A maior rede de estudos do Brasil

Grátis
202 pág.
livro (2)

Pré-visualização | Página 42 de 50

Para Oliveira e Werba (1998), 
um dos instrumentos mais utilizados na investigação das representações sociais 
tem sido a técnica dos grupos focais. 
UNIDADE 3 | CATEGORIAS FUNDAMENTAIS EM PSICOLOGIA SOCIAL
156
Os grupos focais podem ser descritos como entrevistas realizadas com 
vários membros pertencentes a um grupo, no qual é conduzida uma discussão 
no grupo, semelhante a uma conversação realizada entre amigos ou vizinhos. Os 
dados são discutidos e aprofundados pelos membros do grupo e exatamente por 
essa razão a fidedignidade dos dados pode ser considerada superior aos dados 
coletados em uma entrevista individual. Chega-se mais próximo às compreensões 
que os participantes têm a respeito do tema de interesse do pesquisador, já que as 
respostas e as representações são elaboradas coletivamente.
Para Geerz (apud SPINK, 1995), é importante se destacar que ao 
trabalhar com o senso comum não cabe somente buscarmos o que é estável e 
consensual. Muitas vezes, os conteúdos são heterogêneos e, da mesma forma que 
a homogeneidade, a heterogeneidade e a contradição também são informações 
ricas para serem analisadas.
DICAS
A teoria das representações sociais é recente, o que explica a pouca bibliografia 
em português na área. Entre os poucos materiais disponíveis encontram-se “O conhecimento 
no cotidiano: as representações sociais na perspectiva da Psicologia Social”, livro organizado 
por Mary Jane Spink e com a colaboração de pesquisadores da PUC de São Paulo, e “Textos 
em representações sociais” que apresenta os trabalhos desenvolvidos na PUC do Rio Grande 
do Sul, sob a coordenação de Pedrinho Guareschi. 
TÓPICO 3 | REPRESENTAÇÕES SOCIAIS
157
LEITURA COMPLEMENTAR
A seguir será apresentada uma pesquisa realizada com o intuito de 
buscar compreender o porquê que frequentadores de grupos neopentecostais ao 
apelo do pregador dão seu dinheiro, mesmo que seja tudo que têm. A partir de 
uma perspectiva crítica, os pesquisadores em questão buscaram dar conta das 
seguintes questões: como é possível tal exploração? Será que as pessoas não se 
dão conta de tamanha manipulação? As respostas para essas perguntas podem 
ser encontradas no campo das representações sociais.
IMPORTANT
E
Guareschi chama de “pentecostais novos” ou “neopentecostais” os grupos 
religiosos surgidos nas últimas duas ou três décadas, originando-se de todos os tipos de 
igrejas tradicionais.
“SEM DINHEIRO NÃO HÁ SALVAÇÃO”: 
ANCORANDO O BEM E O MAL ENTRE NEOPENTECOSTAIS
P. A. Guareschi
Metodologia
Nossos dados foram coletados em situações bastante diversas. A maior 
parte deles foram tomados de observações participantes (ao redor de 50) de cultos 
e práticas das várias igrejas. Além disso, foram gravados programas de TV (10) e 
rádio (5) das igrejas que os transmitem. Finalmente, foram feitas entrevistas com 
pastores (95) e com os fiéis (25), procurando saber, da parte deles, o que achavam 
das práticas econômicas das igrejas. Os pastores mostravam-se extremamente 
arredios, dizendo que nada se exige dos fiéis, que tudo é espontâneo. A prova 
central disso (muitas vezes repetida durante as pregações) é de que nunca se 
cobrou entrada. O que verdadeiramente nos interessava era compreender como 
os membros se colocavam diante da questão econômica. É de suas falas que se 
pode perceber como funcionam as estratégias empregadas pelos pregadores 
para, a partir de uma necessidade que é fundamentalmente econômica, ancorar 
a extorsão do dinheiro a representações já existentes na mente dos fiéis para, a 
partir daí, tirar, deles mesmos, o que eles mais necessitavam.
A dimensão econômica nas práticas neopentecostais: dados
[...] A forte ênfase dada ao econômico, nas igrejas pentecostais, salta 
imediatamente à vista. Não há reunião, oração, serviço ou concentração, em 
UNIDADE 3 | CATEGORIAS FUNDAMENTAIS EM PSICOLOGIA SOCIAL
158
que a necessidade de contribuir não seja constantemente lembrada. Hugarte 
(1990) sintetiza as práticas cerimoniais dessas igrejas como sendo uma série de 
discursos ininterruptos, nos quais os pastores insistem fundamentalmente sobre 
as necessidades materiais da igreja, a virtude do desprendimento, os benefícios 
do jejum e das esmolas (“dar para receber”) e a importância de se escutar os 
programas de rádio ou televisão dessas próprias igrejas. Lembra-se continuamente 
que é graças às contribuições dos fiéis, que a igreja pode continuar a crescer, 
ampliando-se geograficamente e no número de seguidores de sua mensagem; 
com isso aumenta o número de milagres e curas. É admirável a capacidade dos 
pregadores em convencer os fiéis da obrigação e necessidade de contribuir, até 
mesmo para eles se salvarem, e de o que se pede é insignificante se comparado, 
por exemplo, ao preço de uma cerveja, a uma passagem de ônibus, ou mesmo 
a um refrigerante. Alguns exemplos desses raciocínios e motivações: “Você não 
pode ganhar nada de graça, nem mesmo Deus; para se conseguir uma graça você 
tem de pagar”. “É dando (dinheiro) que você vai receber (a graça)”.
A atividade milagrosa de igreja é apresentada como se fosse um serviço e, 
com isso, tem-se como normal e justificado o fato de que se cobre. Algumas falas 
que mostram isso: “Se pagamos a um médico, se pagamos o aluguel, por que 
não pagar a quem cura nossos males?” “É necessário aumentar, ou reconstruir 
a igreja, desse modo Deus poderá continuar a operar o ‘festival de milagres’”. 
“Precisamos continuar com nossos programas de rádio e televisão para podermos 
vencer o demônio”. “Você tem de se livrar de seu dinheiro, desse modo você 
poderá se purificar”. “Se você doar seu dinheiro para a igreja, você poderá até 
certo ponto purificar o mundo”. “Se você doar dinheiro para a igreja, você não 
estará dando dinheiro ao pastor, mas a Deus”.
Os fiéis estão convencidos de que eles não estão sendo explorados 
economicamente por seus pastores. Nem chegam a pensar nessa possibilidade. 
Eis a reação de uma mulher à tentativa de questionamento sobre a possibilidade 
de exploração econômica: “Exploração? Nunca! A pessoa dá o que ela quiser. 
Não há obrigação de dar. Você não paga por tudo o que compra? Do mesmo 
modo, por que não pagar a Deus?”
 
