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isso, transformá-
lo e nos construírmos. No processo de relação social com os outros, ou seja, a 
partir da atividade, o indivíduo apropria-se da linguagem e se humaniza.
Dessa forma, nos subjetivamos na medida em que atuamos e transformamos 
o mundo externo. Mundos externo e interno são, portanto, imbricados, já que são 
construídos em um mesmo processo e no qual um depende do outro. Atuar no 
mundo é uma propriedade do homem e essa diz muito do que ele é.
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UNIDADE 3 | CATEGORIAS FUNDAMENTAIS EM PSICOLOGIA SOCIAL
Duarte (2010) apresenta vários aspectos que justificam que a atividade 
humana diverge substancialmente da atividade animal. Essas diferenças serão 
expostas nesse momento e a diferença entre elas explica a historicidade do ser 
humano. 
Os animais, quando se relacionam com o meio ambiente, realizam 
atividades que buscam satisfazer suas necessidades e sobreviver nesse meio. 
Algumas atividades animais nos chamam a atenção, como o joão-de-barro e muitas 
outras espécies de pássaros que constroem seus ninhos, abelhas que constroem 
os favos ou, então, as formigas que constroem sua habitação coletiva. No entanto, 
essas consideradas engenhosidades dos animais não sofrem alterações, ou seja, 
esses animais constroem esses artefatos como a milhares ou milhões de anos. Aí 
temos uma primeira distinção em relação à diferença entre a atividade animal e a 
humana. O ser humano, diferente disso, tendo como exemplo nossas habitações, 
constrói as mesmas hoje de forma muito diferente do que antigamente.
Em relação à outra especificidade da atividade humana, o ser humano é 
o único que realiza uma atividade chamada “trabalho”. Se os animais agem para 
satisfazer suas necessidades, o seres humanos agem para produzir os meios de 
satisfação de suas necessidades. Qual a diferença entre essas duas afirmações? 
Diferente dos animais, o ser humano utiliza-se de instrumentos, de elementos 
intermediários, para satisfazer suas necessidades. Como exemplo, imaginemos 
nossos ancestrais: ao transformar uma pedra em um objeto perfurante ou cortante, 
esse será utilizado para caçar e, com o produto da caçada, poderá satisfazer sua 
necessidade de alimento. A atividade humana conta com uma estrutura diferente 
e mais complexa, consonante com uma complexa estrutura psicológica.
Outra característica peculiar da atividade humana diz respeito à própria 
diferença entre as necessidades humanas e as necessidades animais. Se os animais 
têm necessidades puramente biológicas como fome, sede etc., o ser humano busca 
transformar os objetos naturais em objetos sociais. Isso pode ser exemplificado 
pela própria atividade de caça, a partir do momento em que o próprio homem cria 
novas maneiras de se organizar para caçar. Nesse exemplo fica claro que, além da 
produção de instrumentos, temos também a “produção” de relações sociais. O ser 
humano constrói cultura e sofre interferência da mesma. Diferente dos animais, 
o homem sofre interferência do processo de transmissão da experiência social, 
apropria-se da produção dos outros. Esse processo fica claro na escola a partir da 
qual o indivíduo é levado a se apropriar das formas mais desenvolvidas do saber 
produzido historicamente pelo gênero humano. 
Duarte (2010) apresenta uma pergunta essencial: o que dá sentido à 
atividade desse indivíduo, ou seja, o que conecta sua ação com o motivo dessa 
ação? Segundo ele, a resposta se dá no campo das relações sociais existentes entre 
o sujeito e o restante do grupo, o conjunto da atividade social. Somente fazendo 
parte desse conjunto é que a ação individual adquire um sentido racional. Duarte 
(2010, p. 59), ao se referir ao modo de produção capitalista, alerta que existem 
vários fenômenos importantes para serem analisados, inclusive os processos 
TÓPICO 2 | ATIVIDADE E CONSCIÊNCIA
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psicológicos decorrentes desse modo. Nesse sentido, afirma que “[...] no que se 
refere aos processos psicológicos, a ruptura entre o sentido e o significado das 
ações humanas tem como uma de suas consequências o cerceamento do processo 
de desenvolvimento da personalidade humana”. 
