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Segunda semana do curso de Linguística III 
Professor Alessandro Boechat de Medeiros 
Departamento de Linguística e Filologia 
Que objetos analisamos neste curso? Fonemas, morfemas, palavras, sentenças, o texto? 
Neste curso, vamos nos concentrar na análise das sentenças e seus constituintes internos. Os 
fonemas ficam fora do escopo do curso, bem como a parte da morfologia que não tem 
efeitos na estrutura das sentenças. 
O que são sentenças? 
Não vamos considerar como sentenças as suas ocorrências materiais em circunstâncias 
específicas. A isso chamaremos “emissões”. Tampouco serão sentenças seus significados, 
ou as condições de verdade às quais estão ligadas, às quais chamaremos “proposições”. 
Note-se que duas formas podem ter as mesmas condições de verdade, ou, por outras 
palavras, veicular a mesma proposição, como em: “João chutou uma bola” e “uma bola foi 
chutada por João”. Aqui, temos duas formas com propriedades gramaticais diferentes, ainda 
que, para que sejam verdadeiras, o mundo tenha que estar exatamente do mesmo jeito. De 
fato, a relação entre forma e significado é muito mais distante da biunivocidade do que 
poderíamos imaginar. É comum que uma mesma forma, com a mesma estrutura gramatical, 
veicule proposições distintas. Por exemplo, frases que tenham elementos dêiticos, ancorados 
à situação de fala, ou frases que contenham itens lexicalmente ambíguos, como em “o banco 
ficava em frente a praça da cidade”, onde banco pode ser interpretado como assento ou 
como instituição financeira. 
Chamaremos de “sentenças”, então, aquilo a que costumamos chamar, de maneira imprecisa, 
de propriedades gramaticais ou formais. Aspectos da fonologia e do significado podem dar 
indicações a respeito dessas propriedades, mas nosso foco serão essas propriedades. 
 
O modelo de gramática 
Como estamos fazendo ciência, precisamos observar os fenômenos, formular hipóteses 
explicativas e testá-las de alguma maneira. Os métodos tradicionais para teste de hipóteses 
envolvem experimentos, muitas vezes envolvendo equipamentos sofisticados. Hoje existe 
uma gama de experimentos para testar determinadas hipóteses sobre propriedades 
gramaticais das línguas e sobre o processamento de frases na mente dos falantes. Mas esses 
recursos não estão sempre acessíveis, e os protocolos com frequência não alcançam o nível 
de especificidade a que as teorias gramaticais chegaram. Assim, uma das maneiras mais 
usadas pelos linguistas que trabalham com teoria da gramática para testar suas hipóteses é a 
consulta a intuições dos falantes nativos sobre as línguas que analisam. A pergunta que se 
tenta responder é se determinada forma, prevista por uma hipótese, é aceitável para o falante 
consultado. Mas o que é ser aceitável? Que dimensões estão em jogo? 
Aceitabilidade 1: Pedro aqueles homens viu/Eu vai à feira amanhã/Maria disse cantou. 
Aceitabilidade 2: A cadeira espirrou na pia/Pedro comeu uma nuvem. 
Aceitabilidade 3: O rato morreu/O rato que o gato pegou morreu/O rato que o gato que o 
cachorro viu pegou morreu/O rato que o gato que o cachorro que o meu vizinho tem viu 
pegou morreu... 
O tipo de propriedades em que estamos interessados pode ser verificado apelando-se para o 
tipo de aceitabilidade 1 acima. Os outros casos de aceitabilidade podem ser úteis para a 
sondagem de tais propriedades, mas de maneira indireta. 
Falantes dizem se sentenças são aceitáveis ou não. Gramaticalidade é um conceito paralelo, 
ligado a propriedades acessíveis pelo tipo de julgamento de aceitabilidade 1, mas que diz 
respeito a uma teoria linguística. Assim, uma sentença é agramatical se não obedece às 
previsões de uma teoria linguística. Assumindo que a teoria que vamos discutir aqui reflete 
perfeitamente a competência do falante, vamos confundir os dois conceitos, e dizer que uma 
sentença é agramatical se é inaceitável no sentido definido por “Aceitabilidade 1” acima. 
Gramaticalidade/aceitabilidade deve levar em conta também um sentido pretendido. 
Observem-se as sentenças abaixo: 
1) Como Mário disse que Joana conquistou seu novo emprego? 
2) Como Mário perguntou se Maria conquistou seu novo emprego? 
Em (2) não é possível entender que a pergunta seja sobre a maneira como Maria conquistou 
seu novo emprego; ou seja, a sentença seria agramatical se o sentido pretendido fosse esse. 
(1) é ambígua. 
 
