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O que é Casamento putativo e quais são seus efeitos?

A origem etimológica do termo putativo advém do latim, putativus (imaginário), putare (crer, imaginar).


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Elen Vasconcellos

Há mais de um mês

            O casamento putativo é o enlace matrimonial realizado com algum vício (determinado por algum fato previsto na lei) que o torne anulável ou nulo, mas, por ter sido contraído de boa-fé de um ou de ambos os cônjuges, produz efeitos, conforme determinação do artigo 1561 do nosso Código Civil, abaixo copiado.

§ 1º Se um dos cônjuges estava de boa-fé ao celebrar o casamento, os seus efeitos civis só a ele e aos filhos aproveitarão.

§ 2º Se ambos os cônjuges estavam de má-fé ao celebrar o casamento, os seus efeitos civis só aos filhos aproveitarão.

 

Efeitos da declaração da putatividade do casamento

            Uma vez declarada a putatividade do casamento na sentença que vier declarar a sua nulidade ou decretar a sua anulação, tendo-se em vista a boa-fé de um ou de ambos os contraentes, o casamento opera normalmente todos os seus efeitos, sejam eles civis, pessoais ou patrimoniais, até o dia da sentença anulatória (art. 221 do C.C.B.). Esses efeitos se fazem sentir unicamente em relação aos contraentes que estiverem eventualmente de boa-fé, à prole advinda da união matrimonial, e, ainda, perante terceiros.

            Repise-se, em relação aos contraentes, que apenas produzirá normalmente os efeitos do matrimônio declarado putativo aquele que estiver de boa-fé. Não aproveitarão quaisquer efeitos ao cônjuge que o contraiu de má-fé.

            Entretanto, mesmo que na mais absoluta boa-fé de ambos os contraentes, de acordo com as lições de Washington de BARROS MONTEIRO:

"Declarada a nulidade do casamento contraído de boa-fé (e não interessa a causa determinante da anulação), dissolve-se a sociedade conjugal como se ocorresse a morte de um dos cônjuges, isto é, processa-se a partilha do patrimônio do casal, se êste se unira pelo regime da comunhão, desaparecem os deveres recíprocos dos cônjuges, especificados no art. 231 do Código, mas os filhos nascidos dessa união são legítimos."

            Isto significa que, com a sentença que declara nulo ou que anula o casamento, o vínculo matrimonial resta definitivamente rompido. A putatividade, entretanto, faz com que produza seus efeitos até a data da sentença que rompe o vínculo. Mas o vínculo restará definitivamente rompido. Sobrevirão, apenas, os seus efeitos ao(s) cônjuge(s) de boa-fé, frente à prole e perante terceiros. Os efeitos da nulidade se farão sentir, portanto, ex nunc, sem retroatividade.

 

Efeitos em relação à prole

            Com o advento da Constituição Federal de 1988, que em seu art. 227, § 7o, suprimiu todas as desigualdades anteriormente existentes, relativas à filiação, o argumento resta sobremaneira esvaziado.

 

Efeitos em relação ao(s) cônjuge(s)

            Já relativamente aos cônjuges, se ambos estavam de boa-fé ao tempo da celebração, o casamento produz todos os efeitos civis até o dia da sentença anulatória, que unicamente produzirá efeitos ex nunc. Caso apenas um dos cônjuges estava de boa-fé, os efeitos civis do matrimônio somente a ele aproveitarão.

 

Efeitos pessoais

            Após a sentença anulatória, cessam os deveres de fidelidade, de coabitação e de mútua assistência, bem como quaisquer outros deveres pessoais resultantes ao matrimônio. Se a mulher for inocente, poderá conservar os apelidos do marido. Mas a emancipação advinda dos que se conserciaram menores prevalece, se de estavam de boa-fé.

