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CENTRO UNIVERSITÁRIO FAVENI 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
POLÍTICA SOCIAL 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
GUARULHOS – SP 
 
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SUMÁRIO 
1 INTRODUÇÃO ........................................................................................................ 3 
2 Os teóricos do absolutismo ..................................................................................... 4 
3 Nicolau Maquiavel e Thomas Hobbes ..................................................................... 7 
3.1 Nicolau Maquiavel ................................................................................ 7 
3.2 Thomas Hobbes ................................................................................... 9 
4.1 Jacques Bossuet ................................................................................ 12 
4.2 Jean Bodin ......................................................................................... 14 
5 Estado como sociedade política ............................................................................ 16 
5.1 Formação do Estado .......................................................................... 17 
5.2 Teorias naturalistas ............................................................................ 18 
5.3 Teorias contratualistas ....................................................................... 19 
6 O Estado e os seus papéis ................................................................................... 23 
7 O Serviço Social e a divisão de classes ................................................................ 26 
8 O materialismo histórico: concepção marxista da história .................................... 29 
8.1 A concepção de história de Marx ....................................................... 33 
8.2 O que os historiadores devem a Karl Marx? ...................................... 36 
8.3 A influência de Marx na historiografia brasileira ................................. 37 
9 A Questão Social e os movimentos de resistência ............................................... 41 
10.1 Império (1822–1889) .......................................................................... 43 
10.2 República Velha (1889–1930) ............................................................ 44 
10.3 Era Vargas (1930–1945) .................................................................... 44 
10.4 República Populista (1945–1964) ...................................................... 44 
10.5 Ditadura Militar (1964–1985) .............................................................. 45 
10.6 Nova República ou redemocratização (a partir de 1985) ................... 45 
10.7 Formas de exercício do poder ............................................................ 46 
11.1 A sociologia e o exercício do poder .................................................... 48 
12 Modelos de democracia: democracia direta, representativa e participativa .......... 51 
12.1 Democracia direta e as suas principais características ...................... 51 
12.2 Modelo da democracia representativa e a sua aplicação ................... 53 
12.3 Especificidades da democracia participativa ...................................... 56 
3 
 
13 Política contemporânea ........................................................................................ 58 
13.1 Liberalismo social ............................................................................... 58 
13.2 Neoliberalismo .................................................................................... 60 
14 Cenário democrático contemporâneo ................................................................... 62 
15.1 A educação como instrumento ideológico do Estado ......................... 64 
15.2 Mecanismos adotados pelo Estado para transformar a educação em 
um instrumento ideológico......................................................................................... 66 
15.3 Os efeitos da transformação da educação no Brasil .......................... 69 
BIBLIOGRAFIA BÁSICA: .......................................................................................... 73 
bibliografia complementar: ........................................................................................ 73 
 
 
3 
 
1 INTRODUÇÃO 
Prezado aluno! 
O Grupo Educacional FAVENI, esclarece que o material virtual é semelhante 
ao da sala de aula presencial. Em uma sala de aula, é raro – quase improvável - 
um aluno se levantar, interromper a exposição, dirigir-se ao professor e fazer uma 
pergunta , para que seja esclarecida uma dúvida sobre o tema tratado. O comum 
é que esse aluno faça a pergunta em voz alta para todos ouvirem e todos ouvirão a 
resposta. No espaço virtual, é a mesma coisa. Não hesite em perguntar, as perguntas 
poderão ser direcionadas ao protocolo de atendimento que serão respondidas em 
tempo hábil. 
Os cursos à distância exigem do aluno tempo e organização. No caso da nossa 
disciplina é preciso ter um horário destinado à leitura do texto base e à execução das 
avaliações propostas. A vantagem é que poderá reservar o dia da semana e a hora que 
lhe convier para isso. 
A organização é o quesito indispensável, porque há uma sequência a ser 
seguida e prazos definidos para as atividades. 
 
Bons estudos! 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
4 
 
2 OS TEÓRICOS DO ABSOLUTISMO 
 
www.todamateria.com.br/absolutismo 
Antes de contextualizarmos a produção dos chamados “teóricos do 
Absolutismo”, compreendendo suas obras em suas conjunturas de produção e 
circulação, acreditamos ser importante buscarmos uma definição de Absolutismo e 
entender como esse conceito foi forjado para se referir ao sistema monárquico do 
Antigo Regime. Isso porque existe uma diferença entre o emprego historiográfico do 
termo e os significados que foram atribuídos ao conceito no vocabulário político de 
determinadas conjunturas. Do ponto de vista da historiografia, Silva e Silva (2009, p. 
11) apresentam uma síntese do que costuma ser entendido como “Absolutismo” ou 
“monarquia absolutista”: 
Absolutismo é um conceito histórico que se refere à forma de governo em que 
o poder é centralizado na figura do monarca, que o transmite 
hereditariamente. Esse sistema foi específico da Europa nos séculos XVI a 
XVII. [...] 
O surgimento do Absolutismo se deu com a unificação dos Estados nacionais 
na Europa ocidental no início da Idade Moderna, e foi realizada com a 
centralização de territórios, criação de burocracias, ou seja, centralização de 
poder nas mãos dos soberanos. [...]. O Estado centralizado surgiu, assim, 
interligado aos conflitos políticos entre nobreza e burguesia, característicos 
desse momento histórico, além das disputas políticas entre os príncipes e a 
Igreja Católica, visto que o Papado durante toda a Idade Média foi uma 
considerável força internacional. [...]Assim sendo, percebemos que o 
Absolutismo se liga a um determinado momento da história das nações 
europeias, o momento em que uma monarquia fortalecida com os conflitos 
políticos internos entre diferentes grupos sociais, e apoiada por justificativas 
filosóficas, controla e consolida o Estado nacional. 
http://www.todamateria.com.br/absolutismo
 
5 
 
O sistema monárquico absolutista foi uma forma de organização política forjada 
para conformar as instâncias de privilégios e as relações de poder às novas demandas 
econômicas, políticas e sociais, emergentes com as transformações ocorridas nos 
séculos XV, XVI e XVII. Ou seja, houve uma exigência de um poder central e soberano 
para se adequar às exigências daquele período, marcado por guerras civis, 
enfrentamentos entre a burguesia e a nobreza e de mudanças significativas do 
aspecto econômico. Lembremos que a definição de “Absolutismo” para as monarquias 
do século XVI e XVII não é contemporânea a esses acontecimentos, sendo um termo 
difundindo no vocabulário político francês ao final do século XVIII e, na Inglaterra,em 
começos do século XIX, em função da adoção de uma nova forma de estado, o liberal: 
[...] para se contrapor aos ‘riscos de absolutismo’ – i.e., a concentração do 
poder soberano de decisão numa autoridade executiva –, dever-se-ia formar 
um sistema cameral permanente (autoridade legislativa) e conferir 
independência institucional e poder fiscalizador para a justiça sobre os 
demais poderes, de modo que o poder limitasse o poder (VIANNA, 2008, 
documento on-line). 
Os chamados “teóricos do Absolutismo” procuraram entender e, em certos 
casos, justificar, o processo de centralização política e a concentração de poder no 
monarca por meio de teorias que opusessem o caos e a ordem, sendo a ordem 
entendida como o bom funcionamento da sociedade. Uma corrente procurou explicar 
o poder a partir do direito natural, os jusnaturalistas, recuperando ideias da 
antiguidade romana. Segundo esses pensadores, existiriam leis universais que 
baseariam a relação entre o monarca e seus súditos, bem como a relação entre os 
Estados. Outra corrente argumentava sobre o direito divido dos reis, herdeira de 
crenças medievais da ligação do monarca com Deus. Ambas as concepções, a do 
jusnaturalismo e do contrato social e a assentada no poder divino dos reis, defendem 
um Estado unificado na mão do rei, em um sistema autocrático, com poderes 
incontestes. 
E como podemos definir o contexto de produção das obras dos “teóricos do 
Absolutismo”? É preciso lembrar que esses pensadores estavam inseridos em uma 
profunda discussão sobre o poder e a política, cujo objetivo era delinear, em diferentes 
pontos de vista, o que seria uma sociedade justa, ordenada e virtuosa. A monarquia 
era o regime político de predileção (em função da concentração do poder de forma 
autocrática), e um dos temas de que se ocuparam foi a ideia de soberania. 
 
6 
 
Do ponto de vista das tradições intelectuais, as obras renascentistas que se 
dedicam a refletir sobre a política e o poder ainda operam em um mundo cristão, ou 
seja, a relação entre a política e a religião está presente de alguma maneira. Conforme 
Chauí (2000, documento on-line), as teorias medievais são teocráticas, enquanto as 
da renascença buscam outras explicações sore o poder para além da noção do divino; 
“[...] no entanto, embora recusem a teocracia, não podem recusar uma outra ideia 
cristã, qual seja, a de que o poder político só é legítimo se for justo e só será justo se 
estiver de acordo com a vontade de Deus e a Providência divina. Assim, elementos 
de teologia continuam presentes nas formulações teóricas da política”. Temos, então, 
um pensamento político na modernidade constituído por duas vertentes: aqueles 
teóricos que buscavam legitimar a autoridade do soberano a partir de fundamentos 
religiosos, tais como o direito divino, e aqueles que se apoiam em argumentos lógicos 
e racionais, afastando a moral da política. Tomadas em conjunto, e levando-se em 
consideração sua conjuntura de produção, as obras dos “teóricos absolutistas” podem 
ser caracterizadas, de acordo com Marilena Chauí (2000), a partir de dois elementos: 
 as mudanças ocorridas na cultura, na economia, na política e na 
sociedade evidenciaram a existência de grupos (burgueses, 
assalariados, camponeses) que não podiam invocar noções de dinastia, 
família, linhagem ou sangue para explicar por que existiam e por que 
haviam mudado de posição social, mas só podiam invocar a si mesmos 
como indivíduos; 
 a existência de conflitos entre esses indivíduos e entre eles e os demais 
estamentos da sociedade moderna demonstravam que a imagem de 
uma comunidade cristã, fraterna, una e indivisível eram uma construção 
que não correspondia à realidade. 
 
Essas mudanças na percepção de si mesmo e do mundo fizeram com que os 
“teóricos do Absolutismo” precisassem explicar quem eram os indivíduos e por que 
existiam os conflitos, bem como propor soluções para esses enfrentamentos e guerras 
civis. De acordo com Chauí (2000, documento on-line), “[...] foram forçados a indagar 
qual é a origem da sociedade e da política. Por que indivíduos isolados formam uma 
sociedade? Por que indivíduos independentes aceitam submeter-se ao poder político 
e às leis? A resposta a essas duas perguntas conduz às ideias de Estado de Natureza 
 
7 
 
e Estado Civil”. É nessa grande mudança cultural, que atingiu a Europa Ocidental de 
formas e em períodos distintos, que se insere o pensamento de Maquiavel, que, em 
sua obra O Príncipe, traz reflexões sobre a possível separação entre moral e política; 
de Thomas Hobbes, autor de Leviatã, que lança as bases da teoria contratualista para 
a superação do estado de natureza; de Jean Bodin e sua obra, República, teórico da 
origem divina do monarca; e de Jacques Bossuet, autor de Política Segundo a 
Sagrada Escritura, que afirmava que todo o poder é legítimo e que rebelar-se contra 
ele seria um sacrilégio. Vamos estudar um pouco mais sobre o pensamento desses 
autores e as diferenças entre eles a seguir. 
3 NICOLAU MAQUIAVEL E THOMAS HOBBES 
Ainda que Nicolau Maquiavel e Thomas Hobbes tenham vivido em locais e momentos 
diferentes, suas preocupações intelectuais são semelhantes no que diz respeito ao 
Estado como gestor dos conflitos inerentes à política, evitando as facções políticas, 
como no caso de Maquiavel, ou a guerra de todos contra todos, como afirmado por 
Hobbes. A seguir, veremos um pouco mais sobre o pensamento de ambos os autores. 
3.1 Nicolau Maquiavel 
 
Fonte: filosofianaescola.com/filosofos/maquiavel/ 
 
8 
 
Maquiavel nasceu em Florença, em 1469. Naquele momento, a Península 
Itálica encontrava-se dividida em uma série de pequenos Estados, com diferenças 
signifi cativas em relação à sua cultura e seus regimes políticos e, por consequência, 
sujeitos a confl itos e invasões estrangeiras. 
Até 1494, graças aos esforços de Lourenço, o Magnífico, a península 
experimentou uma certa tranquilidade. Cinco grandes Estados dominavam o 
mapa político: ao sul, o reino de Nápoles, nas mãos dos Aragão; no centro, 
os Estados papais controlados pela Igreja e a república de Florença, presidida 
pelos Médicis; ao norte, o ducado de Milão e a república de Veneza (SADEK, 
2011, p. 14). 
Contudo, na passagem do século XV para o XVI, essa situação modificou- -se 
em função de aspectos internos e externos. Nesse contexto, Maquiavel passou sua 
infância e adolescência. Teóricos do Absolutismo 5 Em função de disputas políticas, 
principalmente da rivalidade adquirida com a família Médici, Maquiavel é impedido de 
exercer cargos públicos, depois de ter trabalhado como chanceler. É torturado, preso 
e condenado a pagar multa. Ao ser libertado da prisão, passou a escrever suas obras, 
sendo O Príncipe escrita entre 1512 e 1513. 
 
no território da Itália, que se encontrava dividida em ducados, reinos, repúblicas e 
convivia com o poder da Igreja. Veja, a seguir, os pontos em que seu pensamento é 
inovador, rompendo com a tradição da filosofia política. 
 Não existiria um fundamento anterior e exterior à política (como Deus, a 
natureza ou a razão). A política nasce das divisões e lutas sociais na 
busca de unidade e identidade. 
 
9 
 
 Maquiavel, diferentemente dos pensadores da Antiguidade clássica e 
dos cristãos, não concebe a política como uma realização do bem 
comum e da justiça, mas como tomada e manutenção do poder. 
 A política não seria regida por uma moral cristã, mas por uma virtude 
propriamente política, não necessariamente boa ou má. Isso não 
significa que o príncipe deva ser odiado, mas temido e respeitado. 
 Por fim, Maquiavel rejeita a divisão clássica dos três regimes políticos 
(monarquia, aristocracia, democracia) e suas formas corruptas ou 
ilegítimas (tirania, oligarquia, demagogia/anarquia), assim como não 
aceita que o regime legítimo seja o hereditário e o ilegítimo, o usurpado 
por conquista. Qualquer regime político — tenha a forma e a origemque 
tiver — poderá ser legítimo ou ilegítimo. O critério de avaliação, ou o 
valor que mede a legitimidade e a ilegitimidade, é a liberdade. 
3.2 Thomas Hobbes 
 
Fonte: www.arqnet.pt/portal/teoria/hobbes 
O pensamento político de Hobbes parte do pressuposto da existência de uma 
situação “pré-social”, em que as pessoas vivem em um “Estado de natureza”, isoladas 
 
10 
 
em luta permanente, vigorando a guerra de todos contra todos, que deu origem à 
expressão “o homem é o lobo do homem”. Nessa situação, o medo é imperativo, já 
que a vida não tem garantias, principalmente o medo da morte violenta. Como forma 
de cessar essa situação de ameaça, estabelece-se um “contrato” entre os seres 
humanos, passando-se à sociedade civil, isto é, ao Estado Civil, criando o poder 
político e as leis. O “contrato social” estabelece que os indivíduos renunciam à 
liberdade natural e à posse natural de bens, riquezas e armas e concordam em 
transferir a um terceiro — o soberano — o poder para criar e aplicar as leis, tornando-
se autoridade política. 
O contrato social funda a soberania. Aqui, há um retorno ao direito romano e 
ao direito natural, principalmente na ideia de que todo indivíduo, por natureza, tem 
direito à vida e à liberdade. “Por natureza, todos são livres, ainda que, por natureza, 
uns sejam mais fortes e outros mais fracos. Um contrato ou um pacto, dizia a teoria 
jurídica romana, só tem validade se as partes contratantes forem livres e iguais e se 
voluntária e livremente derem seu consentimento ao que está sendo pactuado” 
(CHAUÍ, 2000, documento on-line). 
Outro dos grandes defensores do Estado contratual foi Thomas Hobbes, que 
em sua obra Leviatã afirmou que todo Estado nasce do contrato mútuo entre 
os homens. Estes, quando em estado de natureza, viveriam em constante 
conflito e situação de guerra. Assim sendo, para garantir a ordem, 
considerada a única forma de a sociedade prosperar, os indivíduos faziam 
um acordo em que todos abdicavam de suas liberdades em favor de um 
representante, o rei, que, por sua vez, se encarregaria de garantir a ordem. 
Nessas teses, que explicam o Estado a partir de acordos e da concordância 
entre reis e povo, todavia, a vontade do rei e do Estado sempre é superior à 
do povo e, logo, deve ser obedecida sem resistência. Somente com a 
Ilustração, no século XVIII, essas teorias seriam revistas para apresentar o 
governo como representante da vontade popular. No Absolutismo, todavia, 
rei e Estado se sobrepõem ao povo (SILVA; SILVA, 2009, p. 12). 
Assim, para Hobbes, o poder do soberano superaria os indivíduos e as 
coletividades, estabelecendo a paz e trazendo segurança para todos. O fundamento 
do poder não estaria na tradição (família, linhagens, sangue), mas na conveniência 
de se ter um soberano absoluto, para o bem de todos. Ainda que no pensamento de 
Hobbes o Estado seja visto como uma forma de superação do medo reinante na 
condição de Estado de natureza, o medo não desaparece na constituição da 
sociedade civil e da configuração do Estado. A capa da primeira edição de sua obra 
Leviatã, publicada em 1651, apresenta a figura ameaçadora de um monarca, e o 
próprio nome “Leviatã” foi retirado de um monstro presente na Bíblia (Figura 1). Nessa 
 
11 
 
obra, Hobbes mostra os fundamentos e as razões pelas quais o monarca absoluto 
deve exercer força, autoridade, influência, juízo, poder sobre os súditos, porque, sem 
esse exercício de poder coercitivo pelo Estado, haveria um estado de guerra 
constante. 
 
4 JACQUES BOSSUET E JEAN BODIN 
Nesta parte, estudaremos dois teóricos do Absolutismo cujas reflexões foram 
permeadas por questões religiosas. Seja por aspectos ligados à trajetória de Jacques 
Bossuet e Jean Bodin ou por suas convicções e crenças, suas concepções de Estado 
e poder estão relacionadas a uma dimensão divina. Vejamos mais sobre suas 
biografias e obras a seguir. 
 