Constituintes sentenciais 
As sentenças possuem uma estrutura interna de constituintes, em que uns constituintes 
contêm outros. Mas como identificamos constituintes de uma sentença? 
a) Constituintes podem ser respostas a perguntas: 
O João cortou o cabelo. 
O que o João cortou? R.: o cabelo. 
Quem cortou o cabelo? R.: o João. 
O que o João fez? R.: cortou o cabelo. 
 
b) Constituintes podem ser substituídos por pronomes: 
Ele (o João) cortou o cabelo. 
O João cortou-o (o cabelo). 
O João fez isso (cortar o cabelo). 
 
c) Constituintes podem sofrer elipse: 
O que mais o João fez além de marcar sua viagem? 
Ah, cortou o cabelo. 
E quanto ao cabelo dele? 
O João cortou. 
 
d) Constituintes podem ser movidos: 
O cabelo, o João cortou. 
Cortou o cabelo, o João. 
 
e) Constituintes podem ser coordenados: 
O João e a Maria cortaram o cabelo. 
O João cortou o cabelo e as unhas. 
O João cortou o cabelo e comeu um sanduíche. 
O João cortou o cabelo e a Maria comeu um sanduíche. 
 
f) Constituintes podem ser clivados: 
Foi o João que cortou o cabelo. 
Foi cortar o cabelo o que o João fez. 
Foi o cabelo que o João cortou. 
 
A estrutura de constituintes de uma sentença pode ser representada através de uma estrutura 
de grafo com certas propriedades. As palavras (e determinados tipos de morfemas, como 
veremos mais adiante) ocupam os nós terminais da estrutura (abaixo dos quais não há 
ramificação). Cada nó ramificado corresponde, no esquema abaixo, a um constituinte. 
O rapaz disse que o cachorro comeu aquela sandália amarela. 
(Fazer a estrutura em sala). 
 
A estrutura sintática e as propriedades das palavras 
A teoria que vamos desenvolver aqui assume que as palavras projetam estrutura sintática. 
Isso quer dizer que, por exemplo, se determinado verbo pede por dois participantes, a 
estrutura sintática em que ocorrerá deverá fornecer dois lugares para que tais participantes 
ocupem. Além disso, qualquer que seja a transformação que façamos na sentença, essas 
posições ocupadas não podem ser eliminadas da estrutura. Basicamente, a estrutura de uma 
sentença vai depender em grande medida das propriedades de seleção dos itens que a 
compõem. 
Alguns exemplos: 
Verbo “comer” - dois lugares, que têm que ser ocupados por dois constituintes que 
satisfaçam suas necessidades de seleção. 
O nome “construção” - um lugar, que deve ser ocupado por um constituinte que satisfaça 
sua necessidade de seleção. 
A preposição “com” - um lugar, que deve ser ocupado por um constituinte que satisfaça sua 
necessidade de seleção. 
O verbo “apresentar” - três lugares, que devem ser ocupados por constituintes que 
satisfaçam suas necessidades de seleção. 
Vimos isso na sentença acima: os participantes de “dizer” estão presentes; os participantes 
de “comer” estão presentes; a conjunção “que” seleciona uma sentença finita, que está na 
estrutura; etc. 
 
O léxico (mental) 
O local das idiossincrasias, daquilo que não é previsível. Os itens lexicais estão lá 
armazenados. Cada entrada é especificada com uma considerável quantidade de 
informações, como suas propriedades fonológicas e morfológicas, sua interpretação 
(propriedades referenciais), suas propriedades formais, entre elas sua categoria gramatical, 
sua seleção categorial, se deve ou não concordar com algum outroconstituinte da sentença, 
etc., a interpretação que atribui aos seus participantes, quantos participantes seleciona, entre 
outras coisas. 
Como representamos as entradas? 
 