Essa constatação parte do princípio de que ao vender sua força de trabalho, e 
como decorrência, o indivíduo tem o sentido de sua atividade como algo dissociado 
do conteúdo dessa atividade, esse acaba distanciando o núcleo de sua personalidade 
da atividade de trabalho. O trabalho, nesse caso, torna-se algo estranho ao indivíduo. 
O autor faz uma análise crítica e preocupada a respeito de alguns efeitos da sociedade 
capitalista contemporânea. Para ele, essa ruptura entre o significado e o sentido das 
ações humanas atinge níveis absolutamente destrutivos nos dias atuais.
ESTUDOS FU
TUROS
Esse distanciamento entre o trabalhador e o que produz será melhor explorado 
no Tópico 4, ao abordarmos outra categoria em Psicologia Social: alienação.
Percebidas as características da atividade humana, podemos explorar 
outro conceito em Psicologia Social, conceito esse intimamente relacionado com 
o de atividade: consciência.
3 CONSCIÊNCIA
Atkinson et al. (2006), ao abordarem o termo consciência, afirmam que 
não existe um consenso em relação ao significado de consciência e, mais do que 
isso, preferem dizer que existem quase tantas teorias da consciência quanto 
indivíduos que teorizam sobre o assunto. Segundo esses autores, os primeiros 
psicólogos tinham consciência como sinônimo de mente e esse era o objeto de 
estudo da Psicologia: mente e consciência. Em relação à definição de consciência, 
afirmam que muitos textos didáticos a trazem como nossa percepção sobre 
estímulos internos e externos, ou seja, dos eventos do ambiente e das sensações 
corporais, memórias e pensamentos. Essa definição parece incompleta quando 
nos deparamos que estamos conscientes não apenas quando monitoramos nosso 
ambiente (interno e externo), mas também quando atuamos no mesmo.
Faz-se válida a ressalva de que nem todas as ações são guiadas por 
decisões conscientes e nem todas as soluções que encontramos se dão nesse 
plano. É praticamente consensuosa a ideia de que os eventos mentais envolvem 
tanto processos conscientes quanto inconscientes, e que muitas decisões e ações 
se dão fora da consciência. 
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UNIDADE 3 | CATEGORIAS FUNDAMENTAIS EM PSICOLOGIA SOCIAL
IMPORTANT
E
A Psicanálise, uma das abordagens da Psicologia, e que tem como fundador e 
maior representante Sigmund Freud, propôs e ainda propõe uma leitura bastante diferenciada 
em relação às demais teorias psicológicas. Para a Psicanálise, a explicação da maioria dos 
comportamentos humanos se dá fora da consciência. A existência e a importância do 
inconsciente constituem um dos pilares básicos da teoria e prática psicanalítica, em que 
nessa instância se fariam presentes memórias, impulsos e desejos inacessíveis à consciência, 
mas que motivariam o comportamento humano. 
Em alguns momentos, o inconsciente poderia ser acessado como no caso dos chamados 
atos falhos (lapsos) e nos sonhos. No caso do sofrimento mental, o grande objetivo da 
Psicanálise seria tornar consciente o que está inconsciente, levando as pessoas a sofrer. 
Além dos atos falhos e da análise dos sonhos, a Psicanálise utiliza-se, hoje, do método da 
associação livre, no qual o paciente recebe instruções para dizer tudo o que lhe ocorrer no 
momento. O psicanalista interfere pouco (ouve e estimula com perguntas quando o paciente 
se cala) e por essas características esse método é chamado de “cura pela fala”.
Na perspectiva da Psicologia Social, um dos conceitos de maior destaque é 
o de consciência, visto que a consciência humana expressa a forma como o homem 
se relaciona com o mundo e, ao falarmos em desenvolvimento da consciência, a 
Psicologia Social se afasta de outros postulados da Psicologia tradicional, que 
concebe a consciência como um “estar ciente” ou, então, “ter consciência de”.

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