 
12 
 
4.1 Jacques Bossuet 
 
Fonte: www.grupoescolar.com/pesquisa/jacques-bossuet 
Jacques-Bénigne Bossuet (1627-1704) foi um religioso francês que procurou 
na religião católica uma solução para os problemas políticos enfrentados no século 
XVII. 
Desde a infância e adolescência de Bossuet sua família sempre mostrou 
fidelidade absoluta ao rei, e sempre se colocou ao seu serviço. A desordem 
e a miséria que assolaram a França, causadas pelas perturbações da Fronda, 
ficaram gravadas na memória de um jovem destinado a defender 
vigorosamente a soberania indivisível na pessoa do príncipe. Neste sentido, 
podemos afirmar que a doutrina de Bossuet formou-se a partir de confrontos 
com problemas concretos; constituiu-se em respostas aos fatos reais que 
surgiram diante dele (BARBOSA, 2007, documento on-line). 
Assim, concebeu sua teoria afirmando que o poder absoluto dos reis remontaria 
a Davi e Salomão, que teriam sido ungidos por Deus, ou seja, os monarcas seriam 
reis por direito divino. De acordo com seu pensamento, rebelar-se contra o poder do 
monarca equivaleria a revoltar-se contra Deus. Bossuet escreveu os seis primeiros 
livros da Política de 1677 a 1679, após a Revolução Inglesa de 1640 e a Fronda (1648-
1653). Nessas guerras civis, os revoltosos defendiam a limitação da soberania real a 
partir da ideia contratualista e, quando os reis deixavam de agir corretamente, o 
 
13 
 
contrato poderia ser anulado. A preocupação de Bossuet, portanto, reside na 
condenação das guerras civis, na eliminação de qualquer direito de resistência dos 
súditos perante os governantes estabelecidos e no reforço à soberania dos reis. 
(OLIVEIRA, 2009) Não somente nas obras em que aborda diretamente as questões 
políticas, mas também nas obras de cunho histórico, existe uma justificativa na 
fundação do Estado como um ato de Deus de manifestação de sua vontade, e são 
citados como exemplos os impérios chinês, egípcio e pérsio. A ideia de providência 
divina perpassa toda a obra e o rei é apresentado, ao mesmo tempo, como governador 
civil e sumo-sacerdote, representante de Deus na Terra. De acordo com Chevallier 
(1999 apud LIMA, 2015, documento on-line): 
Ao falar da origem do governo civil, primeiramente Bossuet partiu da tese 
aristotélica da natureza política do homem (o homem como animal político), 
para depois chegar à tese hobbesiana do homem lobo do homem, que, 
segundo ele, teve origem a partir do acontecimento bíblico do pecado original, 
praticado por Adão e Eva. Para Bossuet, o pecado original foi o responsável 
por ter transformado a vida numa verdadeira anarquia, fazendo prevalecer 
àinsociabilidade entre os homens. Desse modo, ele acreditava que apenas 
com a constituição de um governo civil seria possível garantir o 
estabelecimento da paz e da segurança. Para melhor cumprir esta função, 
Bossuet defendeu a monarquia absolutista como a forma mais adequada de 
governo, já que qualquer tipo de divisão, no exercício do poder, era 
considerado por ele como o principal mal dos Estados. Assim, esta forma de 
governo defendida por Bossuet, estava fundamentada inteiramente na 
sagrada escritura, com os monarcas reconhecidos como verdadeiros 
ministros de Deus, ao deter todo poder necessário a manutenção da ordem 
e da paz social. 
Ao longo de sua trajetória, Bossuet teve um papel importante na vida e na corte 
de Luis XIV — Bossuet foi seu tutor —, realizando diversos cultos realizados no 
Palácio Real e proferindo orações fúnebres nas cortes francesa e britânica. A partir 
dessa circulação em altos estratos do poder político, elaborou suas reflexões sobre o 
Estado, o poder e a política, que serviram como forma de instrução a Luís XIV, e nos 
demonstra como construiu a argumentação sobre a origem e o fundamento do poder 
divino do rei. Os livros destinados à educação de Luís XVI, escritos entre 1677 e 1679, 
“[...] inserem-se nesse movimento de exaltação à glória monárquica. Bossuet dedicou-
os para falar da origem do poder e da autoridade do príncipe. Com isso, a teoria do 
direitodivino, justificadora do Absolutismo, que se conhece já há tempo, atinge o seu 
ponto culminante” (BARBOSA, 2007, documento on-line). Suas obras mais 
importantes foram Discurso sobre a História Universal, publicada em 1681, e Política 
tirada das Santas Escrituras, lançada em 1708. Bossuet morreu em Paris, em 1704. 
 
14 
 
4.2 Jean Bodin 
 
Fonte: www.todamateria.com.br/jean-bodin 
Jean Bodin nasceu na França por volta de 1530, em uma família burguesa, de 
prósperos artesãos. Formou-se em direito, dedicando-se ao direito civil, e, em Paris, 
trabalhou como advogado da corte. Suas obras são reflexões jurídicas, que versam 
sobre a separação entre Estado e governo e apresentam como inovação a 
sistematização da noção de soberania. 
O problema para Bodin estaria na confusão feita até então entre Estado e 
governo. O termo “Estado” designa as três formas de ordenamento político 
que uma República pode assumir com base no número de pessoas que 
detém a soberania. Já o governo indica a maneira pela qual esse poder é 
exercido – assumindo as formas legítima, despótica ou tirânica, de acordo 
com a relação do soberano com as leis e com seus súditos – e a maneira 
pela qual esse poder é conferido – assumindo as formas aristocrática, 
democrática ou harmônica, conforme o grau de participação dos súditos nos 
cargos públicos. As diversas combinações dessas possibilidades resultariam 
na grande variedade de formas de governo que têm sido confundidas com as 
formas de Estado (VIANNA, 2010, p. 65-66). 
Bodin, no século XVI, foi o primeiro teórico a afirmar que no Estado deve haver 
um poder soberano, isto é, um foco de autoridade que possa resolver todas as 
pendências e arbitrar qualquer decisão. Sua obra Da República, publicada em 1576, 
 
15 
 
aborda muitos temas de teoria política, incluindo as discussões sobre o direito divino 
dos reis e a soberania, temas pelos quais a obra de Bodin costuma ser recuperada 
como uma “teoria” sobre o Absolutismo. 
Da República costuma ser utilizada para comparar a situação da Inglaterra e 
da França absolutista, já que, quando Bodin a escreve, “[...] o reino da França estava 
fraturado devido às facções nobiliárquicas das guerras confessionais, cada uma das 
quais tentando impor as suas prerrogativas locais ou regionais de poder, respeitando 
ou não as deliberações régias conforme os seus interesses e conveniências 
particulares e, portanto, estavam desviadas de qualquer princípio de bem comum” 
(VIANNA, 2010, documento on-line). Dessa forma, era imperativo ratificar o poder do 
rei, acima de qualquer facção. 
Diferentemente de Bossuet, Hobbes ou Maquiavel, para Bodin, a centralização 
do poder e o fortalecimento da figura do monarca ocorre por meio do direito, com a 
entrega pelos indivíduos de seus direitos individuais a um “Deus mortal”, o Estado. 
Para ele, esse estado é regido por três conjuntos de leis: a lei moral (ou seja, os 
valores do indivíduo), a lei doméstica (aplicada pelo chefe da família) e a lei civil, à 
qual todos os membros da sociedade civil devem obediência. De acordo com Barros 
(2009, documento on-line): 
[...] não basta para Bodin a simples união de vários grupos sociais, nem a 
comunhão de bens e de interesses, nem a existência das mesmas leis e de 
instituições dirigidas pelo princípio da justiça. São condições necessárias, 
sem dúvida, mas não suficientes. É preciso acima de tudo o estabelecimento 
de um poder capaz de assegurar a coesão entre os membros da sociedade, 
reunindo-os e integrando-os num só corpo. 
Contudo, o elemento mais importante do Estado é a soberania, entendida como 
o poder supremo e inalienável do soberano sobre os súditos, que era concedida ao 
rei por Deus. Para Bodin, ser soberano significava estar acima das leis civis: 
[...] soberano deve estar livre diante das leis que estabeleceu, porque 
ninguém pode obrigar-se a si mesmo, e das leis que foram estabelecidas por 
seus predecessores, porque, se fosse obrigado a cumpri-las, seu poder não 
seria absoluto. O soberano deve ter o poder de criar, corrigir e anular as leis 
civis de acordo unicamente com sua vontade. Como a lei imposta por Deus à 
natureza tem seu fundamento na livre vontade divina, a lei civil, embora possa 
estar fundamentada em boas razões, retira também sua autoridade da livre 
vontade do soberano (BARROS, 2009, documento on-line). 
 
16 
 
Além da construção dessa definição de soberania, Bodin legou aos seus 
contemporâneos uma justificativa para a monarquia como melhor forma de sistema 
político para o exercício da soberania, que se fundamenta em três pontos: 
 a monarquia é o melhor sistema político para o exercício da soberania a 
partir de uma análise histórica, que evidenciou a predileção dessa forma 
de governo pelos povos da antiguidade; 
 a monarquia é a melhor forma de governo pelas leis de Deus; 
 a monarquia, por ter apenas um soberano, facilita o exercício e o direito 
à soberania. 
5 ESTADO COMO SOCIEDADE POLÍTICA 
A origem da sociedade revela que o indivíduo se reúne em torno de 
determinados objetivos de forma organizada e, para atingir tais finalidades, aceita ou 
se submete a um poder de caráter social. Assim, revelam-se os elementos geralmente 
presentes na sociedade: finalidade, ordem e poder social. Em uma perspectiva ampla, 
quando a finalidade almejada reside na criação de condições gerais para a realização 
dos objetivos individuais, essa sociedade é considerada política (DALLARI, 2013). 
 
Fonte: brasilescola.uol.com 
A sociedade política comunga interesses gerais e individuais, na medida em 
que proporciona, a um só tempo, a consecução de fins próprios e de objetivos comuns 
para todos os seus integrantes. É frequente, inclusive, que se refira à busca do bem 
 
17 
 
comum como a finalidade última de uma sociedade política considerada na 
perspectiva mais ampla de participantes. Nessa percepção mais ampla, quando aceita 
uma autoridade superior que estabeleça as regras de convivência em torno desse 
objetivo comum, surge a primeira concepção de Estado. De fato, o Estado é uma 
espécie de sociedade política. A expressão Estado, porém, é reveladora de momento 
histórico determinado e específico. 
Coube a Maquiavel o seu emprego na obra O príncipe (1513). Diante da 
importância da obra, que apontava as características para um governo de sucesso no 
contexto político da Itália, o termo se difundiu ao longo do século XVII, superando 
concepções mais tradicionais que faziam alusão ao “estado” como grande 
propriedade particular (estados na Espanha e states na Inglaterra) (DALLARI, 2013). 
Mais adiante, a expressão passou a ser empregada apenas quando estivessem 
presentes algumas características específicas. Foi então que surgiu, no século XVIII, 
o chamado Estado moderno (DALLARI, 2013). 
A dificuldade em identificar uma exata conceituação sobre o que se entende 
por Estado deságua em similar desafio para encontrar as suas origens. Assim, uma 
primeira corrente defende que a figura do Estado, associada a uma sociedade 
organizada, sempre existiu. Não seria concebível uma sociedade sem Estado. Nesse 
sentido, o Estado seria justamente o princípio organizador de toda a humanidade. Por 
outro lado, uma segunda corrente afirma que o aparecimento do Estado depende das 
conveniências e oportunidades de cada grupo social, dependendo das condições 
concretas de cada agrupamento em cada localidade. Por fim, uma terceira corrente 
destaca que somente pode ser considerado Estado aquela sociedade política com 
características próprias e nascida na metade do século XVII. Para essa concepção, a 
definição de Estado não é generalizável, mas um produto histórico decorrente do 
reconhecimento da ideia de soberania, isto é, a concentração de poder em 
determinado território e sobre uma determinada comunidade — o que somente teria 
ocorrido no século XVII (MORAIS; STRECK, 2010). 
5.1 Formação do Estado 
A formação do Estado é tema que suscitadivergências. Variadas seriam as 
possíveis causas para o surgimento dessa sociedade política, sendo frequente a 
 
18 
 
classificação entre formação originária e formação derivada (AZAMBUJA, 2008). A 
primeira estaria relacionada ao avanço na organização de um agrupamento pela 
primeira oportunidade, isto é, sem que houvesse uma ordem política anterior. A 
segunda diz respeito a situações em que novos Estado surgem a partir de outros já 
existentes. Nesse caso, falamos em fracionamento (quando uma parte do território de 
um Estado é desmembrada e se constitui um novo Estado) ou em união (quando dois 
ou mais Estados se reúnem para formar um novo Estado). 
5.2 Teorias naturalistas 
As teorias naturalistas buscam explicar a formação originária do Estado a partir 
de uma condição espontânea do ser humano. Segundo essas teorias, haveria uma 
formação espontânea do Estado, que dispensa qualquer ato voluntário da 
comunidade. Assim, o surgimento do Estado não depende de qualquer ato específico 
do homem, mas seria produto da sua natural caminhada em sociedade. Trata-se, 
portanto, de uma formação natural e, dessa forma, não contratual do Estado. 
A formação natural do Estado é assim defendida por Darcy Azambuja: 
[...] só um fato é permanente e dele promanam outros fatos permanentes: o 
homem sempre viveu em sociedade. A sociedade só sobrevive pela 
organização, que supõe a autoridade e a liberdade como elementos 
essenciais; a sociedade que atinge determinado grau de evolução passa a 
constituir um Estado. Para viver fora da sociedade, o homem precisaria estar 
abaixo dos homens ou acima dos deuses, como disse Aristóteles, e vivendo 
em sociedade ele natural e necessariamente cria a autoridade e o Estado 
(AZAMBUJA, 2008, p. 109). 
As principais causas não contratuais para o surgimento do Estado são 
sistematizadas por Dalmo de Abreu Dallari da seguinte forma (DALLARI, 2013): 
Origem familiar — considera que o núcleo familiar é a célula-mãe da sociedade 
política. De fato, a partir da reunião de diversas famílias, a complexidade do grupo 
social aumenta e, assim, surge o Estado enquanto figura de reunião da comunidade. 
Essa foi a proposta de Fustel de Coulanges ao tratar do surgimento do Estado grego 
e do Estado romano. 
Origem violenta — considera que o Estado é o resultado da natural 
superioridade de força de determinado grupo sobre outro. Assim, lembra Darcy 
Azambuja que o Estado é, durante os seus primeiros estágios, uma organização 
 
19 
 
imposta pelo vencedor para manter a dominação do vencido (AZAMBUJA, 2008). É 
também denominada teoria da violência ou teoria da conquista. 
Origem econômica — considera que a reunião do sujeito em torno de um 
aparato de poder organizado decorre de motivos econômicos. Assim, o Estado 
proporciona a reunião de variados interesses, já que ninguém é bastante em si. Mais 
do que isso, essa teoria destaca que o Estado proporciona a divisão do trabalho e a 
integração de diversas atividades diferentes. Alguns autores, como Marx e Engels, 
vão ao extremo dessa teoria para explicar as razões pelas quais o Estado autoriza 
tantas desigualdades: na sua origem econômica, ele institucionalizou a propriedade 
privada, o acúmulo de patrimônio, a divisão de classe e, por consequência, a luta entre 
elas. Sobre o tema, confira a crítica de Darcy Azambuja (2008, p. 103): 
Quanto à luta de classes, o que a história e a sociologia têm demonstrado é 
que ela sempre existiu como também sempre existiu a cooperação entre as 
classes; que o Estado possa ser frequentemente instrumento dessa luta é 
demonstrável; mas, que ele tenha nela sua origem, é história distorcida e 
sociologia para propaganda política. 
Origem no desenvolvimento interno — considera que toda sociedade humana 
tem um Estado em potencial que surgirá à medida que a sua complexidade aumentar. 
Assim, uma sociedade pouco desenvolvida dispensa a figura do Estado, mas uma 
sociedade com maior desenvolvimento tem por necessidade o surgimento do Estado. 
Há, em razão disso, um surgimento do Estado naturalmente decorrente do progresso 
de uma sociedade. 
5.3 Teorias contratualistas 
As teorias contratualistas buscam explicar a formação originária do Estado a 
partir de um ato voluntário do ser humano. Segundo essas teorias, a formação do 
Estado depende de uma convenção expressa realizada entre os integrantes de uma 
sociedade. Assim, em linhas gerais, o surgimento do Estado dependeria de um ato 
concreto de reunião e aceitação, por alguns denominado contrato social. Trata-se, 
portanto, de uma formação contratual do Estado. 
Para o pensamento contratualista, a sociedade e o Estado são criações 
artificiais da razão humana, derivadas de um consenso, tácito ou expresso, da maioria 
dos indivíduos para encerrar o estado de natureza e iniciar o estado civil. Assim, a 
 
20 
 
origem e a legitimação do Estado são uma decorrência do contrato entre os indivíduos 
(MORAIS; STRECK, 2010). O pensamento contratualista, entretanto, não é uniforme, 
merecendo especial atenção as ideias de Hobbes, Locke e Rousseau. 
 