FONTE: Guareschi (1995, p. 205-208).
A partir dos dados coletados na pesquisa é possível serem feitas algumas 
considerações a partir da teoria das representações sociais e analisados os 
mecanismos empregados nesse processo. Esse é o intuito de Guareschi (1995) ao 
propor a análise desse fenômeno a partir de dois processos considerados por ele 
fundamentais: a situação da não familiaridade e o processo de ancoragem.
Na pesquisa apresentada, o não familiar, ou o grande temor dos 
frequentadores das instituições em questão, está nas dificuldades presentes no 
dia a dia, dificuldades essas de ordem financeira e pessoal. Lembrando Moscovici 
(apud OLIVEIRA; WERBA, 1998) e a afirmação de que o grande propósito de 
todas as representações é o de transformar algo não familiar em familiar, nesse 
TÓPICO 3 | REPRESENTAÇÕES SOCIAIS
159
caso, o mistério ou angústia dos fiéis é a impotência de não poder solucionar 
os seus problemas. Entram em jogo, então, os “interpretadores” do mistério e 
que se municiam com um instrumento absolutamente legitimado: a Bíblia. “O 
importante é obedecer cegamente, crer sem restrições, atirar-se confiantemente 
em seus braços”. (GUARESCHI, 1995, p. 213).
Para Guareschi (1995), a ancoragem é outro processo que auxilia a 
compreender esse fenômeno, ao analisar o universo simbólico dessas pessoas, 
as representações sociais já existentes e como as práticas empregadas pelos 
pregadores nada mais fazem que ligar, “ancorar” essas novas práticas a situações 
anteriores, representações tradicionais típicas da religiosidade popular de nosso 
povo. Entre elas é possível citar a representação da reciprocidade (dar e receber), 
a representação

Crie agora seu perfil grátis para visualizar sem restrições.