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Teoria do Cordialismo

Alguém tem arquivos que se aprofundam na Teoria do cordialismo de Sergio Buarque de Holanda? 


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Wagner

Há mais de um mês

Considerações sobre O Homem Cordial, de Sérgio Buarque de Holanda e A Teoria do Medalhão, de Machado de Assis 

E esta é a pior hipocrisia que entre eles encontrei: que também

os que mandam simulam as virtudes dos que servem.

“Eu sirvo, tu serves, ele serve”- assim reza, aqui também, a

hipocrisia dos dominantes – e ai, quando o primeiro

senhor é somente o primeiro servidor.

Friedrich Nietzsche (2000: 205)

ResumoNeste artigo busca-se problematizar alguns aspectos atinentes a duas construções de identidade do ser brasileiro, através de um estudo comparativo entre  a concepção de “Medalhão“, expressa no conto do escritor carioca Machado de Assis (1839-1908), A Teoria do Medalhão, e aquela de “Homem Cordial”, desenvolvido pelo historiador Sérgio Buarque de Holanda (1902-1982) na obra Raízes do Brasil.Palavras-chave: Literatura brasileira, historiografia brasileira, identidade nacional.

 

ResuméMon but avec cet article, est de demontrer quelques aspects liés à deux constructions de l´identité brésilienne. Il s´agit de mettre en évidence quelques points de repère entre le conte de l´écrivain carioca Machado de Assis (1839-1908), A Teoria do Medalhão, et la définition de « l´Homme cordial » développée par l´historien Sérgio Buarque de Holanda (1902-1982) dans son livre Raízes do Brasil.

 

A busca da psique

Dado enfatizado por diversos comentadores [1] da obra do historiador paulista Sérgio Buarque de Holanda: um dos principais objetivos de Raízes do Brasil era delinear uma ‘psicologia’ do povo brasileiro, em algumas de suas principais nuances. Da mesma forma, Machado de Assis, em vários momentos de sua obra, recorreu à sensibilidade de zonas mais sombrias da cultura brasileira para detectar sentimentos e formas da “psique” do brasileiro. Acaso de encontro entre a história do Brasil e sua literatura em diferentes gerações? Parece a constatação, em diferentes tempos, de uma certa ética que se forma na maneira de ser destas gentes debaixo da linha do Equador. Não um acaso histórico; ocaso civilizatório, talvez.

Controvertido e polêmico conceito, a noção de homem cordial merece, de antemão, esclarecimentos. Mas antes, lançar-se-á mão de uma parábola. Diz-se que um velho funcionário público carioca, ante a mínima menção à literatura brasileira, teimosamente afirmava a superioridade de Lima Barreto sobre Machado de Assis. Acintosamente desafiava quem dissesse o contrário, disparando que somente um débil, um estúpido, não reconheceria a superioridade de Lima sobre Machado, o qual cobria de impropérios, bem como aquele que ousasse defendê-lo, por mais discreta que fosse essa defesa. Os anos passaram, o funcionário público cada vez mais se indispunha com as pessoas que o rodeavam e cada vez mais se isolava. Diz-se que as suas últimas palavras, à beira da morte, doente e cansado, foram uma espécie de murmúrio, dizendo algo como: que Lima é maior que Machado; ninguém duvida,... no entanto, não li nenhum dos dois... (MERQUIOR.1990: 343)

Essa negação a priori e radical da noção de Homem Cordial creio partir de uma postura similar à do rabugento funcionário público quanto à dicotomia Machado/Lima. Se por bom tempo os ensaístas brasileiros, principalmente a “geração” de 1930, foram tomados como “criadores de mitos”, verifica-se que o os anos 90, com a quebra dos paradigmas rigidamente científicos, fez com que a academia passasse a olhar com mais simpatia para a intuição e brilho das análises desses ensaístas. Gilberto Freyre, Sérgio Buarque e Paulo Prado, para citar apenas alguns, são todos atualmente relidos, no mais das vezes com um olhar mais generoso do que o de outrora, quando uma geração de intelectuais radicados majoritariamente na USP [2] buscou “enterrar” esses autores, alguns com mais intensidade (G. Freyre, Paulo Prado), outros com certos cuidados (Sérgio Buarque).

