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1 CENTRO UNIVERSITÁRIO FAVENI POLÍTICA SOCIAL GUARULHOS – SP 2 SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO ........................................................................................................ 3 2 Os teóricos do absolutismo ..................................................................................... 4 3 Nicolau Maquiavel e Thomas Hobbes ..................................................................... 7 3.1 Nicolau Maquiavel ................................................................................ 7 3.2 Thomas Hobbes ................................................................................... 9 4.1 Jacques Bossuet ................................................................................ 12 4.2 Jean Bodin ......................................................................................... 14 5 Estado como sociedade política ............................................................................ 16 5.1 Formação do Estado .......................................................................... 17 5.2 Teorias naturalistas ............................................................................ 18 5.3 Teorias contratualistas ....................................................................... 19 6 O Estado e os seus papéis ................................................................................... 23 7 O Serviço Social e a divisão de classes ................................................................ 26 8 O materialismo histórico: concepção marxista da história .................................... 29 8.1 A concepção de história de Marx ....................................................... 33 8.2 O que os historiadores devem a Karl Marx? ...................................... 36 8.3 A influência de Marx na historiografia brasileira ................................. 37 9 A Questão Social e os movimentos de resistência ............................................... 41 10.1 Império (1822–1889) .......................................................................... 43 10.2 República Velha (1889–1930) ............................................................ 44 10.3 Era Vargas (1930–1945) .................................................................... 44 10.4 República Populista (1945–1964) ...................................................... 44 10.5 Ditadura Militar (1964–1985) .............................................................. 45 10.6 Nova República ou redemocratização (a partir de 1985) ................... 45 10.7 Formas de exercício do poder ............................................................ 46 11.1 A sociologia e o exercício do poder .................................................... 48 12 Modelos de democracia: democracia direta, representativa e participativa .......... 51 12.1 Democracia direta e as suas principais características ...................... 51 12.2 Modelo da democracia representativa e a sua aplicação ................... 53 12.3 Especificidades da democracia participativa ...................................... 56 3 13 Política contemporânea ........................................................................................ 58 13.1 Liberalismo social ............................................................................... 58 13.2 Neoliberalismo .................................................................................... 60 14 Cenário democrático contemporâneo ................................................................... 62 15.1 A educação como instrumento ideológico do Estado ......................... 64 15.2 Mecanismos adotados pelo Estado para transformar a educação em um instrumento ideológico......................................................................................... 66 15.3 Os efeitos da transformação da educação no Brasil .......................... 69 BIBLIOGRAFIA BÁSICA: .......................................................................................... 73 bibliografia complementar: ........................................................................................ 73 3 1 INTRODUÇÃO Prezado aluno! O Grupo Educacional FAVENI, esclarece que o material virtual é semelhante ao da sala de aula presencial. Em uma sala de aula, é raro – quase improvável - um aluno se levantar, interromper a exposição, dirigir-se ao professor e fazer uma pergunta , para que seja esclarecida uma dúvida sobre o tema tratado. O comum é que esse aluno faça a pergunta em voz alta para todos ouvirem e todos ouvirão a resposta. No espaço virtual, é a mesma coisa. Não hesite em perguntar, as perguntas poderão ser direcionadas ao protocolo de atendimento que serão respondidas em tempo hábil. Os cursos à distância exigem do aluno tempo e organização. No caso da nossa disciplina é preciso ter um horário destinado à leitura do texto base e à execução das avaliações propostas. A vantagem é que poderá reservar o dia da semana e a hora que lhe convier para isso. A organização é o quesito indispensável, porque há uma sequência a ser seguida e prazos definidos para as atividades. Bons estudos! 4 2 OS TEÓRICOS DO ABSOLUTISMO www.todamateria.com.br/absolutismo Antes de contextualizarmos a produção dos chamados “teóricos do Absolutismo”, compreendendo suas obras em suas conjunturas de produção e circulação, acreditamos ser importante buscarmos uma definição de Absolutismo e entender como esse conceito foi forjado para se referir ao sistema monárquico do Antigo Regime. Isso porque existe uma diferença entre o emprego historiográfico do termo e os significados que foram atribuídos ao conceito no vocabulário político de determinadas conjunturas. Do ponto de vista da historiografia, Silva e Silva (2009, p. 11) apresentam uma síntese do que costuma ser entendido como “Absolutismo” ou “monarquia absolutista”: Absolutismo é um conceito histórico que se refere à forma de governo em que o poder é centralizado na figura do monarca, que o transmite hereditariamente. Esse sistema foi específico da Europa nos séculos XVI a XVII. [...] O surgimento do Absolutismo se deu com a unificação dos Estados nacionais na Europa ocidental no início da Idade Moderna, e foi realizada com a centralização de territórios, criação de burocracias, ou seja, centralização de poder nas mãos dos soberanos. [...]. O Estado centralizado surgiu, assim, interligado aos conflitos políticos entre nobreza e burguesia, característicos desse momento histórico, além das disputas políticas entre os príncipes e a Igreja Católica, visto que o Papado durante toda a Idade Média foi uma considerável força internacional. [...]Assim sendo, percebemos que o Absolutismo se liga a um determinado momento da história das nações europeias, o momento em que uma monarquia fortalecida com os conflitos políticos internos entre diferentes grupos sociais, e apoiada por justificativas filosóficas, controla e consolida o Estado nacional. http://www.todamateria.com.br/absolutismo 5 O sistema monárquico absolutista foi uma forma de organização política forjada para conformar as instâncias de privilégios e as relações de poder às novas demandas econômicas, políticas e sociais, emergentes com as transformações ocorridas nos séculos XV, XVI e XVII. Ou seja, houve uma exigência de um poder central e soberano para se adequar às exigências daquele período, marcado por guerras civis, enfrentamentos entre a burguesia e a nobreza e de mudanças significativas do aspecto econômico. Lembremos que a definição de “Absolutismo” para as monarquias do século XVI e XVII não é contemporânea a esses acontecimentos, sendo um termo difundindo no vocabulário político francês ao final do século XVIII e, na Inglaterra,em começos do século XIX, em função da adoção de uma nova forma de estado, o liberal: [...] para se contrapor aos ‘riscos de absolutismo’ – i.e., a concentração do poder soberano de decisão numa autoridade executiva –, dever-se-ia formar um sistema cameral permanente (autoridade legislativa) e conferir independência institucional e poder fiscalizador para a justiça sobre os demais poderes, de modo que o poder limitasse o poder (VIANNA, 2008, documento on-line). Os chamados “teóricos do Absolutismo” procuraram entender e, em certos casos, justificar, o processo de centralização política e a concentração de poder no monarca por meio de teorias que opusessem o caos e a ordem, sendo a ordem entendida como o bom funcionamento da sociedade. Uma corrente procurou explicar o poder a partir do direito natural, os jusnaturalistas, recuperando ideias da antiguidade romana. Segundo esses pensadores, existiriam leis universais que baseariam a relação entre o monarca e seus súditos, bem como a relação entre os Estados. Outra corrente argumentava sobre o direito divido dos reis, herdeira de crenças medievais da ligação do monarca com Deus. Ambas as concepções, a do jusnaturalismo e do contrato social e a assentada no poder divino dos reis, defendem um Estado unificado na mão do rei, em um sistema autocrático, com poderes incontestes. E como podemos definir o contexto de produção das obras dos “teóricos do Absolutismo”? É preciso lembrar que esses pensadores estavam inseridos em uma profunda discussão sobre o poder e a política, cujo objetivo era delinear, em diferentes pontos de vista, o que seria uma sociedade justa, ordenada e virtuosa. A monarquia era o regime político de predileção (em função da concentração do poder de forma autocrática), e um dos temas de que se ocuparam foi a ideia de soberania. 6 Do ponto de vista das tradições intelectuais, as obras renascentistas que se dedicam a refletir sobre a política e o poder ainda operam em um mundo cristão, ou seja, a relação entre a política e a religião está presente de alguma maneira. Conforme Chauí (2000, documento on-line), as teorias medievais são teocráticas, enquanto as da renascença buscam outras explicações sore o poder para além da noção do divino; “[...] no entanto, embora recusem a teocracia, não podem recusar uma outra ideia cristã, qual seja, a de que o poder político só é legítimo se for justo e só será justo se estiver de acordo com a vontade de Deus e a Providência divina. Assim, elementos de teologia continuam presentes nas formulações teóricas da política”. Temos, então, um pensamento político na modernidade constituído por duas vertentes: aqueles teóricos que buscavam legitimar a autoridade do soberano a partir de fundamentos religiosos, tais como o direito divino, e aqueles que se apoiam em argumentos lógicos e racionais, afastando a moral da política. Tomadas em conjunto, e levando-se em consideração sua conjuntura de produção, as obras dos “teóricos absolutistas” podem ser caracterizadas, de acordo com Marilena Chauí (2000), a partir de dois elementos: as mudanças ocorridas na cultura, na economia, na política e na sociedade evidenciaram a existência de grupos (burgueses, assalariados, camponeses) que não podiam invocar noções de dinastia, família, linhagem ou sangue para explicar por que existiam e por que haviam mudado de posição social, mas só podiam invocar a si mesmos como indivíduos; a existência de conflitos entre esses indivíduos e entre eles e os demais estamentos da sociedade moderna demonstravam que a imagem de uma comunidade cristã, fraterna, una e indivisível eram uma construção que não correspondia à realidade. Essas mudanças na percepção de si mesmo e do mundo fizeram com que os “teóricos do Absolutismo” precisassem explicar quem eram os indivíduos e por que existiam os conflitos, bem como propor soluções para esses enfrentamentos e guerras civis. De acordo com Chauí (2000, documento on-line), “[...] foram forçados a indagar qual é a origem da sociedade e da política. Por que indivíduos isolados formam uma sociedade? Por que indivíduos independentes aceitam submeter-se ao poder político e às leis? A resposta a essas duas perguntas conduz às ideias de Estado de Natureza 7 e Estado Civil”. É nessa grande mudança cultural, que atingiu a Europa Ocidental de formas e em períodos distintos, que se insere o pensamento de Maquiavel, que, em sua obra O Príncipe, traz reflexões sobre a possível separação entre moral e política; de Thomas Hobbes, autor de Leviatã, que lança as bases da teoria contratualista para a superação do estado de natureza; de Jean Bodin e sua obra, República, teórico da origem divina do monarca; e de Jacques Bossuet, autor de Política Segundo a Sagrada Escritura, que afirmava que todo o poder é legítimo e que rebelar-se contra ele seria um sacrilégio. Vamos estudar um pouco mais sobre o pensamento desses autores e as diferenças entre eles a seguir. 3 NICOLAU MAQUIAVEL E THOMAS HOBBES Ainda que Nicolau Maquiavel e Thomas Hobbes tenham vivido em locais e momentos diferentes, suas preocupações intelectuais são semelhantes no que diz respeito ao Estado como gestor dos conflitos inerentes à política, evitando as facções políticas, como no caso de Maquiavel, ou a guerra de todos contra todos, como afirmado por Hobbes. A seguir, veremos um pouco mais sobre o pensamento de ambos os autores. 3.1 Nicolau Maquiavel Fonte: filosofianaescola.com/filosofos/maquiavel/ 8 Maquiavel nasceu em Florença, em 1469. Naquele momento, a Península Itálica encontrava-se dividida em uma série de pequenos Estados, com diferenças signifi cativas em relação à sua cultura e seus regimes políticos e, por consequência, sujeitos a confl itos e invasões estrangeiras. Até 1494, graças aos esforços de Lourenço, o Magnífico, a península experimentou uma certa tranquilidade. Cinco grandes Estados dominavam o mapa político: ao sul, o reino de Nápoles, nas mãos dos Aragão; no centro, os Estados papais controlados pela Igreja e a república de Florença, presidida pelos Médicis; ao norte, o ducado de Milão e a república de Veneza (SADEK, 2011, p. 14). Contudo, na passagem do século XV para o XVI, essa situação modificou- -se em função de aspectos internos e externos. Nesse contexto, Maquiavel passou sua infância e adolescência. Teóricos do Absolutismo 5 Em função de disputas políticas, principalmente da rivalidade adquirida com a família Médici, Maquiavel é impedido de exercer cargos públicos, depois de ter trabalhado como chanceler. É torturado, preso e condenado a pagar multa. Ao ser libertado da prisão, passou a escrever suas obras, sendo O Príncipe escrita entre 1512 e 1513. no território da Itália, que se encontrava dividida em ducados, reinos, repúblicas e convivia com o poder da Igreja. Veja, a seguir, os pontos em que seu pensamento é inovador, rompendo com a tradição da filosofia política. Não existiria um fundamento anterior e exterior à política (como Deus, a natureza ou a razão). A política nasce das divisões e lutas sociais na busca de unidade e identidade. 9 Maquiavel, diferentemente dos pensadores da Antiguidade clássica e dos cristãos, não concebe a política como uma realização do bem comum e da justiça, mas como tomada e manutenção do poder. A política não seria regida por uma moral cristã, mas por uma virtude propriamente política, não necessariamente boa ou má. Isso não significa que o príncipe deva ser odiado, mas temido e respeitado. Por fim, Maquiavel rejeita a divisão clássica dos três regimes políticos (monarquia, aristocracia, democracia) e suas formas corruptas ou ilegítimas (tirania, oligarquia, demagogia/anarquia), assim como não aceita que o regime legítimo seja o hereditário e o ilegítimo, o usurpado por conquista. Qualquer regime político — tenha a forma e a origemque tiver — poderá ser legítimo ou ilegítimo. O critério de avaliação, ou o valor que mede a legitimidade e a ilegitimidade, é a liberdade. 3.2 Thomas Hobbes Fonte: www.arqnet.pt/portal/teoria/hobbes O pensamento político de Hobbes parte do pressuposto da existência de uma situação “pré-social”, em que as pessoas vivem em um “Estado de natureza”, isoladas 10 em luta permanente, vigorando a guerra de todos contra todos, que deu origem à expressão “o homem é o lobo do homem”. Nessa situação, o medo é imperativo, já que a vida não tem garantias, principalmente o medo da morte violenta. Como forma de cessar essa situação de ameaça, estabelece-se um “contrato” entre os seres humanos, passando-se à sociedade civil, isto é, ao Estado Civil, criando o poder político e as leis. O “contrato social” estabelece que os indivíduos renunciam à liberdade natural e à posse natural de bens, riquezas e armas e concordam em transferir a um terceiro — o soberano — o poder para criar e aplicar as leis, tornando- se autoridade política. O contrato social funda a soberania. Aqui, há um retorno ao direito romano e ao direito natural, principalmente na ideia de que todo indivíduo, por natureza, tem direito à vida e à liberdade. “Por natureza, todos são livres, ainda que, por natureza, uns sejam mais fortes e outros mais fracos. Um contrato ou um pacto, dizia a teoria jurídica romana, só tem validade se as partes contratantes forem livres e iguais e se voluntária e livremente derem seu consentimento ao que está sendo pactuado” (CHAUÍ, 2000, documento on-line). Outro dos grandes defensores do Estado contratual foi Thomas Hobbes, que em sua obra Leviatã afirmou que todo Estado nasce do contrato mútuo entre os homens. Estes, quando em estado de natureza, viveriam em constante conflito e situação de guerra. Assim sendo, para garantir a ordem, considerada a única forma de a sociedade prosperar, os indivíduos faziam um acordo em que todos abdicavam de suas liberdades em favor de um representante, o rei, que, por sua vez, se encarregaria de garantir a ordem. Nessas teses, que explicam o Estado a partir de acordos e da concordância entre reis e povo, todavia, a vontade do rei e do Estado sempre é superior à do povo e, logo, deve ser obedecida sem resistência. Somente com a Ilustração, no século XVIII, essas teorias seriam revistas para apresentar o governo como representante da vontade popular. No Absolutismo, todavia, rei e Estado se sobrepõem ao povo (SILVA; SILVA, 2009, p. 12). Assim, para Hobbes, o poder do soberano superaria os indivíduos e as coletividades, estabelecendo a paz e trazendo segurança para todos. O fundamento do poder não estaria na tradição (família, linhagens, sangue), mas na conveniência de se ter um soberano absoluto, para o bem de todos. Ainda que no pensamento de Hobbes o Estado seja visto como uma forma de superação do medo reinante na condição de Estado de natureza, o medo não desaparece na constituição da sociedade civil e da configuração do Estado. A capa da primeira edição de sua obra Leviatã, publicada em 1651, apresenta a figura ameaçadora de um monarca, e o próprio nome “Leviatã” foi retirado de um monstro presente na Bíblia (Figura 1). Nessa 11 obra, Hobbes mostra os fundamentos e as razões pelas quais o monarca absoluto deve exercer força, autoridade, influência, juízo, poder sobre os súditos, porque, sem esse exercício de poder coercitivo pelo Estado, haveria um estado de guerra constante. 