 
Fonte: conversadeportugues.com.br 
Nesse sentido, Hobbes destaca que, antes da vida em sociedade, o homem se 
encontrava em uma fase primitiva, caracterizada pela insegurança e incerteza 
constantes. No estado de natureza, para ele, haveria uma eterna guerra de todos 
contra todos, derivada do caráter eminentemente negativo do homem — que não 
possui uma natureza boa. Assim, com o intuito de preservar a própria vida, o ser 
humano lança mão de um pacto em que se despoja dos seus direitos em detrimento 
de segurança. Entretanto, como a transgressão é ínsita ao homem, para garantir o 
cumprimento do pacto social, o grupo entrega o poder social para um novo sujeito, 
que é justamente o Estado. Por essa razão, a teoria contratualista de Hobbes justifica, 
a um só tempo, o surgimento da sociedade organizada (estado civil) e do Estado. 
Curiosamente, a figura é chamada, por Hobbes, de Leviatã (“metade monstro e 
metade deus mortal”), ente capaz de garantir a paz e a defesa da vida dos seus 
súditos (MORAIS; STRECK, 2010, p. 32). 
O pensamento do autor inglês traz amplos poderes para o soberano, já que 
não há parâmetros naturais para a ação estatal, uma que pelo contrato o 
homem se despoja de tudo, exceto da vida, transferindo o asseguramento 
dos interesses à sociedade política, especificamente ao soberano. O Estado 
e o Direito se constroem pela demarcação de limites pelo soberano que, por 
não ser partícipe na convenção instituidora e, recebendo por todo 
 
21 
 
desvinculado o poder dos indivíduos, tem aberto o caminho para o 
arraigamento de sua soberania (MORAIS; STRECK, 2010, p. 34). 
Assim, em Hobbes, o Estado “já nasce com poderes supremos” (DINIZ, 2001, 
p. 152). Reafirmamos que, para Hobbes, é a manutenção do pacto social que 
possibilita a existência de paz entre o grupo social. As condições para o cumprimento 
do contrato, por sua vez, são uma providência do soberano — autorizado a “velar para 
que o temor ao castigo seja uma força maior que o fascínio exercido pelo desejo de 
qualquer vantagem possa esperar de uma violação do contrato” (DINIZ, 2010, p. 161). 
Com efeito, para Hobbes, a submissão absoluta é o preço a ser pago pelo súdito pela 
salvação trazida pelo Estado (DIAS, 2013). Por essa razão, o seu pensamento é 
inspiração do modelo absolutista. Ao pensamento de Hobbes, contrapõe-se Locke — 
defensor das liberdades individuais e fervoroso antagonista do modelo absolutista. 
Para ele, no estado de natureza, o homem já possui um domínio racional de suas 
paixões e seus interesses, de modo que não se pode considerar a existência de uma 
guerra potencial. Pelo contrário, nesse estágio inicial da sociedade, há uma paz 
relativa que permite ao homem identificar os seus limites e reconhecer a existência de 
alguns direitos. De fato, no pensamento de Locke, existem diversos direitos inatos aohomem, como a vida, a liberdade e a propriedade. Falta, porém, uma força coercitiva 
apta a solucionar conflitos que possam surgir (MORAIS; STRECK, 2010). 
A necessidade de uma força coercitiva para assegurar a proteção dos direitos 
inatos ao homem conduz à elaboração de um pacto entre os integrantes da sociedade. 
Surge, então, o contrato social como ferramenta de legitimação do poder e de 
manutenção dos direitos naturais. Assim, o pacto se sustenta na necessidade de 
proteção de direitos previamente existentes e na sua proteção contra possíveis 
conflitos. Surgem, assim, o estado civil e a fonte da autoridade estatal. Verificamos, 
nesse panorama, o caráter individualista de Locke: o surgimento do estado civil se dá 
para resguardar os direitos naturais de cada sujeito (MORAIS; STRECK, 2010), em 
especial, a propriedade (APPIO, 2005). O poder do Estado, nessa linha, já surge 
limitado aos direitos naturais antes existentes. 
Como podemos perceber, enquanto Hobbes via no Estado um ente 
plenipotente, Locke identifica no Estado um ente com poder delimitado. Por essa 
razão, defende ele que os sujeitos do contrato podem se opor ao Estado quando 
houver violação a direitos naturais. Existe, pois, direito de resistência na sociedade 
 
22 
 
política defendida por Locke (MORAIS; STRECK, 2010). Ainda, para ele, quando já 
instaurados a sociedade e o Estado, além do limite inicial decorrente dos direitos 
naturais, deverá ser observado o princípio da maioria. Assim, haverá uma 
proeminência do Poder Legislativo sobre o Poder Executivo (MORAIS; STRECK, 
2010). Além disso, a observância da lei é impositiva, porque é fundada no próprio 
contrato social — o deixar de seguir a lei criado pelo Poder Legislativo é o mesmo que 
querer retornar ao estado natural (APPIO, 2005). 
O pensamento de Rousseau também é digno de referência, já que confirma a 
evolução da origem do Estado de um modelo absolutista para um modelo 
democrático. Com Rousseau, a tese do estado de natureza apenas facilita o 
entendimento da sociedade. Na realidade, a formação de uma sociedade teria maior 
caráter histórico. É célebre a sua afirmação de que, quando o primeiro homem 
reivindicou propriedade e os demais, ingênuos, aceitaram, teria surgido a sociedade. 
Assim, a noção de estado de natureza é emprestada apenas para ilustrar o contrato 
social e a legitimidade do poder social. 
Na compreensão de Rousseau, para manter a liberdade e a igualdade do 
indivíduo, propõe-se que o contrato social seja uma entrega do particular (vontade 
individual) para o geral (vontade geral), de modo que, quando ocorre a incursão no 
estado civil, não há uma abdicação da liberdade, mas sim uma entrega dela para toda 
a comunidade. E, como o sujeito faz parte do grupo social, não há qualquer perda. 
Pelo contrário, no pacto social, o indivíduo mantém a sua condição de liberdade e 
igualdade. É, pois, no princípio da vontade geral que reside a legitimidade do poder 
em Rousseau (MORAIS; STRECK, 2010). Nessa linha de entendimento, o poder não 
decorre da submissão a um terceiro, mas da união havida entre iguais. Trata-se de 
concepção na qual cada um renuncia a seus interesses particulares em detrimento da 
coletividade. Confira: 
Enfim, dando-se cada um a todos, não se dá a ninguém, e como não haverá 
nenhum associado sobre o qual não se adquira o mesmo direito que se 
cedeu, ganha-se o equivalente a tudo que se perde e mais força para se 
conservar aquilo que se tem. Se, afinal, retira-se do pacto social aquilo que 
não pertence à sua essência, veremos que ele se reduz aos seguintes 
termos: cada um põe em comum sua pessoa e todo seu poder sob suprema 
direção da vontade geral; e enquanto corpo, recebe-se cada membro como 
parte indivisível do todo (ROUSSEAU, 2017, p. 24). 
 
23 
 
A primordial contribuição desse pensamento é o tom democrático: é 
indispensável o respeito à vontade geral encarnada na maioria. O poder, nessa 
passagem, não mais pertence a um príncipe ou oligarca, mas à própria comunidade. 
Traz, por outro lado, a problemática reversa: Rousseau consagra o despotismo da 
maioria e sufoca qualquer pensamento político contrário à voz dominante (MORAIS; 
STRECK, 2010). Seja como for, no seu pensamento, há uma inegável proposta de 
limitação do Estado, já que o soberano não tem o direito de sobrecarregar um 
indivíduo em detrimento do outro (DIAS, 2013): 
Assim, fica claro que o poder soberano, por mais que seja totalmente 
absoluto, sagrado e inviolável, não ultrapassa nem pode ultrapassar os limites 
das convenções gerais, e que todo homem pode dispor plenamente dos seus 
bens e da sua liberdade naquilo que foi estipulado por essas convenções; de 
modo que o soberano nunca tem direito de sobrecarregar mais um súdito que 
o outro, uma vez que seu poder não é mais competente, quando o assunto 
se torna particular” (ROUSSEAU, 2017, p. 40). 
A importância da teoria contratualista da formação do Estado é inegável, já que 
não apenas revela a proteção de direitos do indivíduo como também enuncia que o 
Estado, desde a sua origem, é limitado. 
6 O ESTADO E OS SEUS PAPÉIS 
A fim de compreender a formação do Estado na atualidade, você deve refletir 
sobre os pressupostos ontológicos que pontuam a constituição dessa instância, que 
é um marco na história das sociedades. O homem, em seu estado de natureza, possui 
sua liberdade natural e a protege com sua força física. Como disse Thomas Hobbes 
(1588–1679) “o homem é o lobo do homem”, ou seja, o homem é seu próprio inimigo. 
Essa premissa levou as sociedades primitivas a criarem a ordem em meio ao caos. 
 
24 
 
 
Fonte: mundoeducacao.uol.com.br/geografia/conceito-estado 
 
A sociedade que surge do estado de natureza se constitui por meio de um 
contrato social. Quando a força física já não é mais suficiente para a manutenção da 
ordem, é necessária uma força superior. Nesse sentido, o homem sai de seu estado 
natural para o estado civil e perde a liberdade natural. Em uma sociedade, existe a 
liberdade política, que é garantida pelo Estado e não mais pela força física. Assim, ela 
se iguala à liberdade natural — desde que o homem não deixe de exercer as suas 
vontades. Rousseau explica que o homem possui duas vontades: uma pública e outra 
particular. Sendo a vontade pública uma vontade geral, ela se sobrepõe à vontade 
particular de cada um. Em um Estado legítimo, a vontade particular deve se adaptar 
à vontade geral. Caso contrário, ocorre o fim do Estado. A vontade geral leva os 
homens a se tornarem um só corpo e a terem uma única direção política. O corpo 
político possui caráter moral e se torna existente a partir do pacto social. Ele só existe 
se todos dispuserem de tudo para toda a comunidade, porque um corpo não pode 
denegrir a si mesmo. Veja: 
Se a vontade do corpo político é feita, tem-se um Estado legítimo. Estado 
esse que é guiado pela vontade geral, e preza pela preservação da liberdade 
e dos bens de cada associado. O homem natural, que vivia isolado e bastava 
a si mesmo, agora, através do pacto, faz parte de um todo maior, o corpo 
político. No corpo político, sua liberdade é ainda mais assegurada, já que não 
depende de sua força física. O que limita essa liberdade é a vontade geral, 
que, por sua vez, está diretamente ligada à criação e observância das leis 
(SILVA; CUNHA, 2013, p. 218). 
 
25 
 
Nesse contexto, é importante você notar a compreensão que se tem das leis, 
que são uma declaração geral sobre um interesse comum. Elas existem a fim de 
garantir a liberdade e a igualdade entre os homens. Além disso, a lei é sempre justa, 
pois o homem não pode ser injusto consigo mesmo. Assim, “Se quisermos saber no 
que consiste, precisamente, o maior de todos os bens, qual deva ser a finalidade de 
todos os sistemas de legislação, verificar-se-á que se resume nestes dois objetivos 
principais: a liberdade e a igualdade [...]” (ROUSSEAU, 1999, p. 127 apud SILVA; 
CUNHA, 2013, p. 219).O que fundamenta e garante que a finalidade do Estado se 
cumpra é a preservação da liberdade e da igualdade entre os homens. Esse também 
é o fundamento da vontade geral, das leis e do corpo político. Segundo Silva e Cunha 
(2013, p. 220), “[…] A vontade do corpo político é a vontade geral. Por meio dela o 
homem continua a ser livre, e por ser membro deste corpo ele é igual a todos os 
demais membros […] o Estado dirigido pela vontade geral é um Estado social legítimo 
[...]”. Segundo Pereira (2009), três elementos constituem o Estado. Veja a seguir. 
1. Um conjunto de instituições e prerrogativas, entre as quais o poder coercitivo, 
que só o Estado possui, por delegação da própria sociedade. 
2. O território, isto é, um espaço geograficamente delimitado onde o poder 
estatal é exercido. Muitos denominam esse território de “sociedade”, ressaltando a 
sua relação com o Estado, embora este mantenha relações com outras sociedades, 
para além de seu território. 
3. Um conjunto de regras e condutas reguladas dentro de um território, o que 
ajuda a criar e manter uma cultura política comum a todos os que fazem parte da 
sociedade nacional ou do que muitos chamam de “nação”. 
O Estado é um fenômeno histórico e relacional. Portanto, deve ser tratado como 
processo. Afinal, ele não existe de forma absoluta nem é inalterável. Veja: 
Por ser um processo histórico, que contempla passado, presente e futuro, 
bem como a coexistência de antigos e novos elementos e determinações, a 
relação praticada pelo Estado tem caráter dialético — no sentido de que 
propicia um incessante jogo de oposições e influências entre sujeitos com 
interesses e objetivos distintos. Ou, em outros termos, a relação dialética 
realizada pelo Estado comporta igualmente antagonismos e reciprocidades 
e, por isso, permite que forças desiguais e contraditórias se confrontem e se 
integrem a ponto de cada uma deixar sua marca na outra e ambas 
contribuírem para um resultado final (PEREIRA, 2009, p. 345). 
É nessa relação com a sociedade que o Estado abrange toda a dimensão da 
vida social, indivíduos e classes, assumindo diferentes responsabilidades. Entre elas, 
 
26 
 
a de atender às demandas e reivindicações da sociedade como um todo e não apenas 
de uma classe. Mesmo possuindo um poder coercitivo, o Estado também exerce 
funções protetoras, sendo pressionado e controlado pela sociedade. Pereira (2009) 
ainda afirma que o Estado não é uma entidade desgarrada da sociedade. Ele não é a 
única força organizada e autossuficiente na sociedade e não é um instrumento 
exclusivo da classe dominante. É uma instituição constituída e dividida por interesses 
diversos, que possui a tarefa primordial de administrar tais interesses sem 
neutralidade. O Estado deve se relacionar com todas as classes para se legitimar e 
construir sua base material de sustentação, e não apenas com a classe com que mais 
se identifica. O Estado é a expressão de todas as classes. Embora zele pelos 
interesses da classe dominante, acata outros interesses para manter a classe 
dominada afastada do bloco de poder. Segundo Pereira (2009, p. 346), é 
“relacionando-se com todas as classes que o Estado assume caráter de poder público 
e exerce o controle político e ideológico sobre todas elas [...]”. Se o Estado se exime 
de suas responsabilidades com certos grupos ou classes, pode perder o seu apoio ou 
a sua confiança. Isso abre brechas para a sociedade se organizar autonomamente 
por meio de movimentos. Além disso, isso põe em risco o bloco de poder e possibilita 
o surgimento de poderes paralelos. É por isso que o Estado é, por um lado, uma 
relação de dominação (ou a expressão política da dominação de quem está no poder) 
e, por outro, um conjunto de instituições mediadoras e reguladoras dessa dominação. 
Como você pode notar, o Estado exerce uma forma de controle sobre a 
sociedade, mas também possui a função de protegê-la e está estruturado de forma a 
garantir o seu poder e a sua autonomia. Na atualidade, se vive sob os mandos do 
Estado neoliberal, que interfere de forma parcial na economia e visa a proteger as 
classes mais desfavorecidas por meio de políticas sociais paliativas, ofertando o 
mínimo para sobreviverem. Em tempos de capital, o que se vê é o Estado atuando a 
favor de determinados grupos em vez de cumprir o seu papel de protetor de toda a 
sociedade. 
7 O SERVIÇO SOCIAL E A DIVISÃO DE CLASSES 
Segundo Marx e Engels (2008, p. 8), “A história de todas as sociedades até 
agora tem sido a história das lutas de classe [...]”. A concepção de classe social 
 
27 
 
adotada pelo Serviço Social está fundamentada na teoria social de Marx. Ela parte do 
pressuposto de que nos primórdios do capitalismo havia duas classes fundamentais: 
a dos proprietários e a dos proletários. A primeira detinha os meios de produção e a 
segunda vendia a sua força de trabalho em troca de um salário, que em parte também 
era apropriado pela primeira classe. A divisão da sociedade em classes permite a 
concorrência e a liberdade econômica que geram lucratividade e consumo. Com a 
ascensão da burguesia no período do declínio da sociedade feudal, o antagonismo de 
classes foi ficando cada vez mais aparente. Nesse contexto, as contradições não eram 
eliminadas; pelo contrário, surgiam novas classes e novas condições de opressão. 
Para compreender isso melhor, considere o seguinte: 
A burguesia não pode existir sem revolucionar constantemente os 
instrumentos de produção, portanto as relações de produção e, por 
conseguinte, todas as relações sociais. A conservação inalterada dos antigos 
modos de produção era a primeira condição de existência de todas as classes 
industriais anteriores. A transformação contínua da produção, o abalo 
incessante de todo o sistema social, a insegurança e o movimento 
permanente distinguem a época burguesa de todas as demais. As relações 
rígidas e enferrujadas, com suas representações e concepções tradicionais, 
são dissolvidas, e as mais recentes tornam-se antiquadas antes que se 
consolidem. Tudo o que era sólido desmancha no ar, tudo o que era sagrado 
é profanado, e as pessoas são finalmente forçadas a encarar com serenidade 
sua posição social e suas relações recíprocas (MARX; ENGELS, 2008, p. 14). 
A burguesia expandiu o mercado por meio dos oceanos a fim de que o comércio 
chegasse a todos os cantos do mundo, criando uma interdependência geral entre os 
países. Com o passar do tempo, as duas classes fundamentais foram se 
estratificando, ganhando novas conotações, mas, em suma, se resumem à burguesia 
e ao proletariado. Segundo Marx e Engels (2008, p. 29–30), “[...] a condição essencial 
para a existência e a dominação da classe burguesa é a concentração de riqueza nas 
mãos de particulares, a formação e a multiplicação do capital; a condição de existência 
do capital é o trabalho assalariado [...]”. 
 
28 
 
 
Fonte: mundoeducacao.uol.com.br/sociologia/classe-social. 
Via de regra, a burguesia (ou classe dominante) não se preocupa em retirar da 
classe proletária o pouco que ela possui. A burguesia utiliza a propriedade privada, a 
apropriação dos meios de produção, a apropriação da riqueza socialmente produzida 
e a extração da mais-valia para manter o seu status quo. Entretanto, no decorrer da 
história, a classe trabalhadora sempre demonstrou o seu descontentamento com a 
condição de vida e de trabalho que lhe foi imposta. Ela tem encontrado nos 
movimentos de oposição uma forma de lutar por seus direitos. Toda luta de classes é, 
portanto, uma luta política (MARX; ENGELS, 2008). Assim, você pode considerar que 
a divisão de classes sociais existe apenas no modo de produção capitalista e que, 
portanto, é produto consolidado da lógica capitalista. Segundo Frederico (2009, p. 1), 
classes sociais “[...]são entendidas como um componente estrutural da sociedade 
capitalista e, ao mesmo tempo, como sujeitos coletivos que têm suas formas de 
consciênciae de atuação determinadas pela dinâmica da sociedade [...]”. Em suma, 
a conformação das classes sociais depende do desenvolvimento da sociedade 
capitalista. Nesse sentido, Duriguetto (2013) destaca a relação orgânica entre a 
sociedade civil e o mundo das relações sociais de produção. É a partir dela que se 
desenvolvem as classes sociais, bem como seus interesses conflitantes, suas 
expressões organizativas, suas formas de consciência e até mesmo a função do 
Estado. A sociedade é uma esfera em que as classes lutam pela hegemonia, e há 
aquelas que transitam na contra hegemonia, buscando aliados, articulando interesses 
e necessidades. O Serviço Social, em seu Código de Ética (CONSELHO FEDERAL 
DE SERVIÇO SOCIAL, 1993), assume o compromisso de atuar juntamente à classe 
 
29 
 
trabalhadora, lutando pelos interesses dos menos favorecidos. O projeto ético-político 
definido no seio da profissão visa ao fortalecimento das lutas a favor da classe 
trabalhadora, o que a leva a fazer alianças com os sujeitos coletivos. 
Percebe-se que aumenta cada vez mais o nível de divisão entre as classes. 
Isso remonta ao conceito de Antunes (2008): “classe que vive do trabalho”. Tal 
conceito exprime e dá relevância àqueles que não têm acesso aos bens produzidos 
pela sociedade, mas que têm no trabalho o motivo da sua existência e da sua 
sobrevivência. Na medida em que o capital vai se complexificando, a divisão de 
classes vai ficando também cada vez mais complexa. O Serviço Social, com base nos 
pressupostos teóricos da profissão, assume a posição política de voltar suas ações 
para a defesa dos direitos da classe trabalhadora. A ideia é fortalecer vínculos, 
estreitar laços com as lideranças dos movimentos e contribuir para a construção de 
sujeitos coletivos, visando à emancipação política dessa classe. Em seu Código de 
Ética, está expressa a “[...] opção por um projeto profissional vinculado ao processo 
de construção de uma nova ordem societária, sem dominação/exploração de classe, 
etnia e gênero [...]” (CONSELHO FEDERAL DE SERVIÇO SOCIAL, 2013, p. 24). Além 
disso, está prevista a “[...] articulação com os movimentos de outras categorias 
profissionais que partilhem dos princípios deste Código e com a luta geral dos 
trabalhadores [...]” (CONSELHO FEDERAL DE SERVIÇO SOCIAL, 1993, p. 24). 
Assim, como evidenciam o Código de Ética do Serviço Social, a lei de 
regulamentação da profissão e o seu projeto ético-político, o Serviço Social serve 
como um mecanismo para a concretização das políticas públicas. Ele atua no 
enfrentamento das manifestações da Questão Social e a favor da classe trabalhadora 
(CONSELHO FEDERAL DE SERVIÇO SOCIAL, 1993). 
8 O MATERIALISMO HISTÓRICO: CONCEPÇÃO MARXISTA DA HISTÓRIA 
Principais conceitos O pensamento marxista se consolidou em torno do 
materialismo dialético e do materialismo histórico. Esta última terminologia é, em 
geral, a mais empregada para designar a teoria marxista da história. Além disso, 
Barros (2011) chama a atenção para que não se confunda ou se sobreponha 
materialismo histórico e marxismo, que muitas vezes são utilizados como sinônimos. 
Nesse sentido, o autor propõe uma diferenciação entre o marxismo-leninismo, como 
 
