A maior rede de estudos do Brasil

Como fazer a desconsideração da Pessoa Jurídica?

Petição de Desconciderção de Pessoa Jurídica.


2 resposta(s)

User badge image

Tiago

Há mais de um mês

Exmo. Sr. Dr. Juiz de Direito da 04ª Vara Cível da Comarca de Contagem/MG.

 

 

 

 

 

  

PROCESSO Nº:079.05.184.081-1

 

            INDUSTRIAL LTDA, já devidamente qualificada nos autos deste processo, vem respeitosamente perante V. Exa., por seu advogado abaixo assinado, expor e ao final requerer:

 

 

O Réu (seus representantes legais) ardilosamente fabricou a ficha cadastral a fim de efetivar compras de mercadorias e locupletar-se às custas da Autora,  induzindo-a e  mantendo-a em  erro,  mediante artifício, ardil, tipificado no Código Penal em seu art. 171. 

Conforme se verifica nos autos, a Ré aplicou o cano na praça, esvaziou sua sede localizada na Rua Diamante, 180 – Bairro São Joaquim/Contagem – MG.,  e baixou suas portas.   Também seu representante legal, MOACIR, qualificado no contrato social da Ré de fls. 29, que residia na Rua Vero, 175 – Bairro Bandeira/BH – MG., também sumiu deste endereço, conforme certidão do oficial de fls. 38.

 A Sra. DALVA, esposa de MOACIR, que também foi representante legal da Ré, foi localizada na empresa denominada MERCEARIA LTDA – SUPERMERCADO LANADA DA REDE SMART, localizado na Rua Ingla, 225 – Bairro Jardim/BH – MG., local onde este construiu a sede  e desviou toda a mercadoria oriunda do golpe aplicado na praça, tendo o Ilmo. Oficial citado a empresa na pessoa de DALVA naquele local, o que não é mera coincidência de pessoas e de nomes, fls. 57/58.

           

No contrato social da Ré, conforme documento de fls. 29, são sócios MOACIR, C.P.F – e SILVA, C.P.F –.

O Decreto 3.708/19 - que regula a constituição de sociedades por cotas de responsabilidade limitada,  prevê no art. 10 a responsabilidade ilimitada dos sócios em caso de fraude contra a sociedade e para com terceiros.

O jurista ARNOLDO WALD ensina que: “De acordo com a teoria da desconsideração da pessoa jurídica (disregard doctrine), importada do direito anglo-saxão, em algumas hipóteses,  é preciso "levantar o véu" que encobre a realidade e, afastando o biombo que constitui a estrutura jurídica da empresa, procurar aqueles que realmente a comandam, ou a utilizam, para responsabilizá-los pessoalmente quando se servem da empresa como meio de afastar a sua responsabilidade pessoal”.

 

DESCONSIDERAÇÃO DA PESSOA JURÍDICA - diz-se do "afastamento" da personalidade jurídica de uma sociedade (basicamente, privada e mercantil) para buscar corrigir atos que  atinjam-na, comumente em decorrência de manobras fraudulentas de um de seus sócios. Não se trata, necessariamente, de suprimir, extinguir ou tornar nula a sociedade desconsiderada. Configura, isso sim, uma fase momentânea ou casuística durante a qual a pessoa física do sócio pode ser alcançada, como se a pessoa jurídica não estivesse existindo.

Tendo em vista fraudes promovidas por meio da personificação de sociedades anônimas, foi sendo elaborada, por construção jurisprudencial, uma doutrina que busca coibir os abusos verificados. Pretende essa doutrina, para alguns "teoria", penetrar no âmago da sociedade, superando, ou desconsiderando, sua personalidade jurídica, para atingir - e vincular - a responsabilidade do sócio que por trás dela se esconde.

Trata-se de uma teoria surgida na Inglaterra. A primeira aplicação de que se tem registro foi ainda no século XIX (1897), pela justiça inglesa, quando um empresário constituiu uma company, atendendo aos requisitos para estar legalmente constituída (sete sócios), ficando ele com vinte mil ações e os demais seis - todos de sua família - cada qual com uma única ação. A sociedade logo em seguida se revelou insolvente, com um ativo insuficiente para satisfazer as obrigações por ela contraídas, nada sobrando para os credores. O liquidante afirmou que a atividade da company era, na verdade, do empresário, que usara daquele artifício para limitar sua responsabilidade pessoal.  

