A maior rede de estudos do Brasil

Grátis
202 pág.
livro (2)

Pré-visualização | Página 37 de 50

papéis que construímos nossa identidade, um somatório de 
“vários eus” e a forma como eu os vejo.
Desta forma, para Bruschi (2003) a identidade preenche o espaço entre 
o “interior” (mundo pessoal) e o “exterior” (mundo público), entretanto, em 
um mundo em constante movimento, o sujeito, que antes tinha uma única 
identidade e estável, passa a ter várias identidades, algumas até contraditórias. 
Ela será formada e transformada continuamente, a partir das formas pelas quais 
as pessoas entrarão em contato com os sistemas culturais que a rodeiam. 
Kellner (apud BRUSCHI, 2003) defende ainda que a publicidade, a moda, 
o consumo e os meios de comunicação de massa, principalmente a televisão, 
favorecem instabilidade à mesma. Abandona-se a ideia de obrigatoriamente 
termos “uma identidade”, pois, segundo o mesmo autor, figuras como Michael 
Jackson e Madonna mostram como a identidade não passa de uma construção 
que pode ser constantemente mudada e não fixa. Michael Jackson, como exemplo, 
rompeu a fronteira entre branco e preto, masculino e feminino, adulto e jovem na 
sua construção de imagem. Abandona-se a ideia de “uma” identidade. 
Diante do que foi apresentado até aqui, podemos afirmar que a identidade 
envolve escolha e ação e que cada indivíduo acaba produzindo sua própria e 
ímpar identidade, constituída de materiais das nossas situações de vida. 
Para concluir este tópico, é notório que, na Psicologia, os estudos 
sobre identidade tendem a entender a identidade como produto do processo 
de socialização e garantida pela individualização (processo de diferenciação 
dos outros), embora a resposta da pergunta “quem sou” suscite dúvida e 
intranquilidade. A partir da proposta de compreensão apresentada até aqui, não 
há outra possibilidade que não esta, já que é constituída na relação interpessoal 
(eu-grupo). O “eu”, nesse sentido, acaba sendo o produto de como os outros 
me veem e como eu me vejo, ou melhor, fruto de uma articulação entre o 
individual e o social, da ação do indivíduo e das relações nas quais está envolvido 
concretamente, algo complexo sem dúvida.
UNIDADE 3 | CATEGORIAS FUNDAMENTAIS EM PSICOLOGIA SOCIAL
136
DICAS
Uma das poucas obras que explora o tema “identidade” em uma perspectiva 
semelhante a desenvolvida neste tópico é “A estória do Severino e a história da Severina”, 
escrita por Antônio da Costa Ciampa (São Paulo: Brasiliense, 1994). A partir do poema “Morte 
e vida Severina” de João Cabral de Melo Neto e da análise de uma história de vida, o autor 
apresenta uma série de considerações sobre o tema “identidade” sob a perspectiva da 
Psicologia Social.
TÓPICO 1 | SUBJETIVIDADE E IDENTIDADE
137
LEITURA COMPLEMENTAR
A seguir, você terá acesso a um trecho do poema “Morte e vida Severina”. 
Leia com atenção e busque fazer uma conexão com os conceitos trabalhados neste 
tópico: subjetividade e identidade.
O RETIRANTE EXPLICA AO LEITOR QUEM É E A QUE VAI
João Cabral de Melo Neto
O meu nome é Severino, 
como não tenho outro de pia. 
Como há muitos Severinos, 
que é santo de romaria, 
deram então de me chamar 
Severino de Maria; 
como há muitos Severinos 
com mães chamadas Maria, 
fiquei sendo o da Maria 
do finado Zacarias. 
Mas isso ainda diz pouco: 
há muitos na freguesia, 
por causa de um coronel 
que se chamou Zacarias 
e que foi o mais antigo 
senhor desta sesmaria. 
Como então dizer quem fala
no mesmo ventre crescido 
sobre as mesmas pernas finas, 
e iguais também porque o sangue 
que usamos tem pouca tinta. 
E se somos Severinos 
iguais em tudo na vida, 
morremos de morte igual, 
mesma morte severina: 
que é a morte de que se morre 
de velhice antes dos trinta, 
de emboscada antes dos vinte, 
de fome um pouco por dia 
(de fraqueza e de doença 
é que a morte severina 
ataca em qualquer idade,
ora a Vossas Senhorias? 
Vejamos: é o Severino 
da Maria do Zacarias, 