Mas, buscando entrar na discussão mais diretamente, onde está o cerne da noção de homem cordial? Sérgio Buarque afirma de antemão, buscando evitar más compreensões: a referida “cordialidade” não se trata, necessariamente, de um referência direta ao significado literal da expressão. Na realidade, ao referir-se à cordialidade, Sérgio Buarque busca enfatizar uma característica marcante do modo de ser do brasileiro, segundo sua lupa: a dificuldade de cumprir os ritos sociais que sejam rigidamente formais e não pessoais e afetivos e de separar, a partir de uma racionalização destes espaços, o público e o privado. Mais do que uma espécie de indivíduo, a cordialidade perpassa, em maior ou menor escala, a todos os atores sociais no Brasil. Afirma Buarque de Holanda:

A lhaneza no trato, a hospitalidade, e generosidade, virtudes tão gabadas por estrangeiros que nos visitam, representam, com efeito, um traço definido do caráter brasileiro, na medida, ao menos, em que permanece ativa e fecunda a influência ancestral dos padrões de convívio humano, informados no meio rural e patriarcal. Seria engano supor que essas virtudes possam significar “boas maneiras”, civilidade. São antes de tudo expressões legítimas de um fundo emotivo extremamente rico e transbordante. Na civilidade há qualquer coisa de coercitivo – ela pode exprimir-se em mandamentos e sentenças.(HOLANDA. 1999: 141)

Consiste, então, a cordialidade dos gestos largos, deste espírito aparentemente folgazão, que têm como marca o uso exagerado dos diminutivos, visando, justamente, a quebra da formalidade da relação que deve estar se estabelecendo, para que esta passe a se tornar uma relação de “amigos”, para que passe a imperar a máxima, dito popular que se torna regra de conduta e ‘verdade’ sociológica: “Aos inimigos, a lei; aos amigos, tudo!” (DAMATTA.1997: 24) Quer dizer, é preciso dominar as regras do trânsito facilitado pelas esferas do poder, que se estabelecem, por laços pessoais, em microrelações que se desdobram ad infinitum. Uma vez quebrada a formalidade, a relação assume sua proximidade e dá vazão aos necessários desdobramentos de uma relação de “amigos”. Por isso, por exemplo, pôde assinalar Buarque de Holanda o fato de pertencer “À mesma ordem de manifestações certamente a tendência para a omissão do nome de família no tratamento social.” (HOLANDA. 1999)

Logo, pode-se dizer que toda esta parafernália de sentidos, de aparências e de minúcias presentes diariamente nas relações pessoais/públicas, trata-se apenas de aparente gentileza e afetuosidade, sendo, efetivamente, uma cápsula protetora, uma estratégia tanto de ascensão quando de “sobrevivência” em sociedade. Todas essas questões acerca da cordialidade explicitam a essência, da cordialidade; uma norma de conduta estruturante, sendo que não há um homem cordial, pois, em maior ou menor escala, todos brasileiros são cordiais.

Tal forma de identidade faz com que Sérgio veja este indivíduo como uma figura diluída na massa. Buscar-se-á em Nietzsche, seguindo a pista deixada pelo próprio Sérgio, a caracterização desse indivíduo. Ao afirmar que: “Mais antigo é o prazer pelo rebanho do que o prazer pelo eu; e, enquanto a boa consciência se chama rebanho, somente a má consciência diz: ‘Eu’.”(NIETZSCHE. 2000: 86) Quer dizer, esta crítica ao ideal cristão do amor ao próximo é também uma crítica à forma através da qual manifesta-se a individualidade, pois, como afirma Ernani Chaves, “evidencia-se portanto, para Nietzsche, a ambivalência do ‘amor ao próximo’, na medida em que ele nada mais seria, em princípio, do que a forma socialmente aceitável para que o “eu” pudesse se manifestar.” (CHAVES. 2000: 54) Assim, este homem cujos movimentos na sociedade estão condicionados a relações sobre as quais ele deixa de ter pleno controle, pois são partilhadas, meticulosamente tramadas como os laços de uma rede, faz com que ele se desindividualize, passando a não ser socialmente um, mas vários, pois todas as suas relações são definidas a partir de trocas e de susceptibilidades que não podem ser feridas. Talvez por isso, no Brasil, como já acentuou Da Matta, seja impossível negar uma gentileza a um ‘amigo’.