De lá, chegou aos Estados Unidos, tendo se desenvolvido e se espalhado para outras partes do mundo, inclusive o Brasil. No Direito alemão (durchgriff), tem o sentido de penetração; na Itália, de superação (superamento); em inglês, também é dito levantamento (lifting), embora a expressão inglesa mais comum seja disregard, ou seja, desconsideração.

Em muitos casos, constata-se a transmissão fraudulenta do patrimônio de um devedor pessoa física para o capital da pessoa jurídica por ele constituída e controlada, para ocasionar prejuízo a terceiros, ou, no terreno tributário, ao próprio fisco.

Segundo essa teoria, nos casos em que seja aplicável, atos societários são declarados ineficazes e a importância da pessoa do sócio sobressai em relação à da sociedade, ficando esta desconsiderada, menos relevante, posta em segundo plano.

De acordo com a letra fria da lei, a pessoa jurídica tem capacidade, emite declaração de vontade, contrai obrigações, responde civilmente pelos compromissos assumidos, até mesmo com seu patrimônio, ocorrendo a inadimplência, a inobservância desses compromissos, inclusive no caso de execução forçada. Contudo, os atos que caracterizam as declarações de vontade, a assunção de obrigações e a inadimplência são praticados por seres humanos, ou seja: seus gestores, seus legítimos representantes, os mandatários dos sócios (quando não os próprios).

Lembra CAIO MÁRIO DA SILVA PEREIRA que "o dever indenizatório decorre da relação de causalidade entre o fato e o dano" para concluir pela "obrigação de reparação quando a atividade normalmente desenvolvida pelo autor do dano implicar, por sua natureza, risco para os direitos de outrem."

Não é outro o espírito a nortear a disregard doctrine (ou disregard legal entity) quando, deixando de lado a pessoa jurídica, sai à caça do dirigente, ou sócio, que pratique ato ilícito, infringindo disposição legal, com abuso de poder ou violação de norma estatutária, em prejuízo de terceiros.

Em nosso ordenamento jurídico, como visto, não havia preceito legal que embasasse essa desconsideração da pessoa jurídica, o que levava a que eventuais decisões nesse sentido recorressem à doutrina como fonte do Direito. Aos poucos, foi-se firmando alguma jurisprudência pátria.

Somente em setembro de 1990, pela vez primeira, o direito positivo brasileiro viu surgir base legal autorizando o Poder Judiciário a pôr em prática a desconsideração da pessoa jurídica, na defesa de consumidor que venha a ser lesado em direito seu por procedimento do fornecedor (Lei nº. 8.078/90, o Código de Proteção e Defesa do Consumidor, art. 28).

Observa FÜHRER  que alguma legislação pátria, bem antes do Código de Defesa do Consumidor, de certa forma, previa algo semelhante à desconsideração, como a CLT (art. 2°, § 2º.) e o Decreto-lei nº. 1.736/79, que responsabilizam, além da pessoa jurídica diretamente envolvida, também ou alternativamente empresas coligadas ou sócios-dirigentes.

Conforme várias fontes, o Anteprojeto de Código Civil submetido à apreciação do Senado Federal, há mais de uma década, prevê a incorporação da teoria da desconsideração ao Código, verbis:

 

"A pessoa jurídica não pode ser desvirtuada dos fins estabelecidos no ato constitutivo, para servir de instrumento ou cobertura à prática de atos ilícitos,  ou abusivos, caso em que poderá o juiz, a requerimento de qualquer dos sócios ou do Ministério Público, decretar a exclusão do sócio responsável, ou tais sejam as circunstâncias, a dissolução da sociedade.

"Parágrafo único. Neste caso, sem prejuízo das demais sanções cabíveis, responderão, conjuntamente com os da pessoa jurídica, os bens pessoais do administrador ou representante que dela se houver utilizado de maneira fraudulenta ou abusiva, salvo se norma especial determinar a responsabilidade solidária de todos os membros da administração."

 

Demonstra a jurisprudência que a maioria das práticas que ensejam o recurso à desconsideração da pessoa jurídica, para alcançar a pessoa física eivada de maus propósitos que por trás daquela se esconde, partem de sócios altamente majoritários, detentores da quase totalidade do capital societário, quando mais não sejam firmas familiares, fictícias, unipessoais ou, até, inexistentes (sem registro legal). Nessas hipóteses, os bens auferidos com o negócio estarão em nome daquele sócio quase dono, e a pessoa jurídica não terá patrimônio que garanta e honre os compromissos em seu nome assumidos, em denominados "golpes do colarinho branco".