 

 Efeitos patrimoniais

            Estando apenas um dos cônjuges de boa-fé, como indica Orlando GOMES: "Desenvolve-se uma moderna tendência, digna de aplausos, para equiparar a situação à do divórcio litigioso. O cônjuge de boa-fé seria assemelhado aos cônjuge inocente e o de má-fé ao cônjuge culpado". Assim o cônjuge de má-fé não tem qualquer direito em relação aos filhos, não podendo se eximir, entretanto, de seus deveres. Também o culpado terá que fornecer alimentos à família e ao inocente se este carecer deles (RT, 318:590; RTJ 89:495), cessando essa obrigação alimentar, em relação ao consorte de boa-fé, com a sentença anulatória, pois a partir daí não mais existe a condição de cônjuge. Alimentos esses, sem limitação de tempo. O pacto antenupcial prevalece, e será executado unicamente em prol do consorte de boa-fé, conforme gizado pelo art. 232 do C.C.B. O culpado, doutra banda, perderá para o inocente as vantagens econômicas, não podendo pretender meação ou qualquer participação no patrimônio do cônjuge de boa-fé.

            Estando ambos os cônjuges de boa-fé, a partilha dos bens será operada, respeitando-se o regime legal adotado quando contrairam o matrimônio, como se tivesse ocorrido a dissolução pela morte de um deles.

 

Efeitos em relação a terceiros

            Alípio SILVEIRA, em lição acerca da produção de efeitos em relação à terceiros, assim escreve:

"Apesar do nosso Código Civil, à semelhança do que acontece com outros, tais como o italiano e o francês, ser omisso acerca das relações dos cônjuges com terceiros, no casamento putativo, a lógica impõe que se estenda a estes os efeitos da putatividade. Aliás, outro não poderia ser o entendimento, pois, do contrário seria o mesmo que ignorar o fundamento histórico do casamento putativo e negar a base que inspirou o instituto dentro do direito canônico - "utilitate publica suadente", na frase do Papa Inocêncio III, isto é, o interesse da generalidade das pessoas e não somente o dos cônjuges e da prole."

            Realmente, em que pese os percucientes argumentos em contrário, filiamo-nos à corrente doutrinária que entende que o casamento putativo pruduz efeitos em relação à terceiros. E, v.g., um dos exemplos mais evidentes de que assim ocorre é que as doações propter nuptias continuam válidas em relação ao cônjuge de boa-fé, podendo ser, contudo, retidas ao cônjuge de má-fé.

            José Lamartine CORRÊA DE OLIVEIRA e Francisco José FERREIRA MUNIZ, examinam uma das aplicações mais importantes dos efeitos do casamento putativo em relação a terceiros:

"Os atos em relação aos quais a lei exige outorga conjugal - C.C.B., arts. 235 e 242 - serão evidentemente válidos, embora praticados por um dos cônjuges sem a outorga do outro, se declarado nulo ou anulado o casamento, desde que reconhecida a má-fé de ambos os cônjuges. Em função da regra do art. 221, caput, se houve boa-fé de ambos os cônjuges, qualquer deles poderá invocar, em litígio com terceiro, a falta da sua outorga em relação ao ato que o outro praticou sozinho. Se houve boa-fé apenas da parte de um dos cônjuges (boa-fé quanto à celebração do casamento) somente este poderá invocar em juízo a falta de outorga sua à prática do ato. Isto quer dizer que, se o ato foi praticado pelo cônjuge de boa-fé sem a outorga do de má-fé, esse defeito do ato ou negócio jurídico será insuscetível de invocação."

            Produz, pois, o casamento putativo, como visto, inúmeros e importantes efeitos também em relação a terceiros.

            Esta a lição de Pedro SAMPAIO a respeito:

"A Constituição vigente suprimiu todas as desigualdades, anteriormente existentes, relativas à filiação (art. 227, § 6o). Devido a tal fato é induvidosa a derrogação do art. 221, parágrafo único, do Código (a referência "e aos filhos" foi supressa), bem assim do art. 14, parágrafo único, da Lei do Divórcio, no que respeita aos direitos da prole."

            Ou seja, após a Consituição Federal de 1988, não mais existem filhos legítimos ou ilegítimos; apenas e genericamente filhos, expressamente vedada qualquer outra designação discriminatória a respeito. Assim, de resto entendemos também restaram esvaziados os mais nobres motivos que inspiraram a criação do instituto.

Essa pergunta já foi respondida por um dos nossos estudantes