Por essa impossibilidade de afirmar-se por suas próprias forças como indivíduo, passa, em meio a esta teia de relações “a viver nos outros” (HOLANDA. 2000: 147). Noção esta que têm outras implicações, como o gosto pelo perdulário, pelo saber meramente “bacharelesco” e de adorno, povoado pelas máximas e frases de efeito, em uma relação “esquizofrênica”, que em muito remete ao conto d’O Espelho, de Machado de Assis, em que, sem sua trupe de bajuladores, o velho alferes não podia se reconhecer, não podia ver sua imagem refletida no espelho, pois ela existia apenas na medida em que era sustentada pela horda que o rodeava. Ou seja, voltando a Nietzsche “Não vos suportais a vós mesmos e não vos amais bastante: então, quereis induzir o próximo a amar-vos, para vos dourardes com seu erro.”(NIETZSCHE. 2000: 87)

Culto aos símbolos e estratégias

Para compreender-se melhor os aspectos referentes às estratégias de ascensão social permeadas pela cordialidade, buscar-se-á introduzir na discussão o conto de Machado de Assis. Em “A Teoria do Medalhão”, presente na coletânea de contos Papéis Avulsos, lançada em outubro de 1882, Machado de Assis imagina um diálogo entre pai e filho, no dia do aniversário deste último, que estaria completando 21 anos. Desta forma, o primeiro ponto sobre o qual busca-se lançar luzes é a idéia de rito de passagem. Assim como o personagem-autor de O Ateneu, que, na primeira frase do referido romance assevera: “Vais encontrar o mundo, disse-me meu pai, à porta do Ateneu. Coragem para a luta.”(POMPÉIA. 1997:11). Assim, Pompéia marca o sentimento da passagem do protegido mundo do interior dos sobrados para o mundo exterior, onde o menino de onze anos precisaria de coragem para enfrentar todas as agruras que o destino certamente este lhe reservaria.

O conto machadiano, por seu turno, retrata o momento do ingresso do filho na maioridade, para o qual o pai busca dar-lhe os conselhos certos, estimando que este possa vencer na vida, com galhardia e rasgo. Mas vê-se no conto de Machado de Assis, em uma sutileza, a marca das águas que se dividem neste momento de passagem ao mundo dos “homens”. Ante um comentário do pai, em tom memorial, em que frisa lembrar-se bem do dia em que o filho nasceu, e hoje o vê homem feito, de “bigodes e namoros”, o filho replica com um tratamento um tanto açucarado: “papai....” sendo que o pai lhe responde imediatamente: “Não te ponhas com denguices e falemos como dous amigos sérios.”(ASSIS. 1997: 65) Além disto acentuar a importância dada pelo progenitor ao assunto, mostra que esta conversa era, como tanto ouve-se no dia-a-dia, nas máximas populares, de homem para homem. É mister observar que o tom das intervenções de Janjão, a partir deste momento se altera. Passa a tratar sempre seu pai como “Senhor”.

Passa então a se desenrolar a conversa. O pai passa a examinar o que possivelmente o futuro reserva ao filho. Vislumbra uma série de possibilidades de carreira profissional, todas abertas diante do rebento: ”Vinte e um anos, algumas apólices, um diploma, podes entrar na indústria, no comércio, nas letras ou nas artes. Há infinitas carreiras diante de ti.” Mesmo percebendo que várias são as possibilidades de carreira que o filho dispõe, o único desejo verdadeiro do pai é que este se “faça grande e ilustre” ou, pelo menos “notável”. Aspira que o filho se erga “acima da obscuridade comum.” (ASSIS. 1997: 65) A questão centra-se não em vocações, mas em posição social.

A crítica endereçada por Machado de Assis nesta passagem deixou poucos homens públicos do Séc. XIX impunes. O bacharelismo [3] grassava nos mais variados campos da vida social brasileira, onde raramente alguém seguia uma carreira de acordo com sua formação acadêmica. O título era uma chave, que além de servir para abrir as portas para a ascensão social, era usada largamente para compor a figura do medalhão. Como assevera Sérgio Buarque de Holanda, visando pontuar a presença de resquícios senhoriais nesta valorização do título: “Numa sociedade como a nossa, em que certas virtudes senhoriais ainda merecem largo crédito, as qualidades do espírito substituem, não raro, os títulos honoríficos, e alguns dos seus distintivos materiais, como o anel de grau e a carta de bacharel, podem equivaler a autênticos brasões de nobreza.”(HOLANDA. 1999: 83). Além disso, é preciosa a interpretação de Buarque de Holanda do fato acusado por Machado de Assis em Teoria do Medalhão, quando o historiador paulista afirma que

...as atividades profissionais são, aqui, meros acidentes na vida dos indivíduos, ao oposto do que sucede entre outros povos, onde as próprias palavras que indicam semelhantes atividades podem adquirir acento quase religioso. Ainda hoje são raros, no Brasil, os médicos, advogados, engenheiros, jornalistas, professores, funcionários, que se limitem a ser homens de sua profissão. (HOLANDA. 1999: 156)

