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Afinal, a lei retroage ou não? Dê exemplos.

Segundo minha professora,em regra a lei NÃO RETROAGE, salvo em benefício ao réu. Mas segundo um outro professor, a lei RETROAGE. Quem está certo?

 


106 resposta(s) - Contém resposta de Especialista

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Passei Direto

Há mais de um mês

Como é de conhecimento de todos, a lei, em regra, é feita para valer para o futuro.

Segundo Maria Helena Diniz, quando uma lei modifica ou regula, de forma diferente, a matéria versada pela lei anterior, seja em decorrência da ab-rogação (revogação total da lei anterior) ou pela derrogação (revogação parcial da lei anterior), podem surgir conflitos entre as novas disposições e as relações jurídicas já consolidadas sob a égide da velha norma revogada. [2]

Sendo assim, o doutrinador Carlos Roberto Gonçalves faz o seguinte questionamento: Será que é possível a aplicação da lei nova às situações anteriormente constituídas? [3]

Para solucionar tal questão, a doutrina utiliza dois critérios. O primeiro critério diz respeito às disposições transitórias, às quais são elaboradas pelo legislador, no próprio texto normativo, destinadas a evitar e a solucionar conflitos que poderão surgir do confronto da nova lei com a antiga lei. Tais normas são temporárias e conciliam a nova lei com as relações já definidas pela norma anterior. O segundo critério, como bem explica Maria Helena Diniz, diz respeito ao princípio da retroatividade e da irretroatividade das normas. [4]

A regra adotada pelo ordenamento jurídico é de que a norma não poderá retroagir, ou seja, a lei nova não será aplicada às situações constituídas sobre a vigência da lei revogada ou modificada (princípio da irretroatividade). Este princípio objetiva assegurar a segurança, a certeza e a estabilidade do ordenamento jurídico.

É possível afirmar, ainda, que o referido princípio apresenta duplo fundamento, sendo um de ordem constitucional e outro de ordem infraconstitucional. Vejamos:

O art. 5º, inciso XXXVI, da Constituição Federal prevê que: “A lei não prejudicará o direito adquirido, o ato jurídico perfeito e a coisa julgada.” [5] Já o art. 6º, da LINDB diz o seguinte: “A lei em vigor terá efeito imediato e geral, respeitando o ato jurídico perfeito, o direito adquirido e a coisa julgada.” [6]

Sendo assim, tendo como parâmetro estes dois fundamentos, é possível observar que a regra da irretroatividade não é absoluta, tendo em vista que convive com outro preceito de direito intertemporal, que é o da eficácia imediata e geral da lei nova. Ou seja, em alguns casos a lei nova poderá retroagir. Além disso, Carlos Roberto Gonçalves afirma que a irretroatividade das leis não possui caráter absoluto, por razões de políticas legislativas, que por sua vez podem recomendar que, em determinadas situações, a lei seja retroativa, atingindo os efeitos dos atos jurídicos praticados sob o império da norma antiga. [7]

Nessa perspectiva, é possível se olvidar que a lei nova alcance os casos pendentes e futuros decorrentes de situações pretéritas que se realizem sob a égide da lei revogada, não abrangendo os fatos passados, nos quais se incluem o ato jurídico perfeito, o direito adquirido e a coisa julgada.

Desta maneira, é possível concluir que a regra é a irretroatividade no que diga respeito ao direito adquirido, ao ato jurídico perfeito e a coisa julgada, e a possibilidade da retroatividade no que diga respeito a casos pendentes e futuros. Logo, a regra é que a lei só pode retroagir, para atingir fatos consumados quando não ofender o ato jurídico perfeito, o direito adquirido e a coisa julgada, e quando o legislador, expressamente, mandar aplicá-la a casos passados, mesmo que a palavra “retroatividade” não seja usada. [12] Com base em tudo que foi dito, é possível concluir que por mais que haja doutrinadores e julgados de Tribunais de Justiça entendendo que uma lei infraconstitucional não pode retroagir para alcançar o ato jurídico perfeito, a coisa julgada e o direito adquirido, entendo que em vista das recentes decisões a respeito da relativização da coisa julgada feitas pelo STF e pelo STJ, além da previsão contida no art. 2.035 do CC/02, em alguns casos excepcionalíssimos tal retroação da lei será admitida.

Sendo assim, com base em Pedro Lenza, esse cenário pode ser esquematizado da seguinte forma:

a) As normas constitucionais, por regra, têm retroatividade mínimaaplicando-se a fatos ocorridos a partir de seu advento, mesmo que relacionados a negócios celebrados no passado – ex.: art. 7.º, IV;

b)é possível a retroatividade máxima e média da norma introduzida pelo constituinte originário desde que haja expressa previsão, como é o caso do art. 51 do ADCT da CF/88. Nesse sentido, doutrina e jurisprudência afirmam que não há direito adquirido contra a Constituição.

c)por outro lado, as Constituições Estaduais (poder constituinte derivado decorrente – limitado juridicamente) e demais dispositivos legais, vale dizer, as leis infraconstitucionais, bem como as emendas à Constituição (fruto do poder constituinte derivado reformador, também limitado juridicamente), estão sujeitos à observância do princípio constitucional da irretroatividade da lei (art. 5.º, XXXVI – ‘lei’ em sentido amplo), com pequenas exceções, como a regra da lei penal nova que beneficia o réu (nesse sentido, CF. AI 292.979-ed, rel. min. Celso de Mello, DJ, 19.12.2002).”