A desconsideração da pessoa jurídica pode ser invocada em todos os casos de fraude: à lei, ao contrato, contra credores ou à execução; e não somente quanto a dívidas em dinheiro como na obrigação de não fazer ou qualquer outra descumprida em que pareça cabível e recomendável. 

O ilustre jurista português Ferrer Correia afirma que: "A desconsideração se impõe quando a separação entre sociedade e sócio seja invocada para legitimar soluções que sejam contrárias quer ao fim da disposição concreta da lei, quer a uma verdade contratual expressa ou tácita, quer ainda aos princípios gerais da boa fé, do abuso de direito e de fraude”. 

FÁBIO ULHOA COELHO sublinhou que: "o instituto da pessoa jurídica, e especialmente o princípio da autonomia patrimonial, representam elementos típicos de um Direito inserido no sistema de livre iniciativa", de importância basilar para a ordem jurídica do capitalismo. Todavia, essa autonomia patrimonial pode "dar ensejo à realização de fraudes, em prejuízo de credores ou de objetivo fixado por lei". Em tais casos, "a teoria da desconsideração suspende a eficácia episódica do ato constitutivo da pessoa jurídica, para fins de responsabilizar direta e pessoalmente aquele que perpetrou um ato fraudulento ou abusivo de sua autonomia patrimonial" ("Lineamento da Teoria da Desconsideração da Pessoa Jurídica", "Rev. do Advogado", AASP, 1992, nº 36, p. 38).

 

Magnífica síntese encontra-se na obra monumental de J. LAMARTINE CORRÊA DE OLIVEIRA, onde ele ensina que:     "O que importa basicamente é a verificação da resposta adequada à seguinte pergunta: no caso em exame, foi realmente a pessoa jurídica que agiu, ou foi ela mero instrumento nas mãos de outras pessoas, físicas ou jurídicas? Se é em verdade uma outra pessoa que está a agir, utilizando a pessoa jurídica como escudo, e se é essa utilização da pessoa jurídica, fora de sua função, que está tornando possível o resultado contrário à lei, ao contrato, ou às coordenadas axiológicas fundamentais da ordem jurídica (bons costumes, ordem pública), é necessário fazer com que a imputação se faça com predomínio da realidade sobre a aparência”. 

O S.T.J também, vem entendendo que os bens dos sócios respondem solidariamente com os da pessoa jurídica.  Vejamos:

 

DESCONSIDERAÇÃO DA PESSOA JURÍDICA. PRESSUPOSTOS. EMBARGOS DE DEVEDOR.   É POSSÍVEL DESCONSIDERAR A PESSOA JURÍDICA USADA PARA FRAUDAR CREDORES.(Resp. nº 86502/SP (9600047596), Rel. Ministro Ruy Rosado de Aguiar -  04ª Turma, 26/08/96 - pg. 29693)

  

SOCIEDADE POR COTAS DE RESPONSABILIDADE LIMITADA - CHEQUE SEM FUNDOS - DESCONSIDERAÇÃO DA PERSONALIDADE JURÍDICA - SÓCIO DIRIGENTE RESPONSABILIDADE SOLIDÁRIA E ILIMITADA - ART. 10 DO DECRETO 3708/10

A emissão de cheque sem provisão de fundos, por sócio-gerente majoritário de sociedade por cotas de responsabilidade limitada, constitui ato ilícito e fraudulento a provocar a incidência do Art. 10 do Decreto 3708/10 e a desconsideração da personalidade jurídica da sociedade mercantil, a fim de permitir que seu dirigente responda solidária e ilimitadamente pela dívida, notadamente quando a empresa não possuir bens suficientes para solvê-la.

A Disregard Doctrine, de origem Anglo-Saxônica, é o instrumento de que se vale o direito para coibir que a personalidade jurídica seja usada como anteparo para a fraude e para a prática de atos ilícitos, violadores do bom ordenamento jurídico.

Se o Estado reconhece personificação às sociedades mercantis, através da ficção da personalidade jurídica, segundo as regras normativas, pode determinar os limites para essa concessão, bem como retirar-lhe a eficácia, ainda que temporariamente, a fim de viabilizar a fiel observância das normas legais. (Agravo de Instrumento nº 219258-9, 3ª. Câmara Cível do TAMG, Belo Horizonte, Rel. Juiz Dorival Guimaraes Pereira, Unânime, 21.08.96, Publ. RJTAMG 64/79     01.08.97  210197).