Sendo o sonho do pai ver o filho tornar-se aquilo que não foi, ele passa a aconselhá-lo passo a passo sobre as minúcias desta fórmula mágica: como tornar-se um medalhão. O fato de ser uma conversa de pai para filho remete, imediatamente, para um momento de Raízes do Brasil, em que Sérgio Buarque menciona a dificuldade de romper-se com a imbricação entre público e privado no Brasil atendo-se a comentários sobre a educação dos filhos. Afirma o historiador paulista que esse tipo ambiente familiar, pintado com tanta maestria por Machado de Assis, voltado para a criação de um microcosmo ao mesmo tempo superprotetor e deformador de personalidades, acaba circunscrevendo “os horizontes da criança dentro da paisagem doméstica”, formando assim uma verdadeira escola de “inadaptados e até de psicopatas”(HOLANDA. 1999: 145)

A primeira prevenção do pai é afastar o filho das idéias e de toda e qualquer manifestação de originalidade. Diante da afirmação peremptória do pai de que deveria sofrear com todas as forças as ‘idéias’, o filho expõe sua aflição, pois esta parece-lhe uma tarefa difícil. Mas o pai tranqüiliza-o, há uma forma de deter a erupção das idéias: matá-las. Para isto, o filho deve “lançar mão de um regímen debilitante, ler compêndios de retórica, ouvir certos discursos, etc. “(ASSIS. 1997: 68) Sugere-lhe, igualmente, embrenhar-se caminhando entre as pessoas, para que possa saber como todos pensam. Porém, adverte para que se afaste da solidão, que é solo fértil para o aparecimento das idéias, bem como das livrarias. Porém, quanto a estas, há exceções. Passagens por livrarias podem ser importantes para a formação do medalhão, porém nunca “às ocultas”, mas sempre “às escâncaras”(ASSIS. 1997: 68). Pois o objetivo destas idas, eventuais e espalhafatosas, não é a busca pelos livros, mas sim uma conversa, deve ir...

...ali falar do boato do dia, da anedota da semana, de um contrabando, de uma calúnia, de um cometa, de qualquer cousa, quando não prefiras interrogar diretamente os leitores das belas crônicas de Mazade; 75 por cento destes estimáveis cavalheiros repetir-te-ão as mesmas opiniões, e uma tal monotonia é grandemente saudável. (ASSIS. 1997: 69)

Ou seja, eis aí a caracterização do típico bacharel que ocupará cargos como funcionário público, visto em Raízes do Brasil por Sérgio Buarque com muitos dos traços os quais o pai roga ao filho. Agarrados ao símbolo, ao título que confere distinção, raramente passaram estes letrados de ventrílocos. “ainda quando se punham a legiferar ou a cuidar de organização e coisas práticas” afirma Buarque de Holanda, “os nossos homens de idéias eram, em geral, homens de palavras e livros; não saíam de si mesmos...” (HOLANDA. 1999: 163) Eram os beletristas, portadores de títulos que nada além de posição social lhe conferiam, pois, certificavam um conhecimento que não era real, antes fruto de um amor bizantino aos livros, que eram pouco mais que um adorno nas paredes dos sobrados.

Existe também nestas passagens da “Teoria do Medalhão uma crítica endereçada por Machado de Assis, sempre de forma sutil, ao personalismo dos polemistas da época, alguns dos quais, ainda que em vão, buscaram desafiá-lo. Roberto Ventura, em Estilo Tropical, ao analisar a polêmica entre Silvio Romero e Machado de Assis, verificou que, a partir de 1875, Machado passa a progressivamente se afastar da crítica literária, evitado envolver-se em disputas. Todavia, a ponderação de Ventura torna-se ainda mais atraente na medida em que este ventila a possibilidade de, por um lado Machado de Assis realmente estar assumindo uma posição blasé em relação à bile e ao personalismo de contumazes polemistas, como Silvio Romero e, por outro, buscando “evitar inimizades que pudessem dificultar sua ascensão social e literária”, além de, é claro, refletir-se em um já bastante acentuado ceticismo de sua parte quanto às possibilidades e à eficácia da intervenção social e cultural.(VENTURA. 2000: 105)

Ironia e chalaça

Justamente sobre o humor reside uma das mais pungentes recomendações expressas pelo pai zeloso a seu filho, para que este seja mestre em pensar o pensado, em repetir com garbo o ululante, enfim, para que se torne um medalhão: os cuidados com o riso. O filho, preocupado com qual deveria ser a sua atitude ante a vida e diante das pessoas que o rodeiam, pergunta ao pai:

Também ao riso?Como ao riso?     -    Ficar sério, muito sério...     -   Conforme. Tens um gênio folgazão, prazenteiro, não hás de sofreá-lo nem eliminá-lo; podes brincar e rir alguma vez. Medalhão não quer dizer melancólico.” (ASSIS: 1997: 74)

 

Considerações sobre O Homem Cordial, de Sérgio Buarque de Holanda e A Teoria do Medalhão, de Machado de Assis 

E esta é a pior hipocrisia que entre eles encontrei: que também

os que mandam simulam as virtudes dos que servem.