Referências

Tartuce, Flávio. “Direito Civil, 1: Lei de introdução e parte geral.” 6 ed. – Rio de Janeiro: Forense – São Paulo: METODO, 2010, pag. 27.

Diniz, Maria Helena. “Conflito de leis.”3. ed. rev. – São Paulo: Saraiva, 1998, pag. 36.

Lei de Introdução às Normas do Direito Brasileiro, Decreto n. 4.657/1942. [Disponível em:< http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto-lei/Del4657compilado.htm> Acesso em: 20 de dezembro de 2013].

Como é de conhecimento de todos, a lei, em regra, é feita para valer para o futuro.

Segundo Maria Helena Diniz, quando uma lei modifica ou regula, de forma diferente, a matéria versada pela lei anterior, seja em decorrência da ab-rogação (revogação total da lei anterior) ou pela derrogação (revogação parcial da lei anterior), podem surgir conflitos entre as novas disposições e as relações jurídicas já consolidadas sob a égide da velha norma revogada. [2]

Sendo assim, o doutrinador Carlos Roberto Gonçalves faz o seguinte questionamento: Será que é possível a aplicação da lei nova às situações anteriormente constituídas? [3]

Para solucionar tal questão, a doutrina utiliza dois critérios. O primeiro critério diz respeito às disposições transitórias, às quais são elaboradas pelo legislador, no próprio texto normativo, destinadas a evitar e a solucionar conflitos que poderão surgir do confronto da nova lei com a antiga lei. Tais normas são temporárias e conciliam a nova lei com as relações já definidas pela norma anterior. O segundo critério, como bem explica Maria Helena Diniz, diz respeito ao princípio da retroatividade e da irretroatividade das normas. [4]

A regra adotada pelo ordenamento jurídico é de que a norma não poderá retroagir, ou seja, a lei nova não será aplicada às situações constituídas sobre a vigência da lei revogada ou modificada (princípio da irretroatividade). Este princípio objetiva assegurar a segurança, a certeza e a estabilidade do ordenamento jurídico.

É possível afirmar, ainda, que o referido princípio apresenta duplo fundamento, sendo um de ordem constitucional e outro de ordem infraconstitucional. Vejamos:

O art. 5º, inciso XXXVI, da Constituição Federal prevê que: “A lei não prejudicará o direito adquirido, o ato jurídico perfeito e a coisa julgada.” [5] Já o art. 6º, da LINDB diz o seguinte: “A lei em vigor terá efeito imediato e geral, respeitando o ato jurídico perfeito, o direito adquirido e a coisa julgada.” [6]

Sendo assim, tendo como parâmetro estes dois fundamentos, é possível observar que a regra da irretroatividade não é absoluta, tendo em vista que convive com outro preceito de direito intertemporal, que é o da eficácia imediata e geral da lei nova. Ou seja, em alguns casos a lei nova poderá retroagir. Além disso, Carlos Roberto Gonçalves afirma que a irretroatividade das leis não possui caráter absoluto, por razões de políticas legislativas, que por sua vez podem recomendar que, em determinadas situações, a lei seja retroativa, atingindo os efeitos dos atos jurídicos praticados sob o império da norma antiga. [7]

Nessa perspectiva, é possível se olvidar que a lei nova alcance os casos pendentes e futuros decorrentes de situações pretéritas que se realizem sob a égide da lei revogada, não abrangendo os fatos passados, nos quais se incluem o ato jurídico perfeito, o direito adquirido e a coisa julgada.

Desta maneira, é possível concluir que a regra é a irretroatividade no que diga respeito ao direito adquirido, ao ato jurídico perfeito e a coisa julgada, e a possibilidade da retroatividade no que diga respeito a casos pendentes e futuros. Logo, a regra é que a lei só pode retroagir, para atingir fatos consumados quando não ofender o ato jurídico perfeito, o direito adquirido e a coisa julgada, e quando o legislador, expressamente, mandar aplicá-la a casos passados, mesmo que a palavra “retroatividade” não seja usada. [12] Com base em tudo que foi dito, é possível concluir que por mais que haja doutrinadores e julgados de Tribunais de Justiça entendendo que uma lei infraconstitucional não pode retroagir para alcançar o ato jurídico perfeito, a coisa julgada e o direito adquirido, entendo que em vista das recentes decisões a respeito da relativização da coisa julgada feitas pelo STF e pelo STJ, além da previsão contida no art. 2.035 do CC/02, em alguns casos excepcionalíssimos tal retroação da lei será admitida.