4 JACQUES BOSSUET E JEAN BODIN Nesta parte, estudaremos dois teóricos do Absolutismo cujas reflexões foram permeadas por questões religiosas. Seja por aspectos ligados à trajetória de Jacques Bossuet e Jean Bodin ou por suas convicções e crenças, suas concepções de Estado e poder estão relacionadas a uma dimensão divina. Vejamos mais sobre suas biografias e obras a seguir. 12 4.1 Jacques Bossuet Fonte: www.grupoescolar.com/pesquisa/jacques-bossuet Jacques-Bénigne Bossuet (1627-1704) foi um religioso francês que procurou na religião católica uma solução para os problemas políticos enfrentados no século XVII. Desde a infância e adolescência de Bossuet sua família sempre mostrou fidelidade absoluta ao rei, e sempre se colocou ao seu serviço. A desordem e a miséria que assolaram a França, causadas pelas perturbações da Fronda, ficaram gravadas na memória de um jovem destinado a defender vigorosamente a soberania indivisível na pessoa do príncipe. Neste sentido, podemos afirmar que a doutrina de Bossuet formou-se a partir de confrontos com problemas concretos; constituiu-se em respostas aos fatos reais que surgiram diante dele (BARBOSA, 2007, documento on-line). Assim, concebeu sua teoria afirmando que o poder absoluto dos reis remontaria a Davi e Salomão, que teriam sido ungidos por Deus, ou seja, os monarcas seriam reis por direito divino. De acordo com seu pensamento, rebelar-se contra o poder do monarca equivaleria a revoltar-se contra Deus. Bossuet escreveu os seis primeiros livros da Política de 1677 a 1679, após a Revolução Inglesa de 1640 e a Fronda (1648- 1653). Nessas guerras civis, os revoltosos defendiam a limitação da soberania real a partir da ideia contratualista e, quando os reis deixavam de agir corretamente, o 13 contrato poderia ser anulado. A preocupação de Bossuet, portanto, reside na condenação das guerras civis, na eliminação de qualquer direito de resistência dos súditos perante os governantes estabelecidos e no reforço à soberania dos reis. (OLIVEIRA, 2009) Não somente nas obras em que aborda diretamente as questões políticas, mas também nas obras de cunho histórico, existe uma justificativa na fundação do Estado como um ato de Deus de manifestação de sua vontade, e são citados como exemplos os impérios chinês, egípcio e pérsio. A ideia de providência divina perpassa toda a obra e o rei é apresentado, ao mesmo tempo, como governador civil e sumo-sacerdote, representante de Deus na Terra. De acordo com Chevallier (1999 apud LIMA, 2015, documento on-line): Ao falar da origem do governo civil, primeiramente Bossuet partiu da tese aristotélica da natureza política do homem (o homem como animal político), para depois chegar à tese hobbesiana do homem lobo do homem, que, segundo ele, teve origem a partir do acontecimento bíblico do pecado original, praticado por Adão e Eva. Para Bossuet, o pecado original foi o responsável por ter transformado a vida numa verdadeira anarquia, fazendo prevalecer àinsociabilidade entre os homens. Desse modo, ele acreditava que apenas com a constituição de um governo civil seria possível garantir o estabelecimento da paz e da segurança. Para melhor cumprir esta função, Bossuet defendeu a monarquia absolutista como a forma mais adequada de governo, já que qualquer tipo de divisão, no exercício do poder, era considerado por ele como o principal mal dos Estados. Assim, esta forma de governo defendida por Bossuet, estava fundamentada inteiramente na sagrada escritura, com os monarcas reconhecidos como verdadeiros ministros de Deus, ao deter todo poder necessário a manutenção da ordem e da paz social. Ao longo de sua trajetória, Bossuet teve um papel importante na vida e na corte de Luis XIV — Bossuet foi seu tutor —, realizando diversos cultos realizados no Palácio Real e proferindo orações fúnebres nas cortes francesa e britânica. A partir dessa circulação em altos estratos do poder político, elaborou suas reflexões sobre o Estado, o poder e a política, que serviram como forma de instrução a Luís XIV, e nos demonstra como construiu a argumentação sobre a origem e o fundamento do poder divino do rei. Os livros destinados à educação de Luís XVI, escritos entre 1677 e 1679, “[...] inserem-se nesse movimento de exaltação à glória monárquica. Bossuet dedicou- os para falar da origem do poder e da autoridade do príncipe. Com isso, a teoria do direitodivino, justificadora do Absolutismo, que se conhece já há tempo, atinge o seu ponto culminante” (BARBOSA, 2007, documento on-line). Suas obras mais importantes foram Discurso sobre a História Universal, publicada em 1681, e Política tirada das Santas Escrituras, lançada em 1708. Bossuet morreu em Paris, em 1704. 14 4.2 Jean Bodin Fonte: www.todamateria.com.br/jean-bodin Jean Bodin nasceu na França por volta de 1530, em uma família burguesa, de prósperos artesãos. Formou-se em direito, dedicando-se ao direito civil, e, em Paris, trabalhou como advogado da corte. Suas obras são reflexões jurídicas, que versam sobre a separação entre Estado e governo e apresentam como inovação a sistematização da noção de soberania. O problema para Bodin estaria na confusão feita até então entre Estado e governo. O termo “Estado” designa as três formas de ordenamento político que uma República pode assumir com base no número de pessoas que detém a soberania. Já o governo indica a maneira pela qual esse poder é exercido – assumindo as formas legítima, despótica ou tirânica, de acordo com a relação do soberano com as leis e com seus súditos – e a maneira pela qual esse poder é conferido – assumindo as formas aristocrática, democrática ou harmônica, conforme o grau de participação dos súditos nos cargos públicos. As diversas combinações dessas possibilidades resultariam na grande variedade de formas de governo que têm sido confundidas com as formas de Estado (VIANNA, 2010, p. 65-66). Bodin, no século XVI, foi o primeiro teórico a afirmar que no Estado deve haver um poder soberano, isto é, um foco de autoridade que possa resolver todas as pendências e arbitrar qualquer decisão. Sua obra Da República, publicada em 1576, 15 aborda muitos temas de teoria política, incluindo as discussões sobre o direito divino dos reis e a soberania, temas pelos quais a obra de Bodin costuma ser recuperada como uma “teoria” sobre o Absolutismo. Da República costuma ser utilizada para comparar a situação da Inglaterra e da França absolutista, já que, quando Bodin a escreve, “[...] o reino da França estava fraturado devido às facções nobiliárquicas das guerras confessionais, cada uma das quais tentando impor as suas prerrogativas locais ou regionais de poder, respeitando ou não as deliberações régias conforme os seus interesses e conveniências particulares e, portanto, estavam desviadas de qualquer princípio de bem comum” (VIANNA, 2010, documento on-line). Dessa forma, era imperativo ratificar o poder do rei, acima de qualquer facção. Diferentemente de Bossuet, Hobbes ou Maquiavel, para Bodin, a centralização do poder e o fortalecimento da figura do monarca ocorre por meio do direito, com a entrega pelos indivíduos de seus direitos individuais a um “Deus mortal”, o Estado. Para ele, esse estado é regido por três conjuntos de leis: a lei moral (ou seja, os valores do indivíduo), a lei doméstica (aplicada pelo chefe da família) e a lei civil, à qual todos os membros da sociedade civil devem obediência. De acordo com Barros (2009, documento on-line): [...] não basta para Bodin a simples união de vários grupos sociais, nem a comunhão de bens e de interesses, nem a existência das mesmas leis e de instituições dirigidas pelo princípio da justiça. São condições necessárias, sem dúvida, mas não suficientes. É preciso acima de tudo o estabelecimento de um poder capaz de assegurar a coesão entre os membros da sociedade, reunindo-os e integrando-os num só corpo. Contudo, o elemento mais importante do Estado é a soberania, entendida como o poder supremo e inalienável do soberano sobre os súditos, que era concedida ao rei por Deus. Para Bodin, ser soberano significava estar acima das leis civis: [...] soberano deve estar livre diante das leis que estabeleceu, porque ninguém pode obrigar-se a si mesmo, e das leis que foram estabelecidas por seus predecessores, porque, se fosse obrigado a cumpri-las, seu poder não seria absoluto. O soberano deve ter o poder de criar, corrigir e anular as leis civis de acordo unicamente com sua vontade. Como a lei imposta por Deus à natureza tem seu fundamento na livre vontade divina, a lei civil, embora possa estar fundamentada em boas razões, retira também sua autoridade da livre vontade do soberano (BARROS, 2009, documento on-line). 16 Além da construção dessa definição de soberania, Bodin legou aos seus contemporâneos uma justificativa para a monarquia como melhor forma de sistema político para o exercício da soberania, que se fundamenta em três pontos: a monarquia é o melhor sistema político para o exercício da soberania a partir de uma análise histórica, que evidenciou a predileção dessa forma de governo pelos povos da antiguidade; a monarquia é a melhor forma de governo pelas leis de Deus; a monarquia, por ter apenas um soberano, facilita o exercício e o direito à soberania. 5 ESTADO COMO SOCIEDADE POLÍTICA A origem da sociedade revela que o indivíduo se reúne em torno de determinados objetivos de forma organizada e, para atingir tais finalidades, aceita ou se submete a um poder de caráter social. Assim, revelam-se os elementos geralmente presentes na sociedade: finalidade, ordem e poder social. Em uma perspectiva ampla, quando a finalidade almejada reside na criação de condições gerais para a realização dos objetivos individuais, essa sociedade é considerada política (DALLARI, 2013). Fonte: brasilescola.uol.com A sociedade política comunga interesses gerais e individuais, na medida em que proporciona, a um só tempo, a consecução de fins próprios e de objetivos comuns para todos os seus integrantes. É frequente, inclusive, que se refira à busca do bem 17 comum como a finalidade última de uma sociedade política considerada na perspectiva mais ampla de participantes. Nessa percepção mais ampla, quando aceita uma autoridade superior que estabeleça as regras de convivência em torno desse objetivo comum, surge a primeira concepção de Estado. De fato, o Estado é uma espécie de sociedade política. A expressão Estado, porém, é reveladora de momento histórico determinado e específico. Coube a Maquiavel o seu emprego na obra O príncipe (1513). Diante da importância da obra, que apontava as características para um governo de sucesso no contexto político da Itália, o termo se difundiu ao longo do século XVII, superando concepções mais tradicionais que faziam alusão ao “estado” como grande propriedade particular (estados na Espanha e states na Inglaterra) (DALLARI, 2013). Mais adiante, a expressão passou a ser empregada apenas quando estivessem presentes algumas características específicas. Foi então que surgiu, no século XVIII, o chamado Estado moderno (DALLARI, 2013). A dificuldade em identificar uma exata conceituação sobre o que se entende por Estado deságua em similar desafio para encontrar as suas origens. Assim, uma primeira corrente defende que a figura do Estado, associada a uma sociedade organizada, sempre existiu. Não seria concebível uma sociedade sem Estado. Nesse sentido, o Estado seria justamente o princípio organizador de toda a humanidade. Por outro lado, uma segunda corrente afirma que o aparecimento do Estado depende das conveniências e oportunidades de cada grupo social, dependendo das condições concretas de cada agrupamento em cada localidade. Por fim, uma terceira corrente destaca que somente pode ser considerado Estado aquela sociedade política com características próprias e nascida na metade do século XVII. Para essa concepção, a definição de Estado não é generalizável, mas um produto histórico decorrente do reconhecimento da ideia de soberania, isto é, a concentração de poder em determinado território e sobre uma determinada comunidade — o que somente teria ocorrido no século XVII (MORAIS; STRECK, 2010). 5.1 Formação do Estado A formação do Estado é tema que suscitadivergências. Variadas seriam as possíveis causas para o surgimento dessa sociedade política, sendo frequente a 18 classificação entre formação originária e formação derivada (AZAMBUJA, 2008). A primeira estaria relacionada ao avanço na organização de um agrupamento pela primeira oportunidade, isto é, sem que houvesse uma ordem política anterior. A segunda diz respeito a situações em que novos Estado surgem a partir de outros já existentes. Nesse caso, falamos em fracionamento (quando uma parte do território de um Estado é desmembrada e se constitui um novo Estado) ou em união (quando dois ou mais Estados se reúnem para formar um novo Estado). 5.2 Teorias naturalistas As teorias naturalistas buscam explicar a formação originária do Estado a partir de uma condição espontânea do ser humano. Segundo essas teorias, haveria uma formação espontânea do Estado, que dispensa qualquer ato voluntário da comunidade. Assim, o surgimento do Estado não depende de qualquer ato específico do homem, mas seria produto da sua natural caminhada em sociedade. Trata-se, portanto, de uma formação natural e, dessa forma, não contratual do Estado. A formação natural do Estado é assim defendida por Darcy Azambuja: [...] só um fato é permanente e dele promanam outros fatos permanentes: o homem sempre viveu em sociedade. A sociedade só sobrevive pela organização, que supõe a autoridade e a liberdade como elementos essenciais; a sociedade que atinge determinado grau de evolução passa a constituir um Estado. Para viver fora da sociedade, o homem precisaria estar abaixo dos homens ou acima dos deuses, como disse Aristóteles, e vivendo em sociedade ele natural e necessariamente cria a autoridade e o Estado (AZAMBUJA, 2008, p. 109). As principais causas não contratuais para o surgimento do Estado são sistematizadas por Dalmo de Abreu Dallari da seguinte forma (DALLARI, 2013): Origem familiar — considera que o núcleo familiar é a célula-mãe da sociedade política. De fato, a partir da reunião de diversas famílias, a complexidade do grupo social aumenta e, assim, surge o Estado enquanto figura de reunião da comunidade. Essa foi a proposta de Fustel de Coulanges ao tratar do surgimento do Estado grego e do Estado romano. Origem violenta — considera que o Estado é o resultado da natural superioridade de força de determinado grupo sobre outro. Assim, lembra Darcy Azambuja que o Estado é, durante os seus primeiros estágios, uma organização 19 imposta pelo vencedor para manter a dominação do vencido (AZAMBUJA, 2008). É também denominada teoria da violência ou teoria da conquista. Origem econômica — considera que a reunião do sujeito em torno de um aparato de poder organizado decorre de motivos econômicos. Assim, o Estado proporciona a reunião de variados interesses, já que ninguém é bastante em si. Mais do que isso, essa teoria destaca que o Estado proporciona a divisão do trabalho e a integração de diversas atividades diferentes. Alguns autores, como Marx e Engels, vão ao extremo dessa teoria para explicar as razões pelas quais o Estado autoriza tantas desigualdades: na sua origem econômica, ele institucionalizou a propriedade privada, o acúmulo de patrimônio, a divisão de classe e, por consequência, a luta entre elas. Sobre o tema, confira a crítica de Darcy Azambuja (2008, p. 103): Quanto à luta de classes, o que a história e a sociologia têm demonstrado é que ela sempre existiu como também sempre existiu a cooperação entre as classes; que o Estado possa ser frequentemente instrumento dessa luta é demonstrável; mas, que ele tenha nela sua origem, é história distorcida e sociologia para propaganda política. Origem no desenvolvimento interno — considera que toda sociedade humana tem um Estado em potencial que surgirá à medida que a sua complexidade aumentar. Assim, uma sociedade pouco desenvolvida dispensa a figura do Estado, mas uma sociedade com maior desenvolvimento tem por necessidade o surgimento do Estado. Há, em razão disso, um surgimento do Estado naturalmente decorrente do progresso de uma sociedade. 5.3 Teorias contratualistas As teorias contratualistas buscam explicar a formação originária do Estado a partir de um ato voluntário do ser humano. Segundo essas teorias, a formação do Estado depende de uma convenção expressa realizada entre os integrantes de uma sociedade. Assim, em linhas gerais, o surgimento do Estado dependeria de um ato concreto de reunião e aceitação, por alguns denominado contrato social. Trata-se, portanto, de uma formação contratual do Estado. Para o pensamento contratualista, a sociedade e o Estado são criações artificiais da razão humana, derivadas de um consenso, tácito ou expresso, da maioria dos indivíduos para encerrar o estado de natureza e iniciar o estado civil. Assim, a 20 origem e a legitimação do Estado são uma decorrência do contrato entre os indivíduos (MORAIS; STRECK, 2010). O pensamento contratualista, entretanto, não é uniforme, merecendo especial atenção as ideias de Hobbes, Locke e Rousseau. Fonte: conversadeportugues.com.br Nesse sentido, Hobbes destaca que, antes da vida em sociedade, o homem se encontrava em uma fase primitiva, caracterizada pela insegurança e incerteza constantes. No estado de natureza, para ele, haveria uma eterna guerra de todos contra todos, derivada do caráter eminentemente negativo do homem — que não possui uma natureza boa. Assim, com o intuito de preservar a própria vida, o ser humano lança mão de um pacto em que se despoja dos seus direitos em detrimento de segurança. Entretanto, como a transgressão é ínsita ao homem, para garantir o cumprimento do pacto social, o grupo entrega o poder social para um novo sujeito, que é justamente o Estado. Por essa razão, a teoria contratualista de Hobbes justifica, a um só tempo, o surgimento da sociedade organizada (estado civil) e do Estado. Curiosamente, a figura é chamada, por Hobbes, de Leviatã (“metade monstro e metade deus mortal”), ente capaz de garantir a paz e a defesa da vida dos seus súditos (MORAIS; STRECK, 2010, p. 32). O pensamento do autor inglês traz amplos poderes para o soberano, já que não há parâmetros naturais para a ação estatal, uma que pelo contrato o homem se despoja de tudo, exceto da vida, transferindo o asseguramento dos interesses à sociedade política, especificamente ao soberano. O Estado e o Direito se constroem pela demarcação de limites pelo soberano que, por não ser partícipe na convenção instituidora e, recebendo por todo 21 desvinculado o poder dos indivíduos, tem aberto o caminho para o arraigamento de sua soberania (MORAIS; STRECK, 2010, p. 34). Assim, em Hobbes, o Estado “já nasce com poderes supremos” (DINIZ, 2001, p. 152). Reafirmamos que, para Hobbes, é a manutenção do pacto social que possibilita a existência de paz entre o grupo social. As condições para o cumprimento do contrato, por sua vez, são uma providência do soberano — autorizado a “velar para que o temor ao castigo seja uma força maior que o fascínio exercido pelo desejo de qualquer vantagem possa esperar de uma violação do contrato” (DINIZ, 2010, p. 161). Com efeito, para Hobbes, a submissão absoluta é o preço