“Eu sirvo, tu serves, ele serve”- assim reza, aqui também, a

hipocrisia dos dominantes – e ai, quando o primeiro

senhor é somente o primeiro servidor.

Friedrich Nietzsche (2000: 205)

ResumoNeste artigo busca-se problematizar alguns aspectos atinentes a duas construções de identidade do ser brasileiro, através de um estudo comparativo entre  a concepção de “Medalhão“, expressa no conto do escritor carioca Machado de Assis (1839-1908), A Teoria do Medalhão, e aquela de “Homem Cordial”, desenvolvido pelo historiador Sérgio Buarque de Holanda (1902-1982) na obra Raízes do Brasil.Palavras-chave: Literatura brasileira, historiografia brasileira, identidade nacional.

 

ResuméMon but avec cet article, est de demontrer quelques aspects liés à deux constructions de l´identité brésilienne. Il s´agit de mettre en évidence quelques points de repère entre le conte de l´écrivain carioca Machado de Assis (1839-1908), A Teoria do Medalhão, et la définition de « l´Homme cordial » développée par l´historien Sérgio Buarque de Holanda (1902-1982) dans son livre Raízes do Brasil.

 

A busca da psique

Dado enfatizado por diversos comentadores [1] da obra do historiador paulista Sérgio Buarque de Holanda: um dos principais objetivos de Raízes do Brasil era delinear uma ‘psicologia’ do povo brasileiro, em algumas de suas principais nuances. Da mesma forma, Machado de Assis, em vários momentos de sua obra, recorreu à sensibilidade de zonas mais sombrias da cultura brasileira para detectar sentimentos e formas da “psique” do brasileiro. Acaso de encontro entre a história do Brasil e sua literatura em diferentes gerações? Parece a constatação, em diferentes tempos, de uma certa ética que se forma na maneira de ser destas gentes debaixo da linha do Equador. Não um acaso histórico; ocaso civilizatório, talvez.

Controvertido e polêmico conceito, a noção de homem cordial merece, de antemão, esclarecimentos. Mas antes, lançar-se-á mão de uma parábola. Diz-se que um velho funcionário público carioca, ante a mínima menção à literatura brasileira, teimosamente afirmava a superioridade de Lima Barreto sobre Machado de Assis. Acintosamente desafiava quem dissesse o contrário, disparando que somente um débil, um estúpido, não reconheceria a superioridade de Lima sobre Machado, o qual cobria de impropérios, bem como aquele que ousasse defendê-lo, por mais discreta que fosse essa defesa. Os anos passaram, o funcionário público cada vez mais se indispunha com as pessoas que o rodeavam e cada vez mais se isolava. Diz-se que as suas últimas palavras, à beira da morte, doente e cansado, foram uma espécie de murmúrio, dizendo algo como: que Lima é maior que Machado; ninguém duvida,... no entanto, não li nenhum dos dois... (MERQUIOR.1990: 343)

Essa negação a priori e radical da noção de Homem Cordial creio partir de uma postura similar à do rabugento funcionário público quanto à dicotomia Machado/Lima. Se por bom tempo os ensaístas brasileiros, principalmente a “geração” de 1930, foram tomados como “criadores de mitos”, verifica-se que o os anos 90, com a quebra dos paradigmas rigidamente científicos, fez com que a academia passasse a olhar com mais simpatia para a intuição e brilho das análises desses ensaístas. Gilberto Freyre, Sérgio Buarque e Paulo Prado, para citar apenas alguns, são todos atualmente relidos, no mais das vezes com um olhar mais generoso do que o de outrora, quando uma geração de intelectuais radicados majoritariamente na USP [2] buscou “enterrar” esses autores, alguns com mais intensidade (G. Freyre, Paulo Prado), outros com certos cuidados (Sérgio Buarque).