Sendo assim, com base em Pedro Lenza, esse cenário pode ser esquematizado da seguinte forma:

a) As normas constitucionais, por regra, têm retroatividade mínimaaplicando-se a fatos ocorridos a partir de seu advento, mesmo que relacionados a negócios celebrados no passado – ex.: art. 7.º, IV;

b)é possível a retroatividade máxima e média da norma introduzida pelo constituinte originário desde que haja expressa previsão, como é o caso do art. 51 do ADCT da CF/88. Nesse sentido, doutrina e jurisprudência afirmam que não há direito adquirido contra a Constituição.

c)por outro lado, as Constituições Estaduais (poder constituinte derivado decorrente – limitado juridicamente) e demais dispositivos legais, vale dizer, as leis infraconstitucionais, bem como as emendas à Constituição (fruto do poder constituinte derivado reformador, também limitado juridicamente), estão sujeitos à observância do princípio constitucional da irretroatividade da lei (art. 5.º, XXXVI – ‘lei’ em sentido amplo), com pequenas exceções, como a regra da lei penal nova que beneficia o réu (nesse sentido, CF. AI 292.979-ed, rel. min. Celso de Mello, DJ, 19.12.2002).”

Referências

Tartuce, Flávio. “Direito Civil, 1: Lei de introdução e parte geral.” 6 ed. – Rio de Janeiro: Forense – São Paulo: METODO, 2010, pag. 27.

Diniz, Maria Helena. “Conflito de leis.”3. ed. rev. – São Paulo: Saraiva, 1998, pag. 36.

Lei de Introdução às Normas do Direito Brasileiro, Decreto n. 4.657/1942. [Disponível em:< http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto-lei/Del4657compilado.htm> Acesso em: 20 de dezembro de 2013].

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Paulo

Há mais de um mês

Olha a confusão é normal, mas ambos estão certos. Mas tem que se observar o que eles queriam te dizer vou explicar para melhor entendimento.

Lei Penal - NÃO RETROAGE conforme o princípio da IRRETROATIVIDADE DA LEI PENAL. Mas ele tem uma EXCEÇÃO. A exceção é que retroage para beneficiar o réu. Leia tudo com atenção sobre o princípio logo abaixo:

  1. Princípio da irretroatividade - Também chamado de princípio da retroatividade da lei penal mais benéfica. A irretroatividade é regra, mas comporta exceção quando se tratar de lei mais favorável ao réu. Limita-se as normas de direito material (Aquelas em que você vê quando lê o Codigo Penal).  A lei penal não retroagirá, salvo para beneficiar o réu.” (art. 5º, XL, da Constituição Federal de 1988); A lei posterior, que de qualquer modo favorecer o agente, aplica-se aos fatos anteriores, ainda que decididos por sentença condenatória transitada em julgado. (parágrafo único, art. 2º, do Código Penal).

Agora exemplificando temos um agente comete um crime de roubo, em 2006, e é condenado a 8 anos de prisão. Cria-se uma nova lei em 2007 dobrando todas as penas. Logo como essa lei nova de 2007 é mais severa não poderá retroagir NUNCA.

AGORA A EXCEÇÃO - No mesmo exemplo, temos um agente que comete crime de roubo, em 2006, e é condenado a 8 anos de prisão. Cria-se uma nova lei em 2007 mas reduzindo a pena pela metade, logo o agente poderá se beneficiar dessa nova lei, porque no caso de ser mais benefica retroage.

Espero que tenha entendido, qualquer duvida pode perguntar.

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Paulo

Há mais de um mês


Complementando, Já no direito civil, a regra é da irretroatividade da lei, isso permite uma segurança jurídica. A lei produz efeitos apenas para atos futuros.A base disso é o art. 5, inciso XXXVI da Constituição:a lei não prejudicará o direito adquirido, o ato jurídico perfeito e a coisa julgada. No aspecto civil existem várias correntes o que leva a confusão de alguns professores porque a corrente minoritaria diz que ela retroage se atingir um maior interesse social, contanto que não recaia sobre o ato juridico perfeito, sobre o direito adquirido e sobre a coisa  julgada.

 

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Rodolfo

Há mais de um mês

É como dizem, toda regra tem exceção. Veja, a regra é o Princípio da Irretroatividade, isto é, em regra, a lei não retroage. Mas há excessões.

No caso em que você mencionou, direito penal, a lei (mais benéfica) além de retroagir¹ pode ultra-agir².


¹ exemplo: caso eu pratique hoje uma ação e que futuramente esse ato venha ser caracterizada por lei como crime, eu não poderei ser punido, ou seja, a lei não pode retroagir para me prejudicar.

² exemplo: Guilherme praticou o crime na vigência da lei “A”, (mais benéfica), posteriormente revogada pela Lei “B” (prejudicial). Neste caso a lei “A” se projetará no tempo e produzirá seus efeitos na vigência na Lei “B”.

Essa pergunta já foi respondida por um dos nossos especialistas