desta forma, sua nova face é um fenômeno típico de nossa 
época, está diretamente relacionada ao modo de ser do homem contemporâneo. 
Se antes tínhamos a violência como uma defesa para a sobrevivência, hoje ela se 
delineia diferentemente e se torna a maneira pela qual o homem passa a organizar 
sua vida em comum com outros homens (ODALIA, 1983).
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UNIDADE 2 | DESENVOLVIMENTO HUMANO: UM ENFOQUE PSICOSSOCIAL
 Villamarín (2002) afirma que parece haver acordo entre os cientistas 
sociais como também entre os psicólogos, e até mesmo da população em geral, 
quanto ao entendimento de que os fantásticos progressos alcançados pelo homem 
nos mais variados campos da ciência e da tecnologia não foram acompanhados 
pelo aperfeiçoamento psicológico e moral dos indivíduos. 
Morais (1981) ressalta os aspectos sociais relacionados ao crime ao afirmar 
que a maior parte dos crimes (e até mesmo das doenças mentais) resulta da 
opressão das injustiças sociais, da miséria financeira ou afetiva. A partir desta 
concepção, descontados os distúrbios orgânicos e as doenças mentais com suas 
consequências, todos os demais crimes são políticos. Afirma ele que quisera ser 
um pessimista, pois este encontrou a verdadeira fórmula do descanso. Ora, se 
tudo está perdido, não nos resta outra coisa senão contemplar o espetáculo. 
O que está em jogo é a negação da tendência de naturalizarmos aquilo que é 
fruto da ação humana. Se, como diz José Ortega y Gasset, a violência é a retórica 
de nosso tempo, cabe a nós construirmos algo diferente do que presenciamos 
cotidianamente.
Segundo Rodrigues, Assmar e Jablonski (1999), alguns psicólogos sociais 
consideram a necessidade de estimular o sentimento de empatia e altruísmo nas 
pessoas como forma de prevenir a agressão. Seria este o oposto da desumanização, 
comportamento que será melhor discutido a seguir.
3 O COMPORTAMENTO PRÓ-SOCIAL: ALTRUÍSMO
Oposto à agressão, temos os comportamentos em prol da coletividade, 
sejam eles chamados de generosidade ou mesmo solidariedade. São muitos os 
exemplos de atos humanos voltados ao bem dos outros, sejam eles indivíduos ou 
grupos. Esta outra perspectiva nos traz uma visão mais positiva e otimista acerca 
das possibilidades humanas de convívio e relacionamento social. Em Psicologia 
social estas e outras condutas se enquadram no rótulo comportamento pró-social, 
sendo o altruísmo uma de suas formas.
Rodrigues, Assmar e Jablonski (1999) definem altruísmo como qualquer 
ato que beneficia alguém, sem trazer qualquer benefício para quem o faz. É 
comum envolver ainda algum custo social para aquele que ajuda. São exemplos 
de comportamentos dessa natureza o comportamento de alguém que arrisca a 
sua própria vida para salvar alguém sem se preocupar com qualquer tipo de 
recompensa ou com a possível imagem de herói decorrente da ação.
TÓPICO 5 | COMPORTAMENTO ANTISSOCIAL E PRÓ-SOCIAL
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NOTA
Não há como negar o dilema presente na definição de altruísmo. Pode o homem 
ser capaz de renunciar às suas necessidades e desejos em detrimento das necessidades dos 
outros?
Uma primeira questão parece ser fundamental nessa discussão: que motivos 
induzem as pessoas a fazer alguma coisa em favor de alguém em necessidade? Como 
no comportamento antissocial, o comportamento pró-social pode ser adquirido via 
reforçamento e modelação. Pelo princípio do reforço, repetimos e aumentamos 
a frequência dos comportamentos que trazem consequências positivas para nós. 
Desta forma, as crianças, por exemplo, aprendem a ajudar os outros quando são 
recompensadas por estes comportamentos. Embora para os críticos da teoria do 
reforço o altruísmo não passa de uma falácia, é possível dizer que este retorno pode 
ser bastante sutil, como um sentimento de bem-estar, não relacionado diretamente 
a um egoísmo ou desejo de uma recompensa imediata pela ação feita. 
Para Rodrigues, Assmar e Jablonski (1999), a partir do enfoque da 
sociobiologia ou da chamada teoria evolucionista que retoma a teoria de Charles 
Darwin, o altruísmo seria explicado como componentes constitutivos no nosso 
código genético. Esta teoria é passível de contestação, ao detectarmos uma 
certa incoerência. Se o objetivo maior dos seres humanos é garantir