Mas, buscando entrar na discussão mais diretamente, onde está o cerne da noção de homem cordial? Sérgio Buarque afirma de antemão, buscando evitar más compreensões: a referida “cordialidade” não se trata, necessariamente, de um referência direta ao significado literal da expressão. Na realidade, ao referir-se à cordialidade, Sérgio Buarque busca enfatizar uma característica marcante do modo de ser do brasileiro, segundo sua lupa: a dificuldade de cumprir os ritos sociais que sejam rigidamente formais e não pessoais e afetivos e de separar, a partir de uma racionalização destes espaços, o público e o privado. Mais do que uma espécie de indivíduo, a cordialidade perpassa, em maior ou menor escala, a todos os atores sociais no Brasil. Afirma Buarque de Holanda:

A lhaneza no trato, a hospitalidade, e generosidade, virtudes tão gabadas por estrangeiros que nos visitam, representam, com efeito, um traço definido do caráter brasileiro, na medida, ao menos, em que permanece ativa e fecunda a influência ancestral dos padrões de convívio humano, informados no meio rural e patriarcal. Seria engano supor que essas virtudes possam significar “boas maneiras”, civilidade. São antes de tudo expressões legítimas de um fundo emotivo extremamente rico e transbordante. Na civilidade há qualquer coisa de coercitivo – ela pode exprimir-se em mandamentos e sentenças.(HOLANDA. 1999: 141)

Consiste, então, a cordialidade dos gestos largos, deste espírito aparentemente folgazão, que têm como marca o uso exagerado dos diminutivos, visando, justamente, a quebra da formalidade da relação que deve estar se estabelecendo, para que esta passe a se tornar uma relação de “amigos”, para que passe a imperar a máxima, dito popular que se torna regra de conduta e ‘verdade’ sociológica: “Aos inimigos, a lei; aos amigos, tudo!” (DAMATTA.1997: 24) Quer dizer, é preciso dominar as regras do trânsito facilitado pelas esferas do poder, que se estabelecem, por laços pessoais, em microrelações que se desdobram ad infinitum. Uma vez quebrada a formalidade, a relação assume sua proximidade e dá vazão aos necessários desdobramentos de uma relação de “amigos”. Por isso, por exemplo, pôde assinalar Buarque de Holanda o fato de pertencer “À mesma ordem de manifestações certamente a tendência para a omissão do nome de família no tratamento social.” (HOLANDA. 1999)

Logo, pode-se dizer que toda esta parafernália de sentidos, de aparências e de minúcias presentes diariamente nas relações pessoais/públicas, trata-se apenas de aparente gentileza e afetuosidade, sendo, efetivamente, uma cápsula protetora, uma estratégia tanto de ascensão quando de “sobrevivência” em sociedade. Todas essas questões acerca da cordialidade explicitam a essência, da cordialidade; uma norma de conduta estruturante, sendo que não há um homem cordial, pois, em maior ou menor escala, todos brasileiros são cordiais.

Tal forma de identidade faz com que Sérgio veja este indivíduo como uma figura diluída na massa. Buscar-se-á em Nietzsche, seguindo a pista deixada pelo próprio Sérgio, a caracterização desse indivíduo. Ao afirmar que: “Mais antigo é o prazer pelo rebanho do que o prazer pelo eu; e, enquanto a boa consciência se chama rebanho, somente a má consciência diz: ‘Eu’.”(NIETZSCHE. 2000: 86) Quer dizer, esta crítica ao ideal cristão do amor ao próximo é também uma crítica à forma através da qual manifesta-se a individualidade, pois, como afirma Ernani Chaves, “evidencia-se portanto, para Nietzsche, a ambivalência do ‘amor ao próximo’, na medida em que ele nada mais seria, em princípio, do que a forma socialmente aceitável para que o “eu” pudesse se manifestar.” (CHAVES. 2000: 54) Assim, este homem cujos movimentos na sociedade estão condicionados a relações sobre as quais ele deixa de ter pleno controle, pois são partilhadas, meticulosamente tramadas como os laços de uma rede, faz com que ele se desindividualize, passando a não ser socialmente um, mas vários, pois todas as suas relações são definidas a partir de trocas e de susceptibilidades que não podem ser feridas. Talvez por isso, no Brasil, como já acentuou Da Matta, seja impossível negar uma gentileza a um ‘amigo’.

Por essa impossibilidade de afirmar-se por suas próprias forças como indivíduo, passa, em meio a esta teia de relações “a viver nos outros” (HOLANDA. 2000: 147). Noção esta que têm outras implicações, como o gosto pelo perdulário, pelo saber meramente “bacharelesco” e de adorno, povoado pelas máximas e frases de efeito, em uma relação “esquizofrênica”, que em muito remete ao conto d’O Espelho, de Machado de Assis, em que, sem sua trupe de bajuladores, o velho alferes não podia se reconhecer, não podia ver sua imagem refletida no espelho, pois ela existia apenas na medida em que era sustentada pela horda que o rodeava. Ou seja, voltando a Nietzsche “Não vos suportais a vós mesmos e não vos amais bastante: então, quereis induzir o próximo a amar-vos, para vos dourardes com seu erro.”(NIETZSCHE. 2000: 87)