a ser pago pelo súdito pela salvação trazida pelo Estado (DIAS, 2013). Por essa razão, o seu pensamento é inspiração do modelo absolutista. Ao pensamento de Hobbes, contrapõe-se Locke — defensor das liberdades individuais e fervoroso antagonista do modelo absolutista. Para ele, no estado de natureza, o homem já possui um domínio racional de suas paixões e seus interesses, de modo que não se pode considerar a existência de uma guerra potencial. Pelo contrário, nesse estágio inicial da sociedade, há uma paz relativa que permite ao homem identificar os seus limites e reconhecer a existência de alguns direitos. De fato, no pensamento de Locke, existem diversos direitos inatos aohomem, como a vida, a liberdade e a propriedade. Falta, porém, uma força coercitiva apta a solucionar conflitos que possam surgir (MORAIS; STRECK, 2010). A necessidade de uma força coercitiva para assegurar a proteção dos direitos inatos ao homem conduz à elaboração de um pacto entre os integrantes da sociedade. Surge, então, o contrato social como ferramenta de legitimação do poder e de manutenção dos direitos naturais. Assim, o pacto se sustenta na necessidade de proteção de direitos previamente existentes e na sua proteção contra possíveis conflitos. Surgem, assim, o estado civil e a fonte da autoridade estatal. Verificamos, nesse panorama, o caráter individualista de Locke: o surgimento do estado civil se dá para resguardar os direitos naturais de cada sujeito (MORAIS; STRECK, 2010), em especial, a propriedade (APPIO, 2005). O poder do Estado, nessa linha, já surge limitado aos direitos naturais antes existentes. Como podemos perceber, enquanto Hobbes via no Estado um ente plenipotente, Locke identifica no Estado um ente com poder delimitado. Por essa razão, defende ele que os sujeitos do contrato podem se opor ao Estado quando houver violação a direitos naturais. Existe, pois, direito de resistência na sociedade 22 política defendida por Locke (MORAIS; STRECK, 2010). Ainda, para ele, quando já instaurados a sociedade e o Estado, além do limite inicial decorrente dos direitos naturais, deverá ser observado o princípio da maioria. Assim, haverá uma proeminência do Poder Legislativo sobre o Poder Executivo (MORAIS; STRECK, 2010). Além disso, a observância da lei é impositiva, porque é fundada no próprio contrato social — o deixar de seguir a lei criado pelo Poder Legislativo é o mesmo que querer retornar ao estado natural (APPIO, 2005). O pensamento de Rousseau também é digno de referência, já que confirma a evolução da origem do Estado de um modelo absolutista para um modelo democrático. Com Rousseau, a tese do estado de natureza apenas facilita o entendimento da sociedade. Na realidade, a formação de uma sociedade teria maior caráter histórico. É célebre a sua afirmação de que, quando o primeiro homem reivindicou propriedade e os demais, ingênuos, aceitaram, teria surgido a sociedade. Assim, a noção de estado de natureza é emprestada apenas para ilustrar o contrato social e a legitimidade do poder social. Na compreensão de Rousseau, para manter a liberdade e a igualdade do indivíduo, propõe-se que o contrato social seja uma entrega do particular (vontade individual) para o geral (vontade geral), de modo que, quando ocorre a incursão no estado civil, não há uma abdicação da liberdade, mas sim uma entrega dela para toda a comunidade. E, como o sujeito faz parte do grupo social, não há qualquer perda. Pelo contrário, no pacto social, o indivíduo mantém a sua condição de liberdade e igualdade. É, pois, no princípio da vontade geral que reside a legitimidade do poder em Rousseau (MORAIS; STRECK, 2010). Nessa linha de entendimento, o poder não decorre da submissão a um terceiro, mas da união havida entre iguais. Trata-se de concepção na qual cada um renuncia a seus interesses particulares em detrimento da coletividade. Confira: Enfim, dando-se cada um a todos, não se dá a ninguém, e como não haverá nenhum associado sobre o qual não se adquira o mesmo direito que se cedeu, ganha-se o equivalente a tudo que se perde e mais força para se conservar aquilo que se tem. Se, afinal, retira-se do pacto social aquilo que não pertence à sua essência, veremos que ele se reduz aos seguintes termos: cada um põe em comum sua pessoa e todo seu poder sob suprema direção da vontade geral; e enquanto corpo, recebe-se cada membro como parte indivisível do todo (ROUSSEAU, 2017, p. 24). 23 A primordial contribuição desse pensamento é o tom democrático: é indispensável o respeito à vontade geral encarnada na maioria. O poder, nessa passagem, não mais pertence a um príncipe ou oligarca, mas à própria comunidade. Traz, por outro lado, a problemática reversa: Rousseau consagra o despotismo da maioria e sufoca qualquer pensamento político contrário à voz dominante (MORAIS; STRECK, 2010). Seja como for, no seu pensamento, há uma inegável proposta de limitação do Estado, já que o soberano não tem o direito de sobrecarregar um indivíduo em detrimento do outro (DIAS, 2013): Assim, fica claro que o poder soberano, por mais que seja totalmente absoluto, sagrado e inviolável, não ultrapassa nem pode ultrapassar os limites das convenções gerais, e que todo homem pode dispor plenamente dos seus bens e da sua liberdade naquilo que foi estipulado por essas convenções; de modo que o soberano nunca tem direito de sobrecarregar mais um súdito que o outro, uma vez que seu poder não é mais competente, quando o assunto se torna particular” (ROUSSEAU, 2017, p. 40). A importância da teoria contratualista da formação do Estado é inegável, já que não apenas revela a proteção de direitos do indivíduo como também enuncia que o Estado, desde a sua origem, é limitado. 6 O ESTADO E OS SEUS PAPÉIS A fim de compreender a formação do Estado na atualidade, você deve refletir sobre os pressupostos ontológicos que pontuam a constituição dessa instância, que é um marco na história das sociedades. O homem, em seu estado de natureza, possui sua liberdade natural e a protege com sua força física. Como disse Thomas Hobbes (1588–1679) “o homem é o lobo do homem”, ou seja, o homem é seu próprio inimigo. Essa premissa levou as sociedades primitivas a criarem a ordem em meio ao caos. 24 Fonte: mundoeducacao.uol.com.br/geografia/conceito-estado A sociedade que surge do estado de natureza se constitui por meio de um contrato social. Quando a força física já não é mais suficiente para a manutenção da ordem, é necessária uma força superior. Nesse sentido, o homem sai de seu estado natural para o estado civil e perde a liberdade natural. Em uma sociedade, existe a liberdade política, que é garantida pelo Estado e não mais pela força física. Assim, ela se iguala à liberdade natural — desde que o homem não deixe de exercer as suas vontades. Rousseau explica que o homem possui duas vontades: uma pública e outra particular. Sendo a vontade pública uma vontade geral, ela se sobrepõe à vontade particular de cada um. Em um Estado legítimo, a vontade particular deve se adaptar à vontade geral. Caso contrário, ocorre o fim do Estado. A vontade geral leva os homens a se tornarem um só corpo e a terem uma única direção política. O corpo político possui caráter moral e se torna existente a partir do pacto social. Ele só existe se todos dispuserem de tudo para toda a comunidade, porque um corpo não pode denegrir a si mesmo. Veja: Se a vontade do corpo político é feita, tem-se um Estado legítimo. Estado esse que é guiado pela vontade geral, e preza pela preservação da liberdade e dos bens de cada associado. O homem natural, que vivia isolado e bastava a si mesmo, agora, através do pacto, faz parte de um todo maior, o corpo político. No corpo político, sua liberdade é ainda mais assegurada, já que não depende de sua força física. O que limita essa liberdade é a vontade geral, que, por sua vez, está diretamente ligada à criação e observância das leis (SILVA; CUNHA, 2013, p. 218). 25 Nesse contexto, é importante você notar a compreensão que se tem das leis, que são uma declaração geral sobre um interesse comum. Elas existem a fim de garantir a liberdade e a igualdade entre os homens. Além disso, a lei é sempre justa, pois o homem não pode ser injusto consigo mesmo. Assim, “Se quisermos saber no que consiste, precisamente, o maior de todos os bens, qual deva ser a finalidade de todos os sistemas de legislação, verificar-se-á que se resume nestes dois objetivos principais: a liberdade e a igualdade [...]” (ROUSSEAU, 1999, p. 127 apud SILVA; CUNHA, 2013, p. 219).O que fundamenta e garante que a finalidade do Estado se cumpra é a preservação da liberdade e da igualdade entre os homens. Esse também é o fundamento da vontade geral, das leis e do corpo político. Segundo Silva e Cunha (2013, p. 220), “[…] A vontade do corpo político é a vontade geral. Por meio dela o homem continua a ser livre, e por ser membro deste corpo ele é igual a todos os demais membros […] o Estado dirigido pela vontade geral é um Estado social legítimo [...]”. Segundo Pereira (2009), três elementos constituem o Estado. Veja a seguir. 1. Um conjunto de instituições e prerrogativas, entre as quais o poder coercitivo, que só o Estado possui, por delegação da própria sociedade. 2. O território, isto é, um espaço geograficamente delimitado onde o poder estatal é exercido. Muitos denominam esse território de “sociedade”, ressaltando a sua relação com o Estado, embora este mantenha relações com outras sociedades, para além de seu território. 3. Um conjunto de regras e condutas reguladas dentro de um território, o que ajuda a criar e manter uma cultura política comum a todos os que fazem parte da sociedade nacional ou do que muitos chamam de “nação”. O Estado é um fenômeno histórico e relacional. Portanto, deve ser tratado como processo. Afinal, ele não existe de forma absoluta nem é inalterável. Veja: Por ser um processo histórico, que contempla passado, presente e futuro, bem como a coexistência de antigos e novos elementos e determinações, a relação praticada pelo Estado tem caráter dialético — no sentido de que propicia um incessante jogo de oposições e influências entre sujeitos com interesses e objetivos distintos. Ou, em outros termos, a relação dialética realizada pelo Estado comporta igualmente antagonismos e reciprocidades e, por isso, permite que forças desiguais e contraditórias se confrontem e se integrem a ponto de cada uma deixar sua marca na outra e ambas contribuírem para um resultado final (PEREIRA, 2009, p. 345). É nessa relação com a sociedade que o Estado abrange toda a dimensão da vida social, indivíduos e classes, assumindo diferentes responsabilidades. Entre elas, 26 a de atender às demandas e reivindicações da sociedade como um todo e não apenas de uma classe. Mesmo possuindo um poder coercitivo, o Estado também exerce funções protetoras, sendo pressionado e controlado pela sociedade. Pereira (2009) ainda afirma que o Estado não é uma entidade desgarrada da sociedade. Ele não é a única força organizada e autossuficiente na sociedade e não é um instrumento exclusivo da classe dominante. É uma instituição constituída e dividida por interesses diversos, que possui a tarefa primordial de administrar tais interesses sem neutralidade. O Estado deve se relacionar com todas as classes para se legitimar e construir sua base material de sustentação, e não apenas com a classe com que mais se identifica. O Estado é a expressão de todas as classes. Embora zele pelos interesses da classe dominante, acata outros interesses para manter a classe dominada afastada do bloco de poder. Segundo Pereira (2009, p. 346), é “relacionando-se com todas as classes que o Estado assume caráter de poder público e exerce o controle político e ideológico sobre todas elas [...]”. Se o Estado se exime de suas responsabilidades com certos grupos ou classes, pode perder o seu apoio ou a sua confiança. Isso abre brechas para a sociedade se organizar autonomamente por meio de movimentos. Além disso, isso põe em risco o bloco de poder e possibilita o surgimento de poderes paralelos. É por isso que o Estado é, por um lado, uma relação de dominação (ou a expressão política da dominação de quem está no poder) e, por outro, um conjunto de instituições mediadoras e reguladoras dessa dominação. Como você pode notar, o Estado exerce uma forma de controle sobre a sociedade, mas também possui a função de protegê-la e está estruturado de forma a garantir o seu poder e a sua autonomia. Na atualidade, se vive sob os mandos do Estado neoliberal, que interfere de forma parcial na economia e visa a proteger as classes mais desfavorecidas por meio de políticas sociais paliativas, ofertando o mínimo para sobreviverem. Em tempos de capital, o que se vê é o Estado atuando a favor de determinados grupos em vez de cumprir o seu papel de protetor de toda a sociedade. 7 O SERVIÇO SOCIAL E A DIVISÃO DE CLASSES Segundo Marx e Engels (2008, p. 8), “A história de todas as sociedades até agora tem sido a história das lutas de classe [...]”. A concepção de classe social 27 adotada pelo Serviço Social está fundamentada na teoria social de Marx. Ela parte do pressuposto de que nos primórdios do capitalismo havia duas classes fundamentais: a dos proprietários e a dos proletários. A primeira detinha os meios de produção e a segunda vendia a sua força de trabalho em troca de um salário, que em parte também era apropriado pela primeira classe. A divisão da sociedade em classes permite a concorrência e a liberdade econômica que geram lucratividade e consumo. Com a ascensão da burguesia no período do declínio da sociedade feudal, o antagonismo de classes foi ficando cada vez mais aparente. Nesse contexto, as contradições não eram eliminadas; pelo contrário, surgiam novas classes e novas condições de opressão. Para compreender isso melhor, considere o seguinte: A burguesia não pode existir sem revolucionar constantemente os instrumentos de produção, portanto as relações de produção e, por conseguinte, todas as relações sociais. A conservação inalterada dos antigos modos de produção era a primeira condição de existência de todas as classes industriais anteriores. A transformação contínua da produção, o abalo incessante de todo o sistema social, a insegurança e o movimento permanente distinguem a época burguesa de todas as demais. As relações rígidas e enferrujadas, com suas representações e concepções tradicionais, são dissolvidas, e as mais recentes tornam-se antiquadas antes que se consolidem. Tudo o que era sólido desmancha no ar, tudo o que era sagrado é profanado, e as pessoas são finalmente forçadas a encarar com serenidade sua posição social e suas relações recíprocas (MARX; ENGELS, 2008, p. 14). A burguesia expandiu o mercado por meio dos oceanos a fim de que o comércio chegasse a todos os cantos do mundo, criando uma interdependência geral entre os países. Com o passar do tempo, as duas classes fundamentais foram se estratificando, ganhando novas conotações, mas, em suma, se resumem à burguesia e ao proletariado. Segundo Marx e Engels (2008, p. 29–30), “[...] a condição essencial para a existência e a dominação da classe burguesa é a concentração de riqueza nas mãos de particulares, a formação e a multiplicação do capital; a condição de existência do capital é o trabalho assalariado [...]”. 28 Fonte: mundoeducacao.uol.com.br/sociologia/classe-social. Via de regra, a burguesia (ou classe dominante) não se preocupa em retirar da classe proletária o pouco que ela possui. A burguesia utiliza a propriedade privada, a apropriação dos meios de produção, a apropriação da riqueza socialmente produzida e a extração da mais-valia para manter o seu status quo. Entretanto, no decorrer da história, a classe trabalhadora sempre demonstrou o seu descontentamento com a condição de vida e de trabalho que lhe foi imposta. Ela tem encontrado nos movimentos de oposição uma forma de lutar por seus direitos. Toda luta de classes é, portanto, uma luta política (MARX; ENGELS, 2008). Assim, você pode considerar que a divisão de classes sociais existe apenas no modo de produção capitalista e que, portanto, é produto consolidado da lógica capitalista. Segundo Frederico (2009, p. 1), classes sociais “[...]são entendidas como um componente estrutural da sociedade capitalista e, ao mesmo tempo, como sujeitos coletivos que têm suas formas de consciênciae de atuação determinadas pela dinâmica da sociedade [...]”. Em suma, a conformação das classes sociais depende do desenvolvimento da sociedade capitalista. Nesse sentido, Duriguetto (2013) destaca a relação orgânica entre a sociedade civil e o mundo das relações sociais de produção. É a partir dela que se desenvolvem as classes sociais, bem como seus interesses conflitantes, suas expressões organizativas, suas formas de consciência e até mesmo a função do Estado. A sociedade é uma esfera em que as classes lutam pela hegemonia, e há aquelas que transitam na contra hegemonia, buscando aliados, articulando interesses e necessidades. O Serviço Social, em seu Código de Ética (CONSELHO FEDERAL DE SERVIÇO SOCIAL, 1993), assume o compromisso de atuar juntamente à classe 29 trabalhadora, lutando pelos interesses dos menos favorecidos. O projeto ético-político definido no seio da profissão visa ao fortalecimento das lutas a favor da classe trabalhadora, o que a leva a fazer alianças com os sujeitos coletivos. Percebe-se que aumenta cada vez mais o nível de divisão entre as classes. Isso remonta ao conceito de Antunes (2008): “classe que vive do trabalho”. Tal conceito exprime e dá relevância àqueles que não têm acesso aos bens produzidos pela sociedade, mas que têm no trabalho o motivo da sua existência e da sua sobrevivência. Na medida em que o capital vai se complexificando, a divisão de classes vai ficando também cada vez mais complexa. O Serviço Social, com base nos pressupostos teóricos da profissão, assume a posição política de voltar suas ações para a defesa dos direitos da classe trabalhadora. A ideia é fortalecer vínculos, estreitar laços com as lideranças dos movimentos e contribuir para a construção de sujeitos coletivos, visando à emancipação política dessa classe. Em seu Código de Ética, está expressa a “[...] opção por um projeto profissional vinculado ao processo de construção de uma nova ordem societária, sem dominação/exploração de classe, etnia e gênero [...]” (CONSELHO FEDERAL DE SERVIÇO SOCIAL, 2013, p. 24). Além disso, está prevista a “[...] articulação com os movimentos de outras categorias profissionais que partilhem dos princípios deste Código e com a luta geral dos trabalhadores [...]” (CONSELHO FEDERAL DE SERVIÇO SOCIAL, 1993, p. 24). Assim, como evidenciam o Código de Ética do Serviço Social, a lei de regulamentação da profissão e o seu projeto ético-político, o Serviço Social serve como um mecanismo para a concretização das políticas públicas. Ele atua no enfrentamento das manifestações da Questão Social e a favor da classe trabalhadora (CONSELHO FEDERAL DE SERVIÇO SOCIAL, 1993). 