 

PENHORA - SOCIEDADE POR COTAS DE RESPONSABILIDADE LIMITADA DESCONSIDERAÇÃO DA PERSONALIDADE JURÍDICA

Embora as pessoas jurídicas, em princípio, não se confundam com os sócios, é penhorável bem pertencente a sociedade, em ação dirigida contra sócio, se o executado e detentor de considerável percentual das cotas sociais, em virtude dessa dupla personalidade não poder constituir óbice a ação do estado no cumprimento do direito creditício do exequente, sendo possível a incidência da teoria da desconsideração da pessoa jurídica com o fim de se evitar que a empresa se transforme em veículo contrário aos interesses da justiça e afete a dignidade do poder judiciário.

(Apelação nº 238119-9, 3ª. Câmara Cível do TAMG, Uberlandia, Rel. Juíza Jurema Brasil Marins, Unânime, 25.06.97).

  

O Código Civil de 2002 adotou a DESCONSIDERAÇÃO DA PESSOA JURÍDICA em seu art. 50 que disciplinain verbis:

 

“Art. 50.  Em caso  de abuso da personalidade jurídica, caracterizado pelo desvio de finalidade, ou pela confusão patrimonial, pode o juiz decidir, a requerimento da parte, ou do Ministério Público quando lhe couber intervir no processo, que os efeitos de certas e determinadas relações de obrigações sejam estendidos aos bens particulares dos administradores ou sócios da pessoa jurídica."

 

 Diante do exposto, e, sustentado pela legislação, doutrina e jurisprudência acima citada, requerer a V. Exa., a DESCONSIDERAÇÃO DA PERSONALIDADE JURÍDICA da empresa Ré a fim de que os bens dos sócios respondam pelo débito, especialmente MOACIR, C.P.F –, incluindo-o como sujeito passivo da presente execução. 

 

Desconsiderada a personalidade jurídica para atingir os bens de MOACIR, requer:

 

I – Seja oficiada a Receita Federal a fim de esta informe a declaração de Bens de MOACIR;

 

II – Seja efetivado o bloqueio de numerários em eventuais contas bancárias de MOACIR, via SISTEMA BACEN, nos termos da lei.

 

 

Nestes termos, pede deferimento.

 

Belo Horizonte, 09 de fevereiro de 2007.

 

 

ADVOGADO

OAB/MG - XXXX

tenta seguir esse modelo, veja se cabe no caso em hipótese, desenvolva a seus modelos propríos seja feliz.

Exmo. Sr. Dr. Juiz de Direito da 04ª Vara Cível da Comarca de Contagem/MG.

 

 

 

 

 

  

PROCESSO Nº:079.05.184.081-1

 

            INDUSTRIAL LTDA, já devidamente qualificada nos autos deste processo, vem respeitosamente perante V. Exa., por seu advogado abaixo assinado, expor e ao final requerer:

 

 

O Réu (seus representantes legais) ardilosamente fabricou a ficha cadastral a fim de efetivar compras de mercadorias e locupletar-se às custas da Autora,  induzindo-a e  mantendo-a em  erro,  mediante artifício, ardil, tipificado no Código Penal em seu art. 171. 

Conforme se verifica nos autos, a Ré aplicou o cano na praça, esvaziou sua sede localizada na Rua Diamante, 180 – Bairro São Joaquim/Contagem – MG.,  e baixou suas portas.   Também seu representante legal, MOACIR, qualificado no contrato social da Ré de fls. 29, que residia na Rua Vero, 175 – Bairro Bandeira/BH – MG., também sumiu deste endereço, conforme certidão do oficial de fls. 38.

 A Sra. DALVA, esposa de MOACIR, que também foi representante legal da Ré, foi localizada na empresa denominada MERCEARIA LTDA – SUPERMERCADO LANADA DA REDE SMART, localizado na Rua Ingla, 225 – Bairro Jardim/BH – MG., local onde este construiu a sede  e desviou toda a mercadoria oriunda do golpe aplicado na praça, tendo o Ilmo. Oficial citado a empresa na pessoa de DALVA naquele local, o que não é mera coincidência de pessoas e de nomes, fls. 57/58.

           

No contrato social da Ré, conforme documento de fls. 29, são sócios MOACIR, C.P.F – e SILVA, C.P.F –.