Culto aos símbolos e estratégias

Para compreender-se melhor os aspectos referentes às estratégias de ascensão social permeadas pela cordialidade, buscar-se-á introduzir na discussão o conto de Machado de Assis. Em “A Teoria do Medalhão”, presente na coletânea de contos Papéis Avulsos, lançada em outubro de 1882, Machado de Assis imagina um diálogo entre pai e filho, no dia do aniversário deste último, que estaria completando 21 anos. Desta forma, o primeiro ponto sobre o qual busca-se lançar luzes é a idéia de rito de passagem. Assim como o personagem-autor de O Ateneu, que, na primeira frase do referido romance assevera: “Vais encontrar o mundo, disse-me meu pai, à porta do Ateneu. Coragem para a luta.”(POMPÉIA. 1997:11). Assim, Pompéia marca o sentimento da passagem do protegido mundo do interior dos sobrados para o mundo exterior, onde o menino de onze anos precisaria de coragem para enfrentar todas as agruras que o destino certamente este lhe reservaria.

O conto machadiano, por seu turno, retrata o momento do ingresso do filho na maioridade, para o qual o pai busca dar-lhe os conselhos certos, estimando que este possa vencer na vida, com galhardia e rasgo. Mas vê-se no conto de Machado de Assis, em uma sutileza, a marca das águas que se dividem neste momento de passagem ao mundo dos “homens”. Ante um comentário do pai, em tom memorial, em que frisa lembrar-se bem do dia em que o filho nasceu, e hoje o vê homem feito, de “bigodes e namoros”, o filho replica com um tratamento um tanto açucarado: “papai....” sendo que o pai lhe responde imediatamente: “Não te ponhas com denguices e falemos como dous amigos sérios.”(ASSIS. 1997: 65) Além disto acentuar a importância dada pelo progenitor ao assunto, mostra que esta conversa era, como tanto ouve-se no dia-a-dia, nas máximas populares, de homem para homem. É mister observar que o tom das intervenções de Janjão, a partir deste momento se altera. Passa a tratar sempre seu pai como “Senhor”.

Passa então a se desenrolar a conversa. O pai passa a examinar o que possivelmente o futuro reserva ao filho. Vislumbra uma série de possibilidades de carreira profissional, todas abertas diante do rebento: ”Vinte e um anos, algumas apólices, um diploma, podes entrar na indústria, no comércio, nas letras ou nas artes. Há infinitas carreiras diante de ti.” Mesmo percebendo que várias são as possibilidades de carreira que o filho dispõe, o único desejo verdadeiro do pai é que este se “faça grande e ilustre” ou, pelo menos “notável”. Aspira que o filho se erga “acima da obscuridade comum.” (ASSIS. 1997: 65) A questão centra-se não em vocações, mas em posição social.

A crítica endereçada por Machado de Assis nesta passagem deixou poucos homens públicos do Séc. XIX impunes. O bacharelismo [3] grassava nos mais variados campos da vida social brasileira, onde raramente alguém seguia uma carreira de acordo com sua formação acadêmica. O título era uma chave, que além de servir para abrir as portas para a ascensão social, era usada largamente para compor a figura do medalhão. Como assevera Sérgio Buarque de Holanda, visando pontuar a presença de resquícios senhoriais nesta valorização do título: “Numa sociedade como a nossa, em que certas virtudes senhoriais ainda merecem largo crédito, as qualidades do espírito substituem, não raro, os títulos honoríficos, e alguns dos seus distintivos materiais, como o anel de grau e a carta de bacharel, podem equivaler a autênticos brasões de nobreza.”(HOLANDA. 1999: 83). Além disso, é preciosa a interpretação de Buarque de Holanda do fato acusado por Machado de Assis em Teoria do Medalhão, quando o historiador paulista afirma que

...as atividades profissionais são, aqui, meros acidentes na vida dos indivíduos, ao oposto do que sucede entre outros povos, onde as próprias palavras que indicam semelhantes atividades podem adquirir acento quase religioso. Ainda hoje são raros, no Brasil, os médicos, advogados, engenheiros, jornalistas, professores, funcionários, que se limitem a ser homens de sua profissão. (HOLANDA. 1999: 156)