8 O MATERIALISMO HISTÓRICO: CONCEPÇÃO MARXISTA DA HISTÓRIA Principais conceitos O pensamento marxista se consolidou em torno do materialismo dialético e do materialismo histórico. Esta última terminologia é, em geral, a mais empregada para designar a teoria marxista da história. Além disso, Barros (2011) chama a atenção para que não se confunda ou se sobreponha materialismo histórico e marxismo, que muitas vezes são utilizados como sinônimos. Nesse sentido, o autor propõe uma diferenciação entre o marxismo-leninismo, como 30 programa de ação política, e o materialismo histórico, como um paradigma, um método e uma abordagem teórica para a compreensão dos processos históricos. O materialismo histórico enquanto paradigma foi forjado por Karl Marx (1818–1883) e Friedrich Engels (1820–1895) em diálogo com o campo historiográfico e com demais produções das ciências humanas realizadas ao longo do século XIX. Suas obras reúnem os conceitos e a teoria que sustentam o materialismo histórico. Além disso, em diversas análises os autores colocaram em prática essa leitura da realidade. Para Barros (2011), o materialismo histórico possui um núcleo conceitual mínimo, composto pelas ideias de dialética, de materialismo e de historicidade, além de três conceitos incontornáveis (práxis, luta de classes e modo de produção). Contudo, outros conceitos também aparecem seguidamente na obra de Marx. A seguir, você vai conhecer algumas definições elaboradas a partir do Dicionário de Conceitos Históricos (2009). Dialética: é um método de análise, fundamentado na contradição, que organiza o raciocínio para a busca da verdade, analisando uma situação contraditória de dada realidade. Para comprovar uma tese, o investigador usa uma antítese, ou seja, a negação da própria tese original. Mas a negação não é suficiente para a compreensão do fenômeno investigado, pois toda negação, em si mesma, contém alguma positividade (não se pode negar sem afirmar alguma coisa). É preciso então aproveitar as contribuições positivas que existem na tese e na antítese para se chegar a uma síntese dos dados conseguidos. De forma simples, a síntese seria o conjunto de conclusões às quais o investigador chega por meio da análise dialética, mas que não se apresenta como definitivo, visto que toda realidade está sujeita ao princípio da contradição. Começa então uma nova situação em que o movimento tese–antítese–síntese ressurge, dando origem a outra situação, que pode ser observada pelo movimento tese–antítese–síntese. Marx construiu uma dialética em torno da matéria, formulando o materialismo dialético em oposição à dialética dos idealistas Hegel e Fichte. Luta de classes: Marx definiu classe social como a posição comum de um conjunto de indivíduos no interior das relações sociais de produção. Para ele, classe era um grupo social com uma função específica no 31 processo produtivo. Por exemplo, os proprietários de terra, os capitalistas e os trabalhadores constituem classes distintas. Cada um deles ocupa um lugar específico no processo de produção: alguns possuem a terra, outros, o capital; e os trabalhadores, a habilidade de trabalho. As diferentes funções dão a cada classe interesses conflitantes, além de ideias e maneiras de agir diferentes. A história, por sua vez, seria o relato desses conflitos. Nesse sentido, a tradição marxista tende a conceituar classe com base no lugar que cada grupo ocupa na economia. Os estudos de Marx e Engels estiveram voltados principalmente para as estruturas de classe das sociedades capitalistas, não dando muita atenção às relações de classe em outras sociedades. Por um lado, ao afirmarem que a história de todas as sociedades tinha sido até então a história da luta de classes, os autores deram a entender que houve classes sociais em vários períodos históricos. Por outro lado, defenderam que a classe era uma característica específica das sociedades capitalistas. Modos de produção: é uma das formulações do materialismo histórico que divide a história (sobretudo a história europeia) em épocas distintas e sucessivas. Para Marx, os modos de produção correspondem a estágios específicos das forças e relações de produção de dada formação social. O modo de produção, em linguagem menos teórica, seria o modo pelo qual determinada sociedade organiza a sua vida econômica, o trabalho, as estruturas políticas e jurídicas e mesmo as manifestações culturais. Todos os aspectos da vida em sociedade (desde os aspectos materiais até os mentais) estariam determinados pelo modo de produção da vida material. Para o materialismo histórico, é a maneira concreta de uma sociedade organizar sua produção que dá forma a todo o edifício social existente nela. Os modos de produção identificados por Marx correspondem, em linhas gerais, à história do mundo europeu, desde as comunidades primitivas até a última fase, o comunismo. As seis épocas históricas ou modos de produção concebidos por Marx são: comunismo primitivo; sociedade escravocrata antiga; feudalismo; capitalismo; socialismo e comunismo. O 32 funcionamento da economia, em cada um desses estágios, apresenta níveis de tecnologia e de relações deprodução particulares. Materialidade: para o materialismo dialético, as condições materiais de existência (a economia) são o verdadeiro móvel das ações humanas. Assim, a dialética seria o método para se perceber e superar as contradições sociais e históricas frequentes nas diversas sociedades humanas ao longo da história. O pensamento de Marx consiste em partir do real (dos homens reais e de suas contradições) e não das ideias ou da mente, como faz Hegel. De acordo com o materialismo dialético, o desenvolvimento histórico da humanidade não se dá pela sucessão de fatos isolados, mas por um processo que envolve movimento e mudança (que, por sua vez, implicam contradições). Práxis: a teoria marxista, de profunda inspiração filosófica, trouxe inovações para se pensar o homem e o mundo no século XIX. Marx foi o primeiro a mostrar que o significado de uma teoria só pode ser compreendido em relação à prática histórica correspondente. Uma teoria não pode ser pensada e entendida sem correspondência com o contexto histórico. Toda teoria deve, portanto, estar enraizada na realidade histórica e dizer alguma coisa que possa transformá-la. Dessa forma, Marx buscou conciliar reflexão filosófica e prática política, teoria e práxis (entendida como a ação humana que transforma o mundo e a si mesma). 33 8.1 A concepção de história de Marx Fonte: www.gazetadopovo.com.br/rodrigo-constantino/artigos O historiador espanhol Pierre Vilar afirmou, certa vez, que muitos se intitulam “historiadores marxistas”, mas poucos se dedicam à “[...] estrita aplicação de um método de análise teoricamente elaborado para a mais complexa das matérias de ciência: as relações sociais entre os homens e as modalidades de suas mudanças” (VILAR, 1995, p. 146). Vilar (1995) afirma que Marx se preocupou com a formulação de uma ciência: coerente, dotada de um esquema teórico sólido; total, do ponto de vista de recobrir a totalidade de uma análise; e dinâmica, passível de ser debatida a partir das mudanças que se sucedem. Nesse sentido, os questionamentos levantados pelo historiador espanhol são bastante pertinentes para você compreender a concepção de história de Marx: teria sido Marx um historiador marxista? Marx desejou alguma vez ser historiador, ou tentou alguma vez escrever história? (VILAR, 1995). Sem dúvidas, em sua vasta produção, Marx escreveu “história” tal como é concebida nos dias de hoje, mas talvez não como era entendida naquele momento, em que o campo recém começava a ganhar contornos disciplinares. Seu “raciocínio histórico” ia da teoria à empiria e vice-versa, questão que foi colocada pela historiografia apenas na década de 1960. Em seus trabalhos sobre a França, segundo Vilar (1995), é possível encontrar, além da “aplicabilidade” da leitura da sociedade 34 francesa por meio do materialismo histórico, questões fundamentais para a história, como reflexões sobre as estruturas da sociedade e as noções de atualidades e de acontecimentos. Entretanto, Hobsbawm (1998, p. 172–173) adverte que esses trabalhos não podem ser considerados “históricos”: O desenvolvimento dessa influência de Marx na literatura histórica não é evidente por si mesma, pois, embora a concepção materialista da história seja o cerne do marxismo e embora tudo o que Marx escreveu esteja impregnado de história, ele próprio não escreveu muita história tal como os historiadores a entendem. Nesse sentido, Engels era mais historiador, escrevendo mais obras que poderiam ser razoavelmente catalogadas nas bibliotecas como “história”. [...] O que chamamos de escritos históricos de Marx consistem quase exclusivamente de análise política corriqueira e comentários jornalísticos, associados a um certo grau de contexto histórico. Suas análises políticas usuais, como Lutas de classes na França e O 18 Brumário de Luís Bonaparte, são realmente notáveis. Seus volumosos escritos jornalísticos, ainda que de interesse irregular, contêm análises do maior interesse — entre os quais seus artigos sobre a Índia — e, em todo caso, são exemplos de como Marx aplicava seu método a problemas concretos, tanto de história quanto de um período que depois se converteu em história. Mas não eram escritos como história, tal como a entendem aqueles que se dedicam ao estudo do passado. Por fim, o estudo de Marx sobre o capitalismo contém uma quantidade enorme de material histórico, exemplos históricos e outros materiais relevantes para o historiador. Aqui reside uma das grandes diferenças entre a obra de Marx e a daqueles que se apropriaram dela para conformar o marxismo dogmático: Marx valorava muito a “fase de investigação” de suas pesquisas, ou seja, a empiria possuía uma importância muito grande. Assim, a utilização de seu arcabouço conceitual e teórico como uma “doutrina” é um reducionismo de seu método de análise, pois a empiria está diretamente em diálogo com as fontes utilizadas por Marx (VILAR, 1995). A explicitação desse método não está contida em sua obra, mas é realizada por seus comentadores. Contudo, Marx inaugurou uma leitura da realidade que ele chamava de sócio histórica, encontrando nas contradições sociais, nas lutas de classe e nos modos de produção uma interpretação sobre as sociedades. Assim, o conceito fundamental para compreender a interpretação de história de Marx é o conceito de modo de produção enquanto estrutura determinada e determinante das relações sociais. De acordo com Vilar (1995, p. 155), a originalidade dessa formulação assenta-se em três pontos: Mas sua originalidade não é a de ser um objeto teórico. É a de ter sido, e continuar sendo, o primeiro objeto teórico a exprimir um todo especial, enquanto os primeiros esboços de teoria, nas ciências humanas, se limitavam ao econômico e tinham visto nas relações sociais dados imutáveis (a propriedade da terra para os fisiocratas) ou condições ideais a serem 35 preenchidas (liberdade e igualdade jurídicas para os liberais). A segunda originalidade, como objeto teórico, do modo de produção é ser uma estrutura de funcionamento e de desenvolvimento, nem formal nem estática. A terceira é que essa estrutura implica o princípio (econômico) da contradição (social), contudo a necessidade de sua destruição como estrutura, de sua desestruturação. Para analisar, na prática, a compreensão de Marx sobre a história, leia, a seguir, um trecho de O 18 de Brumário de Luís Bonaparte, que hoje pode ser considerada uma obra de história do tempo presente, já que Marx a escreveu no calor dos acontecimentos: Os homens fazem a sua própria história, mas não a fazem segundo a sua livre vontade; não a fazem sob circunstâncias de sua escolha e sim sob aquelas com que se defrontam diretamente, legadas e transmitidas pelo passado. A tradição de todas as gerações mortas oprime como um pesadelo o cérebro dos vivos. E justamente quando parecem empenhados em revolucionar- -se a si e às coisas, em criar algo que jamais existiu, precisamente nesses períodos de crise revolucionária, os homens conjuram ansiosamente em seu auxílio os espíritos do passado, tomando-lhes emprestado os nomes, os gritos de guerra e as roupagens, a fim de apresentar nessa linguagem emprestada. Assim, Lutero adotou a máscara do apóstolo Paulo, a Revolução de 1789–1814 vestiu-se alternadamente como a república romana e como o império romano, e a Revolução de 1848 não soube fazer nada melhor do que parodiar ora 1789, ora a tradição revolucionária de 1793–1795. De maneira idêntica, o principiante que aprende um novo idioma traduz sempre as palavras deste idioma para sua língua natal; mas só quando puder manejá-lo sem apelar para o passado e esquecer sua própria língua no emprego da nova terá assimilado o espírito desta última e poderá produzir livremente nela (MARX, 2003, p. 7). Barros (2011, p. 91) interpretou da seguinte forma o trecho anterior de Marx: A história [...] mostra suasduas facetas: aquilo que se impõe sobre os homens a partir de condições objetivas herdadas das gerações anteriores, e aquilo que vai sendo transformado por sua ação, por seu confronto através das lutas sociais. A história é para ele espaço de aprisionamentos e de liberdades. Há épocas em que a história parece se impor tiranicamente sobre esses homens, deixando-lhes margens estreitas, no interior das quais, contudo, eles se movimentam; e há épocas em que esses mesmos homens parecem tomar para si a tarefa de revolucionar seus destinos. Essas ideias são retomadas por Marx em outra obra, A Ideologia Alemã: A história nada mais é do que a sucessão das diferentes gerações, cada uma das quais explora os materiais, capitais e as forças de produção a ela transmitidos pelas gerações anteriores; ou seja, de um lado prossegue em condições completamente diferentes a atividade precedente, enquanto de outro lado modifica as circunstâncias através de uma atividade totalmente diferente (MARX, 2001, p. 70). 36 8.2 O que os historiadores devem a Karl Marx? O título desta seção também é o título de um artigo escrito por Eric Hobsbawm em que o historiador avalia a contribuição da obra de Marx para a história. De acordo com Hobsbawm, Marx rompe com as práticas historiográficas hegemônicas do século XIX, dedicadas ao estudo da diplomacia e do político, das guerras e dos grandes líderes. Ao proporem que a história é a história da luta de classes ou que é a história dos modos de produção, Marx e Engels sugeriam uma inversão da perspectiva de análise, deslocando os interesses para as bases econômico-sociais das sociedades. Para Hobsbawm (1998), é necessário separar o que foi a contribuição de Marx para a historiografia do que ele chamou de “marxismo vulgar”, uma apropriação sem critérios de algumas ideias do pensamento do filósofo alemão. Segundo o autor britânico, o “marxismo vulgar” pode ser compreendido como: 1. A “interpretação econômica da história”, ou seja, a crença de que “o fator econômico é o fator fundamental do qual dependem os demais”; e, mais especificamente, do qual dependiam fenômenos até então não considerados com muita relação com questões econômicas. Nesse sentido, essa interpretação se superpunha ao 2. Modelo da “base e superestrutura” (utilizado mais amplamente para explicar a história das ideias). A despeito das próprias advertências de Marx e Engels e das observações sofisticadas de alguns marxistas, esse modelo era usualmente interpretado como uma simples relação de dominância e dependência entre a “base econômica” e a “superestrutura”, na maioria das vezes mediada pelo 3. “Interesse de classe e a luta de classes”. Tem-se a impressão de que diversos historiadores marxistas vulgares não liam muito além da primeira página do Manifesto Comunista, e da frase: “a história [escrita] de todas as sociedades até agora existentes é a história das lutas de classes”. 4. “Leis históricas e inevitabilidade histórica”. Acreditava-se, acertadamente, que Marx insistira sobre um desenvolvimento sistemático e necessário da sociedade humana na história, a partir do qual o contingente era em grande parte excluído, de qualquer maneira, ao nível de generalização sobre os movimentos de longo prazo. Daí a constante preocupação nos escritos históricos dos primeiros marxistas com problemas como o papel do indivíduo ou do acidente na história. Por outro lado, isso podia ser — e em grande parte era — interpretado como uma regularidade rígida e imposta, como, por exemplo, na sucessão das formações socioeconômicas, ou mesmo como um determinismo mecânico que às vezes se aproximava da sugestão de que não havia alternativas na história. 5. Temas específicos de investigações históricas derivavam dos próprios interesses de Marx, por exemplo, na história do desenvolvimento capitalista e da industrialização, mas também, por vezes, de comentários mais ou menos casuais. 6. Temas específicos de investigação não derivavam tanto de Marx quanto do interesse dos movimentos associados a sua teoria, por exemplo, nas agitações das classes oprimidas (camponeses, operários), ou nas revoluções. 37 7. Várias observações sobre a natureza e limites da historiografia derivavam principalmente do elemento número 2 e serviam para explicar as motivações e métodos de historiadores que afirmavam não estarem fazendo mais que a busca imparcial da verdade [...] (HOBSBAWM, 1998, documento on-line). Para Hobsbawm (1998), a contribuição de Marx para a historiografia residiria, então, em outro âmbito, não nesse do “marxismo vulgar”. O marxismo não seria a única teoria estrutural-funcionalista da sociedade, embora possa ser considerada a primeira delas. Ele é distinto de grande parte das outras teorias de duas formas. Primeiro, porque hierarquiza os fenômenos sociais (tais como infraestrutura e superestrutura). Depois, porque afirma que toda sociedade vive tensões internas (contradições) que se contrapõem à tendência do sistema de se manter como um interesse vigente. Ainda de acordo com Hobsbawm (1998), a relevância desses aspectos do marxismo se relaciona ao campo da história. Afinal, são tais aspectos que permitem explicar por que de que maneira as sociedades se alteram, ou seja, os fatos da evolução social. Portanto, de acordo com o historiador, a força de Marx está em sua insistência tanto na existência da estrutura social quanto na sua historicidade. Atualmente, afirma Hobsbawm (1998, documento on-line), “[...] quando a existência de sistemas sociais é geralmente aceita, mas à custa de sua análise a-histórica, quando não anti-histórica, a ênfase de Marx na história como dimensão necessária talvez seja mais essencial do que nunca”. Assim, como você pode notar, a influência de Marx sobre os historiadores, e não somente os historiadores marxistas, deu-se não apenas pela concepção materialista da história, mas também em relação a suas observações sobre aspectos, períodos e problemas específicos do passado. É importante, dessa forma, não cometer o erro de compreender o pensamento de Marx a partir de fórmulas concisas que foram popularizadas e frequentemente aceitas como um “resumo” da teoria marxista. 