30 
 
programa de ação política, e o materialismo histórico, como um paradigma, um 
método e uma abordagem teórica para a compreensão dos processos históricos. O 
materialismo histórico enquanto paradigma foi forjado por Karl Marx (1818–1883) e 
Friedrich Engels (1820–1895) em diálogo com o campo historiográfico e com demais 
produções das ciências humanas realizadas ao longo do século XIX. Suas obras 
reúnem os conceitos e a teoria que sustentam o materialismo histórico. Além disso, 
em diversas análises os autores colocaram em prática essa leitura da realidade. 
Para Barros (2011), o materialismo histórico possui um núcleo conceitual 
mínimo, composto pelas ideias de dialética, de materialismo e de historicidade, além 
de três conceitos incontornáveis (práxis, luta de classes e modo de produção). 
Contudo, outros conceitos também aparecem seguidamente na obra de Marx. A 
seguir, você vai conhecer algumas definições elaboradas a partir do Dicionário de 
Conceitos Históricos (2009). 
 Dialética: é um método de análise, fundamentado na contradição, que 
organiza o raciocínio para a busca da verdade, analisando uma situação 
contraditória de dada realidade. Para comprovar uma tese, o 
investigador usa uma antítese, ou seja, a negação da própria tese 
original. Mas a negação não é suficiente para a compreensão do 
fenômeno investigado, pois toda negação, em si mesma, contém alguma 
positividade (não se pode negar sem afirmar alguma coisa). É preciso 
então aproveitar as contribuições positivas que existem na tese e na 
antítese para se chegar a uma síntese dos dados conseguidos. De forma 
simples, a síntese seria o conjunto de conclusões às quais o investigador 
chega por meio da análise dialética, mas que não se apresenta como 
definitivo, visto que toda realidade está sujeita ao princípio da 
contradição. Começa então uma nova situação em que o movimento 
tese–antítese–síntese ressurge, dando origem a outra situação, que 
pode ser observada pelo movimento tese–antítese–síntese. Marx 
construiu uma dialética em torno da matéria, formulando o materialismo 
dialético em oposição à dialética dos idealistas Hegel e Fichte. 
 Luta de classes: Marx definiu classe social como a posição comum de 
um conjunto de indivíduos no interior das relações sociais de produção. 
Para ele, classe era um grupo social com uma função específica no 
 
31 
 
processo produtivo. Por exemplo, os proprietários de terra, os 
capitalistas e os trabalhadores constituem classes distintas. Cada um 
deles ocupa um lugar específico no processo de produção: alguns 
possuem a terra, outros, o capital; e os trabalhadores, a habilidade de 
trabalho. As diferentes funções dão a cada classe interesses 
conflitantes, além de ideias e maneiras de agir diferentes. A história, por 
sua vez, seria o relato desses conflitos. Nesse sentido, a tradição 
marxista tende a conceituar classe com base no lugar que cada grupo 
ocupa na economia. Os estudos de Marx e Engels estiveram voltados 
principalmente para as estruturas de classe das sociedades capitalistas, 
não dando muita atenção às relações de classe em outras sociedades. 
Por um lado, ao afirmarem que a história de todas as sociedades tinha 
sido até então a história da luta de classes, os autores deram a entender 
que houve classes sociais em vários períodos históricos. Por outro lado, 
defenderam que a classe era uma característica específica das 
sociedades capitalistas. 
 Modos de produção: é uma das formulações do materialismo histórico 
que divide a história (sobretudo a história europeia) em épocas distintas 
e sucessivas. Para Marx, os modos de produção correspondem a 
estágios específicos das forças e relações de produção de dada 
formação social. O modo de produção, em linguagem menos teórica, 
seria o modo pelo qual determinada sociedade organiza a sua vida 
econômica, o trabalho, as estruturas políticas e jurídicas e mesmo as 
manifestações culturais. Todos os aspectos da vida em sociedade 
(desde os aspectos materiais até os mentais) estariam determinados 
pelo modo de produção da vida material. Para o materialismo histórico, 
é a maneira concreta de uma sociedade organizar sua produção que dá 
forma a todo o edifício social existente nela. Os modos de produção 
identificados por Marx correspondem, em linhas gerais, à história do 
mundo europeu, desde as comunidades primitivas até a última fase, o 
comunismo. As seis épocas históricas ou modos de produção 
concebidos por Marx são: comunismo primitivo; sociedade escravocrata 
antiga; feudalismo; capitalismo; socialismo e comunismo. O 
 
32 
 
funcionamento da economia, em cada um desses estágios, apresenta 
níveis de tecnologia e de relações deprodução particulares. 
 Materialidade: para o materialismo dialético, as condições materiais de 
existência (a economia) são o verdadeiro móvel das ações humanas. 
Assim, a dialética seria o método para se perceber e superar as 
contradições sociais e históricas frequentes nas diversas sociedades 
humanas ao longo da história. O pensamento de Marx consiste em partir 
do real (dos homens reais e de suas contradições) e não das ideias ou 
da mente, como faz Hegel. De acordo com o materialismo dialético, o 
desenvolvimento histórico da humanidade não se dá pela sucessão de 
fatos isolados, mas por um processo que envolve movimento e mudança 
(que, por sua vez, implicam contradições). 
 Práxis: a teoria marxista, de profunda inspiração filosófica, trouxe 
inovações para se pensar o homem e o mundo no século XIX. Marx foi 
o primeiro a mostrar que o significado de uma teoria só pode ser 
compreendido em relação à prática histórica correspondente. Uma teoria 
não pode ser pensada e entendida sem correspondência com o contexto 
histórico. Toda teoria deve, portanto, estar enraizada na realidade 
histórica e dizer alguma coisa que possa transformá-la. Dessa forma, 
Marx buscou conciliar reflexão filosófica e prática política, teoria e práxis 
(entendida como a ação humana que transforma o mundo e a si mesma). 
 
33 
 
8.1 A concepção de história de Marx 
 
Fonte: www.gazetadopovo.com.br/rodrigo-constantino/artigos 
O historiador espanhol Pierre Vilar afirmou, certa vez, que muitos se intitulam 
“historiadores marxistas”, mas poucos se dedicam à “[...] estrita aplicação de um 
método de análise teoricamente elaborado para a mais complexa das matérias de 
ciência: as relações sociais entre os homens e as modalidades de suas mudanças” 
(VILAR, 1995, p. 146). Vilar (1995) afirma que Marx se preocupou com a formulação 
de uma ciência: coerente, dotada de um esquema teórico sólido; total, do ponto de 
vista de recobrir a totalidade de uma análise; e dinâmica, passível de ser debatida a 
partir das mudanças que se sucedem. Nesse sentido, os questionamentos levantados 
pelo historiador espanhol são bastante pertinentes para você compreender a 
concepção de história de Marx: teria sido Marx um historiador marxista? Marx desejou 
alguma vez ser historiador, ou tentou alguma vez escrever história? (VILAR, 1995). 
Sem dúvidas, em sua vasta produção, Marx escreveu “história” tal como é 
concebida nos dias de hoje, mas talvez não como era entendida naquele momento, 
em que o campo recém começava a ganhar contornos disciplinares. Seu “raciocínio 
histórico” ia da teoria à empiria e vice-versa, questão que foi colocada pela 
historiografia apenas na década de 1960. Em seus trabalhos sobre a França, segundo 
Vilar (1995), é possível encontrar, além da “aplicabilidade” da leitura da sociedade 
 
34 
 
francesa por meio do materialismo histórico, questões fundamentais para a história, 
como reflexões sobre as estruturas da sociedade e as noções de atualidades e de 
acontecimentos. Entretanto, Hobsbawm (1998, p. 172–173) adverte que esses 
trabalhos não podem ser considerados “históricos”: 
O desenvolvimento dessa influência de Marx na literatura histórica não é 
evidente por si mesma, pois, embora a concepção materialista da história seja 
o cerne do marxismo e embora tudo o que Marx escreveu esteja impregnado 
de história, ele próprio não escreveu muita história tal como os historiadores 
a entendem. Nesse sentido, Engels era mais historiador, escrevendo mais 
obras que poderiam ser razoavelmente catalogadas nas bibliotecas como 
“história”. [...] O que chamamos de escritos históricos de Marx consistem 
quase exclusivamente de análise política corriqueira e comentários 
jornalísticos, associados a um certo grau de contexto histórico. Suas análises 
políticas usuais, como Lutas de classes na França e O 18 Brumário de Luís 
Bonaparte, são realmente notáveis. Seus volumosos escritos jornalísticos, 
ainda que de interesse irregular, contêm análises do maior interesse — entre 
os quais seus artigos sobre a Índia — e, em todo caso, são exemplos de como 
Marx aplicava seu método a problemas concretos, tanto de história quanto de 
um período que depois se converteu em história. Mas não eram escritos como 
história, tal como a entendem aqueles que se dedicam ao estudo do passado. 
Por fim, o estudo de Marx sobre o capitalismo contém uma quantidade 
enorme de material histórico, exemplos históricos e outros materiais 
relevantes para o historiador. 
Aqui reside uma das grandes diferenças entre a obra de Marx e a daqueles que 
se apropriaram dela para conformar o marxismo dogmático: Marx valorava muito a 
“fase de investigação” de suas pesquisas, ou seja, a empiria possuía uma importância 
muito grande. Assim, a utilização de seu arcabouço conceitual e teórico como uma 
“doutrina” é um reducionismo de seu método de análise, pois a empiria está 
diretamente em diálogo com as fontes utilizadas por Marx (VILAR, 1995). A 
explicitação desse método não está contida em sua obra, mas é realizada por seus 
comentadores. Contudo, Marx inaugurou uma leitura da realidade que ele chamava 
de sócio histórica, encontrando nas contradições sociais, nas lutas de classe e nos 
modos de produção uma interpretação sobre as sociedades. 
Assim, o conceito fundamental para compreender a interpretação de história de 
Marx é o conceito de modo de produção enquanto estrutura determinada e 
determinante das relações sociais. De acordo com Vilar (1995, p. 155), a originalidade 
dessa formulação assenta-se em três pontos: 
Mas sua originalidade não é a de ser um objeto teórico. É a de ter sido, e 
continuar sendo, o primeiro objeto teórico a exprimir um todo especial, 
enquanto os primeiros esboços de teoria, nas ciências humanas, se limitavam 
ao econômico e tinham visto nas relações sociais dados imutáveis (a 
propriedade da terra para os fisiocratas) ou condições ideais a serem 
 
35 
 
preenchidas (liberdade e igualdade jurídicas para os liberais). A segunda 
originalidade, como objeto teórico, do modo de produção é ser uma estrutura 
de funcionamento e de desenvolvimento, nem formal nem estática. A terceira 
é que essa estrutura implica o princípio (econômico) da contradição (social), 
contudo a necessidade de sua destruição como estrutura, de sua 
desestruturação. 
Para analisar, na prática, a compreensão de Marx sobre a história, leia, a 
seguir, um trecho de O 18 de Brumário de Luís Bonaparte, que hoje pode ser 
considerada uma obra de história do tempo presente, já que Marx a escreveu no calor 
dos acontecimentos: 
Os homens fazem a sua própria história, mas não a fazem segundo a sua 
livre vontade; não a fazem sob circunstâncias de sua escolha e sim sob 
aquelas com que se defrontam diretamente, legadas e transmitidas pelo 
passado. A tradição de todas as gerações mortas oprime como um pesadelo 
o cérebro dos vivos. E justamente quando parecem empenhados em 
revolucionar- -se a si e às coisas, em criar algo que jamais existiu, 
precisamente nesses períodos de crise revolucionária, os homens conjuram 
ansiosamente em seu auxílio os espíritos do passado, tomando-lhes 
emprestado os nomes, os gritos de guerra e as roupagens, a fim de 
apresentar nessa linguagem emprestada. Assim, Lutero adotou a máscara do 
apóstolo Paulo, a Revolução de 1789–1814 vestiu-se alternadamente como 
a república romana e como o império romano, e a Revolução de 1848 não 
soube fazer nada melhor do que parodiar ora 1789, ora a tradição 
revolucionária de 1793–1795. De maneira idêntica, o principiante que 
aprende um novo idioma traduz sempre as palavras deste idioma para sua 
língua natal; mas só quando puder manejá-lo sem apelar para o passado e 
esquecer sua própria língua no emprego da nova terá assimilado o espírito 
desta última e poderá produzir livremente nela (MARX, 2003, p. 7). 
Barros (2011, p. 91) interpretou da seguinte forma o trecho anterior de Marx: 
A história [...] mostra suasduas facetas: aquilo que se impõe sobre os 
homens a partir de condições objetivas herdadas das gerações anteriores, e 
aquilo que vai sendo transformado por sua ação, por seu confronto através 
das lutas sociais. A história é para ele espaço de aprisionamentos e de 
liberdades. Há épocas em que a história parece se impor tiranicamente sobre 
esses homens, deixando-lhes margens estreitas, no interior das quais, 
contudo, eles se movimentam; e há épocas em que esses mesmos homens 
parecem tomar para si a tarefa de revolucionar seus destinos. 
Essas ideias são retomadas por Marx em outra obra, A Ideologia Alemã: 
A história nada mais é do que a sucessão das diferentes gerações, cada uma 
das quais explora os materiais, capitais e as forças de produção a ela 
transmitidos pelas gerações anteriores; ou seja, de um lado prossegue em 
condições completamente diferentes a atividade precedente, enquanto de 
outro lado modifica as circunstâncias através de uma atividade totalmente 
diferente (MARX, 2001, p. 70). 
 
36 
 
8.2 O que os historiadores devem a Karl Marx? 
O título desta seção também é o título de um artigo escrito por Eric Hobsbawm 
em que o historiador avalia a contribuição da obra de Marx para a história. De acordo 
com Hobsbawm, Marx rompe com as práticas historiográficas hegemônicas do século 
XIX, dedicadas ao estudo da diplomacia e do político, das guerras e dos grandes 
líderes. Ao proporem que a história é a história da luta de classes ou que é a história 
dos modos de produção, Marx e Engels sugeriam uma inversão da perspectiva de 
análise, deslocando os interesses para as bases econômico-sociais das sociedades. 
Para Hobsbawm (1998), é necessário separar o que foi a contribuição de Marx 
para a historiografia do que ele chamou de “marxismo vulgar”, uma apropriação sem 
critérios de algumas ideias do pensamento do filósofo alemão. Segundo o autor 
britânico, o “marxismo vulgar” pode ser compreendido como: 
1. A “interpretação econômica da história”, ou seja, a crença de que “o fator 
econômico é o fator fundamental do qual dependem os demais”; e, mais 
especificamente, do qual dependiam fenômenos até então não 
considerados com muita relação com questões econômicas. Nesse 
sentido, essa interpretação se superpunha ao 
2. Modelo da “base e superestrutura” (utilizado mais amplamente para 
explicar a história das ideias). A despeito das próprias advertências de 
Marx e Engels e das observações sofisticadas de alguns marxistas, esse 
modelo era usualmente interpretado como uma simples relação de 
dominância e dependência entre a “base econômica” e a 
“superestrutura”, na maioria das vezes mediada pelo 
3. “Interesse de classe e a luta de classes”. Tem-se a impressão de que 
diversos historiadores marxistas vulgares não liam muito além da 
primeira página do Manifesto Comunista, e da frase: “a história [escrita] 
de todas as sociedades até agora existentes é a história das lutas de 
classes”. 
4. “Leis históricas e inevitabilidade histórica”. Acreditava-se, 
acertadamente, que Marx insistira sobre um desenvolvimento sistemático 
e necessário da sociedade humana na história, a partir do qual o 
contingente era em grande parte excluído, de qualquer maneira, ao nível 
de generalização sobre os movimentos de longo prazo. Daí a constante 
preocupação nos escritos históricos dos primeiros marxistas com 
problemas como o papel do indivíduo ou do acidente na história. Por outro 
lado, isso podia ser — e em grande parte era — interpretado como uma 
regularidade rígida e imposta, como, por exemplo, na sucessão das 
formações socioeconômicas, ou mesmo como um determinismo 
mecânico que às vezes se aproximava da sugestão de que não havia 
alternativas na história. 
5. Temas específicos de investigações históricas derivavam dos próprios 
interesses de Marx, por exemplo, na história do desenvolvimento 
capitalista e da industrialização, mas também, por vezes, de comentários 
mais ou menos casuais. 
6. Temas específicos de investigação não derivavam tanto de Marx 
quanto do interesse dos movimentos associados a sua teoria, por 
exemplo, nas agitações das classes oprimidas (camponeses, operários), 
ou nas revoluções. 
 