Sendo o sonho do pai ver o filho tornar-se aquilo que não foi, ele passa a aconselhá-lo passo a passo sobre as minúcias desta fórmula mágica: como tornar-se um medalhão. O fato de ser uma conversa de pai para filho remete, imediatamente, para um momento de Raízes do Brasil, em que Sérgio Buarque menciona a dificuldade de romper-se com a imbricação entre público e privado no Brasil atendo-se a comentários sobre a educação dos filhos. Afirma o historiador paulista que esse tipo ambiente familiar, pintado com tanta maestria por Machado de Assis, voltado para a criação de um microcosmo ao mesmo tempo superprotetor e deformador de personalidades, acaba circunscrevendo “os horizontes da criança dentro da paisagem doméstica”, formando assim uma verdadeira escola de “inadaptados e até de psicopatas”(HOLANDA. 1999: 145)

A primeira prevenção do pai é afastar o filho das idéias e de toda e qualquer manifestação de originalidade. Diante da afirmação peremptória do pai de que deveria sofrear com todas as forças as ‘idéias’, o filho expõe sua aflição, pois esta parece-lhe uma tarefa difícil. Mas o pai tranqüiliza-o, há uma forma de deter a erupção das idéias: matá-las. Para isto, o filho deve “lançar mão de um regímen debilitante, ler compêndios de retórica, ouvir certos discursos, etc. “(ASSIS. 1997: 68) Sugere-lhe, igualmente, embrenhar-se caminhando entre as pessoas, para que possa saber como todos pensam. Porém, adverte para que se afaste da solidão, que é solo fértil para o aparecimento das idéias, bem como das livrarias. Porém, quanto a estas, há exceções. Passagens por livrarias podem ser importantes para a formação do medalhão, porém nunca “às ocultas”, mas sempre “às escâncaras”(ASSIS. 1997: 68). Pois o objetivo destas idas, eventuais e espalhafatosas, não é a busca pelos livros, mas sim uma conversa, deve ir...

...ali falar do boato do dia, da anedota da semana, de um contrabando, de uma calúnia, de um cometa, de qualquer cousa, quando não prefiras interrogar diretamente os leitores das belas crônicas de Mazade; 75 por cento destes estimáveis cavalheiros repetir-te-ão as mesmas opiniões, e uma tal monotonia é grandemente saudável. (ASSIS. 1997: 69)

Ou seja, eis aí a caracterização do típico bacharel que ocupará cargos como funcionário público, visto em Raízes do Brasil por Sérgio Buarque com muitos dos traços os quais o pai roga ao filho. Agarrados ao símbolo, ao título que confere distinção, raramente passaram estes letrados de ventrílocos. “ainda quando se punham a legiferar ou a cuidar de organização e coisas práticas” afirma Buarque de Holanda, “os nossos homens de idéias eram, em geral, homens de palavras e livros; não saíam de si mesmos...” (HOLANDA. 1999: 163) Eram os beletristas, portadores de títulos que nada além de posição social lhe conferiam, pois, certificavam um conhecimento que não era real, antes fruto de um amor bizantino aos livros, que eram pouco mais que um adorno nas paredes dos sobrados.

Existe também nestas passagens da “Teoria do Medalhão uma crítica endereçada por Machado de Assis, sempre de forma sutil, ao personalismo dos polemistas da época, alguns dos quais, ainda que em vão, buscaram desafiá-lo. Roberto Ventura, em Estilo Tropical, ao analisar a polêmica entre Silvio Romero e Machado de Assis, verificou que, a partir de 1875, Machado passa a progressivamente se afastar da crítica literária, evitado envolver-se em disputas. Todavia, a ponderação de Ventura torna-se ainda mais atraente na medida em que este ventila a possibilidade de, por um lado Machado de Assis realmente estar assumindo uma posição blasé em relação à bile e ao personalismo de contumazes polemistas, como Silvio Romero e, por outro, buscando “evitar inimizades que pudessem dificultar sua ascensão social e literária”, além de, é claro, refletir-se em um já bastante acentuado ceticismo de sua parte quanto às possibilidades e à eficácia da intervenção social e cultural.(VENTURA. 2000: 105)

Ironia e chalaça

Justamente sobre o humor reside uma das mais pungentes recomendações expressas pelo pai zeloso a seu filho, para que este seja mestre em pensar o pensado, em repetir com garbo o ululante, enfim, para que se torne um medalhão: os cuidados com o riso. O filho, preocupado com qual deveria ser a sua atitude ante a vida e diante das pessoas que o rodeiam, pergunta ao pai:

Também ao riso?Como ao riso?     -    Ficar sério, muito sério...     -   Conforme. Tens um gênio folgazão, prazenteiro, não hás de sofreá-lo nem eliminá-lo; podes brincar e rir alguma vez. Medalhão não quer dizer melancólico.” (ASSIS: 1997: 74)

 

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