8.3 A influência de Marx na historiografia brasileira De acordo com os historiadores Malerba e Jesus (2016), existem alguns indícios da presença do pensamento de Marx em materiais produzidos no Brasil desde o final do século XIX. Porém, sua influência se tornou notória nas primeiras décadas do século XX. Primeiramente, a obra de Marx foi utilizada como um corpo doutrinário que orientou o ativismo político e funcionou como uma inspiração teórica para 38 reflexões sobre a sociedade, com influências nas ciências humanas e sociais. No Brasil, a virada do século XIX para o XX, mais precisamente a década de 1930, representa um momento de elaboração de muitas análises que problematizavam a realidade nacional. Veja o que afirmam Malerba e Jesus (2016, p. 144): Neste período decisivo da história brasileira, jovens ativistas e intelectuais de esquerda que se destacariam como protagonistas do pensamento político e acadêmico nas décadas seguintes estiveram envolvidos em uma atmosfera de mudança coletiva quanto à sua percepção sobre o país e, especialmente, na forma como avaliaram o papel do Brasil no cenário geopolítico global. A partir de tais diagnósticos, eles produziram diferentes projetos para o futuro do país. No conjunto desses pensadores, destaca-se Caio Prado Júnior (1907–1990), a quem pode ser atribuído o título de “[...] fundador da historiografia marxista no Brasil” (MALERBA; JESUS, 2016, p. 143). Na impossibilidade de abarcar aqui todos os historiadores marxistas brasileiros e os debates desenvolvidos por eles, a seguir você vai conhecer melhor a produção de Caio Prado Júnior e o debate empreendido por ele sobre o “sentido” da colonização no Brasil. Contudo, você deve terem mente que a historiografia marxista brasileira se desenvolveu em diferentes áreas. Entre as discussões mais intensas, considere: aquelas sobre a posição do País no sistema capitalista mundial (desde o mercantilismo) e as condições para a realização da revolução no Brasil, correlatas à discussão sobre a colonização brasileira; aquelas sobre a historiografia do mundo do trabalho, com ênfase nos estudos sobre o sistema escravista, a formação da classe trabalhadora e as mobilizações operárias ao longo do século XX, em sua relação com o Estado brasileiro. Trabalhando com noções de “essência” e “sentido”, Caio Prado Júnior, em Formação do Brasil Contemporâneo, publicado pela primeira vez em 1942, procurou compreender a gênese da economia e da sociedade brasileiras. Para o autor, ir à “essência de nossa formação” significava buscar um sentido para a colonização do Brasil ter-se dado de determinada forma. Tratava-se da busca de um “objetivo exterior, voltado para fora do país e sem atenção a considerações que não fossem o interesse daquele comércio [europeu]” (PRADO JUNIOR, 1971, p. 32). Como você pode notar, Prado Júnior considerava a formação econômico- -social brasileira o resultado de uma 39 intencionalidade de Portugal, uma nação vanguardista disposta a conquistar mercados e metais, de acordo com a lógica colonial-mercantilista dos séculos XV e XVI. Assim, para ele, não haveria outra alternativa à colônia brasileira a não ser se organizar conforme os interesses metropolitanos portugueses, já que, segundo o autor, os fatos que constituem um país “[...] seguem uma linha mestra e ininterrupta de acontecimentos que se sucedem em ordem rigorosa, e dirigida sempre numa determinada orientação” (PRADO JUNIOR, 1971, p. 7). Portanto, a economia e a sociedade brasileiras dos séculos XVI a XIX organizaram-se a fim de atender a uma demanda externa. Aqui, pode-se perceber uma referência aos ciclos de produção brasileiros: primeiramente o cultivo do açúcar, depois a exploração do ouro e, em seguida, a produção de café. Assim, a economia voltara-se para necessidades externas, ignorando, ou desprezando pela insigni ficância, a existência e a demanda do mercado interno. A sociedade formara-se com a hierarquização da propriedade de bens, da cor e da raça, bem como pela miscigenação populacional dos três séculos posteriores ao descobrimento. Veja o que afirma Prado Júnior (1971, p. 31–32): Se vamos à essência de nossa formação, veremos que na realidade nos constituímos para fornecer açúcar, tabaco, alguns outros gêneros [...] e em seguida café, para o comércio europeu [...]. Foi com tal objetivo, objetivo exterior, voltado para fora do país e sem atenção a considerações que não fossem do interesse daquele comércio, que se organizaram a sociedade e a economia brasileiras. Tudo se disporá naquele sentido: a estrutura, bem como as atividades do país. Como você pode observar, Prado Júnior evidencia a sua concepção da colônia como uma projeção da economia mercantil. A economia e o mercado internos não possuíam significância para a análise. Contudo, Malerba e Jesus (2016, p. 146–147) ressaltam a importância que a obra desse autor possui para a historiografia brasileira: Formação do Brasil Contemporâneo (1942) é, sem dúvida, até hoje, um dos livros mais importantes sobre a história do Brasil. Visto em perspectiva, o impacto da abordagem oferecida por Caio Prado Jr. impressiona por sua capacidade de criar uma tradição analítica que se renova ao longo de décadas. Em termos práticos, este livro inaugurou uma espécie de escola de pensamento sobre o Brasil colonial. Como consequência, é certamente um dos livros mais lidos por estudantes de história em todo o Brasil. E, o mais interessante, na maioria das vezes, é lido não apenas como necessário para compreender a história da historiografia, mas principalmente como um texto com conteúdo empírico e estrutura conceitual e analítica ainda amplamente aceita pela comunidade acadêmica. 40 Com o desenvolvimento da historiografia sobre a América Portuguesa, as análises de Prado Júnior se encontram defasadas em inúmeros pontos. Contudo, no momento da publicação de Formação do Brasil Contemporâneo, a obra representou uma grande contribuição ao realizar a leitura da sociedade brasileira a partir de uma perspectiva do materialismo histórico. Contudo, você não pode se esquecer de que essa leitura está impregnada de um marxismo militante, que, como você viu anteriormente, levou a algumas deturpações do pensamento de Marx e condicionou as análises a uma interpretação generalizante e universalista a partir de “etapas”. É possível perceber isso no seguinte trecho de Evolução Política do Brasil e Outros Estudos, publicado pela primeira vez em 1933: [...] em outras palavras, é a superestrutura política da Brasil colônia que, já não correspondendo ao estado de forças produtivas e à infraestrutura econômica do país, se rompe, para dar lugar a outras formas mais adequadas às novas condições econômicas e capazes de conter a sua evolução (PRADO JUNIOR, 1969, p. 49). Caio Prado Júnior herdou do pensamento marxista essa concepção “etapista”, uma deturpação da ideia de totalidade. No momento em que escreveu Evolução Política, o autor estava preocupado em explicar as desigualdades da sociedade brasileira. Assim, seu olhar para o passado estava condicionado a encontrar as origens e os motivos pelos quais a sociedade brasileira da década de 1930 era tão desigual. Por fim, é importante você notar que o marxismo não foi apropriado por estudiosos brasileiros somente como o fez Caio Prado Júnior. Nas décadas de 1970 e 1980, foram realizados debates sobre a história da escravidão e a formação da classe trabalhadora brasileira que possuem grande sofisticação intelectual. Além disso, é preciso chamar a atenção, como faz Malerba (2002, p. 35–36), para o fato de que “[...] não há tema ou período da história do Brasil cuja investigação historiográfica não aponte para alguma matriz marxista fundamental, que tenha resultado em prolixo debate e com a qual qualquer pesquisador tem que se haver”. 41 9 A QUESTÃO SOCIAL E OS MOVIMENTOS DE RESISTÊNCIA A Questão Social teve sua origem no século XVIII, em um cenário em que se desenvolviam as revoluções liberais burguesas. Ao mesmo tempo, o capitalismo se consolidava, levando à formação do proletariado e, em contraponto, ao surgimento de ideias anarquistas e socialistas. Assim, a Questão Social é resultado da contradição existente entre capital e trabalho e consequência do capitalismo que se expandia — no entanto, não sem sofrer a resistência dos indivíduos que buscava subalternizar (SEVERINO, 1993). Nessa perspectiva, considere a definição de Questão Social de Iamamoto (1999, p. 27): O conjunto das expressões das desigualdades da sociedade capitalista madura, que têm uma raiz comum: a produção social é cada vez mais coletiva, o trabalho torna-se mais amplamente social, enquanto a apropriação dos seus frutos se mantém privada, monopolizada por uma parte da sociedade. As manifestações da Questão Social aparecem na sociedade de múltiplas formas. Entre elas, desemprego, pobreza, precarização das condições de trabalho, violências de todos os tipos e trabalho infantil. Assim, segundo Iamamoto (1999, p. 28), “[...] a questão social [...] sendo desigualdade é também rebeldia por envolver sujeitos que vivenciam as desigualdades e a elas resistem e se opõem [...]”. Nessa perspectiva, surge outra possibilidade de manifestação, os movimentos de resistência. Dessa forma, entram em jogo as políticas conquistadas e efetivadas, os movimentos sociais e comunitários e as organizações populares, que se configuram como espaços repletos de possibilidades. Segundo Oliveira e Magalhães (2014), o termo “resistência” foi desenvolvido por James Scott. Para ele, há diversasformas de dominação nas relações sociais, compreendidas como relações de poder. Quem estiver em situação de subalternidade ou de opressão nessas relações tentará resistir. Para tanto, utilizará os mais variados meios. As condutas dos subordinados diante dos dominantes são chamadas pelo autor de “discursos públicos”. Tais discursos se referem ao que é hegemonicamente aceito na sociedade, muitas vezes diferente do que ambos os grupos gostariam de expressar. Vale destacar ainda que os grupos dominantes, não raras vezes, precisam atender aos interesses dos subordinados e levá-los a acreditar que estão realizando algo em seu benefício, ainda que algumas concessões tenham de ser feitas. A 42 resistência, presente em vários movimentos e organizações da sociedade, é uma forma de luta pela mudança social. Ela confronta diariamente as elites econômicas brasileiras, cujo projeto aumenta e gera ainda mais desigualdade social. Em síntese, a resistência tem como meta a conquista de igualdade e de uma vida melhor para os cidadãos. A Constituição Cidadã, promulgada em 1988, tem como um dos seus princípios a liberdade para todos os indivíduos. No entanto, esse princípio ainda permanece apenas no papel. Assim, segundo Oliveira e Magalhães (2014), a busca pela igualdade prevista na Constituição passa pelo atendimento de necessidades de grupos específicos em condições de subalternidade e inferioridade. Os autores apresentam como exemplo as políticas afirmativas e outras políticas específicas que buscam democratizar a educação superior. Eles destacam que elas são importantes referências para se ampliar o alcance da cidadania, já que asseguram direitos sociais e integram a luta contra a desigualdade. No caso citado, as políticas afirmativas perpassam áreas como educação e igualdade racial. Assim, várias expressões da Questão Social são alvo de lutas na tentativa de se estabelecer a igualdade entre os povos. Uma forma bastante comum de tentativa de luta pelas classes subalternizadas ou em condições de inferioridade são os movimentos sociais que, segundo Gohn (2011 apud OLIVEIRA; MAGALHÃES, 2014), se constituem em ações de caráter coletivo, sociopolítico e cultural. Esses movimentos existem para viabilizar formas de a população se expressar e se organizar em torno de suas demandas. Para os autores, os movimentos sociais podem incluir na agenda política a discussão de temas que não se referem diretamente a questões de sobrevivência imediata, mas que possuem relação com suas experiências. Portanto, podem favorecer a construção de relações sociais mais justas e igualitárias e de uma democracia que de fato se efetive. Ao longo deste capítulo, você viu que diversas lutas ocorrem por meio dos movimentos sociais, importantes formas de resistência na atualidade. No entanto, as organizações populares também são espaços relevantes. Você pode considerar que todos os movimentos de resistência (movimentos sociais ou organizações populares) atuam em um campo permeado por disputas políticas. Tais disputas estão presentes no Brasil desde a época da colonização, passando pela escravidão e pela ditadura militar. O despertar da consciência é um elemento essencial para garantir a participação da população em movimentos de resistência. Esses movimentos, como 43 você viu, se empenham em transformar uma realidade que não é justa. Os movimentos de resistência, além da sua função de luta por igualdade e direitos, também contribuem para aumentar a consciência da população. Assim, mostram que é importante lutar contra qualquer tipo de exploração ou desigualdade, bem como a favor da população e contra as mais diversas manifestações da Questão Social. 10 SISTEMAS POLÍTICOS DE GOVERNO NO BRASIL Os sistemas políticos são um conjunto de instituições e processos políticos que se articulam e atuam no exercício do poder estatal (BOBBIO; MATTEUCCI; PASQUINO, 1998). Já os sistemas de governo abrangem mais especifi camente a relação entre os três poderes: Poder Executivo, Poder Legislativo e Poder Judiciário. O Brasil é uma república federativa composta por 26 estados e um distrito federal. Cada estado possui certa autonomia e leis específicas, mas é subordinado à Constituição Federal de 1988. O Estado é caracterizado como Estado Democrático de Direito, prezando pela soberania popular e pela cidadania. O Brasil, desde que se tornou um Estado-nação, ao declarar independência de Portugal, oscilou entre períodos democráticos e períodos autoritários, com duas ditaduras em sua história. Veja, a seguir, como o Estado se organizou e como o poder foi exercido em diferentes regimes políticos. 10.1 Império (1822–1889) Com a declaração da independência e o estabelecimento de um Estado Nacional, o Brasil continuou a ser governado por membros da monarquia portuguesa que se tornaram imperadores do País. Em 1824, foi criada a primeira constituição da Nação, que assegurou a manutenção do poder estabelecido e os interesses dos proprietários de terras. A escravidão e o latifúndio eram o centro da economia nacional, e o Estado não promoveu mudanças radicais no que diz respeito aos direitos da população. A participação política (tanto para votar como para se candidatar) era permitida apenas aos latifundiários e donos de escravos que tinham recursos financeiros para pagar (voto censitário). Como você pode imaginar, poucos indivíduos atendiam aos requisitos para a participação na política e na tomada de decisões. 44 10.2 República Velha (1889–1930) Com a proclamação da República e o fi m do regime monárquico, o Brasil passou a ser regido por uma constituição republicana (a partir de 1891). O voto não era secreto e era permitido somente aos homens acima de 21 anos. Mulheres e analfabetos (maioria da população), soldados e sacerdotes também estavam impedidos de votar, de modo que mesmo num regime republicano o voto era para poucos. Esse contexto possibilitou o domínio dos fazendeiros durante as eleições, pois as oligarquias estaduais se organizavam para fiscalizar os votos “prometidos”. Essa dinâmica ficou conhecida como “voto de cabresto”, uma das principais características da política nesse período (LEAL, 1986). Apesar da abolição da escravatura, a limitação de direitos civis dificultou a conquista de direitos sociais e de um Estado que garantisse a igualdade a toda a população. 10.3 Era Vargas (1930–1945) O governo do presidente Getúlio Vargas se iniciou com a Revolução de 1930. Ele trouxe avanços como a Constituição de 1934, que assegurava direitos políticos para a população e permitia o voto feminino (analfabetos permaneciam impedidos). Pautado no populismo e na propaganda nacionalista, o governo de Vargas buscou enfraquecer o poder das oligarquias cafeeiras e se centralizar no Executivo. Além disso, o Estado investiu no desenvolvimento da indústria nacional — por exemplo, com a criação da Petrobrás. No entanto, em 1937, iniciou-se a ditadura do Estado Novo, tirando o poder das instituições e centralizando as decisões políticas nas mãos do presidente até 1945. 10.4 República Populista (1945–1964) Durante o período da República Populista, o Estado voltou a reconhecer direitos políticos como o voto. Além disso, os representantes da população voltaram a ser eleitos pelo voto popular. A transferência da capital do País para Brasília e as reformas de base (reforma universitária, reforma agrária, reforma política) prometidas pelo presidente João Goulart acirraram as tensões políticas. Os setores conservadores da sociedade, influenciados pelo contexto internacional de disputas 45 entre governos capitalistas e governos socialistas, articularam uma reação para impedir um possível mandato de orientação comunista no Brasil. Deu-se início, em 1964, por meio de um golpe de Estado que impediu o presidente eleito João Goulart de concluir o seu mandato,a uma ditadura militar no Brasil. 10.5 Ditadura Militar (1964–1985) Ainda num regime republicano, a Ditadura Militar concentrou o poder nas mãos do Executivo. O Congresso Nacional foi fechado e o governo foi marcado pela perseguição a seus opositores, bem como pela censura à liberdade de expressão. Generais do Exército assumiram a presidência da República e muitos opositores foram obrigados a se exilar. A tortura foi prática recorrente como meio de desmantelar organizações políticas de orientações políticas distintas daquela do governo. Os únicos partidos políticos com permissão de funcionamento eram o Movimento Democrático Brasileiro (MDB) e a Aliança Renovadora Nacional (Arena), emulando uma democracia que na prática não existia, as eleições eram manipuladas. 10.6 Nova República ou redemocratização (a partir de 1985) Com o fim do regime ditatorial, o Brasil passa por um processo de redemocratização. Partidos políticos voltar a atuar e em 1988 é criada a Constituição Federal que prevalece até os dias atuais. A Carta Magna foi criada num contexto político que visava à superação do autoritarismo e à garantia de direitos sociais para toda a população. Nesse contexto, o presidente da República e os representantes legislativos voltam a ser escolhidos pelo voto popular, o Congresso volta a funcionar e os analfabetos passam a ter direito ao voto. O Estado é colocado como o principal assegurador de direitos básicos como saúde, educação e moradia. Você pode considerar que, apesar de se caracterizar como um sistema político republicano, o Brasil passou por períodos em que o Estado Democrático de Direito não prevaleceu. Durante os seus dois regimes ditatoriais, o poder se concentrou na presidência, e o Poder Legislativo e o Judiciário foram sufocados. 