“Comer” (kom-) NP/DP NP/DP 
V Agente Paciente 
 
“Construção” (koNStɾusioN) PP 
N Paciente 
 
“Para” (paɾa) NP/DP 
P Alvo 
 
Nas grades há expressões para os papéis que os constituintes selecionados pelos itens 
recebem deles. Elas também especificam as categorias dos constituintes selecionados. 
Há dois tipos de seleção que os itens fazem: a seleção semântica (ou seleção-s) e a seleção 
categorial (ou seleção-c). A seleção semântica está relacionada ao significado dos itens 
selecionados. Um verbo como “ler”, por exemplo, seleciona coisas legíveis, e causa espanto 
se encontramos frases como “João leu a banana”. A seleção categorial está ligada à 
categoria gramatical selecionada. Por exemplo, o verbo “amar” seleciona um sintagma 
nominal como complemento; já o verbo “gostar” seleciona um complemento preposicional. 
 
Papéis temáticos 
Ao que parece, os itens lexicais atribuem um conjunto limitado de funções semânticas aos 
constituintes que selecionam. Essas funções ou “papéis” são pouco numerosos e se 
distribuem de maneira mais ou menos regular entre as funções sintáticas. Por exemplo, se 
um verbo atribui papel de agente para um dos constituintes selecionado por ele, esse 
constituinte será um sujeito; tipicamente, pacientes são objetos; etc. 
Alguns papéis: 
Agente, paciente, tema, beneficiário (maleficiário), alvo, origem, experienciador, causa, etc. 
Os papéis temáticos estão relacionados a um dos tipos de seleção que itens fazem: a seleção 
semântica. Observe-se que se um constituinte vai receber o papel de agente, ele deve 
denotar uma entidade com certas propriedades, como animacidade, por exemplo. Verbos 
como “comover” selecionam entidades animadas que possam experimentar tal estado. No 
caso desse verbo, além de ser um experienciador de tal estado, deve ser humano, pois trata-
se de estado exclusivo desse conjunto de entidades. 
Tipicamente, os papéis são atribuídos pelos itens substantivos do léxico; mas há itens no 
léxico que não atribuem papéis temáticos e não fazem seleção semântica. 
 
Itens funcionais vs. Itens lexicais 
O léxico possui itens que não atribuem papéis, mas que fazem seleção categorial. Vejam-se, 
por exemplo, as conjunções, como “que”, ou os artigos, como “o” ou “um”. Conjunções 
como “que” selecionam sentenças finitas. Do que trata a sentença não é importante; tempo, 
modo e aspecto veiculados por ela tampouco. Isso não quer dizer que não contribuam com 
significado. Por exemplo, se comparamos “que” com “se”, vemos que a primeira é 
tipicamente selecionada por verbos declarativos (como “dizer” ou “afirmar”) e que a 
segunda é selecionada por verbos interrogativos, como “perguntar”, “indagar” em alguns 
contextos, etc. Assim, “que” está associada à força declarativa, tipicamente, enquanto “se” 
está relacionada à força interrogativa, sendo possivelmente essas as suas contribuições. 
Com os artigos não é diferente. Parecem não selecionar tipos específicos de sintagmas 
nominais aos quais se combinam: denotem eles entidades massivas ou contáveis, por 
exemplo, podem ser combinados com artigos definidos e indefinidos: “o gato”, “um gato”, 
“a água”, “uma água”, etc. O importante é que selecionam sintagmas nominais ou formas 
nominais de verbos. 
Conjunções e artigos são exemplos de itens funcionais do léxico. As contribuições 
semânticas que fazem tipicamente não se ligam a conhecimento de mundo, mas a aspectos 
do significado que chamamos de estruturais. Por exemplo, unicidade de referência, relações 
entre conjuntos, etc. Outro conjunto de itens funcionais não mencionados acima, que 
relaciona tempo de evento ao tempo em que determinada frase é dita, é o das flexões verbais. 
Flexões tampouco fazem seleção semântica de verbo (todos os paradigmas são encontrados 
em todos verbos, independente de sua interpretação e suas propriedades acionais). 
Itens lexicais não só selecionam constituintes de categorias específicas, mas que tenham 
referências com propriedades específicas. Ou seja, além da seleção categorial, há uma 
seleção semântica, associada, como disse antes, aos papéis que atribuem, mas não limitada a 
eles. 
Itens lexicais atribuem papéis, mas não os itens funcionais; itens lexicais podem ser 
acrescidos ao léxico mental de um falante (com exceção talvez das preposições), mas não 
itens funcionais.