37 
 
7. Várias observações sobre a natureza e limites da historiografia 
derivavam principalmente do elemento número 2 e serviam para explicar 
as motivações e métodos de historiadores que afirmavam não estarem 
fazendo mais que a busca imparcial da verdade [...] (HOBSBAWM, 1998, 
documento on-line). 
Para Hobsbawm (1998), a contribuição de Marx para a historiografia residiria, 
então, em outro âmbito, não nesse do “marxismo vulgar”. O marxismo não seria a 
única teoria estrutural-funcionalista da sociedade, embora possa ser considerada a 
primeira delas. Ele é distinto de grande parte das outras teorias de duas formas. 
Primeiro, porque hierarquiza os fenômenos sociais (tais como infraestrutura e 
superestrutura). Depois, porque afirma que toda sociedade vive tensões internas 
(contradições) que se contrapõem à tendência do sistema de se manter como um 
interesse vigente. Ainda de acordo com Hobsbawm (1998), a relevância desses 
aspectos do marxismo se relaciona ao campo da história. Afinal, são tais aspectos 
que permitem explicar por que de que maneira as sociedades se alteram, ou seja, os 
fatos da evolução social. Portanto, de acordo com o historiador, a força de Marx está 
em sua insistência tanto na existência da estrutura social quanto na sua historicidade. 
Atualmente, afirma Hobsbawm (1998, documento on-line), “[...] quando a existência 
de sistemas sociais é geralmente aceita, mas à custa de sua análise a-histórica, 
quando não anti-histórica, a ênfase de Marx na história como dimensão necessária 
talvez seja mais essencial do que nunca”. Assim, como você pode notar, a influência 
de Marx sobre os historiadores, e não somente os historiadores marxistas, deu-se não 
apenas pela concepção materialista da história, mas também em relação a suas 
observações sobre aspectos, períodos e problemas específicos do passado. É 
importante, dessa forma, não cometer o erro de compreender o pensamento de Marx 
a partir de fórmulas concisas que foram popularizadas e frequentemente aceitas como 
um “resumo” da teoria marxista. 
8.3 A influência de Marx na historiografia brasileira 
De acordo com os historiadores Malerba e Jesus (2016), existem alguns 
indícios da presença do pensamento de Marx em materiais produzidos no Brasil desde 
o final do século XIX. Porém, sua influência se tornou notória nas primeiras décadas 
do século XX. Primeiramente, a obra de Marx foi utilizada como um corpo doutrinário 
que orientou o ativismo político e funcionou como uma inspiração teórica para 
 
38 
 
reflexões sobre a sociedade, com influências nas ciências humanas e sociais. No 
Brasil, a virada do século XIX para o XX, mais precisamente a década de 1930, 
representa um momento de elaboração de muitas análises que problematizavam a 
realidade nacional. Veja o que afirmam Malerba e Jesus (2016, p. 144): 
Neste período decisivo da história brasileira, jovens ativistas e intelectuais de 
esquerda que se destacariam como protagonistas do pensamento político e 
acadêmico nas décadas seguintes estiveram envolvidos em uma atmosfera 
de mudança coletiva quanto à sua percepção sobre o país e, especialmente, 
na forma como avaliaram o papel do Brasil no cenário geopolítico global. A 
partir de tais diagnósticos, eles produziram diferentes projetos para o futuro 
do país. 
No conjunto desses pensadores, destaca-se Caio Prado Júnior (1907–1990), a 
quem pode ser atribuído o título de “[...] fundador da historiografia marxista no Brasil” 
(MALERBA; JESUS, 2016, p. 143). Na impossibilidade de abarcar aqui todos os 
historiadores marxistas brasileiros e os debates desenvolvidos por eles, a seguir você 
vai conhecer melhor a produção de Caio Prado Júnior e o debate empreendido por 
ele sobre o “sentido” da colonização no Brasil. Contudo, você deve terem mente que 
a historiografia marxista brasileira se desenvolveu em diferentes áreas. Entre as 
discussões mais intensas, considere: 
 aquelas sobre a posição do País no sistema capitalista mundial (desde 
o mercantilismo) e as condições para a realização da revolução no 
Brasil, correlatas à discussão sobre a colonização brasileira; 
 aquelas sobre a historiografia do mundo do trabalho, com ênfase nos 
estudos sobre o sistema escravista, a formação da classe trabalhadora 
e as mobilizações operárias ao longo do século XX, em sua relação 
com o Estado brasileiro. 
 
Trabalhando com noções de “essência” e “sentido”, Caio Prado Júnior, em 
Formação do Brasil Contemporâneo, publicado pela primeira vez em 1942, procurou 
compreender a gênese da economia e da sociedade brasileiras. Para o autor, ir à 
“essência de nossa formação” significava buscar um sentido para a colonização do 
Brasil ter-se dado de determinada forma. Tratava-se da busca de um “objetivo exterior, 
voltado para fora do país e sem atenção a considerações que não fossem o interesse 
daquele comércio [europeu]” (PRADO JUNIOR, 1971, p. 32). Como você pode notar, 
Prado Júnior considerava a formação econômico- -social brasileira o resultado de uma 
 
39 
 
intencionalidade de Portugal, uma nação vanguardista disposta a conquistar 
mercados e metais, de acordo com a lógica colonial-mercantilista dos séculos XV e 
XVI. Assim, para ele, não haveria outra alternativa à colônia brasileira a não ser se 
organizar conforme os interesses metropolitanos portugueses, já que, segundo o 
autor, os fatos que constituem um país “[...] seguem uma linha mestra e ininterrupta 
de acontecimentos que se sucedem em ordem rigorosa, e dirigida sempre numa 
determinada orientação” (PRADO JUNIOR, 1971, p. 7). Portanto, a economia e a 
sociedade brasileiras dos séculos XVI a XIX organizaram-se a fim de atender a uma 
demanda externa. Aqui, pode-se perceber uma referência aos ciclos de produção 
brasileiros: primeiramente o cultivo do açúcar, depois a exploração do ouro e, em 
seguida, a produção de café. Assim, a economia voltara-se para necessidades 
externas, ignorando, ou desprezando pela insigni ficância, a existência e a demanda 
do mercado interno. A sociedade formara-se com a hierarquização da propriedade de 
bens, da cor e da raça, bem como pela miscigenação populacional dos três séculos 
posteriores ao descobrimento. Veja o que afirma Prado Júnior (1971, p. 31–32): 
Se vamos à essência de nossa formação, veremos que na realidade nos 
constituímos para fornecer açúcar, tabaco, alguns outros gêneros [...] e em 
seguida café, para o comércio europeu [...]. Foi com tal objetivo, objetivo 
exterior, voltado para fora do país e sem atenção a considerações que não 
fossem do interesse daquele comércio, que se organizaram a sociedade e a 
economia brasileiras. Tudo se disporá naquele sentido: a estrutura, bem 
como as atividades do país. 
Como você pode observar, Prado Júnior evidencia a sua concepção da colônia 
como uma projeção da economia mercantil. A economia e o mercado internos não 
possuíam significância para a análise. Contudo, Malerba e Jesus (2016, p. 146–147) 
ressaltam a importância que a obra desse autor possui para a historiografia brasileira: 
Formação do Brasil Contemporâneo (1942) é, sem dúvida, até hoje, um dos 
livros mais importantes sobre a história do Brasil. Visto em perspectiva, o 
impacto da abordagem oferecida por Caio Prado Jr. impressiona por sua 
capacidade de criar uma tradição analítica que se renova ao longo de 
décadas. Em termos práticos, este livro inaugurou uma espécie de escola de 
pensamento sobre o Brasil colonial. Como consequência, é certamente um 
dos livros mais lidos por estudantes de história em todo o Brasil. E, o mais 
interessante, na maioria das vezes, é lido não apenas como necessário para 
compreender a história da historiografia, mas principalmente como um texto 
com conteúdo empírico e estrutura conceitual e analítica ainda amplamente 
aceita pela comunidade acadêmica. 
 
40 
 
Com o desenvolvimento da historiografia sobre a América Portuguesa, as 
análises de Prado Júnior se encontram defasadas em inúmeros pontos. Contudo, no 
momento da publicação de Formação do Brasil Contemporâneo, a obra representou 
uma grande contribuição ao realizar a leitura da sociedade brasileira a partir de uma 
perspectiva do materialismo histórico. Contudo, você não pode se esquecer de que 
essa leitura está impregnada de um marxismo militante, que, como você viu 
anteriormente, levou a algumas deturpações do pensamento de Marx e condicionou 
as análises a uma interpretação generalizante e universalista a partir de “etapas”. É 
possível perceber isso no seguinte trecho de Evolução Política do Brasil e Outros 
Estudos, publicado pela primeira vez em 1933: 
[...] em outras palavras, é a superestrutura política da Brasil colônia que, já 
não correspondendo ao estado de forças produtivas e à infraestrutura 
econômica do país, se rompe, para dar lugar a outras formas mais adequadas 
às novas condições econômicas e capazes de conter a sua evolução 
(PRADO JUNIOR, 1969, p. 49). 
Caio Prado Júnior herdou do pensamento marxista essa concepção “etapista”, 
uma deturpação da ideia de totalidade. No momento em que escreveu Evolução 
Política, o autor estava preocupado em explicar as desigualdades da sociedade 
brasileira. Assim, seu olhar para o passado estava condicionado a encontrar as 
origens e os motivos pelos quais a sociedade brasileira da década de 1930 era tão 
desigual. Por fim, é importante você notar que o marxismo não foi apropriado por 
estudiosos brasileiros somente como o fez Caio Prado Júnior. Nas décadas de 1970 
e 1980, foram realizados debates sobre a história da escravidão e a formação da 
classe trabalhadora brasileira que possuem grande sofisticação intelectual. Além 
disso, é preciso chamar a atenção, como faz Malerba (2002, p. 35–36), para o fato de 
que “[...] não há tema ou período da história do Brasil cuja investigação historiográfica 
não aponte para alguma matriz marxista fundamental, que tenha resultado em prolixo 
debate e com a qual qualquer pesquisador tem que se haver”. 
 
 
 
 
41 
 
9 A QUESTÃO SOCIAL E OS MOVIMENTOS DE RESISTÊNCIA 
A Questão Social teve sua origem no século XVIII, em um cenário em que se 
desenvolviam as revoluções liberais burguesas. Ao mesmo tempo, o capitalismo se 
consolidava, levando à formação do proletariado e, em contraponto, ao surgimento de 
ideias anarquistas e socialistas. Assim, a Questão Social é resultado da contradição 
existente entre capital e trabalho e consequência do capitalismo que se expandia — 
no entanto, não sem sofrer a resistência dos indivíduos que buscava subalternizar 
(SEVERINO, 1993). Nessa perspectiva, considere a definição de Questão Social de 
Iamamoto (1999, p. 27): 
O conjunto das expressões das desigualdades da sociedade capitalista 
madura, que têm uma raiz comum: a produção social é cada vez mais 
coletiva, o trabalho torna-se mais amplamente social, enquanto a apropriação 
dos seus frutos se mantém privada, monopolizada por uma parte da 
sociedade. 
As manifestações da Questão Social aparecem na sociedade de múltiplas 
formas. Entre elas, desemprego, pobreza, precarização das condições de trabalho, 
violências de todos os tipos e trabalho infantil. Assim, segundo Iamamoto (1999, p. 
28), “[...] a questão social [...] sendo desigualdade é também rebeldia por envolver 
sujeitos que vivenciam as desigualdades e a elas resistem e se opõem [...]”. Nessa 
perspectiva, surge outra possibilidade de manifestação, os movimentos de resistência. 
Dessa forma, entram em jogo as políticas conquistadas e efetivadas, os movimentos 
sociais e comunitários e as organizações populares, que se configuram como espaços 
repletos de possibilidades. 
Segundo Oliveira e Magalhães (2014), o termo “resistência” foi desenvolvido 
por James Scott. Para ele, há diversasformas de dominação nas relações sociais, 
compreendidas como relações de poder. Quem estiver em situação de subalternidade 
ou de opressão nessas relações tentará resistir. Para tanto, utilizará os mais variados 
meios. As condutas dos subordinados diante dos dominantes são chamadas pelo 
autor de “discursos públicos”. Tais discursos se referem ao que é hegemonicamente 
aceito na sociedade, muitas vezes diferente do que ambos os grupos gostariam de 
expressar. Vale destacar ainda que os grupos dominantes, não raras vezes, precisam 
atender aos interesses dos subordinados e levá-los a acreditar que estão realizando 
algo em seu benefício, ainda que algumas concessões tenham de ser feitas. A 
 
42 
 
resistência, presente em vários movimentos e organizações da sociedade, é uma 
forma de luta pela mudança social. Ela confronta diariamente as elites econômicas 
brasileiras, cujo projeto aumenta e gera ainda mais desigualdade social. Em síntese, 
a resistência tem como meta a conquista de igualdade e de uma vida melhor para os 
cidadãos. A Constituição Cidadã, promulgada em 1988, tem como um dos seus 
princípios a liberdade para todos os indivíduos. No entanto, esse princípio ainda 
permanece apenas no papel. 
Assim, segundo Oliveira e Magalhães (2014), a busca pela igualdade prevista 
na Constituição passa pelo atendimento de necessidades de grupos específicos em 
condições de subalternidade e inferioridade. Os autores apresentam como exemplo 
as políticas afirmativas e outras políticas específicas que buscam democratizar a 
educação superior. Eles destacam que elas são importantes referências para se 
ampliar o alcance da cidadania, já que asseguram direitos sociais e integram a luta 
contra a desigualdade. No caso citado, as políticas afirmativas perpassam áreas como 
educação e igualdade racial. Assim, várias expressões da Questão Social são alvo de 
lutas na tentativa de se estabelecer a igualdade entre os povos. Uma forma bastante 
comum de tentativa de luta pelas classes subalternizadas ou em condições de 
inferioridade são os movimentos sociais que, segundo Gohn (2011 apud OLIVEIRA; 
MAGALHÃES, 2014), se constituem em ações de caráter coletivo, sociopolítico e 
cultural. Esses movimentos existem para viabilizar formas de a população se 
expressar e se organizar em torno de suas demandas. Para os autores, os 
movimentos sociais podem incluir na agenda política a discussão de temas que não 
se referem diretamente a questões de sobrevivência imediata, mas que possuem 
relação com suas experiências. Portanto, podem favorecer a construção de relações 
sociais mais justas e igualitárias e de uma democracia que de fato se efetive. 
Ao longo deste capítulo, você viu que diversas lutas ocorrem por meio dos 
movimentos sociais, importantes formas de resistência na atualidade. No entanto, as 
organizações populares também são espaços relevantes. Você pode considerar que 
todos os movimentos de resistência (movimentos sociais ou organizações populares) 
atuam em um campo permeado por disputas políticas. Tais disputas estão presentes 
no Brasil desde a época da colonização, passando pela escravidão e pela ditadura 
militar. O despertar da consciência é um elemento essencial para garantir a 
participação da população em movimentos de resistência. Esses movimentos, como 
 
43 
 
você viu, se empenham em transformar uma realidade que não é justa. Os 
movimentos de resistência, além da sua função de luta por igualdade e direitos, 
também contribuem para aumentar a consciência da população. Assim, mostram que 
é importante lutar contra qualquer tipo de exploração ou desigualdade, bem como a 
favor da população e contra as mais diversas manifestações da Questão Social. 
10 SISTEMAS POLÍTICOS DE GOVERNO NO BRASIL 
Os sistemas políticos são um conjunto de instituições e processos políticos que 
se articulam e atuam no exercício do poder estatal (BOBBIO; MATTEUCCI; 
PASQUINO, 1998). Já os sistemas de governo abrangem mais especifi camente a 
relação entre os três poderes: Poder Executivo, Poder Legislativo e Poder Judiciário. 
O Brasil é uma república federativa composta por 26 estados e um distrito federal. 
Cada estado possui certa autonomia e leis específicas, mas é subordinado à 
Constituição Federal de 1988. O Estado é caracterizado como Estado Democrático 
de Direito, prezando pela soberania popular e pela cidadania. O Brasil, desde que se 
tornou um Estado-nação, ao declarar independência de Portugal, oscilou entre 
períodos democráticos e períodos autoritários, com duas ditaduras em sua história. 
Veja, a seguir, como o Estado se organizou e como o poder foi exercido em diferentes 
regimes políticos. 
10.1 Império (1822–1889) 
Com a declaração da independência e o estabelecimento de um Estado 
Nacional, o Brasil continuou a ser governado por membros da monarquia portuguesa 
que se tornaram imperadores do País. Em 1824, foi criada a primeira constituição da 
Nação, que assegurou a manutenção do poder estabelecido e os interesses dos 
proprietários de terras. A escravidão e o latifúndio eram o centro da economia 
nacional, e o Estado não promoveu mudanças radicais no que diz respeito aos direitos 
da população. A participação política (tanto para votar como para se candidatar) era 
permitida apenas aos latifundiários e donos de escravos que tinham recursos 
financeiros para pagar (voto censitário). Como você pode imaginar, poucos indivíduos 
atendiam aos requisitos para a participação na política e na tomada de decisões. 
 
44 
 
10.2 República Velha (1889–1930) 
Com a proclamação da República e o fi m do regime monárquico, o Brasil 
passou a ser regido por uma constituição republicana (a partir de 1891). O voto não 
era secreto e era permitido somente aos homens acima de 21 anos. Mulheres e 
analfabetos (maioria da população), soldados e sacerdotes também estavam 
impedidos de votar, de modo que mesmo num regime republicano o voto era para 
poucos. Esse contexto possibilitou o domínio dos fazendeiros durante as eleições, 
pois as oligarquias estaduais se organizavam para fiscalizar os votos “prometidos”. 
Essa dinâmica ficou conhecida como “voto de cabresto”, uma das principais 
características da política nesse período (LEAL, 1986). Apesar da abolição da 
escravatura, a limitação de direitos civis dificultou a conquista de direitos sociais e de 
um Estado que garantisse a igualdade a toda a população. 
10.3 Era Vargas (1930–1945) 
O governo do presidente Getúlio Vargas se iniciou com a Revolução de 1930. 
Ele trouxe avanços como a Constituição de 1934, que assegurava direitos políticos 
para a população e permitia o voto feminino (analfabetos permaneciam impedidos). 
Pautado no populismo e na propaganda nacionalista, o governo de Vargas buscou 
enfraquecer o poder das oligarquias cafeeiras e se centralizar no Executivo. Além 
disso, o Estado investiu no desenvolvimento da indústria nacional — por exemplo, 
com a criação da Petrobrás. No entanto, em 1937, iniciou-se a ditadura do Estado 
Novo, tirando o poder das instituições e centralizando as decisões políticas nas mãos 
do presidente até 1945. 
10.4 República Populista (1945–1964) 
Durante o período da República Populista, o Estado voltou a reconhecer 
direitos políticos como o voto. Além disso, os representantes da população voltaram 
a ser eleitos pelo voto popular. A transferência da capital do País para Brasília e as 
reformas de base (reforma universitária, reforma agrária, reforma política) prometidas 
pelo presidente João Goulart acirraram as tensões políticas. Os setores 
conservadores da sociedade, influenciados pelo contexto internacional de disputas 
 
45 
 
entre governos capitalistas e governos socialistas, articularam uma reação para 
impedir um possível mandato de orientação comunista no Brasil. Deu-se início, em 
1964, por meio de um golpe de Estado que impediu o presidente eleito João Goulart 
de concluir o seu mandato,a uma ditadura militar no Brasil. 
10.5 Ditadura Militar (1964–1985) 
Ainda num regime republicano, a Ditadura Militar concentrou o poder nas mãos 
do Executivo. O Congresso Nacional foi fechado e o governo foi marcado pela 
perseguição a seus opositores, bem como pela censura à liberdade de expressão. 
Generais do Exército assumiram a presidência da República e muitos opositores 
foram obrigados a se exilar. A tortura foi prática recorrente como meio de desmantelar 
organizações políticas de orientações políticas distintas daquela do governo. Os 
únicos partidos políticos com permissão de funcionamento eram o Movimento 
Democrático Brasileiro (MDB) e a Aliança Renovadora Nacional (Arena), emulando 
uma democracia que na prática não existia, as eleições eram manipuladas. 
10.6 Nova República ou redemocratização (a partir de 1985) 
Com o fim do regime ditatorial, o Brasil passa por um processo de 
redemocratização. Partidos políticos voltar a atuar e em 1988 é criada a Constituição 
Federal que prevalece até os dias atuais. A Carta Magna foi criada num contexto 
político que visava à superação do autoritarismo e à garantia de direitos sociais para 
toda a população. Nesse contexto, o presidente da República e os representantes 
legislativos voltam a ser escolhidos pelo voto popular, o Congresso volta a funcionar 
e os analfabetos passam a ter direito ao voto. O Estado é colocado como o principal 
assegurador de direitos básicos como saúde, educação e moradia. Você pode 
considerar que, apesar de se caracterizar como um sistema político republicano, o 
Brasil passou por períodos em que o Estado Democrático de Direito não prevaleceu. 
Durante os seus dois regimes ditatoriais, o poder se concentrou na presidência, e o 
Poder Legislativo e o Judiciário foram sufocados. 
 