46 10.7 Formas de exercício do poder Como você observou, o governo de um país pode alternar diversas formas de exercício do poder dentro de um mesmo regime. A seguir, você vai ver quatro das principais formas de exercício de poder: autoritarismo, republicanismo, democracia e anarquismo. Você deve considerar que, entre a definição teórica e a política na prática, há questões particulares de cada país que assume um tipo de regime. A democracia efetivada no Brasil possui um contexto histórico e social distinto daquele da democracia norte-americana, por exemplo. Aqui, você vai ver elementos fundamentais de cada modelo. Os governos autoritários se caracterizam, de modo geral, pela despolitização da população, o fim da soberania popular (por meio do voto) e a ausência de parlamento. Ainda que apresentem uma roupagem democrática, as instituições representativas são esvaziadas e o poder político se concentra numa pessoa ou grupo. São governos antidemocráticos, na medida em que não permitem a livre manifestação política. Além disso, o poder não é limitado. Atualmente, podem existir mesmo em regimes com eleições e diversos partidos políticos. O consenso é sobreposto pela autoridade do governo, que pode se manter utilizando instrumentos tradicionais da política, como o Exército e a burocracia (BOBBIO; MATTEUCCI; PASQUINO, 1998). Já os governos republicanos têm como principal característica sua estrutura baseada no direito do povo e na soberania popular. Ao contrário dos governos monárquicos, em que o chefe de Estado tem seu poder legitimado pela tradição e pelo direito hereditário, na República o chefe é eleito pelo povo de modo direito ou indireto. O governo é voltado para a coisa pública e o bem comum. A legitimação do poder pelo voto popular e uma legislação escolhida pelo povo por meio de um parlamento caracterizam os governos democráticos modernos. O estabelecimento de três poderes visa a instituir um equilíbrio de forças. O Poder Legislativo é responsável pela formulação das leis, enquanto o Executivo se encarrega da sua aplicação. A participação política da população se dá por meio do voto direto ou indireto, pois todos são iguais perante a lei na escolha de seus representantes legislativos e executivos. Os mandatos dos políticos possuem um período limitado e as eleições são marcadas pela disputa de mais de um partido político. Uma vez que é impossível que cada 47 indivíduo vote diretamente em cada questão coletiva, os representantes legislativos — eleitos pelo povo — assumem a tomada de decisão no parlamento. Cada regime democrático apresenta uma maneira de organizar seus três poderes. No presidencialismo, o Executivo (presidente da República) e o Legislativo são escolhidos pelo voto direito, como no caso do Brasil. Já no parlamentarismo, os deputados são eleitos pelo voto direto e posteriormente elegem o representante do Executivo (primeiro-ministro). No contexto democrático, o indivíduo assume o papel de cidadão. Assim, ele tem o direito de participar da vida política por meio de mecanismos de participação direta na tomada de decisões, como em plebiscitos sobre questões em comum, ou por meio da participação em organizações que influenciam as decisões políticas. Já o modelo anarquista apresenta uma visão política baseada na negação de toda autoridade e na liberdade dos indivíduos. O anarquismo implica a libertação de todo poder superior, seja ele ideológico, político, econômico ou jurídico (BOBBIO; MATTEUCCI; PASQUINO, 1998). Veja: A recusa do Estado por parte do Anarquismo está intimamente ligada à sua concepção de autoridade. O Estado, em toda a sua organização de pirâmide burocrática, é o órgão repressivo por excelência. Como tal, priva o indivíduo de toda a liberdade, chamando unicamente para si a capacidade de agir e a possibilidade de definir a liberdade, impondo uma série de obrigações e de comportamentos a que o indivíduo não pode fugir. É isto que o Anarquismo pretende combater. Enquanto órgão de repressão, o Estado é visto pelo Anarquismo com capacidade de intervenção global na vida do indivíduo, na sua vida econômica, na sua existência social como também na sua capacidade de desenvolvimento ético e independente (BOBBIO; MATTEUCCI; PASQUINO, 1998, p. 95). Essa perspectiva parte da ideia de que toda autoridade é uma forma de opressão, por isso há uma negação do Estado e das leis. A burocracia estatal é fortemente criticada, mas o anarquismo vai mais além. Ele propõe que os indivíduos também se libertem do domínio religioso, que oprime por meio de doutrinas morais, e do domínio econômico, considerando o sistema de exploração capitalista como a perversão da liberdade humana. Ao mesmo tempo em que o homem, no anarquismo, deve viver sem um governo que oriente suas ações, os indivíduos devem se organizar socialmente a partir de ações livres e autônomas. A autogestão aparece como meio de socialização da propriedade privada e do poder político. Ou seja, o poder não deixa de existir; ele só deixa de estar concentrado no Estado (em forma de dominação) e passa a se 48 expressar na maior participação de cada indivíduo nas decisões políticas (CORRÊA, 2012). 11 A SOCIOLOGIA E O ESTUDO DA POLÍTICA A sociologia política estuda os sistemas políticos, as instituições do governo, as relações de poder que os indivíduos estabelecem entre si, a forma como uma sociedade delibera coletivamente decisões, entre outras questões relacionadas à dinâmica do poder e aos fenômenos políticos. A política é uma área de conhecimento humano que surgiu na Antiguidade Clássica. Até o século XIX, período em que as disciplinas das ciências sociais passaram a ser divididas, a sociologia, a educação, a economia e outras ciências estavam inseridas no pensamento político. Na Grécia Antiga, a política era compreendida a partir das ações dos indivíduos na pólis. Já na Idade Média, a política estava vinculada às disputas pelo poder, às guerras e à administração dos bens comuns. A nobreza e o clero compunham a elite social que tomava decisões. Foi só no século XIX que a políticase associou ao debate sobre constitucionalismo e Estado de Direito. O estudo da política pela sociologia e pela ciência política se desenvolveu associando as relações de poder à esfera estatal. Nessa perspectiva, o Estado e as suas instituições se tornaram o principal objeto de estudo desses campos de conhecimento. Mas se durante muitos anos o poder foi analisado como fenômeno indissociável do Estado, com o passar do tempo novos estudos passaram a considerar que as relações de poder não se restringem ao contexto estatal. Assim, a política passa a ser considerada também nas relações cotidianas, nas microesferas da sociedade, bem como nas grandes organizações. 11.1 A sociologia e o exercício do poder O sociólogo alemão Max Weber (1994) contribuiu com o desenvolvimento da sociologia e da ciência política ao analisar o poder e as formas de dominação na sociedade. O exercício do poder, para esse autor, está relacionado à capacidade que um indivíduo/grupo tem de impor sua vontade aos outros. Já a dominação, uma forma de expressão do poder, reside na capacidade de se exercer autoridade sem que os 49 dominados resistam. Quem obedece-o faz acreditando ser sua própria vontade. Weber também apresenta três tipos ideais de dominação. Veja a seguir. Dominação tradicional: tem como base de legitimação os costumes e as tradições de determinada região/sociedade. Por exemplo: o patriarcalismo. Dominação carismática: tem como base de legitimação uma devoção afetiva a um senhor devido às suas qualidades. Por exemplo: um líder que é visto como herói, salvador e que tem seus apoiadores como discípulos. Dominação racional legal: tem como base de legitimação um estatuto, um conjunto de regras. A obediência não se dá a um líder, e sim às normas e leis estabelecidas. Por exemplo: burocracia e poder conferido a cada cargo. Na prática, a dominação pode apresentar características de um ou mais tipos. Os três conceitos são nomeados como ideais: são uma tipologia, uma ferramenta para se analisar a complexidade da vida real e para se identificarem as nuances da autoridade. A dominação racional legal é típica dos Estados modernos, que têm toda a sua organização baseada na racionalidade burocrática. O Estado moderno detém o monopólio do uso da força em determinado território. Ou seja, cada Estado possui os meios e está autorizado a exercer a violência em seus domínios. No entanto, o fato de o Estado ter esse controle não quer dizer que o uso da violência seja necessário para que o seu poder seja reconhecido (WEBER, 1994). O conceito de legitimidade de Weber é a chave para se entender que nas sociedades modernas a dominação do Estado acontece porque os indivíduos se submetem às regras sem que o uso da força física seja necessário. O uso potencial, e não efetivo, da violência confere legitimidade à dominação da sociedade pelo aparelho estatal. Assim, a noção de sistema político se refere à estabilidade do exercício do poder em sociedades complexas por meio de mecanismos sofisticados de dominação. Ao longo do século XX, esses mecanismos tornaram-se cada vez mais refinados. Os estudos políticos passaram a reconhecer que as estruturas de poder não estão apenas em órgãos do Estado, mas também em instituições sociais. Dessa forma, reconheceram que o poder ultrapassa a esfera estatal. O pensamento político de Weber foi fundamental para o estabelecimento de diversas teorias políticas e de 50 uma sociologia política que investiga, por meio de um olhar qualitativo, o sentido das ações e as crenças que orientam as formas de poder e dominação na vida moderna. Os primeiros estudos sociológicos sobre política se concentravam no poder do Estado. Ao longo do século XX, as análises sobre política consideraram as mudanças sociais e políticas, o processo de globalização e as questões relacionadas ao poder e às formas de governo. Foi com o surgimento da ideia de pós-modernidade, no final do século XX, que o Estado deixou de ser considerado o principal eixo de poder das sociedades complexas. A sociedade passou a ser vista como uma esfera repleta de centros de poder. Esse novo olhar sobre o poder e a política reconhece o peso da dimensão simbólica nos processos políticos, econômicos e culturais. Em outras palavras, a comunicação não é apenas um meio de expressão; é uma fonte de poder. O desenvolvimento da tecnologia, de espaços virtuais, também passou a ser considerado, visto que uma nova realidade exige novos conceitos. Ao adotar uma visão sistêmica da política, a sociologia reconhece diversos elementos que estão relacionados com o exercício do poder, como movimentos não partidários, sindicatos e grupos de pressão. Os regimes democráticos dão espaço para a manifestação política de diversos setores da sociedade, que muitas vezes influenciam as decisões e medidas adotadas pelo Estado. Esses setores buscam influenciar o poder público para que atenda a seus interesses (GOZETTO, 2008). Sindicatos e algumas organizações não governamentais (ONGs) realizam esse papel. Entre os principais grupos de pressão, na perspectiva da sociologia política, estão aqueles ligados à produção agrária, aos trabalhadores industriais, aos segmentos empresariais, a questões de gênero, raça, classe, meio ambiente, entre diversas pautas. (PORTELLA, 2009) Assim, a sociologia estuda temas como: fenômenos de natureza global, o modo como as lideranças exercem sua autoridade em diversos países e a maneira como a política é vista pelos indivíduos. Essa percepção de que o poder e a política se fazem presentes em diversas esferas da sociedade orienta a sociologia política a investigar quais mecanismos os indivíduos/grupos utilizam para fazer seus interesses prevalecerem. As formas de participação política, os movimentos sociais, os atores sociais que se destacam na esfera política e os processos decisórios, bem como a 51 política e as novas formas de comunicação (as redes sociais, por exemplo), são temas que estão na agenda de pesquisa da sociologia política contemporânea. 12 MODELOS DE DEMOCRACIA: DEMOCRACIA DIRETA, REPRESENTATIVA E PARTICIPATIVA O que você entende por democracia? Alguns a definem como “a presença de eleições”; outros afirmam que seja “um sistema de acordo com o qual a maioria decide”, ou um “governo feito pelo povo”. Cada uma dessas respostas tem um fundo de verdade, mas nenhuma, por si só, define o conceito por completo. Democracia é um conceito muito complexo, desenvolvido ao longo de séculos até que chegássemos à definição atual. Por ser proveniente de várias fontes históricas, sofreu inúmeras mudanças. A etimologia da palavra remonta ao grego: demos, que significa povo, e kratos, que significa poder. “O poder do povo”, portanto, é a definição mais primitiva. Define-se o Estado Democrático de Direito com base no respeito à pluralidade de ideias e no amplo debate. (PORTELLA, 2009) Na democracia, o governo é descentralizado, as eleições são livres e periódicas, e é permitido que o cidadão tenha participação política na sociedade, direito que lhe é assegurado pela própria Constituição Federal, segundo a qual “todos somos iguais perante a lei” 12.1 Democracia direta e as suas principais características O sistema segundo o qual os cidadãos debatem em público e deliberam questões relativas aos seus interesses pessoais ou coletivos pode ser chamado de democracia direta. A democracia como regime político teve origem na Grécia, mais precisamente em Atenas, após um período de muitas crises e regime ditatorial. Naquele tempo, a população se reunia em assembleias populares, que aconteciam nas ágoras — praças públicas — para discutir e decidir sobre leis e questões de interesse de todos (Figura 1). 52 Fonte: www.vivadecora.com.br Algumas correntes defendem o surgimento da democracia já nas organizações tribais, quandoteria sido utilizado para a tomada de decisões. O entendimento predominante, no entanto, é que tenha surgido na civilização grega. Na visão dos gregos, o exercício de opinião estava restrito aos membros da mesma cidade-Estado, reservando, assim, essa deliberação a uma parcela específica da população. (PORTELLA, 2009) Em regra, todo cidadão poderia falar ao povo, bastando estar em dia com os direitos políticos, ou seja, não dever ao tesouro do Estado, ter bons costumes, honrar os seus pais, obedecer às convocações militares e não ter covardia, ressalvando aqui a exclusão de mulheres e escravos, por não serem considerados cidadãos. A democracia ateniense atribuiu ao povo o poder de eleger os governantes e tomar importantes decisões como instituição de novas leis, declaração de guerra e tratados de paz. A democracia direta tem como uma das suas principais características o fato de a população não delegar o seu poder de decisão, pois o cidadão expressa, de maneira pessoal e direta, a sua opinião. Era assim que aconteciam as assembleias atenienses nas praças públicas, de forma horizontal. Esse modelo funcionou na Grécia Antiga da forma como foi criado, pois o seu contingente populacional era pequeno, permitindo que se reunissem em praça pública, de modo que todos pudessem participar na assembleia. À medida que as sociedades se avolumavam numericamente e a organização da sociedade se tornava mais complexa, o sistema http://www.vivadecora.com.br/ 53 da democracia direta foi se tornando inviável. Afinal, como se viabilizaria, por exemplo, a contabilização dos votos de uma população abundante? Assim, em razão da impossibilidade de se operacionalizar a democracia direta em grandes sociedades, surgiu a chamada democracia representativa. Na atualidade, o modelo aplicado na Suíça é o maior exemplo de democracia semidireta que existe. Ele é assim classificado porque coexistem dois sistemas democráticos: o direto, em que a população participa diretamente da tomada de decisões, e o representativo, por meio dos deputados eleitos. (PORTELLA, 2009) O sistema suíço prevê uma prática de consulta popular bem intensa, pois ao menos quatro vezes ao ano os suíços recebem, nas suas residências, envelopes requerendo a opinião dos cidadãos em determinados assuntos. Ou seja, nesse modelo, a participação da população sobre a política do País é muito forte, característica inerente à democracia direta. No Brasil, a democracia direta se manifesta por meio de instrumentos ainda pouco utilizados, apesar de normatizados na Constituição Federal, que assim define (BRASIL, 1988): Art. 14 A soberania popular será exercida pelo sufrágio universal e pelo voto direto e secreto, com valor igual para todos, e, nos termos da lei, mediante: I — plebiscito; II — referendo; III — iniciativa popular. 12.2 Modelo da democracia representativa e a sua aplicação Atualmente, quando falamos em democracia, fazemos referência à democracia representativa na maioria das vezes. Esse modelo elege os seus governantes por meio do voto popular por um período de tempo determinado, em que o cidadão delega o seu poder de decisão para uma pessoa que o representará perante as decisões políticas, ou seja, legitimado pela soberania popular. De forma bem sucinta, esse seria um bom conceito para democracia representativa, sem desconsiderar a existência da democracia direta. No entanto, como visto anteriormente, ela se torna de difícil operacionalização em grande escala. De forma majoritária, o conceito moderno de democracia representativa é conhecido pela forma de democracia eleitoral e plebiscitária existente. Essa noção de democracia está diretamente ligada ao ideal de 54 participação popular que começou a ser difundido ainda na Grécia Antiga. Nas monarquias absolutistas, durante a Idade Média, a representatividade começou a se formar, dando início ao que temos hoje como modelo de representação. Naquele tempo, os reis convocavam grandes assembleias para tomar importantes decisões. Como a população já era mais numerosa e encontrava-se espalhada, as localidades enviavam representantes para as assembleias. Essas pessoas corriam a comunidade buscando reclamações e solicitações endereçadas ao rei. As reclamações e solicitações eram lidas pelo representante na presença de todos, sendo que o rei respondia a cada uma das questões propostas e, de posse das respostas, o representante devolvia o resultado para a comunidade. (Mariana Portella, 2009) A forma da representatividade evoluiu quando os reis começaram a precisar de mais recursos para manter a máquina do Estado, que dependia diretamente do consentimento das pessoas. Foi quando surgiu, mais precisamente na Inglaterra, a decisão do rei para que os representantes tomassem decisões em nome da comunidade. Com o passar dos séculos, o poder dos representantes só aumentou, e a questão dos representantes acabou se associando, de forma definitiva, ao conceito de democracia que se entende no mundo ocidental. O Brasil é uma democracia representativa, apesar de possuir instrumentos da democracia direta à disposição. Podemos depreender essa definição do texto do art. 1º da Constituição Federal, que trata o Brasil como uma república democrática, em que todo poder pertence ao povo, que pode exercê-lo diretamente ou por meio dos seus representantes. Para Bonavides (2000, p. 354), tal modelo tem, hoje, como principais bases: A soberania popular, o sufrágio universal, a observância constitucional, o princípio da separação dos poderes, a igualdade de todos perante a lei, a manifesta adesão ao princípio da fraternidade social, a representação como base das instituições políticas, limitação de prerrogativas dos governantes, Estado de Direito, temporariedade dos mandatos eletivos, direitos e possibilidades de representação, bem como das minorias nacionais, onde estas porventura existirem. Um elemento muito importante para a democracia representativa são os partidos políticos, que, além de mediar os interesses dos órgãos representativos, também possuem o fator decisivo na intermediação entre os cidadãos eos seus representantes, pois existe a necessidade, ao menos no Brasil, do mandato partidário. A Figura 2 mostra um exemplo de plenário. 