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a norma religiosa que impede a transfusão de sangue e a norma jurídica que impõe pena à omissão de socorro são normas de conduta?

a norma religiosa que impede a transfusão de sangue e a norma jurídica que impõe pena à omissão de socorro são normas de conduta? Justifique. Em que consiste a distinção entre ambas?


8 resposta(s) - Contém resposta de Especialista

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DLRV Advogados Verified user icon

Há mais de um mês

Sim.

Ambas são ordens de conduta, isto é, as duas são determinações que influenciam no modo de agir de um sujeito.

A diferença é que as normas jurídicas impõe regras de conduta que devem ser observadas, podendo valer-se até mesmo da força coercitiva para assegurar o seu cumprimento, segundo Reale. O mesmo não ocorre com as normas religiosas, cujas sanções se dão no campo da moral.

 

Sim.

Ambas são ordens de conduta, isto é, as duas são determinações que influenciam no modo de agir de um sujeito.

A diferença é que as normas jurídicas impõe regras de conduta que devem ser observadas, podendo valer-se até mesmo da força coercitiva para assegurar o seu cumprimento, segundo Reale. O mesmo não ocorre com as normas religiosas, cujas sanções se dão no campo da moral.

 

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Rafael

Há mais de um mês

Oi, Cheel. Sim, ambas são normas de conduta. Na verdade, são consideradas normas sociais. A diferença entre as duas é simples: uma é uma norma social jurídica e outra é uma norma social religiosa, de caráter moral. A norma imposta pela religião não tem o mesmo poder de coerção da norma jurídica, que é imposta pelo Estado, dado que no caso da religião o indivíduo tem a opção de seguir ou não a religião; já no caso da norma jurídica, ela é obrigatória e apresenta sanção no caso de descumprimento, não cabendo escolha.

A norma jurídica que você usou como exemplo, de omissão de socorro (art. 135 do Código Penal), é uma norma penal incriminadora, e como observei, é obrigatória e apresenta sanção em caso de descumprimento, por isso é jurídica. A ação de transfusão de sangue, ainda que "incriminada" por determinada religião, não apresenta todas as características necessárias para ser considerada norma jurídica, pois por mais que a religião apresente uma sanção ("ir para o inferno", "não ser abençoado", etc) e a norma seja obrigatória para quem segue aquela religião, ainda assim o indivíduo tem a opção de escolher seguir ou não tal religião.

Talvez, adotando uma visão sociológica, o debate se torne mais interessante e fique até mais simples. Para a sociologia é assim: considera-se Direito, ou seja, a norma será jurídica quando: 

For geral, externa (públicas), coercitivas (obrigatórias, apresentando sanção em caso de descumprimento), são abstratas (criadas para casos hipotéticos), mutáveis (são provisórias, mudam de acordo com as necessidades sociais) e tem como principal função a prevenção e composição de conflitos. Mas isso é só para deixar claro que mesmo que sendo religiosa, a norma não deixa de ser Direito. É um Direito paralelo, mas é Direito. 

Espero ter ajudado! Qualquer dúvida é só perguntar.

 

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Bárbara

Há mais de um mês

Bom dia Cheel,

Fiz meu TCC com base nesse tema e, por isso, resolvi vir aqui para dar minha resposta.

 

Vivemos em um Estado Laico em que não há religião - ao menos na teoria - oficial/escolhida.

Ocorre que a CRFB/88 prevê como direitos fundamentais o direito à vida e à liberdade religiosa.

Os direitos fundamentais previstos no art. 5º em vários momentos entram em colisão, devendo-se fazer uma mitigação (colocar na balança) entre eles.

Testemunhas de Jeová são contra transfusão sanguínea e isso já gerou muitos conflitos com a Medicina e com o Judiciário.

O Conselho Federal de Medicina editou uma resolução a esse respeito: http://www.saude.caop.mp.pr.gov.br/modules/conteudo/conteudo.php?conteudo=307#

Portanto, se houver meio alternativo de tratamento que não necessite de transfusão sanguínea e seja eficaz (não estando o paciente em iminente perigo de morte), deverá este ser a opção do médico.

Devendo-se observar também que em se tratando se incapaz, a transfusão será feita independentemente de sua vontade e de seus familiares.

Em suma, não há lei que venha a prever expressamente o direito de recusa de transfusão sanguínea. Há uma previsão no art. 5º da CRFB de direito à liberdade religiosa. No entanto, não pode o médico omitir socorro à vítima ou deixar de realizar uma transfusão quando ela é extremamente necessária, ainda que o paciente opte por isso. Sendo o paciente pessoa capaz, não estando em risco de morte e havendo tratamento alternativo, deverá o médico acatar a vontade do paciente, não realizando a transfusão, mas se utilizando de outro meio tão eficaz quanto para "salvar a vida" do paciente.

 

Espero ter ajudado.

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Bárbara

Há mais de um mês

Desculpa Cheel, acabei não respondendo a pergunta.

O Direito é, em si, uma norma de conduta social que atribui faculdades/poderes a uma parte e obrigações a outra.

Ele é dividido em direito natural e direito positivo. O 1º é aquele que nos faz ter o pensamento do que é justo em uma comunidade, o que é certo e o que é errado; enquanto o 2º é o criador das leis, de acordo com o momento em que se vive.

A norma jurídica que impõe pena à omissão de socorro é uma norma pública (imperativa/obrigatória) e a norma que impõe aos Testemunhas de Jeová uma recusa à transfusão de sangue é apenas uma norma de conduta religiosa, sem força legal, sem lei que faça essa previsão (pode-se dizer que é uma norma privada - aquela que vigora pela vontade das partes, desde que não venha a ir de encontro ao que diz a Legislação).

Por sermos um Estado Laico, ficou esse "buraco" na Legislação sobre a questão do direito à recusa de transfusão sanguínea. Não há lei prevendo o direito de recursa, assim como não há lei prevendo crime para a recusa. Portanto, como não há lei, podem as partes, por sua vontade, decidir aceitar ou recusar uma transfusão sanguínea (desde que isso não traga riscos à vida do índividuo, pois caso isso venha a ocorrer, irá de encontro ao art. 5º, caput, CRFB/88), portanto, é uma norma de conduta religiosa, tão somente

Essa pergunta já foi respondida por um dos nossos especialistas