46 
 
10.7 Formas de exercício do poder 
Como você observou, o governo de um país pode alternar diversas formas de 
exercício do poder dentro de um mesmo regime. A seguir, você vai ver quatro das 
principais formas de exercício de poder: autoritarismo, republicanismo, democracia e 
anarquismo. Você deve considerar que, entre a definição teórica e a política na prática, 
há questões particulares de cada país que assume um tipo de regime. A democracia 
efetivada no Brasil possui um contexto histórico e social distinto daquele da 
democracia norte-americana, por exemplo. Aqui, você vai ver elementos fundamentais 
de cada modelo. 
Os governos autoritários se caracterizam, de modo geral, pela despolitização 
da população, o fim da soberania popular (por meio do voto) e a ausência de 
parlamento. Ainda que apresentem uma roupagem democrática, as instituições 
representativas são esvaziadas e o poder político se concentra numa pessoa ou 
grupo. São governos antidemocráticos, na medida em que não permitem a livre 
manifestação política. Além disso, o poder não é limitado. Atualmente, podem existir 
mesmo em regimes com eleições e diversos partidos políticos. O consenso é 
sobreposto pela autoridade do governo, que pode se manter utilizando instrumentos 
tradicionais da política, como o Exército e a burocracia (BOBBIO; MATTEUCCI; 
PASQUINO, 1998). 
Já os governos republicanos têm como principal característica sua estrutura 
baseada no direito do povo e na soberania popular. Ao contrário dos governos 
monárquicos, em que o chefe de Estado tem seu poder legitimado pela tradição e pelo 
direito hereditário, na República o chefe é eleito pelo povo de modo direito ou indireto. 
O governo é voltado para a coisa pública e o bem comum. A legitimação do poder 
pelo voto popular e uma legislação escolhida pelo povo por meio de um parlamento 
caracterizam os governos democráticos modernos. O estabelecimento de três 
poderes visa a instituir um equilíbrio de forças. O Poder Legislativo é responsável pela 
formulação das leis, enquanto o Executivo se encarrega da sua aplicação. A 
participação política da população se dá por meio do voto direto ou indireto, pois todos 
são iguais perante a lei na escolha de seus representantes legislativos e executivos. 
Os mandatos dos políticos possuem um período limitado e as eleições são marcadas 
pela disputa de mais de um partido político. Uma vez que é impossível que cada 
 
47 
 
indivíduo vote diretamente em cada questão coletiva, os representantes legislativos 
— eleitos pelo povo — assumem a tomada de decisão no parlamento. 
Cada regime democrático apresenta uma maneira de organizar seus três 
poderes. No presidencialismo, o Executivo (presidente da República) e o Legislativo 
são escolhidos pelo voto direito, como no caso do Brasil. Já no parlamentarismo, os 
deputados são eleitos pelo voto direto e posteriormente elegem o representante do 
Executivo (primeiro-ministro). 
No contexto democrático, o indivíduo assume o papel de cidadão. Assim, ele 
tem o direito de participar da vida política por meio de mecanismos de participação 
direta na tomada de decisões, como em plebiscitos sobre questões em comum, ou 
por meio da participação em organizações que influenciam as decisões políticas. Já o 
modelo anarquista apresenta uma visão política baseada na negação de toda 
autoridade e na liberdade dos indivíduos. O anarquismo implica a libertação de todo 
poder superior, seja ele ideológico, político, econômico ou jurídico (BOBBIO; 
MATTEUCCI; PASQUINO, 1998). Veja: 
A recusa do Estado por parte do Anarquismo está intimamente ligada à sua 
concepção de autoridade. O Estado, em toda a sua organização de pirâmide 
burocrática, é o órgão repressivo por excelência. Como tal, priva o indivíduo 
de toda a liberdade, chamando unicamente para si a capacidade de agir e a 
possibilidade de definir a liberdade, impondo uma série de obrigações e de 
comportamentos a que o indivíduo não pode fugir. É isto que o Anarquismo 
pretende combater. Enquanto órgão de repressão, o Estado é visto pelo 
Anarquismo com capacidade de intervenção global na vida do indivíduo, na 
sua vida econômica, na sua existência social como também na sua 
capacidade de desenvolvimento ético e independente (BOBBIO; 
MATTEUCCI; PASQUINO, 1998, p. 95). 
Essa perspectiva parte da ideia de que toda autoridade é uma forma de 
opressão, por isso há uma negação do Estado e das leis. A burocracia estatal é 
fortemente criticada, mas o anarquismo vai mais além. Ele propõe que os indivíduos 
também se libertem do domínio religioso, que oprime por meio de doutrinas morais, e 
do domínio econômico, considerando o sistema de exploração capitalista como a 
perversão da liberdade humana. 
Ao mesmo tempo em que o homem, no anarquismo, deve viver sem um 
governo que oriente suas ações, os indivíduos devem se organizar socialmente a 
partir de ações livres e autônomas. A autogestão aparece como meio de socialização 
da propriedade privada e do poder político. Ou seja, o poder não deixa de existir; ele 
só deixa de estar concentrado no Estado (em forma de dominação) e passa a se 
 
48 
 
expressar na maior participação de cada indivíduo nas decisões políticas (CORRÊA, 
2012). 
11 A SOCIOLOGIA E O ESTUDO DA POLÍTICA 
A sociologia política estuda os sistemas políticos, as instituições do governo, 
as relações de poder que os indivíduos estabelecem entre si, a forma como uma 
sociedade delibera coletivamente decisões, entre outras questões relacionadas à 
dinâmica do poder e aos fenômenos políticos. A política é uma área de conhecimento 
humano que surgiu na Antiguidade Clássica. Até o século XIX, período em que as 
disciplinas das ciências sociais passaram a ser divididas, a sociologia, a educação, a 
economia e outras ciências estavam inseridas no pensamento político. Na Grécia 
Antiga, a política era compreendida a partir das ações dos indivíduos na pólis. Já na 
Idade Média, a política estava vinculada às disputas pelo poder, às guerras e à 
administração dos bens comuns. A nobreza e o clero compunham a elite social que 
tomava decisões. Foi só no século XIX que a políticase associou ao debate sobre 
constitucionalismo e Estado de Direito. 
O estudo da política pela sociologia e pela ciência política se desenvolveu 
associando as relações de poder à esfera estatal. Nessa perspectiva, o Estado e as 
suas instituições se tornaram o principal objeto de estudo desses campos de 
conhecimento. Mas se durante muitos anos o poder foi analisado como fenômeno 
indissociável do Estado, com o passar do tempo novos estudos passaram a considerar 
que as relações de poder não se restringem ao contexto estatal. Assim, a política 
passa a ser considerada também nas relações cotidianas, nas microesferas da 
sociedade, bem como nas grandes organizações. 
11.1 A sociologia e o exercício do poder 
O sociólogo alemão Max Weber (1994) contribuiu com o desenvolvimento da 
sociologia e da ciência política ao analisar o poder e as formas de dominação na 
sociedade. O exercício do poder, para esse autor, está relacionado à capacidade que 
um indivíduo/grupo tem de impor sua vontade aos outros. Já a dominação, uma forma 
de expressão do poder, reside na capacidade de se exercer autoridade sem que os 
 
49 
 
dominados resistam. Quem obedece-o faz acreditando ser sua própria vontade. 
Weber também apresenta três tipos ideais de dominação. Veja a seguir. 
 Dominação tradicional: tem como base de legitimação os costumes e 
as tradições de determinada região/sociedade. Por exemplo: o 
patriarcalismo. 
 Dominação carismática: tem como base de legitimação uma devoção 
afetiva a um senhor devido às suas qualidades. Por exemplo: um líder 
que é visto como herói, salvador e que tem seus apoiadores como 
discípulos. 
 Dominação racional legal: tem como base de legitimação um estatuto, 
um conjunto de regras. A obediência não se dá a um líder, e sim às 
normas e leis estabelecidas. Por exemplo: burocracia e poder conferido 
a cada cargo. 
Na prática, a dominação pode apresentar características de um ou mais tipos. 
Os três conceitos são nomeados como ideais: são uma tipologia, uma ferramenta para 
se analisar a complexidade da vida real e para se identificarem as nuances da 
autoridade. A dominação racional legal é típica dos Estados modernos, que têm toda 
a sua organização baseada na racionalidade burocrática. 
O Estado moderno detém o monopólio do uso da força em determinado 
território. Ou seja, cada Estado possui os meios e está autorizado a exercer a violência 
em seus domínios. No entanto, o fato de o Estado ter esse controle não quer dizer 
que o uso da violência seja necessário para que o seu poder seja reconhecido 
(WEBER, 1994). O conceito de legitimidade de Weber é a chave para se entender que 
nas sociedades modernas a dominação do Estado acontece porque os indivíduos se 
submetem às regras sem que o uso da força física seja necessário. O uso potencial, 
e não efetivo, da violência confere legitimidade à dominação da sociedade pelo 
aparelho estatal. Assim, a noção de sistema político se refere à estabilidade do 
exercício do poder em sociedades complexas por meio de mecanismos sofisticados 
de dominação. Ao longo do século XX, esses mecanismos tornaram-se cada vez mais 
refinados. Os estudos políticos passaram a reconhecer que as estruturas de poder 
não estão apenas em órgãos do Estado, mas também em instituições sociais. Dessa 
forma, reconheceram que o poder ultrapassa a esfera estatal. O pensamento político 
de Weber foi fundamental para o estabelecimento de diversas teorias políticas e de 
 
50 
 
uma sociologia política que investiga, por meio de um olhar qualitativo, o sentido das 
ações e as crenças que orientam as formas de poder e dominação na vida moderna. 
Os primeiros estudos sociológicos sobre política se concentravam no poder do 
Estado. Ao longo do século XX, as análises sobre política consideraram as mudanças 
sociais e políticas, o processo de globalização e as questões relacionadas ao poder e 
às formas de governo. Foi com o surgimento da ideia de pós-modernidade, no final do 
século XX, que o Estado deixou de ser considerado o principal eixo de poder das 
sociedades complexas. A sociedade passou a ser vista como uma esfera repleta de 
centros de poder. 
Esse novo olhar sobre o poder e a política reconhece o peso da dimensão 
simbólica nos processos políticos, econômicos e culturais. Em outras palavras, a 
comunicação não é apenas um meio de expressão; é uma fonte de poder. O 
desenvolvimento da tecnologia, de espaços virtuais, também passou a ser 
considerado, visto que uma nova realidade exige novos conceitos. 
Ao adotar uma visão sistêmica da política, a sociologia reconhece diversos 
elementos que estão relacionados com o exercício do poder, como movimentos não 
partidários, sindicatos e grupos de pressão. Os regimes democráticos dão espaço 
para a manifestação política de diversos setores da sociedade, que muitas vezes 
influenciam as decisões e medidas adotadas pelo Estado. Esses setores buscam 
influenciar o poder público para que atenda a seus interesses (GOZETTO, 2008). 
Sindicatos e algumas organizações não governamentais (ONGs) realizam esse papel. 
Entre os principais grupos de pressão, na perspectiva da sociologia política, estão 
aqueles ligados à produção agrária, aos trabalhadores industriais, aos segmentos 
empresariais, a questões de gênero, raça, classe, meio ambiente, entre diversas 
pautas. (PORTELLA, 2009) 
Assim, a sociologia estuda temas como: fenômenos de natureza global, o modo 
como as lideranças exercem sua autoridade em diversos países e a maneira como a 
política é vista pelos indivíduos. Essa percepção de que o poder e a política se fazem 
presentes em diversas esferas da sociedade orienta a sociologia política a investigar 
quais mecanismos os indivíduos/grupos utilizam para fazer seus interesses 
prevalecerem. As formas de participação política, os movimentos sociais, os atores 
sociais que se destacam na esfera política e os processos decisórios, bem como a 
 
51 
 
política e as novas formas de comunicação (as redes sociais, por exemplo), são temas 
que estão na agenda de pesquisa da sociologia política contemporânea. 
12 MODELOS DE DEMOCRACIA: DEMOCRACIA DIRETA, REPRESENTATIVA E 
PARTICIPATIVA 
O que você entende por democracia? Alguns a definem como “a presença de 
eleições”; outros afirmam que seja “um sistema de acordo com o qual a maioria 
decide”, ou um “governo feito pelo povo”. Cada uma dessas respostas tem um fundo 
de verdade, mas nenhuma, por si só, define o conceito por completo. Democracia é 
um conceito muito complexo, desenvolvido ao longo de séculos até que chegássemos 
à definição atual. Por ser proveniente de várias fontes históricas, sofreu inúmeras 
mudanças. A etimologia da palavra remonta ao grego: demos, que significa povo, e 
kratos, que significa poder. “O poder do povo”, portanto, é a definição mais primitiva. 
Define-se o Estado Democrático de Direito com base no respeito à pluralidade de 
ideias e no amplo debate. (PORTELLA, 2009) 
 Na democracia, o governo é descentralizado, as eleições são livres e 
periódicas, e é permitido que o cidadão tenha participação política na sociedade, 
direito que lhe é assegurado pela própria Constituição Federal, segundo a qual “todos 
somos iguais perante a lei” 
12.1 Democracia direta e as suas principais características 
O sistema segundo o qual os cidadãos debatem em público e deliberam 
questões relativas aos seus interesses pessoais ou coletivos pode ser chamado de 
democracia direta. A democracia como regime político teve origem na Grécia, mais 
precisamente em Atenas, após um período de muitas crises e regime ditatorial. 
Naquele tempo, a população se reunia em assembleias populares, que aconteciam 
nas ágoras — praças públicas — para discutir e decidir sobre leis e questões de 
interesse de todos (Figura 1). 
 
52 
 
 
Fonte: www.vivadecora.com.br 
Algumas correntes defendem o surgimento da democracia já nas organizações 
tribais, quandoteria sido utilizado para a tomada de decisões. O entendimento 
predominante, no entanto, é que tenha surgido na civilização grega. Na visão dos 
gregos, o exercício de opinião estava restrito aos membros da mesma cidade-Estado, 
reservando, assim, essa deliberação a uma parcela específica da população. 
(PORTELLA, 2009) 
Em regra, todo cidadão poderia falar ao povo, bastando estar em dia com os 
direitos políticos, ou seja, não dever ao tesouro do Estado, ter bons costumes, honrar 
os seus pais, obedecer às convocações militares e não ter covardia, ressalvando aqui 
a exclusão de mulheres e escravos, por não serem considerados cidadãos. A 
democracia ateniense atribuiu ao povo o poder de eleger os governantes e tomar 
importantes decisões como instituição de novas leis, declaração de guerra e tratados 
de paz. A democracia direta tem como uma das suas principais características o fato 
de a população não delegar o seu poder de decisão, pois o cidadão expressa, de 
maneira pessoal e direta, a sua opinião. Era assim que aconteciam as assembleias 
atenienses nas praças públicas, de forma horizontal. Esse modelo funcionou na 
Grécia Antiga da forma como foi criado, pois o seu contingente populacional era 
pequeno, permitindo que se reunissem em praça pública, de modo que todos 
pudessem participar na assembleia. À medida que as sociedades se avolumavam 
numericamente e a organização da sociedade se tornava mais complexa, o sistema 
http://www.vivadecora.com.br/
 
53 
 
da democracia direta foi se tornando inviável. Afinal, como se viabilizaria, por exemplo, 
a contabilização dos votos de uma população abundante? Assim, em razão da 
impossibilidade de se operacionalizar a democracia direta em grandes sociedades, 
surgiu a chamada democracia representativa. Na atualidade, o modelo aplicado na 
Suíça é o maior exemplo de democracia semidireta que existe. Ele é assim 
classificado porque coexistem dois sistemas democráticos: o direto, em que a 
população participa diretamente da tomada de decisões, e o representativo, por meio 
dos deputados eleitos. (PORTELLA, 2009) 
O sistema suíço prevê uma prática de consulta popular bem intensa, pois ao 
menos quatro vezes ao ano os suíços recebem, nas suas residências, envelopes 
requerendo a opinião dos cidadãos em determinados assuntos. Ou seja, nesse 
modelo, a participação da população sobre a política do País é muito forte, 
característica inerente à democracia direta. No Brasil, a democracia direta se 
manifesta por meio de instrumentos ainda pouco utilizados, apesar de normatizados 
na Constituição Federal, que assim define (BRASIL, 1988): 
Art. 14 A soberania popular será exercida pelo sufrágio universal e pelo voto 
direto e secreto, com valor igual para todos, e, nos termos da lei, mediante: 
 I — plebiscito; 
II — referendo; 
III — iniciativa popular. 
12.2 Modelo da democracia representativa e a sua aplicação 
Atualmente, quando falamos em democracia, fazemos referência à democracia 
representativa na maioria das vezes. Esse modelo elege os seus governantes por 
meio do voto popular por um período de tempo determinado, em que o cidadão delega 
o seu poder de decisão para uma pessoa que o representará perante as decisões 
políticas, ou seja, legitimado pela soberania popular. De forma bem sucinta, esse seria 
um bom conceito para democracia representativa, sem desconsiderar a existência da 
democracia direta. No entanto, como visto anteriormente, ela se torna de difícil 
operacionalização em grande escala. De forma majoritária, o conceito moderno de 
democracia representativa é conhecido pela forma de democracia eleitoral e 
plebiscitária existente. Essa noção de democracia está diretamente ligada ao ideal de 
 
54 
 
participação popular que começou a ser difundido ainda na Grécia Antiga. Nas 
monarquias absolutistas, durante a Idade Média, a representatividade começou a se 
formar, dando início ao que temos hoje como modelo de representação. Naquele 
tempo, os reis convocavam grandes assembleias para tomar importantes decisões. 
Como a população já era mais numerosa e encontrava-se espalhada, as localidades 
enviavam representantes para as assembleias. Essas pessoas corriam a comunidade 
buscando reclamações e solicitações endereçadas ao rei. As reclamações e 
solicitações eram lidas pelo representante na presença de todos, sendo que o rei 
respondia a cada uma das questões propostas e, de posse das respostas, o 
representante devolvia o resultado para a comunidade. (Mariana Portella, 2009) 
A forma da representatividade evoluiu quando os reis começaram a precisar de 
mais recursos para manter a máquina do Estado, que dependia diretamente do 
consentimento das pessoas. Foi quando surgiu, mais precisamente na Inglaterra, a 
decisão do rei para que os representantes tomassem decisões em nome da 
comunidade. Com o passar dos séculos, o poder dos representantes só aumentou, e 
a questão dos representantes acabou se associando, de forma definitiva, ao conceito 
de democracia que se entende no mundo ocidental. O Brasil é uma democracia 
representativa, apesar de possuir instrumentos da democracia direta à disposição. 
Podemos depreender essa definição do texto do art. 1º da Constituição Federal, que 
trata o Brasil como uma república democrática, em que todo poder pertence ao povo, 
que pode exercê-lo diretamente ou por meio dos seus representantes. Para Bonavides 
(2000, p. 354), tal modelo tem, hoje, como principais bases: 
A soberania popular, o sufrágio universal, a observância constitucional, o 
princípio da separação dos poderes, a igualdade de todos perante a lei, a 
manifesta adesão ao princípio da fraternidade social, a representação como 
base das instituições políticas, limitação de prerrogativas dos governantes, 
Estado de Direito, temporariedade dos mandatos eletivos, direitos e 
possibilidades de representação, bem como das minorias nacionais, onde 
estas porventura existirem. 
Um elemento muito importante para a democracia representativa são os 
partidos políticos, que, além de mediar os interesses dos órgãos representativos, 
também possuem o fator decisivo na intermediação entre os cidadãos eos seus 
representantes, pois existe a necessidade, ao menos no Brasil, do mandato partidário. 
A Figura 2 mostra um exemplo de plenário. 
 