lá da serra da Costela, 
limites da Paraíba. 
Mas isso ainda diz pouco: 
se ao menos mais cinco havia 
com nome de Severino 
filhos de tantas Marias 
mulheres de outros tantos, 
já finados, Zacarias, 
vivendo na mesma serra 
magra e ossuda em que eu vivia. 
Somos muitos Severinos 
iguais em tudo na vida: 
na mesma cabeça grande 
que a custo é que se equilibra, 
e até gente não nascida). 
Somos muitos Severinos 
iguais em tudo e na sina: 
a de abrandar estas pedras 
suando-se muito em cima, 
a de tentar despertar 
terra sempre mais extinta, 
a de querer arrancar 
algum roçado da cinza. 
Mas, para que me conheçam 
melhor Vossas Senhorias 
e melhor possam seguir 
a história de minha vida, 
passo a ser o Severino 
que em vossa presença emigra.
FONTE: Disponível em: <http://www.culturabrasil.pro.br/joaocabraldemelonetoo.htm>. Acesso 
em: 18 mar. 2010.
138
Em relação aos conceitos de subjetividade e identidade discutidos neste 
tópico, é importante destacar que:
• Subjetividade é a síntese do que somos. Envolve nossa maneira de sentir, 
pensar, fantasiar, sonhar, amar e fazer de cada um.
• Temos a emergência de uma certa homogeneização de subjetividades ao 
vivermos em um mesmo momento histórico e compartilharmos os elementos da 
cultura. No modo de produção capitalista, tendemos a cativar o individualismo 
e o consumismo, assim como desempenhamos vários papéis ao mesmo tempo, 
para nos adequarmos às rápidas mudanças a que estamos submetidos.
• Identidade é a denominação dada às representações e sentimentos que 
desenvolvemos a respeito de nós mesmos.
• Tanto a subjetividade como a identidade só podem ser compreendidas no 
campo das relações sociais estabelecidas. A variabilidade de ambas pode ser 
explicada exatamente nessa perspectiva.
RESUMO DO TÓPICO 1
139
1 A partir da leitura do texto complementar, o que queremos dizer ao nos 
referirmos à subjetividade e identidade de Severino?
AUTOATIVIDADE
140
141
TÓPICO 2
ATIVIDADE E CONSCIÊNCIA
UNIDADE 3
1 INTRODUÇÃO
Este tópico aborda dois conceitos aparentemente dissociados já que 
um se refere à prática humana, algo observável e palpável (atividade), e outro 
algo à primeira vista de difícil acesso por se referir a nosso mundo interno 
(consciência). Embora pareçam conceitos totalmente distintos, o objetivo deste 
tópico é apresentar os dois conceitos e, mais do que isso, mostrar o quanto que 
eles são interdependentes. A prática humana produz a consciência ao passo que a 
consciência explica a atividade humana. O objetivo deste tópico pode ser resumido 
na tentativa de desvendar essa relação.
2 ATIVIDADE
Outro conceito em Psicologia Social significativo e que nos permite vários 
planos de análise é o de atividade. Termo pautado no materialismo histórico 
(retomar Psicologia sócio--histórica), e utilizado sobretudo por Leontiev, busca 
superar o esquema estímulo-resposta e a passividade característica desse 
modelo, ao propor um papel ativo do homem e unificar sujeito e objeto em uma 
síntese inseparável. Por essa ótica, o mundo psíquico é resultado da atividade 
humana e não como algo deslocado dessa. A grande contribuição desse enfoque 
é o de superar a noção de subjetividade e consciência humana deslocadas das 
transformações sociais e históricas, ou seja, da ação humana.
Embora pouco explorado na Psicologia, para Bock, Furtado e Teixeira 
(2002), a prática humana, aqui chamada de atividade, é a base do conhecimento 
e do pensamento do homem. É através da atividade que o homem se apropria do 
mundo. Ao pensarmos em uma criança, isso fica mais evidente. Ela se apropria do 
mundo engatinhando, andando, analisando com seus olhos o mundo ou mesmo 
manuseando os objetos que a rodeia. Para a Psicologia Social, esse movimento é 
essencial para que essa consiga construir seu mundo interno. Somos convocados e 
necessitamos nos relacionar com o mundo externo e, ao fazermos

Crie agora seu perfil grátis para visualizar sem restrições.