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PROFESSOR JORGE LARROSA COM KAREN RECHIA Aprendizagem Jorge. Talvez deveríamos dizer algo sobre nossas não-palavras. É que problema não são as palavras, mas o fato de que em torno de algumas delas há uma ideologia toda. Como se houvesse palavras (e a palavra "aprendizagem" é uma delas) que condensaram todo um caminho da compreensão da educação, as instituições educativas e, Karen. com elas, a natureza do ofício de professor. Não é a palavra Há certas palavras em educação que produzem em mim o efeito "comunicação" que rejeito, mas a ideologia comunicacional, o fato de que sentia Alex, o protagonista de Laranja Mecânica, que ao ser compreender a linguagem humana e, portanto, leitura e escrita, ao submetido a um tratamento para deixar de ser violento, é obrigado a modo de comunicação, ou fato. de entender professor como um uma gentileza forçada, pois seu corpo produzia um mal-estar quase comunicador ou a matéria de estudo como um conteúdo. Não é que excruciante a cada situação ou palavra com mínima agressividade. eu não goste da palavra "profissão" (uma velha palavra, e nobre), "Aprendizagem" é uma mas compreender o ensino universitário para o modo exclusivo de Não sei exatamente como, nem porquê, mas de um dia para profissionalização, como se a função principal da universidade fosse outro, numa das universidades privadas em que trabalhei, fomos formar profissionais e, portanto, como se o professor tivesse que obrigados a trocar os objetivos de ensino, por objetivos de dirigir aos seus alunos como futuros profissionais. Para mim, disse-o aprendizagem. Eu nem sabia que era possível tamanha distinção. na palavra "aluno", é essencial poder me dirigir a eles também com Mas era. Lá estavam listas infindáveis para decorar, formação de estudantes e não apenas como profissionais em formação, e isso é professores intensivas, chefes, sub-chefes e coordenadores para os muito difícil quando se instala a ideologia do profissionalismo. Mas quais nossos planos eram enviados e... suspiros de alívio quando era vamos à palavra "aprendizagem". o colega a ser chamado por algum desses estafetas da instituição, Não é a palavra "aprendizagem" em si que me incomoda, mas o modo como a ideologia da aprendizagem, com toda sua carga para prestar explicação. Passei a repetir os mesmos objetivos todos os anos, até que num individualista, psicológica e cognitiva, colonizou os discursos e as ano, o novo coordenador disse que havia ali, no mesmo plano práticas educativas. Alguém me contava que, em sua universidade, repetido, objetivos de ensino e não de aprendizagem. "Aprendi" a uma universidade do norte da Europa, todos os departamentos, última lição: quando mudava estafeta, eu os trocava de lugar. pesquisas e matérias de estudos que tinham que ver com o "ensino" Este breve devaneio me leva às suas aulas. Mais de uma vez (teaching) ou com a educação (education), estavam se tornando em você colocou que a escola não é lugar de aprendizagem, de departamento, em pesquisas e em disciplinas sobre "aprendizagem" desenvolvimento das habilidades, mas é o lugar do estudo e da (learnig). Nas escolas, do pré-escolar a universidade, já não se ensina, exercitação. Aliás, nenhuma vez utilizaste a palavra mas se aprende Qualquer programação tem que ser feita com base "aprendizagem" para qualquer coisa que não fosse contra ela. nos objetivos de aprendizagem e com vistas a resultados de aprendizagem. Uma aprendizagem que, assim, tem que ser autônoma e significativa. E concordarás comigo que uma sala de aula não é o mesmo que um contexto de aprendizagem. A sala de aula é o lugar fundamental de trabalho do professor e lugar 54 55PROFESSOR JORGE LARROSA COM KAREN RECHIA fundamental da escola. Mas um contexto de aprendizagem pode ser ensinei algo. O que sei é que nunca transmiti conteúdos. Minhas instalado em qualquer lugar e, portanto, nele não há nada que se disciplinas nunca foram pensadas e organizadas como se pareça a um professor. Há toda uma "learnification" da educação, da trouxessem pacotes de conhecimento, de coleções de saberes, de escola e da universidade. listas de conteúdos. E também sei que meu ofício não consiste em E sublinhemos já que nem sequer se trata de aprender algo, mas produzir aprendizagens.