55 
 
 
Fonte: adfas.org.br/2020/11/06 
Todas as formas de governo têm os seus prós e contras e, com a democracia 
representativa, não poderia ser diferente. Podemos começar destacando a vantagem 
que a representatividade tem em relação à democracia direta, pois a tomada de 
decisão é muito mais simples e rápida, visto estar centralizada em apenas algumas 
pessoas, não em todas as pessoas que compõem um país. Devemos considerar 
também que, ao delegar o exercício do poder aos seus representantes, o povo entrega 
nas mãos de pessoas teoricamente mais preparadas e mais experientes a tomada de 
decisões sobre temas importantes e com impacto em toda a sociedade. Esse mesmo 
fato de o poder ser entregue nas mãos de poucos pode gerar a dúvida da facilidade 
de manipulação na busca de determinados interesses. Nesse tipo de sistema 
representativo, são deflagrados os maiores casos de corrupção, chegando o povo, em 
algumas situações, a ser prejudicado por aqueles que deveriam defender seus 
interesses. (PORTELLA, 2009) 
Enfim, para que o regime democrático representativo tenha o efeito esperado, 
os representantes que ocupam cargos públicos por meio de voto popular devem ser 
constantemente renovados, por isso, existe a previsão de um período específico para 
exercício do mandato, cabendo ainda aqui uma reflexão acerca das reeleições. 
http://adfas.org.br/2020/11/06
 
56 
 
12.3 Especificidades da democracia participativa 
A democracia participativa está colocada entre a democracia direta e a 
representativa, pois ela se apresenta por meio da manifestação de instrumentos 
característicos de cada uma delas(PORTELLA, 2009). 
 
Fonte: www.slideshare.net/gwathsule/democracia-representativa-e-direta 
 O principal objetivo da democracia participativa é fazer o cidadão participar, 
cada vez mais e de forma mais intensa, das questões políticas. Outra importante fi 
nalidade é fazer o maior número de pessoas ser ouvido, uma vez que a democracia 
representativa possui essa barreira na sua concepção, para que sejam desenvolvidas 
ações para atender à necessidade de todos. Ou seja, por meio desse modelo, 
aplicável às sociedades modernas e contemporâneas, não se tenta reunir toda a 
população em uma assembleia, ao passo que não fi cam todas as decisões por conta 
dos representantes do povo. Esse modelo se apresenta como uma alternativa ao 
modelo representativo, que, com o passar do tempo, vem dando indícios de que não 
consegue mais abranger tantas demandas da sociedade. Cada vez mais, existe na 
democracia brasileira o desejo de que a população participe das questões políticas do 
País, colocando em prática a definição de democracia, que diz que todo poder emana 
do povo, por meio de um modelo que valoriza o princípio básico da democracia, 
deixando o povo como protagonista de importantes decisões que impactam a 
sociedade. A democracia participativa se utiliza de instrumentos — como referendos, 
plebiscitos, iniciativa popular e orçamentos participativos — para engajar a população 
nas questões políticas. 
 
57 
 
Para Antonio Lambertucci (2009, p. 71): 
A participação social [...] amplia e fortalece a democracia, contribui para a 
cultura da paz, do diálogo e da coesão social e é a espinha dorsal do 
desenvolvimento social, da equidade e da justiça. Acreditamos que a 
democracia participativa se revela um excelente método para enfrentar e 
resolver problemas fundamentais da sociedade brasileira. 
José Moroni (2009) aponta alguns mitos e desafios relacionados ao modelo 
participativo. Observe o Quadro 1. 
 
Atualmente, busca-se a gestão democrática como forma de viabilizar a 
participação popular junto às políticas públicas, que devem ser formadas com a 
participação direta da sociedade. A gestão democrática se caracteriza pela relação 
entre a sociedade e o governo, com base no modelo participativo, valorizando a 
função da sociedade também como gestora, colocando em destaque o princípio 
fundamental da democracia, que é a participação popular. É importante 
mencionarmos que a tecnologia é uma grande aliada da democracia representativa. 
As novas tecnologias que possibilitam a informação e a comunicação, especialmente 
a internet, prestam um grande favor à sociedade ao disseminar, de forma rápida, 
informações relevantes e urgentes, e também ao permitir a reunião de um grande 
número de pessoas em torno de uma mesma discussão, mesmo que as pessoas 
estejam longe ou espalhadas. (PORTELLA, 2009) 
 
58 
 
13 POLÍTICA CONTEMPORÂNEA 
Atualmente, o regime neoliberal é adotado por vários países no mundo. No 
entanto, há várias abordagens de liberalismo e o seu maior paradoxo é: como garantir 
a liberdade individual e, ao mesmo tempo, combater a desigualdade social? 
Todas as correntes de pensamento visam a elaborar uma solução para tal 
paradoxo. Há as correntes que defendem que a própria competitividade neoliberal e 
a liberdade econômica seriam por si só suficientes para sanar as questões sociais. De 
outro lado, há os liberais que defendem que haja alguma regulação do Estado em 
relação à economia, mesmo que em um regime neoliberal. Neste capítulo, você 
conhecerá as questões que abordam as teorias liberais, bem como a necessidade de 
reelaboração do capitalismo clássico. 
Verá também como o liberalismo pode ter um aspecto social, de apoio às 
questões de condição básicas aos indivíduos. E poderá, ainda, acompanhar como se 
deu a adesão ao neoliberalismo por parte de alguns governos. Por fim, poderá 
compreender o cenário democrático atual. 
13.1 Liberalismo social 
Há uma notória diferença entre o liberalismo clássico e o liberalismo social, que 
consiste na concepção de liberdade. Contrariamente ao que pensavam os liberais 
clássicos — que deve ser garantida a liberdade individual e, consequentemente, um 
Estado que não fosse intervencionista —, os liberais sociais defendiam o ideal de 
“liberdades positivas”. Assim, no liberalismo social, a falta de condições básicas, 
como, por exemplo, educação, alimentação e saúde, poderia ser considerada um risco 
à liberdade do indivíduo. 
Ou seja, ambas as teorias identificam que o maior foco da teoria liberal deve 
ser garantir a liberdade individual, entretanto, discordam sobre o que seja liberdade. 
Os principais teóricos dessa corrente social do liberalismo foram os britânicos Leonard 
Trelawny Hobhouse (1864-1929) e Thomas Hill Green (1836- 1882) conhecidos como 
os “novos liberais”. 
O principal argumento desses pensadores é que, para se atingir a liberdade 
que a teoria liberal almeja, é necessário que o indivíduo tenha apoio do Estado, dito 
 
59 
 
de outra maneira: é necessário que o Estado intervenha na cultura, na economia e na 
sociedade. 
Por pensar o liberalismo dessa forma, esse movimento ficou conhecido como 
centro-esquerda. Entretanto, essa teoria não defende que o Estado seja responsável 
por prover os serviços públicos, mas sim por se responsabilizar para garantir que os 
indivíduos tenham acesso. 
Dessa forma, o Estado deve estimular a colaboração de instituições privadas 
com políticas públicas que visem à melhoria da vida de pessoas que não têm acesso 
à cultura, à educação e à saúde, entre outras necessidades básicas. Assim, as 
instituições privadas devem estar a serviço da sociedade e promover oportunidades 
para que os indivíduos possam ter condições básicas de vida. 
Assim, pode-se ver várias pautas que normalmente são vinculadas ao 
socialismo, ou política de esquerda, na agenda do liberalismo social. Por exemplo: 
apesar de defenderem a economia com base no mercado, os liberais sociais 
defendem que o Estado pode intervir na economia, com a finalidade de regulá-la; 
defendem que o Estado deve pagar serviços de saúde básica; a existência de um 
salário mínimo. 
Já em relação ao liberalismo conservador, a discordância principal com o 
liberalismo social é sobre o papel do Estado. Para os conservadores, o Estado deve 
ser mínimo, ou seja, deve intervir minimamente na economia. Portanto, o indivíduo 
teria poder sobre o Estado, e não o contrário. 
De outro modo, os liberais sociais não acreditam em um Estado 
totalitário/tirano, mas, na medida que as instituições podem entrar em conflito, ou, 
ainda, estabelecer uma vantagem absurda sobre a outra, ou mesmo não cumprirem 
seu papel de colaboração com a sociedade, deve haver um Estado que possa intervir. 
Outro aspecto que é comum é a confusão entre liberalismo social e social- -
democracia. 
O liberalismo social defende que o indivíduo deve ter sua liberdade individual 
promovida pelo Estado e que este só consegue ser legítimo ao ponto que legitima a 
liberdade do indivíduo. Já a socialdemocracia, que parte das ideologias socialistas, 
defende que, para o indivíduo atingir a liberdade individual, é necessário que o Estado 
seja reformado para uma base comunitária. Nesse sentido, é de extrema importância 
 
60 
 
que o Estado regule a economia, a fim de estabelecer a igualdade entre os indivíduos. 
Dessa forma, pode-se sintetizar os ideais do liberalismo social em três fundamentos: 
 1) liberdade individual, que garante ao indivíduo autonomia e direito à 
propriedade privada, tendo direito garantido de divergir dos demais ou concordar, se 
reunir em grupos, sindicatos, organizações, desde que essas não limitem a liberdade 
de nenhum de seus membros; 
 2) a regulação do Estado, para que a liberdade de uma instituição e de um 
indivíduo seja respeitada e que, portanto, o respeito às divergências e a possibilidade 
democrática sejam garantidos; 
3) a compreensãosobre a justiça, que prevê igualdade para todos os 
indivíduos, bem como diminuição das desigualdades sociais, para que o indivíduo 
possa alcançar sua liberdade individual e adentrar no mercado de trabalho, visando 
sempre à realização desse indivíduo. 
13.2 Neoliberalismo 
Neoliberalismo é um termo que designa o ressurgimento de teorias clássicas 
do liberalismo por volta dos anos 1970 e 1980. O conceito de capitalismo laissez-faire 
é reimplementado ao resgate dessa teoria, ou seja, a liberdade reivindicada ao 
mercado econômico passa a se valer da expressão francesa de “deixar fazer”. 
Justamente essa noção de “neo” designa a retomada, nesse caso, de alguns 
fundamentos presentes no Liberalismo clássico. Pode-se atribuir a origem do 
neoliberalismo ao pensador americano Ludwig Heinrich Edler von Mises (1881-1973) 
que, em seu livro Ação humana: um tratado sobre a economia (1949), defende uma 
concepção de praxeologia, metodologia que visa a explicar a economia como parte 
ação humana. 
Para Mises (2010), o Estado e suas estruturas de poder não são confiáveis, 
principalmente no que compete à garantia dos direitos e das liberdades individuais 
dos cidadãos. Ou seja, toda a fundamentação, ainda que de diferentes correntes do 
liberalismo, é sempre a garantia de liberdade e, principalmente, individual. É 
propriamente na Escola Austríaca, no século XX, que surgem os teóricos mais 
importantes do neoliberalismo. Apesar do protagonismo inicial de Mises, outros 
pensadores contribuíram significativamente para o desenvolvimento dessa teoria. 
 
61 
 
Friedrich Hayek (1989-1992), um filósofo e economista alemão, foi um dos grandes 
responsáveis por adaptar as teorias liberais clássicas ao neoliberalismo do século XX, 
e compôs também o conselho da primeira ministra Margaret Thatcher, por indicação 
da Rainha Elizabeth II. Em sua obra mais famosa, intitulada O caminho da servidão 
(1944), Hayek (1990) defende que a intervenção do Estado leva à total falta de 
liberdade, e chega a comparar o intervencionismo, em seu último estágio, com a 
ascensão nazista. 
Ao longo do século XX, pode-se observar a ascensão e o declínio de alguns 
governos que adotaram o neoliberalismo. O de maior destaque é o de Margaret 
Thatcher, que conseguiu estabilizar a libra esterlina e reduzir a carga tributária, 
entretanto, a desigualdade aumentou, uma vez que os mais ricos aumentaram a 
renda, ao passo que os mais pobres, não. Thatcher renuncia, em 1990, quando não 
consegue representar o partido dos conservadores. Outro exemplo de adesão ao 
neoliberalismo foi o governo de Augusto Pinochet, que, por meio de um golpe militar 
contra o presidente Salvador Allende, assumiu a presidência. Suas propostas 
neoliberais, que foram elaboradas conspiratoriamente pela oposição ao governo de 
Salvador e compiladas em um documento chamado El Ladrillo, propunha a reforma 
da economia, contando com a colaboração das instituições privadas chilenas. O 
governo Pinochet foi marcado por abusos e violações aos direitos humanos, torturas 
e assassinatos. 
Em 1988, Pinochet perdeu seu cargo mediante a votação do plebiscito. 
Pinochet teve apoio da Escola de Chicago e de Hayeck para a sua reforma econômica. 
Outro polo de desenvolvimento das teorias neoliberais foi a Escola de Chicago, que 
era dirigida pelo professor Milton Friedman. O envolvimento da escola, bem como de 
Friedman, se deu pela crítica ao respaldo intervencionista do Estado na economia no 
governo de Roosevelt. Para Friedman, as políticas econômicas de Roosevelt, a fim 
de superar a Grande Depressão, acabaram por prejudicar ainda mais o país. Portanto, 
Friedman concluiu que qualquer regulamentação econômica sobre as empresas era 
algo maléfico para a economia e a produtividade de um país, como, por exemplo, o 
estabelecimento de um salário mínimo, que seria, segundo ele, responsável por 
distorcer os custos de produção. O modelo neoliberal de governo é constantemente 
criticado, principalmente pela separação da economia dos problemas sociais. Ou seja, 
o modelo econômico traz consigo todo um enredo de problemas que são alvo de 
 
62 
 
críticos defensores dos direitos humanos, trabalhistas, sociais. Um dos grandes 
críticos é o filósofo francês Pierre Brodieu, que defende que esse modelo econômico 
é responsável por destruir o coletivo e distanciar a economia dos problemas sociais 
de uma sociedade, principalmente por investir totalmente na ideia de consumo acima 
de qualquer coletividade. (DIONIZIO,1990) 
14 CENÁRIO DEMOCRÁTICO CONTEMPORÂNEO 
O cenário democrático contemporâneo é marcado fortemente pelo modelo 
neoliberalista. Entretanto, é necessário compreender as diversidades entre os países. 
Com forte adesão ao sistema democrático pelo mundo, pode-se ver também as falhas 
desse sistema, apesar de ser o melhor entre os outros. 
 
Fonte: www.aryramos.pro.br/democracia 
Após a queda do muro de Berlim, em 1989, vários países europeus aderiram 
ao sistema democrático. Atualmente, a maioria dos países democráticos têm 
apresentado preocupações em relação à onda crescente de conservadorismo e 
fascismo. Por exemplo, na Alemanha, recentemente, ocorreram várias manifestações 
e conflitos por parte de grupos neonazistas que se opõem à entrada de imigrantes no 
país. Do mesmo modo, um tribunal na cidade de Themar, na Alemanha, deliberou a 
favor de um festival neonazista. Isso, como apontam alguns teóricos, como Yascha 
Mounk, Noam Chomsky, entre outros, é o indício de uma crise democrática que é 
possível observar em todo o mundo. Pode-se dizer que, atualmente, o paradoxo 
 
63 
 
democrático é o de se poder eleger um líder autoritário, tal como houve com a 
ascensão nazista. A exemplo disso, têm-se a Venezuela, que elegeu o presidente 
Hugo Chavez, o qual instaurou uma ditadura que tem continuidade com o governo de 
Nícolas Maduro. Outro aspecto ascendente mundialmente, mas fortemente no Brasil, 
é a judicialização da política e a politização do judiciário. Ou seja, assim como o 
exemplo do tribunal que deferiu um festival nazista, lidamos com um paradoxo em 
relação aos três poderes. 
No Brasil, vê-se um forte envolvimento do judiciário na arena pública, uma 
espécie de ativismo político que faz manobras com a constituição de 1988. Tal 
ativismo teve início com a constituinte de 1988, quando se acreditava que o 
movimento desse poder poderia significar um favorecimento da democracia. 
Atualmente, vê-se uma crise entre os três poderes, de modo que o judiciário ocupa 
ampla influência e vantagem em relação ao legislativo e ao executivo e não há lei, ou 
controle, que regule a participação e a relação entre tais poderes, o que influencia 
totalmente o Estado democrático. Há também a relação com a mídia, que já 
demonstrou, desde a campanha nazista, sua eficácia. Com o advento da tecnologia, 
os indivíduos têm acesso a informações constantemente. 
Os partidos utilizam essa ferramenta, a fim de propagar suas propostas de 
campanha, mas nem tudo que chega ao eleitor pode ser tomado como verdade. Há, 
atualmente, uma forte rede de produção de conteúdos falsos, chamados de fake 
news, sobre opositores em uma eleição. Isso acaba por confundir os eleitores das 
reais intenções de seus candidatos. Outra pauta incontornável do cenário democrático 
atual são as minorias. Pode-se ver a crescente luta de grupos em busca de direitos, 
ao contrário das lutas do início do século, das sufragistas por direito ao voto, temos 
hoje vários movimentos de vários grupos em busca de direitos e reconhecimento. 
Atualmente, as mulheres, cada vez mais, se manifestam e ganham visibilidade, 
reivindicando respeito, salários iguais aos dos homens, a não cultura machista, que 
prega a inferioridade, e contra a cultura do estupro. Outro grupo que tem bastante 
visibilidade são os grupos LGBT, que reivindicam reconhecimento social, medidas 
contra a violência física e discursiva da homofobia,entre outros. A população negra 
também luta por maiores repreensões ao racismo e busca por igualdade. O que se 
pode concluir é que a democracia, por ser um regime que proporciona escolhas aos 
cidadãos, apesar de ser a melhor forma de governo, apresenta falhas, pois há várias 
 
64 
 
demandas que precisam ser supridas, bem como estão constantemente surgindo 
outras. 
De todo modo, as maiores conquistas de direitos aconteceram em 
manifestação e contraposição ao governo vigente. Dessa forma, a democracia 
garante a liberdade de oposição, e, por isso, é a melhor entre as formas de governo. 
(DIONIZIO,1990) 
15 A EDUCAÇÃO COMO INSTRUMENTO DO ESTADO 
Para que a sociedade capitalista continue existindo, é preciso reproduzir os 
meios de produção. Um deles é o trabalhador assalariado, que é produzido no meio 
escolar, onde aprende, além de ler e escrever, a submeter-se à ideologia dominante 
na sociedade. O Estado utiliza vários meios para popularizar a ideologia da classe 
dominante, e um desses meios é a educação. Neste capítulo, você vai estudar sobre 
como o Estado utiliza a educação como aparelho ideológico para ensinar e difundir a 
ideologia da classe dominante entre toda a população. Também vai aprender a 
respeito dos meios/ferramentas que o Estado utiliza para fazer com que a educação 
trabalhe como um instrumento ideológico, e verá como isso impactou na construção 
do processo educacional brasileiro. (LOPES, 2014) 
15.1 A educação como instrumento ideológico do Estado 
Atualmente, a palavra ideologia é definida pelos dicionários como um conjunto 
de ideias, princípios e valores de um indivíduo ou de um grupo, sendo a base para a 
visão de mundo desse indivíduo ou do grupo. Para Karl Marx, no entanto, na 
sociedade capitalista a ideologia é uma falsa ideia, uma ilusão da realidade construída 
por uma classe para servir como meio de dominação. 
[...] a ideologia tem precisamente por função, ao contrário da ciência, ocultar 
as contradições reais, reconstituir, num plano imaginário, um discurso 
relativamente coerente que serve de horizonte ao “vivido” dos agentes, 
moldando as suas representações nas relações reais e inserindo-as na 
unidade das relações de sua formação (POULANTZAS, 1971, p. 31 apud 
BARROS, 2009, documento on-line). 
 