55 Fonte: adfas.org.br/2020/11/06 Todas as formas de governo têm os seus prós e contras e, com a democracia representativa, não poderia ser diferente. Podemos começar destacando a vantagem que a representatividade tem em relação à democracia direta, pois a tomada de decisão é muito mais simples e rápida, visto estar centralizada em apenas algumas pessoas, não em todas as pessoas que compõem um país. Devemos considerar também que, ao delegar o exercício do poder aos seus representantes, o povo entrega nas mãos de pessoas teoricamente mais preparadas e mais experientes a tomada de decisões sobre temas importantes e com impacto em toda a sociedade. Esse mesmo fato de o poder ser entregue nas mãos de poucos pode gerar a dúvida da facilidade de manipulação na busca de determinados interesses. Nesse tipo de sistema representativo, são deflagrados os maiores casos de corrupção, chegando o povo, em algumas situações, a ser prejudicado por aqueles que deveriam defender seus interesses. (PORTELLA, 2009) Enfim, para que o regime democrático representativo tenha o efeito esperado, os representantes que ocupam cargos públicos por meio de voto popular devem ser constantemente renovados, por isso, existe a previsão de um período específico para exercício do mandato, cabendo ainda aqui uma reflexão acerca das reeleições. http://adfas.org.br/2020/11/06 56 12.3 Especificidades da democracia participativa A democracia participativa está colocada entre a democracia direta e a representativa, pois ela se apresenta por meio da manifestação de instrumentos característicos de cada uma delas(PORTELLA, 2009). Fonte: www.slideshare.net/gwathsule/democracia-representativa-e-direta O principal objetivo da democracia participativa é fazer o cidadão participar, cada vez mais e de forma mais intensa, das questões políticas. Outra importante fi nalidade é fazer o maior número de pessoas ser ouvido, uma vez que a democracia representativa possui essa barreira na sua concepção, para que sejam desenvolvidas ações para atender à necessidade de todos. Ou seja, por meio desse modelo, aplicável às sociedades modernas e contemporâneas, não se tenta reunir toda a população em uma assembleia, ao passo que não fi cam todas as decisões por conta dos representantes do povo. Esse modelo se apresenta como uma alternativa ao modelo representativo, que, com o passar do tempo, vem dando indícios de que não consegue mais abranger tantas demandas da sociedade. Cada vez mais, existe na democracia brasileira o desejo de que a população participe das questões políticas do País, colocando em prática a definição de democracia, que diz que todo poder emana do povo, por meio de um modelo que valoriza o princípio básico da democracia, deixando o povo como protagonista de importantes decisões que impactam a sociedade. A democracia participativa se utiliza de instrumentos — como referendos, plebiscitos, iniciativa popular e orçamentos participativos — para engajar a população nas questões políticas. 57 Para Antonio Lambertucci (2009, p. 71): A participação social [...] amplia e fortalece a democracia, contribui para a cultura da paz, do diálogo e da coesão social e é a espinha dorsal do desenvolvimento social, da equidade e da justiça. Acreditamos que a democracia participativa se revela um excelente método para enfrentar e resolver problemas fundamentais da sociedade brasileira. José Moroni (2009) aponta alguns mitos e desafios relacionados ao modelo participativo. Observe o Quadro 1. Atualmente, busca-se a gestão democrática como forma de viabilizar a participação popular junto às políticas públicas, que devem ser formadas com a participação direta da sociedade. A gestão democrática se caracteriza pela relação entre a sociedade e o governo, com base no modelo participativo, valorizando a função da sociedade também como gestora, colocando em destaque o princípio fundamental da democracia, que é a participação popular. É importante mencionarmos que a tecnologia é uma grande aliada da democracia representativa. As novas tecnologias que possibilitam a informação e a comunicação, especialmente a internet, prestam um grande favor à sociedade ao disseminar, de forma rápida, informações relevantes e urgentes, e também ao permitir a reunião de um grande número de pessoas em torno de uma mesma discussão, mesmo que as pessoas estejam longe ou espalhadas. (PORTELLA, 2009) 58 13 POLÍTICA CONTEMPORÂNEA Atualmente, o regime neoliberal é adotado por vários países no mundo. No entanto, há várias abordagens de liberalismo e o seu maior paradoxo é: como garantir a liberdade individual e, ao mesmo tempo, combater a desigualdade social? Todas as correntes de pensamento visam a elaborar uma solução para tal paradoxo. Há as correntes que defendem que a própria competitividade neoliberal e a liberdade econômica seriam por si só suficientes para sanar as questões sociais. De outro lado, há os liberais que defendem que haja alguma regulação do Estado em relação à economia, mesmo que em um regime neoliberal. Neste capítulo, você conhecerá as questões que abordam as teorias liberais, bem como a necessidade de reelaboração do capitalismo clássico. Verá também como o liberalismo pode ter um aspecto social, de apoio às questões de condição básicas aos indivíduos. E poderá, ainda, acompanhar como se deu a adesão ao neoliberalismo por parte de alguns governos. Por fim, poderá compreender o cenário democrático atual. 13.1 Liberalismo social Há uma notória diferença entre o liberalismo clássico e o liberalismo social, que consiste na concepção de liberdade. Contrariamente ao que pensavam os liberais clássicos — que deve ser garantida a liberdade individual e, consequentemente, um Estado que não fosse intervencionista —, os liberais sociais defendiam o ideal de “liberdades positivas”. Assim, no liberalismo social, a falta de condições básicas, como, por exemplo, educação, alimentação e saúde, poderia ser considerada um risco à liberdade do indivíduo. Ou seja, ambas as teorias identificam que o maior foco da teoria liberal deve ser garantir a liberdade individual, entretanto, discordam sobre o que seja liberdade. Os principais teóricos dessa corrente social do liberalismo foram os britânicos Leonard Trelawny Hobhouse (1864-1929) e Thomas Hill Green (1836- 1882) conhecidos como os “novos liberais”. O principal argumento desses pensadores é que, para se atingir a liberdade que a teoria liberal almeja, é necessário que o indivíduo tenha apoio do Estado, dito 59 de outra maneira: é necessário que o Estado intervenha na cultura, na economia e na sociedade. Por pensar o liberalismo dessa forma, esse movimento ficou conhecido como centro-esquerda. Entretanto, essa teoria não defende que o Estado seja responsável por prover os serviços públicos, mas sim por se responsabilizar para garantir que os indivíduos tenham acesso. Dessa forma, o Estado deve estimular a colaboração de instituições privadas com políticas públicas que visem à melhoria da vida de pessoas que não têm acesso à cultura, à educação e à saúde, entre outras necessidades básicas. Assim, as instituições privadas devem estar a serviço da sociedade e promover oportunidades para que os indivíduos possam ter condições básicas de vida. Assim, pode-se ver várias pautas que normalmente são vinculadas ao socialismo, ou política de esquerda, na agenda do liberalismo social. Por exemplo: apesar de defenderem a economia com base no mercado, os liberais sociais defendem que o Estado pode intervir na economia, com a finalidade de regulá-la; defendem que o Estado deve pagar serviços de saúde básica; a existência de um salário mínimo. Já em relação ao liberalismo conservador, a discordância principal com o liberalismo social é sobre o papel do Estado. Para os conservadores, o Estado deve ser mínimo, ou seja, deve intervir minimamente na economia. Portanto, o indivíduo teria poder sobre o Estado, e não o contrário. De outro modo, os liberais sociais não acreditam em um Estado totalitário/tirano, mas, na medida que as instituições podem entrar em conflito, ou, ainda, estabelecer uma vantagem absurda sobre a outra, ou mesmo não cumprirem seu papel de colaboração com a sociedade, deve haver um Estado que possa intervir. Outro aspecto que é comum é a confusão entre liberalismo social e social- - democracia. O liberalismo social defende que o indivíduo deve ter sua liberdade individual promovida pelo Estado e que este só consegue ser legítimo ao ponto que legitima a liberdade do indivíduo. Já a socialdemocracia, que parte das ideologias socialistas, defende que, para o indivíduo atingir a liberdade individual, é necessário que o Estado seja reformado para uma base comunitária. Nesse sentido, é de extrema importância 60 que o Estado regule a economia, a fim de estabelecer a igualdade entre os indivíduos. Dessa forma, pode-se sintetizar os ideais do liberalismo social em três fundamentos: 1) liberdade individual, que garante ao indivíduo autonomia e direito à propriedade privada, tendo direito garantido de divergir dos demais ou concordar, se reunir em grupos, sindicatos, organizações, desde que essas não limitem a liberdade de nenhum de seus membros; 2) a regulação do Estado, para que a liberdade de uma instituição e de um indivíduo seja respeitada e que, portanto, o respeito às divergências e a possibilidade democrática sejam garantidos; 3) a compreensãosobre a justiça, que prevê igualdade para todos os indivíduos, bem como diminuição das desigualdades sociais, para que o indivíduo possa alcançar sua liberdade individual e adentrar no mercado de trabalho, visando sempre à realização desse indivíduo. 13.2 Neoliberalismo Neoliberalismo é um termo que designa o ressurgimento de teorias clássicas do liberalismo por volta dos anos 1970 e 1980. O conceito de capitalismo laissez-faire é reimplementado ao resgate dessa teoria, ou seja, a liberdade reivindicada ao mercado econômico passa a se valer da expressão francesa de “deixar fazer”. Justamente essa noção de “neo” designa a retomada, nesse caso, de alguns fundamentos presentes no Liberalismo clássico. Pode-se atribuir a origem do neoliberalismo ao pensador americano Ludwig Heinrich Edler von Mises (1881-1973) que, em seu livro Ação humana: um tratado sobre a economia (1949), defende uma concepção de praxeologia, metodologia que visa a explicar a economia como parte ação humana. Para Mises (2010), o Estado e suas estruturas de poder não são confiáveis, principalmente no que compete à garantia dos direitos e das liberdades individuais dos cidadãos. Ou seja, toda a fundamentação, ainda que de diferentes correntes do liberalismo, é sempre a garantia de liberdade e, principalmente, individual. É propriamente na Escola Austríaca, no século XX, que surgem os teóricos mais importantes do neoliberalismo. Apesar do protagonismo inicial de Mises, outros pensadores contribuíram significativamente para o desenvolvimento dessa teoria. 61 Friedrich Hayek (1989-1992), um filósofo e economista alemão, foi um dos grandes responsáveis por adaptar as teorias liberais clássicas ao neoliberalismo do século XX, e compôs também o conselho da primeira ministra Margaret Thatcher, por indicação da Rainha Elizabeth II. Em sua obra mais famosa, intitulada O caminho da servidão (1944), Hayek (1990) defende que a intervenção do Estado leva à total falta de liberdade, e chega a comparar o intervencionismo, em seu último estágio, com a ascensão nazista. Ao longo do século XX, pode-se observar a ascensão e o declínio de alguns governos que adotaram o neoliberalismo. O de maior destaque é o de Margaret Thatcher, que conseguiu estabilizar a libra esterlina e reduzir a carga tributária, entretanto, a desigualdade aumentou, uma vez que os mais ricos aumentaram a renda, ao passo que os mais pobres, não. Thatcher renuncia, em 1990, quando não consegue representar o partido dos conservadores. Outro exemplo de adesão ao neoliberalismo foi o governo de Augusto Pinochet, que, por meio de um golpe militar contra o presidente Salvador Allende, assumiu a presidência. Suas propostas neoliberais, que foram elaboradas conspiratoriamente pela oposição ao governo de Salvador e compiladas em um documento chamado El Ladrillo, propunha a reforma da economia, contando com a colaboração das instituições privadas chilenas. O governo Pinochet foi marcado por abusos e violações aos direitos humanos, torturas e assassinatos. Em 1988, Pinochet perdeu seu cargo mediante a votação do plebiscito. Pinochet teve apoio da Escola de Chicago e de Hayeck para a sua reforma econômica. Outro polo de desenvolvimento das teorias neoliberais foi a Escola de Chicago, que era dirigida pelo professor Milton Friedman. O envolvimento da escola, bem como de Friedman, se deu pela crítica ao respaldo intervencionista do Estado na economia no governo de Roosevelt. Para Friedman, as políticas econômicas de Roosevelt, a fim de superar a Grande Depressão, acabaram por prejudicar ainda mais o país. Portanto, Friedman concluiu que qualquer regulamentação econômica sobre as empresas era algo maléfico para a economia e a produtividade de um país, como, por exemplo, o estabelecimento de um salário mínimo, que seria, segundo ele, responsável por distorcer os custos de produção. O modelo neoliberal de governo é constantemente criticado, principalmente pela separação da economia dos problemas sociais. Ou seja, o modelo econômico traz consigo todo um enredo de problemas que são alvo de 62 críticos defensores dos direitos humanos, trabalhistas, sociais. Um dos grandes críticos é o filósofo francês Pierre Brodieu, que defende que esse modelo econômico é responsável por destruir o coletivo e distanciar a economia dos problemas sociais de uma sociedade, principalmente por investir totalmente na ideia de consumo acima de qualquer coletividade. (DIONIZIO,1990) 14 CENÁRIO DEMOCRÁTICO CONTEMPORÂNEO O cenário democrático contemporâneo é marcado fortemente pelo modelo neoliberalista. Entretanto, é necessário compreender as diversidades entre os países. Com forte adesão ao sistema democrático pelo mundo, pode-se ver também as falhas desse sistema, apesar de ser o melhor entre os outros. Fonte: www.aryramos.pro.br/democracia Após a queda do muro de Berlim, em 1989, vários países europeus aderiram ao sistema democrático. Atualmente, a maioria dos países democráticos têm apresentado preocupações em relação à onda crescente de conservadorismo e fascismo. Por exemplo, na Alemanha, recentemente, ocorreram várias manifestações e conflitos por parte de grupos neonazistas que se opõem à entrada de imigrantes no país. Do mesmo modo, um tribunal na cidade de Themar, na Alemanha, deliberou a favor de um festival neonazista. Isso, como apontam alguns teóricos, como Yascha Mounk, Noam Chomsky, entre outros, é o indício de uma crise democrática que é possível observar em todo o mundo. Pode-se dizer que, atualmente, o paradoxo 63 democrático é o de se poder eleger um líder autoritário, tal como houve com a ascensão nazista. A exemplo disso, têm-se a Venezuela, que elegeu o presidente Hugo Chavez, o qual instaurou uma ditadura que tem continuidade com o governo de Nícolas Maduro. Outro aspecto ascendente mundialmente, mas fortemente no Brasil, é a judicialização da política e a politização do judiciário. Ou seja, assim como o exemplo do tribunal que deferiu um festival nazista, lidamos com um paradoxo em relação aos três poderes. No Brasil, vê-se um forte envolvimento do judiciário na arena pública, uma espécie de ativismo político que faz manobras com a constituição de 1988. Tal ativismo teve início com a constituinte de 1988, quando se acreditava que o movimento desse poder poderia significar um favorecimento da democracia. Atualmente, vê-se uma crise entre os três poderes, de modo que o judiciário ocupa ampla influência e vantagem em relação ao legislativo e ao executivo e não há lei, ou controle, que regule a participação e a relação entre tais poderes, o que influencia totalmente o Estado democrático. Há também a relação com a mídia, que já demonstrou, desde a campanha nazista, sua eficácia. Com o advento da tecnologia, os indivíduos têm acesso a informações constantemente. Os partidos utilizam essa ferramenta, a fim de propagar suas propostas de campanha, mas nem tudo que chega ao eleitor pode ser tomado como verdade. Há, atualmente, uma forte rede de produção de conteúdos falsos, chamados de fake news, sobre opositores em uma eleição. Isso acaba por confundir os eleitores das reais intenções de seus candidatos. Outra pauta incontornável do cenário democrático atual são as minorias. Pode-se ver a crescente luta de grupos em busca de direitos, ao contrário das lutas do início do século, das sufragistas por direito ao voto, temos hoje vários movimentos de vários grupos em busca de direitos e reconhecimento. Atualmente, as mulheres, cada vez mais, se manifestam e ganham visibilidade, reivindicando respeito, salários iguais aos dos homens, a não cultura machista, que prega a inferioridade, e contra a cultura do estupro. Outro grupo que tem bastante visibilidade são os grupos LGBT, que reivindicam reconhecimento social, medidas contra a violência física e discursiva da homofobia,entre outros. A população negra também luta por maiores repreensões ao racismo e busca por igualdade. O que se pode concluir é que a democracia, por ser um regime que proporciona escolhas aos cidadãos, apesar de ser a melhor forma de governo, apresenta falhas, pois há várias 64 demandas que precisam ser supridas, bem como estão constantemente surgindo outras. De todo modo, as maiores conquistas de direitos aconteceram em manifestação e contraposição ao governo vigente. Dessa forma, a democracia garante a liberdade de oposição, e, por isso, é a melhor entre as formas de governo. (DIONIZIO,1990) 15 A EDUCAÇÃO COMO INSTRUMENTO DO ESTADO Para que a sociedade capitalista continue existindo, é preciso reproduzir os meios de produção. Um deles é o trabalhador assalariado, que é produzido no meio escolar, onde aprende, além de ler e escrever, a submeter-se à ideologia dominante na sociedade. O Estado utiliza vários meios para popularizar a ideologia da classe dominante, e um desses meios é a educação. Neste capítulo, você vai estudar sobre como o Estado utiliza a educação como aparelho ideológico para ensinar e difundir a ideologia da classe dominante entre toda a população. Também vai aprender a respeito dos meios/ferramentas que o Estado utiliza para fazer com que a educação trabalhe como um instrumento ideológico, e verá como isso impactou na construção do processo educacional brasileiro. (LOPES, 2014) 15.1 A educação como instrumento ideológico do Estado Atualmente, a palavra ideologia é definida pelos dicionários como um conjunto de ideias, princípios e valores de um indivíduo ou de um grupo, sendo a base para a visão de mundo desse indivíduo ou do grupo. Para Karl Marx, no entanto, na sociedade capitalista a ideologia é uma falsa ideia, uma ilusão da realidade construída por uma classe para servir como meio de dominação. [...] a ideologia tem precisamente por função, ao contrário da ciência, ocultar as contradições reais, reconstituir, num plano imaginário, um discurso relativamente coerente que serve de horizonte ao “vivido” dos agentes, moldando as suas representações nas relações reais e inserindo-as na unidade das relações de sua formação (POULANTZAS, 1971, p. 31 apud BARROS, 2009, documento on-line). 