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João Carlos da Silva foi admitido em 03/02/2020 pela empresa Metalúrgica Boa Vista Ltda. Para exercer a função de operador de máquinas, em jornada das 7h às 16h48.


O período aquisitivo de férias 2023/2024 (03/02/2023 a 02/02/2024) venceu sem que o empregado usufruísse o respectivo descanso. O período concessivo correspondente (03/02/2024 a 02/02/2025) também se esgotou sem que a empresa concedesse as férias, tampouco as remunerasse.


A partir de abril de 2024, João passou a apresentar atrasos recorrentes na entrada do trabalho — em média de 3 a 4 vezes por mês, com atrasos de 10 a 40 minutos, sem apresentação de justificativa. Os cartões de ponto juntados aos autos confirmam a frequência dos atrasos ao longo de quase um ano. Em 12/08/2024, o empregado recebeu uma única advertência escrita,


formalizada e assinada, com o seguinte teor: “advertimos o empregado por atrasos frequentes, devendo se atentar ao cumprimento do horário contratual” — sem especificar datas ou detalhar os episódios. Após a advertência, os atrasos persistiram na mesma frequência, sem que a empresa aplicasse qualquer suspensão disciplinar ou nova advertência nos sete meses seguintes.


Em 10/03/2025, a empresa dispensou o empregado por justa causa, com fundamento em desídia (art. 482, “e”, da CLT), constando da carta de dispensa, como única motivação, a expressão:


“reiterados atrasos e falta de comprometimento com as normas internas da empresa”.


Inconformado, João ajuizou reclamação trabalhista postulando: (i) a reversão da justa causa, com o pagamento das verbas próprias da dispensa imotivada; (ii) o pagamento em dobro das férias do


período aquisitivo 2023/2024, vencidas e não gozadas dentro do período concessivo; e (iii) os demais consectários legais. A reclamada, em defesa, sustentou que a advertência prévia já demonstrava a ciência do empregado quanto à irregularidade de sua conduta, e que a reiteração dos atrasos após a advertência autorizava a aplicação direta da pena máxima, em razão da gravidade da desídia.


QUESTÃO


A dispensa por justa causa aplicada a João está corretamente fundamentada? Analise a caracterização da desídia (art. 482, “e”, CLT) à luz dos requisitos doutrinários e jurisprudenciais para a validade da justa causa (gravidade, atualidade, imediatidade, proporcionalidade e o princípio da gradação das penalidades, e a vedação ao non bis in idem), enfrentando expressamente o argumento da reclamada de que a advertência anterior já autorizaria a aplicação direta da pena máxima.


É possível a reversão judicial da justa causa aplicada pelo empregador? A quem cabe o ônus da prova quanto aos fatos que a embasam? Caso a justa causa seja revertida pelo Juízo, quais os efeitos práticos sobre as verbas rescisórias devidas a João?

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Juliete Gonçalves Pereira da Silva

há 2 meses

Respostas

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há 2 meses

Claro! Vamos analisar passo a passo a questão da dispensa por justa causa aplicada a João, com base no art. 482, “e”, da CLT (desídia): 1. Caracterização da desídia e requisitos para justa causa: - Gravidade: A desídia é a conduta negligente, repetida e habitual do empregado, que prejudica o trabalho. Os atrasos frequentes (3 a 4 vezes por mês, de 10 a 40 minutos) configuram desídia, mas é necessário avaliar se são graves o suficiente para a justa causa. - Atualidade: A falta deve ser recente e próxima à dispensa. No caso, os atrasos ocorreram por quase um ano, mas a advertência foi dada em 12/08/2024, e a dispensa só em 10/03/2025, quase 7 meses depois, o que pode descaracterizar a atualidade. - Imediatidade: A punição deve ser aplicada logo após a falta. A demora de 7 meses entre a advertência e a dispensa enfraquece a justa causa. - Proporcionalidade e gradação das penalidades: A CLT e a jurisprudência exigem que as penalidades sejam graduais: advertência, suspensão e só depois a justa causa. Aqui, houve apenas uma advertência e depois a dispensa, sem suspensão ou nova advertência, violando o princípio da gradação. - Vedação ao non bis in idem: Não se pode punir duas vezes o mesmo fato. A empresa alegou que a advertência previa a ciência do empregado, mas não aplicou outras penalidades antes da justa causa, o que não autoriza pular etapas. 2. Argumento da reclamada: A empresa sustenta que a advertência já autorizava a dispensa direta por justa causa. Contudo, a jurisprudência majoritária exige a gradação das penalidades e a imediatidade, o que não ocorreu. Portanto, esse argumento é fraco. 3. Possibilidade de reversão judicial da justa causa: Sim, é possível a reversão, pois a justa causa não respeitou os requisitos legais e jurisprudenciais (atrasos sem imediatidade, falta de gradação, ausência de suspensão, demora na punição). 4. Ônus da prova: Cabe à empresa provar a justa causa, ou seja, comprovar a conduta faltosa, a advertência, a gradação das penalidades e a imediatidade da punição. 5. Efeitos práticos da reversão da justa causa: Se a justa causa for revertida, a dispensa será considerada sem justa causa, e João terá direito a: - Aviso prévio (indenizado ou trabalhado); - Multa de 40% do FGTS; - Saque do FGTS; - Férias proporcionais + 1/3; - 13º salário proporcional; - Demais verbas rescisórias típicas da dispensa imotivada. --- Resumo: A dispensa por justa causa aplicada a João não está corretamente fundamentada, pois não respeitou os princípios da imediatidade, proporcionalidade, gradação das penalidades e atualidade. A empresa não comprovou adequadamente a desídia grave e atual. Assim, é possível a reversão judicial da justa causa, cabendo à empresa o ônus da prova. Caso revertida, João terá direito às verbas rescisórias da dispensa sem justa causa.

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