65 
 
Essa ideologia da classe dominante não é reconhecida pela classe dominada 
como uma deturpação das verdadeiras relações sociais; dessa forma, o proletariado 
não consegue identificar e opor-se a isso. Posteriormente, no livro “A Ideologia Alemã” 
(2007), Engel e Marx trabalham o conceito de ideologia e chegam à conclusão de que 
a ideologia não é uma imagem distorcida da realidade, mas sim uma imagem invertida 
da realidade. (LOPES, 2014) 
Mais tarde, com Lênin e outros autores marxistas, a ideologia perde a 
conotação negativa e passa a ser encarada como um conjunto de ideias de uma 
classe, no qual o próprio marxismo é uma ideologia. Esses autores afirmam que existe 
a ideologia do proletariado e a ideologia da burguesia. A ideologia burguesa é 
legitimada como a ideologia dominante e, por mais que agora o proletariado possa de 
ter uma visão de mundo diferente, a ideologia burguesa, por ser dominante, interfere 
nas ações do proletariado. Uma classe justamente se transforma em classe 
dominante quando impõe a sua ideologia como universal para as outras classes, ou 
seja, quando a sua ideologia é apresentada como a forma correta de ver o mundo. 
[...] o papel político da ideologia dominante burguesa, dominada pela região 
jurídico-política, consiste no fato de tentar impor ao conjunto da sociedade 
um “modo de vida” através do qual o Estado será vivido como representante 
do “interesse geral” da sociedade, como detentor das chaves do universal, 
face a indivíduos privados (POULANTZAS 1971, p. 39 apud BARROS, 2009, 
documento on-line). 
Assim, segundo Barros (2009), a ideologia não é uma realidade invertida, mas 
o entendimento de uma realidade apresentada de maneira invertida e utilizada para 
manter a coesão social já estabelecida. Dentro de uma economia capitalista, o Estado 
utiliza seus aparelhos para garantir a manutenção e a apresentação da ideologia da 
classe hegemônica. (LOPES, 2014) 
Existem dois tipos de aparelhos do Estado, os de repressão e os de cunho ideológico, 
como explica Santos (1980, p. 24) ao mencionar Althusser: 
Os aparelhos de Estado exercem, junto à sociedade, uma ação 
eminentemente repressora. Como exemplo, poderíamos lembrar algumas 
instituições como: a polícia, a justiça, a burocracia, etc. Já os aparelhos 
ideológicos de Estado atuam mais no sentido de inculcar nos indivíduos uma 
ideologia “imposta” pela classe dominante, fazendo com que eles a assimilem 
naturalmente, isto é, espontaneamente. Poderemos dar alguns exemplos de 
aparelhos ideológicos: Igreja, Escola (educação formal), Família, Imprensa, 
etc. 
 
66 
 
Portanto, como explicado, o ambiente escolar é um dos aparelhos ideológicos 
do Estado utilizado para o ensinamento da ideologia dominante, pois, para a 
existência e manutenção dessa classe dominante, é necessário que se ensine a 
classe dominada a obedecer e a classe dominante a mandar. Esse ensinamento se 
torna mais fácil de digerir quando vem a partir da palavra, e não da coerção. A escola 
funciona para o Estado e, consequentemente, funciona para a ideologia dominante. 
Ferraro (2014, p. 15) afirma que “A escola é o lugar mais eficaz para inculcação de 
uma determinada ideologia por vários motivos”, e um desses motivos é o fato de que 
a escola tenha substituído o papel da igreja na nossa sociedade atual. Anteriormente, 
o ambiente que dominava o pensamento das crianças e dos jovens era a família e a 
igreja; hoje, os ambientes em que a criança e o jovem mais estão suscetíveis a receber 
as ideologias são o familiar e o escolar (LOPES, 2014). 
 Desde a educação primária, ensina-se a criança a reproduzir os princípios, crenças 
e valores da sociedade. A criança, na fase escolar, está vulnerável e suscetível a 
receber todo ensinamento que lhe é dado. 
A escola reproduz a sociedade e a sociedade reproduz a escola. A inculcação 
de uma ideologia ou arbitrário cultural passa pela estruturação de um sistema 
educativo baseado nos modos de produção capitalista, mesmo que isto 
ocorra fora ou acabe por passar ao lado do próprio sistema de produção. 
Exatamente no sentido de reforçar e perpetuar tal estrutura (FERRARO, 
2014, p. 8). 
A escola atua diretamente na formação do indivíduo, como local em que 
estudantes passam horas e anos das suas vidas. Por isso, ela é extremamente 
adequada para ser um instrumento ideológico do Estado: por meio de disciplinas e 
conteúdo, a escola reproduz a lógica dominante da sociedade ao seu corpo discente. 
15.2 Mecanismos adotados pelo Estado para transformar a educação em um 
instrumento ideológico 
Como você pôde ver no tópico anterior, o Estado utiliza a educação como um 
instrumento para ensinar e expandir a ideologia da classe dominante. Mas como 
efetivamente o Estado faz isso? Quais são os mecanismos que ele utiliza? A partir de 
agora é isso que você vai aprender. O primeiro mecanismo que posso apresentar a 
você é o currículo escolar, que é o conjunto de diretrizes sobre a aprendizagem na 
escola. Essas diretrizes orientam como as atividades educativas devem ser 
 
67 
 
executadas e quais são as suas finalidades. Esse currículo escolar utilizado pelas 
escolas está baseado nos comportamentos e costumes dominantes na sociedade. As 
crianças e os adolescentes que pertencem às classes dominantes facilmente se 
adequam ao currículo escolar das escolas, pois sempre foram expostas e viveram 
nessa cultura dominante. O mesmo não ocorre para as crianças e adolescentes das 
classes dominadas, pois elas não conhecem e nem vivenciam a cultura da classe 
dominante; o currículo escolar para essas crianças é um código que elas não 
conseguem decifrar ou compreender. Sendo assim,as crianças das classes 
dominantes alcançam sucesso na escola, seguindo para a educação superior, e sua 
cultura é reconhecida e fortalecida pela escola. A cultura da classe dominada, por 
outro lado, não encontra representatividade. (Jaíza Gomes Duarte Lopes, 2014) 
O conteúdo e a estrutura pedagógica oferecidos pelas instituições de ensino 
não conseguem alcançar todos os estudantes da mesma forma. Isso acontece porque 
cada estudante vive uma realidade diferente e participa de uma classe social diferente, 
vivenciando, cada um, uma cultura diferente. Aqueles que, fora do ambiente escolar, 
participam de uma cultura diferente da imposta pela escola sofrem um grande choque 
cultural e, muitas vezes, não conseguem adaptar-se à realidade imposta, o que os 
leva a “fracassar” e a manter a estrutura atual da sociedade. O segundo mecanismo 
seria a segregação já no acesso à educação: embora a mesma ideologia seja 
repassada a todos, ainda existe uma diferença na educação recebida pelas diferentes 
classes, de modo que não há equidade no acesso à educação, o que parece ocorrer 
de maneira proposital para perpetuar a distinção das classes sociais. 
Existem pessoas que recebem todo o conhecimento de ciências, línguas e 
filosofia com a maior qualidade e estão preparadas para assumir posições de 
destaque na sociedade; ao mesmo tempo, existem pessoas que recebem esses 
conhecimentos de forma básica apenas para se habilitarem a exercer funções 
específicas. Dessa forma, a educação também reforça as desigualdades sociais, 
como explica Ferraro (2014, p. 9): 
[...] o sistema escolar é um formador e reprodutor, mas acaba por atuar no 
âmbito da desigualdade. A escola também segrega, não apenas no âmbito 
da fragmentação disciplinar, mas também porque faz uma escolha ideológica. 
A educação, mais especificamente o acesso à educação, não se dá de igual 
maneira aos estudantes de classes sociais diferentes, o que deve ser levado 
em conta em termos de formatação do sistema educativo quando 
comparamos aspectos da reprodução cultural e social. 
 
68 
 
A formação dos professores também é um mecanismo utilizado: mesmo que 
inconscientemente, os professores são formados para representar a classe dominante 
dentro das salas de aulas, defendendo e valorizando apenas os trabalhos 
“intelectuais” em detrimento dos trabalhos ditos “braçais”. Você não se lembra do 
ditado popular brasileiro muito utilizado pelos professores: “a caneta é mais leve que 
a pá”? E dos professores que sempre lhe incentivavam a estudar para ser chefe, e 
não operário? Por meio de práticas pedagógicas, os professores reforçam a ideia do 
mérito, com o que a escola reconhece e incentiva os esforços individuais para a 
conquista de algo. Os próprios professores atribuem a si o mérito pessoal sobre a 
formação acadêmica que os tornou professores (SAES, 2007). Outro mecanismo que 
podemos verificar é a ênfase do Estado, principalmente em países subdesenvolvidos 
como o Brasil, no ensino profissional para formar mão de obra para as empresas. A 
educação profissionalizante é apresentada à população como um meio de formar 
cidadãos, tirar os jovens da marginalidade, impulsionar a promoção social e promover 
o desenvolvimento econômico por meio da ajuda mútua entre todos os agentes da 
sociedade. (LOPES, 2014) 
Esse tipo de educação, no entanto, é incentivado pela burguesia porque é uma 
forma de educar, disciplinar e controlar os futuros trabalhadores para a manutenção 
dos meios de produção capitalistas. A ideologia é um forte agente educativo na 
educação profissional: fortalece a hierarquia no ambiente de trabalho e desestimula a 
organização e o fortalecimento dos trabalhadores diante da hierarquia imposta 
(BATISTA, 2013). Desenvolver uma cultura de educação técnica e profissional na 
sociedade é uma estratégia para que a população de maneira sutil aceite, 
inconscientemente, a dominação da ideologia corrente. 
 
69 
 
15.3 Os efeitos da transformação da educação no Brasil 
 
Fonte: site.oatibaiense.com.br 
Para entender a transformação da educação em um instrumento ideológico no 
Brasil, vamos analisar a formação da educação a partir da década de 1920, com o fim 
da República Velha e o início da República Nova – período que foi a base para a 
formação do sistema educacional do século XX no Brasil. Nas décadas de 1920 e 
1930, a educação brasileira passou por um processo de renovação por meio da 
chamada Escola Nova. Foram propostas modernizações nas estruturas de ensino 
(administração, conteúdos e métodos) frente às tradicionais formas de ensino vigentes 
na época. Os educadores envolvidos nesse movimento acreditavam que a educação 
poderia colocar as pessoas em uma nova ordem social. Nesse período, foi 
apresentado, pela primeira vez, um programa educacional de forma unificada para 
todo o Brasil: em 1924, foi criada a Associação Brasileira de Educação e, em 1930, 
foi criado o Ministério da Educação e da Saúde, dando à educação a maior 
importância já vista. É claro que essas mudanças na educação são consequências 
das mudanças que estavam ocorrendo no Estado brasileiro: a República velha entrava 
em crise e o país buscava por modernização em todas as áreas – social, política, 
cultura, etc. Ou seja, essas mudanças na educação estavam embasadas por uma 
ideologia de Estado. (LOPES, 2014) 
Os agentes dessa transformação nas escolas entendiam que a educação deveria ser 
feita para responder aos desafios da sociedade de forma crítica e a partir de diálogo. 
Gonçalves (2002, p. 142) nos mostra que esse movimento educacional era 
 
70 
 
progressista, mas politicamente ingênuo, porque a maior parte dos educadores 
envolvidos nesse projeto pertenciam à elite e sua intenção era educar a população 
para que participasse do progresso brasileiro – eles acreditavam que uma educação 
universal teria o poder de acabar com as diferenças e construir uma sociedade 
brasileira igualitária e unificada. Na verdade, eles estavam contribuindo com governos 
autoritários que não tinham o menor interesse em educar para a cidadania. Por trás 
do discurso desses educadores progressistas em educar o povo, “[...] o que se queria 
da escola, nesse momento, era que ela fosse capaz de refazer o pobre, fazê-lo digno, 
laborioso e disciplinado, saudável, ou seja, que fosse outro” (GONÇALVES, 2002, p. 
148). 
Em 1932, é lançado o Manifesto dos Pioneiros, considerado um marco na 
educação brasileira. Esse documento reunia a proposta das principais orientações 
sobre sociedade, política, filosofia e educação da Escola Nova, defendendo e 
argumentando que a escola não deveria servir ao interesse de uma classe, mas sim 
ao interesse das pessoas, e, por isso, a escola deveria estar relacionada ao meio 
social. 
Observe o que, no entanto, afirma Gonçalves (2002, p. 145-146): 
O Manifesto reflete muito mais uma visão dos educadores do que um ato de 
efetiva possibilidade de aplicação, já que o Estado publicava, no mesmo ano 
em que se reuniam os educadores para a IV Conferência Nacional de 
Educação, em dezembro de 1931, importantes reformas da legislação do 
ensino. Em apenas dois meses, o governo provisório de Getúlio Vargas 
mudou a face da educação, alterando de forma profunda o ensino secundário, 
o ensino superior, o ensino comercial, criando o Conselho Nacional de 
Educação e, como já falamos, incluindo o ensino religioso nos currículos. Mas 
é claro que o Manifesto se colocou contra a divisão da educação, entre a 
escola para o pobre, o primário e o profissional e, para a elite, o secundário. 
Essa divisão reflete uma valoração do trabalho como “coisa” para pobre e, 
para o rico, a divagação de um curso propedêutico. A escola primária e a 
profissional serviriam às classes populares, enquanto o secundário e o 
superior seriam para a burguesia [...]. 
Por mais que os educadores da Escola Nova tivessem importância e influência, 
eles não conseguiram transformar suas ideiasem diretrizes reais para a educação 
brasileira, e o Estado continuou a utilizar a escola como meio manutenção da ideologia 
burguesa. O governo de Getúlio Vargas montou um sistema educacional estruturado 
para formar trabalhadores, de modo que a escola servia ao ideal de industrialização 
da economia. (LOPES, 2014) 
 
71 
 
O Estado endossava a exclusão por meio da educação, pois oferecia uma 
educação profissional ao pobre, preparava a classe média para o ensino superior e 
restringia o acesso da mulher somente a instituições exclusivamente femininas ou em 
turmas exclusivamente femininas. A proposta para a educação pública na Era Vargas 
era preparar o povo para o trabalho, principalmente para o trabalho na embrionária 
indústria brasileira. Não se tinha nenhum objetivo em moldar uma identidade nacional 
a partir de uma educação democrática e nem em formar cidadãos capazes de 
transformar a sociedade. Ao contrário disso: 
O espaço escolar se torna o lugar da educação, mas também, e 
principalmente, o lugar da palavra oficial. Não apenas a escola, mas todo o 
aparato público estatal se articula no Brasil não para desenvolver e fecundar 
a cidadania, mas como lugar de onde se profere a palavra da autoridade, que, 
em vez de incorporar a noção de representatividade, torna-se o oráculo da 
vontade de grupos privados ou mesmo de vontades individuais. A construção 
da educação pública, que representaria uma modernização das estruturas 
culturais e políticas no Brasil, torna-se, de um lado, a demonstração de como 
o pensamento conservador e a questão nacional trataram a modernidade 
como valor em si, sem ser questionada, e de outro, a produção de uma 
modernidade marcadamente às avessas, em que as conquistas sociais 
advindas de uma forma nova de fazer política não se fizeram presentes até 
bem pouco tempo (como exemplo, o acesso à escola pública e sua 
democratização) (GONÇALVES, 2002, p. 149). 
Em 1964, com a instituição do governo militar, o autoritarismo nas escolas foi 
ainda mais reforçado. Os militares realizaram inúmeras reformas na educação, mas 
sem escutar os professores e diretores das escolas. O ensino público foi ampliado, 
mas os recursos para a educação não acompanharam o mesmo ritmo, o que levou a 
educação a péssimos resultados, como a baixa remuneração dos professores, a 
evasão escolar e recursos materiais limitados. Em 1968, os militares propuseram uma 
reforma universitária, o que apenas acentuou o acesso elitista às universidades 
públicas. A crise econômica enfrentada pelo Brasil nas décadas de 1980 e 1990 tornou 
o ensino de qualidade ainda mais elitista, e o pouco investimento na escola pública 
deixou o ensino, para a população mais pobre, defasado e com menor qualidade. 
O governo de FHC continuou a utilizar a escola como um instrumento 
ideológico, com a propagação e utilização da educação para seguir a lógica do 
mercado, organizando a estrutura escolar para atender a nova divisão internacional 
do trabalho: 
 
 
 
72 
 
O Governo Fernando H. Cardoso [...] adotou o pensamento pedagógico 
empresarial e as diretrizes dos organismos e das agências internacionais e 
regionais, dominantemente a serviço desse pensamento como diretriz e 
concepção educacional do Estado (FRIGOTTO; CIAVATTA, 2003, p. 108). 
Observe o que diz a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB), 
promulgada em 1996 pelo então presidente Fernando Henrique Cardoso: 
Art. 27. Os conteúdos curriculares da educação básica observarão, ainda, as 
seguintes diretrizes: 
 I - a difusão de valores fundamentais ao interesse social, aos direitos e deveres 
dos cidadãos, de respeito ao bem comum e à ordem democrática; 
 II – consideração das condições de escolaridade dos alunos em cada 
estabelecimento; 
III - orientação para o trabalho; 
IV - promoção do desporto educacional e apoio às práticas desportivas não 
formais (BRASIL, 1996). 
Essa lei está em vigor até os dias de hoje e rege todos as modalidades da 
educação no Brasil, desde a educação infantil até a educação superior, passando pela 
educação profissional e especial. 
Portanto, constatamos que independentemente do partido político vencedor, da 
forma de governo, democrática ou ditatorial ou, ainda, da situação econômica, 
próspera ou estagnada, a educação brasileira foi estabelecida para atender os 
interesses sociais dominantes. (LOPES, 2014) 
 
 
 
 
 
 
 
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