65 Essa ideologia da classe dominante não é reconhecida pela classe dominada como uma deturpação das verdadeiras relações sociais; dessa forma, o proletariado não consegue identificar e opor-se a isso. Posteriormente, no livro “A Ideologia Alemã” (2007), Engel e Marx trabalham o conceito de ideologia e chegam à conclusão de que a ideologia não é uma imagem distorcida da realidade, mas sim uma imagem invertida da realidade. (LOPES, 2014) Mais tarde, com Lênin e outros autores marxistas, a ideologia perde a conotação negativa e passa a ser encarada como um conjunto de ideias de uma classe, no qual o próprio marxismo é uma ideologia. Esses autores afirmam que existe a ideologia do proletariado e a ideologia da burguesia. A ideologia burguesa é legitimada como a ideologia dominante e, por mais que agora o proletariado possa de ter uma visão de mundo diferente, a ideologia burguesa, por ser dominante, interfere nas ações do proletariado. Uma classe justamente se transforma em classe dominante quando impõe a sua ideologia como universal para as outras classes, ou seja, quando a sua ideologia é apresentada como a forma correta de ver o mundo. [...] o papel político da ideologia dominante burguesa, dominada pela região jurídico-política, consiste no fato de tentar impor ao conjunto da sociedade um “modo de vida” através do qual o Estado será vivido como representante do “interesse geral” da sociedade, como detentor das chaves do universal, face a indivíduos privados (POULANTZAS 1971, p. 39 apud BARROS, 2009, documento on-line). Assim, segundo Barros (2009), a ideologia não é uma realidade invertida, mas o entendimento de uma realidade apresentada de maneira invertida e utilizada para manter a coesão social já estabelecida. Dentro de uma economia capitalista, o Estado utiliza seus aparelhos para garantir a manutenção e a apresentação da ideologia da classe hegemônica. (LOPES, 2014) Existem dois tipos de aparelhos do Estado, os de repressão e os de cunho ideológico, como explica Santos (1980, p. 24) ao mencionar Althusser: Os aparelhos de Estado exercem, junto à sociedade, uma ação eminentemente repressora. Como exemplo, poderíamos lembrar algumas instituições como: a polícia, a justiça, a burocracia, etc. Já os aparelhos ideológicos de Estado atuam mais no sentido de inculcar nos indivíduos uma ideologia “imposta” pela classe dominante, fazendo com que eles a assimilem naturalmente, isto é, espontaneamente. Poderemos dar alguns exemplos de aparelhos ideológicos: Igreja, Escola (educação formal), Família, Imprensa, etc. 66 Portanto, como explicado, o ambiente escolar é um dos aparelhos ideológicos do Estado utilizado para o ensinamento da ideologia dominante, pois, para a existência e manutenção dessa classe dominante, é necessário que se ensine a classe dominada a obedecer e a classe dominante a mandar. Esse ensinamento se torna mais fácil de digerir quando vem a partir da palavra, e não da coerção. A escola funciona para o Estado e, consequentemente, funciona para a ideologia dominante. Ferraro (2014, p. 15) afirma que “A escola é o lugar mais eficaz para inculcação de uma determinada ideologia por vários motivos”, e um desses motivos é o fato de que a escola tenha substituído o papel da igreja na nossa sociedade atual. Anteriormente, o ambiente que dominava o pensamento das crianças e dos jovens era a família e a igreja; hoje, os ambientes em que a criança e o jovem mais estão suscetíveis a receber as ideologias são o familiar e o escolar (LOPES, 2014). Desde a educação primária, ensina-se a criança a reproduzir os princípios, crenças e valores da sociedade. A criança, na fase escolar, está vulnerável e suscetível a receber todo ensinamento que lhe é dado. A escola reproduz a sociedade e a sociedade reproduz a escola. A inculcação de uma ideologia ou arbitrário cultural passa pela estruturação de um sistema educativo baseado nos modos de produção capitalista, mesmo que isto ocorra fora ou acabe por passar ao lado do próprio sistema de produção. Exatamente no sentido de reforçar e perpetuar tal estrutura (FERRARO, 2014, p. 8). A escola atua diretamente na formação do indivíduo, como local em que estudantes passam horas e anos das suas vidas. Por isso, ela é extremamente adequada para ser um instrumento ideológico do Estado: por meio de disciplinas e conteúdo, a escola reproduz a lógica dominante da sociedade ao seu corpo discente. 15.2 Mecanismos adotados pelo Estado para transformar a educação em um instrumento ideológico Como você pôde ver no tópico anterior, o Estado utiliza a educação como um instrumento para ensinar e expandir a ideologia da classe dominante. Mas como efetivamente o Estado faz isso? Quais são os mecanismos que ele utiliza? A partir de agora é isso que você vai aprender. O primeiro mecanismo que posso apresentar a você é o currículo escolar, que é o conjunto de diretrizes sobre a aprendizagem na escola. Essas diretrizes orientam como as atividades educativas devem ser 67 executadas e quais são as suas finalidades. Esse currículo escolar utilizado pelas escolas está baseado nos comportamentos e costumes dominantes na sociedade. As crianças e os adolescentes que pertencem às classes dominantes facilmente se adequam ao currículo escolar das escolas, pois sempre foram expostas e viveram nessa cultura dominante. O mesmo não ocorre para as crianças e adolescentes das classes dominadas, pois elas não conhecem e nem vivenciam a cultura da classe dominante; o currículo escolar para essas crianças é um código que elas não conseguem decifrar ou compreender. Sendo assim,as crianças das classes dominantes alcançam sucesso na escola, seguindo para a educação superior, e sua cultura é reconhecida e fortalecida pela escola. A cultura da classe dominada, por outro lado, não encontra representatividade. (Jaíza Gomes Duarte Lopes, 2014) O conteúdo e a estrutura pedagógica oferecidos pelas instituições de ensino não conseguem alcançar todos os estudantes da mesma forma. Isso acontece porque cada estudante vive uma realidade diferente e participa de uma classe social diferente, vivenciando, cada um, uma cultura diferente. Aqueles que, fora do ambiente escolar, participam de uma cultura diferente da imposta pela escola sofrem um grande choque cultural e, muitas vezes, não conseguem adaptar-se à realidade imposta, o que os leva a “fracassar” e a manter a estrutura atual da sociedade. O segundo mecanismo seria a segregação já no acesso à educação: embora a mesma ideologia seja repassada a todos, ainda existe uma diferença na educação recebida pelas diferentes classes, de modo que não há equidade no acesso à educação, o que parece ocorrer de maneira proposital para perpetuar a distinção das classes sociais. Existem pessoas que recebem todo o conhecimento de ciências, línguas e filosofia com a maior qualidade e estão preparadas para assumir posições de destaque na sociedade; ao mesmo tempo, existem pessoas que recebem esses conhecimentos de forma básica apenas para se habilitarem a exercer funções específicas. Dessa forma, a educação também reforça as desigualdades sociais, como explica Ferraro (2014, p. 9): [...] o sistema escolar é um formador e reprodutor, mas acaba por atuar no âmbito da desigualdade. A escola também segrega, não apenas no âmbito da fragmentação disciplinar, mas também porque faz uma escolha ideológica. A educação, mais especificamente o acesso à educação, não se dá de igual maneira aos estudantes de classes sociais diferentes, o que deve ser levado em conta em termos de formatação do sistema educativo quando comparamos aspectos da reprodução cultural e social. 68 A formação dos professores também é um mecanismo utilizado: mesmo que inconscientemente, os professores são formados para representar a classe dominante dentro das salas de aulas, defendendo e valorizando apenas os trabalhos “intelectuais” em detrimento dos trabalhos ditos “braçais”. Você não se lembra do ditado popular brasileiro muito utilizado pelos professores: “a caneta é mais leve que a pá”? E dos professores que sempre lhe incentivavam a estudar para ser chefe, e não operário? Por meio de práticas pedagógicas, os professores reforçam a ideia do mérito, com o que a escola reconhece e incentiva os esforços individuais para a conquista de algo. Os próprios professores atribuem a si o mérito pessoal sobre a formação acadêmica que os tornou professores (SAES, 2007). Outro mecanismo que podemos verificar é a ênfase do Estado, principalmente em países subdesenvolvidos como o Brasil, no ensino profissional para formar mão de obra para as empresas. A educação profissionalizante é apresentada à população como um meio de formar cidadãos, tirar os jovens da marginalidade, impulsionar a promoção social e promover o desenvolvimento econômico por meio da ajuda mútua entre todos os agentes da sociedade. (LOPES, 2014) Esse tipo de educação, no entanto, é incentivado pela burguesia porque é uma forma de educar, disciplinar e controlar os futuros trabalhadores para a manutenção dos meios de produção capitalistas. A ideologia é um forte agente educativo na educação profissional: fortalece a hierarquia no ambiente de trabalho e desestimula a organização e o fortalecimento dos trabalhadores diante da hierarquia imposta (BATISTA, 2013). Desenvolver uma cultura de educação técnica e profissional na sociedade é uma estratégia para que a população de maneira sutil aceite, inconscientemente, a dominação da ideologia corrente. 69 15.3 Os efeitos da transformação da educação no Brasil Fonte: site.oatibaiense.com.br Para entender a transformação da educação em um instrumento ideológico no Brasil, vamos analisar a formação da educação a partir da década de 1920, com o fim da República Velha e o início da República Nova – período que foi a base para a formação do sistema educacional do século XX no Brasil. Nas décadas de 1920 e 1930, a educação brasileira passou por um processo de renovação por meio da chamada Escola Nova. Foram propostas modernizações nas estruturas de ensino (administração, conteúdos e métodos) frente às tradicionais formas de ensino vigentes na época. Os educadores envolvidos nesse movimento acreditavam que a educação poderia colocar as pessoas em uma nova ordem social. Nesse período, foi apresentado, pela primeira vez, um programa educacional de forma unificada para todo o Brasil: em 1924, foi criada a Associação Brasileira de Educação e, em 1930, foi criado o Ministério da Educação e da Saúde, dando à educação a maior importância já vista. É claro que essas mudanças na educação são consequências das mudanças que estavam ocorrendo no Estado brasileiro: a República velha entrava em crise e o país buscava por modernização em todas as áreas – social, política, cultura, etc. Ou seja, essas mudanças na educação estavam embasadas por uma ideologia de Estado. (LOPES, 2014) Os agentes dessa transformação nas escolas entendiam que a educação deveria ser feita para responder aos desafios da sociedade de forma crítica e a partir de diálogo. Gonçalves (2002, p. 142) nos mostra que esse movimento educacional era 70 progressista, mas politicamente ingênuo, porque a maior parte dos educadores envolvidos nesse projeto pertenciam à elite e sua intenção era educar a população para que participasse do progresso brasileiro – eles acreditavam que uma educação universal teria o poder de acabar com as diferenças e construir uma sociedade brasileira igualitária e unificada. Na verdade, eles estavam contribuindo com governos autoritários que não tinham o menor interesse em educar para a cidadania. Por trás do discurso desses educadores progressistas em educar o povo, “[...] o que se queria da escola, nesse momento, era que ela fosse capaz de refazer o pobre, fazê-lo digno, laborioso e disciplinado, saudável, ou seja, que fosse outro” (GONÇALVES, 2002, p. 148). Em 1932, é lançado o Manifesto dos Pioneiros, considerado um marco na educação brasileira. Esse documento reunia a proposta das principais orientações sobre sociedade, política, filosofia e educação da Escola Nova, defendendo e argumentando que a escola não deveria servir ao interesse de uma classe, mas sim ao interesse das pessoas, e, por isso, a escola deveria estar relacionada ao meio social. Observe o que, no entanto, afirma Gonçalves (2002, p. 145-146): O Manifesto reflete muito mais uma visão dos educadores do que um ato de efetiva possibilidade de aplicação, já que o Estado publicava, no mesmo ano em que se reuniam os educadores para a IV Conferência Nacional de Educação, em dezembro de 1931, importantes reformas da legislação do ensino. Em apenas dois meses, o governo provisório de Getúlio Vargas mudou a face da educação, alterando de forma profunda o ensino secundário, o ensino superior, o ensino comercial, criando o Conselho Nacional de Educação e, como já falamos, incluindo o ensino religioso nos currículos. Mas é claro que o Manifesto se colocou contra a divisão da educação, entre a escola para o pobre, o primário e o profissional e, para a elite, o secundário. Essa divisão reflete uma valoração do trabalho como “coisa” para pobre e, para o rico, a divagação de um curso propedêutico. A escola primária e a profissional serviriam às classes populares, enquanto o secundário e o superior seriam para a burguesia [...]. Por mais que os educadores da Escola Nova tivessem importância e influência, eles não conseguiram transformar suas ideiasem diretrizes reais para a educação brasileira, e o Estado continuou a utilizar a escola como meio manutenção da ideologia burguesa. O governo de Getúlio Vargas montou um sistema educacional estruturado para formar trabalhadores, de modo que a escola servia ao ideal de industrialização da economia. (LOPES, 2014) 71 O Estado endossava a exclusão por meio da educação, pois oferecia uma educação profissional ao pobre, preparava a classe média para o ensino superior e restringia o acesso da mulher somente a instituições exclusivamente femininas ou em turmas exclusivamente femininas. A proposta para a educação pública na Era Vargas era preparar o povo para o trabalho, principalmente para o trabalho na embrionária indústria brasileira. Não se tinha nenhum objetivo em moldar uma identidade nacional a partir de uma educação democrática e nem em formar cidadãos capazes de transformar a sociedade. Ao contrário disso: O espaço escolar se torna o lugar da educação, mas também, e principalmente, o lugar da palavra oficial. Não apenas a escola, mas todo o aparato público estatal se articula no Brasil não para desenvolver e fecundar a cidadania, mas como lugar de onde se profere a palavra da autoridade, que, em vez de incorporar a noção de representatividade, torna-se o oráculo da vontade de grupos privados ou mesmo de vontades individuais. A construção da educação pública, que representaria uma modernização das estruturas culturais e políticas no Brasil, torna-se, de um lado, a demonstração de como o pensamento conservador e a questão nacional trataram a modernidade como valor em si, sem ser questionada, e de outro, a produção de uma modernidade marcadamente às avessas, em que as conquistas sociais advindas de uma forma nova de fazer política não se fizeram presentes até bem pouco tempo (como exemplo, o acesso à escola pública e sua democratização) (GONÇALVES, 2002, p. 149). Em 1964, com a instituição do governo militar, o autoritarismo nas escolas foi ainda mais reforçado. Os militares realizaram inúmeras reformas na educação, mas sem escutar os professores e diretores das escolas. O ensino público foi ampliado, mas os recursos para a educação não acompanharam o mesmo ritmo, o que levou a educação a péssimos resultados, como a baixa remuneração dos professores, a evasão escolar e recursos materiais limitados. Em 1968, os militares propuseram uma reforma universitária, o que apenas acentuou o acesso elitista às universidades públicas. A crise econômica enfrentada pelo Brasil nas décadas de 1980 e 1990 tornou o ensino de qualidade ainda mais elitista, e o pouco investimento na escola pública deixou o ensino, para a população mais pobre, defasado e com menor qualidade. O governo de FHC continuou a utilizar a escola como um instrumento ideológico, com a propagação e utilização da educação para seguir a lógica do mercado, organizando a estrutura escolar para atender a nova divisão internacional do trabalho: 72 O Governo Fernando H. Cardoso [...] adotou o pensamento pedagógico empresarial e as diretrizes dos organismos e das agências internacionais e regionais, dominantemente a serviço desse pensamento como diretriz e concepção educacional do Estado (FRIGOTTO; CIAVATTA, 2003, p. 108). Observe o que diz a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB), promulgada em 1996 pelo então presidente Fernando Henrique Cardoso: Art. 27. Os conteúdos curriculares da educação básica observarão, ainda, as seguintes diretrizes: I - a difusão de valores fundamentais ao interesse social, aos direitos e deveres dos cidadãos, de respeito ao bem comum e à ordem democrática; II – consideração das condições de escolaridade dos alunos em cada estabelecimento; III - orientação para o trabalho; IV - promoção do desporto educacional e apoio às práticas desportivas não formais (BRASIL, 1996). Essa lei está em vigor até os dias de hoje e rege todos as modalidades da educação no Brasil, desde a educação infantil até a educação superior, passando pela educação profissional e especial. Portanto, constatamos que independentemente do partido político vencedor, da forma de governo, democrática ou ditatorial ou, ainda, da situação econômica, próspera ou estagnada, a educação brasileira foi estabelecida para atender os interesses sociais dominantes. (LOPES, 2014) 73 16 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BIBLIOGRAFIA BÁSICA: BOBBIO, N. O conceito de sociedade civil. Rio de Janeiro: Graal, 1994. FERREIRA, Ruth Vasconcelos Lopes. Reflexões sobre o Estado na modernidade. Maceió: EDUFAL, 2000. WEFFORT, Francisco C. (Org.). Os clássicos da política: Maquiavel, Hobbes, Locke, Montesquieu, Rousseau, “O Federalista”. 2ª M. São Paulo: Ática, 1991. Vol.1 BIBLIOGRAFIA COMPLEMENTAR: BARBOSA, M. I. A contribuição de Bossuet à glória do rei sol. Akropólis, v. 15, n. 1-2, p. 61-72, 2007. 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