(Eu trabalho com textos. Meu ofício consiste do assim chamado aprender a aprender. Não precisa ser muito em ler e dar a ler e, quiçá, com sorte, em dar a pensar. Os textos perspicaz para perceber a relação do a aprender com a (palavras e imagens) com relação aos que trabalho não são nem produção de um profissional (de um sujeito) flexível, multiuso, suporte de conteúdo, nem transporte de conhecimentos, tampouco multifuncional, adaptável, intercambiável e, dessa maneira, depósito de saberes, ferramentas para obter resultados de completamente descaracterizado, esvaziado, dessubjetivado, aprendizagem. supérfluo, condenado à obsolescência e, por assim dizer, a uma Na palavra "aluno" tu me perguntaste pela distinção entre aprendizagem sem fim, à reciclagem permanente. Apenas se pode estudante, discípulo e aprendiz. A categoria de estudante aparece na ser qualquer coisa, e fazer qualquer coisa, e se transformar em universidade medieval. De fato, a universidade é herdeira dos qualquer coisa, quando não se é nada em particular, quando não se Studia Generalia das ordens religiosas ou das escolas catedráticas. E é sabe nada em particular. Por isso, o que oculta o aprender a a universidade que distingue o estudante do aprendiz (daquele que aprender é, hoje em dia, na assim chamada "sociedade da exercia sua aprendizagem fazendo-se aprendiz nas oficinas de o que alguns preferimos chamar de "capitalismo artesanatos, isto é, no lugar de trabalho). É a universidade também aprender algo, saber algo, é um estorvo. E isso se pode que distingue o estudante do discípulo, que é uma palavra com ver também no que está acontecendo com os professores, não só conotação mais dogmática. Um discípulo é um seguidor (de um com os universitários, que têm também que ser flexíveis, mestre, de uma doutrina, alguém que se submete a uma disciplina, multifuncionais, intercambiáveis, permanentemente recicláveis e de uma ordem religiosa, por exemplo). Na universidade não há adaptáveis. E se sabe algo, se dedicaram sua vida a estudar algo, se aprendizes, nem seguidores, mas estudantes. se vincularam a uma área do saber concreta ou específica, isso se Quando as revoltas contra a reforma das universidades torna um problema porque, segundo dizem, criaram demasiadas europeias, a partir do que se chamou Plano Bolonha, os meninos e rotinas, demasiados hábitos. as meninas usaram um abaixo assinado em que dizia: "Somos Em qualquer caso, não é que na universidade não se aprenda, estudantes e não mercadorias nas mãos de políticos e banqueiros", ou que meus alunos não aprendam, ou que não possamos seguir ou "Somos estudantes e não capital humano". Eu acredito que usando a palavra "aprendizagem". O que não podemos fazer ou, poderia ser compreendido um abaixo assinado que contivesse minimamente, o que eu não quero fazer, o que prefiro não fazer, é "Somos estudantes e não aprendizes" (de fato, a learnification da entender meu ofício com algo que tenha a ver com aprendizagem. E universidade é o que mais se parece à produção de capital humano) isso me coloca em uma posição estranha, anacrônica, cada vez mais ou "Somos estudantes e não discípulos". insustentável. Há um documento oficial da minha universidade que Eu, pessoalmente, não tenho aprendizes em minhas aulas, afirma que o perfil dos alunos mudou, agora a função do professor tampouco discípulos. Não me dirijo às pessoas que se sintam, a cada não é ensinar, transmitir conteúdos, mas propiciar, organizar e dia nas aulas, nem como alunos, nem como aprendizes, nem como facilitar a aprendizagem. Eu, pessoalmente, não sei se alguma vez discípulos, nem sequer como capital humano ou como futuros 56 57P DE PROFESSOR profissionais. Dirijo-me a eles como estudantes, porque sigo crendo que à universidade se vai para estudar, e que aprender, nesse sentido estúpido de "learning", é algo que se pode fazer em qualquer outro lugar. Seguramente, no shopping também se aprende muito, e no lugar de trabalho, mas a universidade não é um shopping, não é lugar de trabalho ainda que cada vez mais se pareça a esses lugares. Se perguntássemos a meus alunos, ao terminar o curso ou ao final de uma aula, o que é que aprenderam, sua resposta teria que ser que não aprenderam nada ou, ao menos, nada reconhecível, objetivável, avaliável. Se me perguntassem a mim o que ensino, teria muitas dificuldades em responder. E, então, apenas posso mentir, ou dissimular, como tu fazias nessa universidade em que trabalhavas, quando completo as lacunas com "objetivos de aprendizagem" e de "resultados de aprendizagem" no assim chamado "projeto docente" das disciplinas de que dou aula. Meus cursos não estão orientados para a produção de resultados, mas para ter efeitos, para produzir alguma movimentação, algum movimento. Certamente, se percebeste, apenas uso as palavras "ensinar" e "aprender" em minhas aulas, e aí as uso enfaticamente, para as reprimendas ou para o que chamo de minhas lições morais, meus minhas arengas. Esses breves parênteses de um professor que rosna e é casca-grossa, esses que produzem um silêncio especial e um desconcerto maiúsculo, esses nos quais me dirijo aos estudantes na terceira pessoa, como para dar certa solenidade irônica ao que digo, esses nos quais me ponho sério e, concomitantemente, nos que não posso dissimular certo sorriso, esses no quais imposto uma VOZ de padre, de predicador, esses momentos em começam comigo dizendo: "O que vocês deveriam aprender... ou "O que de verdade gostaria de ensinar-lhes..." ou "Espero que em minhas aulas vocês tenham aprendido que..." ou "A lição mais importante que gostaria de dar-lhes 58