O Decreto 3.708/19 - que regula a constituição de sociedades por cotas de responsabilidade limitada,  prevê no art. 10 a responsabilidade ilimitada dos sócios em caso de fraude contra a sociedade e para com terceiros.

O jurista ARNOLDO WALD ensina que: “De acordo com a teoria da desconsideração da pessoa jurídica (disregard doctrine), importada do direito anglo-saxão, em algumas hipóteses,  é preciso "levantar o véu" que encobre a realidade e, afastando o biombo que constitui a estrutura jurídica da empresa, procurar aqueles que realmente a comandam, ou a utilizam, para responsabilizá-los pessoalmente quando se servem da empresa como meio de afastar a sua responsabilidade pessoal”.

 

DESCONSIDERAÇÃO DA PESSOA JURÍDICA - diz-se do "afastamento" da personalidade jurídica de uma sociedade (basicamente, privada e mercantil) para buscar corrigir atos que  atinjam-na, comumente em decorrência de manobras fraudulentas de um de seus sócios. Não se trata, necessariamente, de suprimir, extinguir ou tornar nula a sociedade desconsiderada. Configura, isso sim, uma fase momentânea ou casuística durante a qual a pessoa física do sócio pode ser alcançada, como se a pessoa jurídica não estivesse existindo.

Tendo em vista fraudes promovidas por meio da personificação de sociedades anônimas, foi sendo elaborada, por construção jurisprudencial, uma doutrina que busca coibir os abusos verificados. Pretende essa doutrina, para alguns "teoria", penetrar no âmago da sociedade, superando, ou desconsiderando, sua personalidade jurídica, para atingir - e vincular - a responsabilidade do sócio que por trás dela se esconde.

Trata-se de uma teoria surgida na Inglaterra. A primeira aplicação de que se tem registro foi ainda no século XIX (1897), pela justiça inglesa, quando um empresário constituiu uma company, atendendo aos requisitos para estar legalmente constituída (sete sócios), ficando ele com vinte mil ações e os demais seis - todos de sua família - cada qual com uma única ação. A sociedade logo em seguida se revelou insolvente, com um ativo insuficiente para satisfazer as obrigações por ela contraídas, nada sobrando para os credores. O liquidante afirmou que a atividade da company era, na verdade, do empresário, que usara daquele artifício para limitar sua responsabilidade pessoal.  

De lá, chegou aos Estados Unidos, tendo se desenvolvido e se espalhado para outras partes do mundo, inclusive o Brasil. No Direito alemão (durchgriff), tem o sentido de penetração; na Itália, de superação (superamento); em inglês, também é dito levantamento (lifting), embora a expressão inglesa mais comum seja disregard, ou seja, desconsideração.

Em muitos casos, constata-se a transmissão fraudulenta do patrimônio de um devedor pessoa física para o capital da pessoa jurídica por ele constituída e controlada, para ocasionar prejuízo a terceiros, ou, no terreno tributário, ao próprio fisco.

Segundo essa teoria, nos casos em que seja aplicável, atos societários são declarados ineficazes e a importância da pessoa do sócio sobressai em relação à da sociedade, ficando esta desconsiderada, menos relevante, posta em segundo plano.

De acordo com a letra fria da lei, a pessoa jurídica tem capacidade, emite declaração de vontade, contrai obrigações, responde civilmente pelos compromissos assumidos, até mesmo com seu patrimônio, ocorrendo a inadimplência, a inobservância desses compromissos, inclusive no caso de execução forçada. Contudo, os atos que caracterizam as declarações de vontade, a assunção de obrigações e a inadimplência são praticados por seres humanos, ou seja: seus gestores, seus legítimos representantes, os mandatários dos sócios (quando não os próprios).

Lembra CAIO MÁRIO DA SILVA PEREIRA que "o dever indenizatório decorre da relação de causalidade entre o fato e o dano" para concluir pela "obrigação de reparação quando a atividade normalmente desenvolvida pelo autor do dano implicar, por sua natureza, risco para os direitos de outrem."

Não é outro o espírito a nortear a disregard doctrine (ou disregard legal entity) quando, deixando de lado a pessoa jurídica, sai à caça do dirigente, ou sócio, que pratique ato ilícito, infringindo disposição legal, com abuso de poder ou violação de norma estatutária, em prejuízo de terceiros.

Em nosso ordenamento jurídico, como visto, não havia preceito legal que embasasse essa desconsideração da pessoa jurídica, o que levava a que eventuais decisões nesse sentido recorressem à doutrina como fonte do Direito. Aos poucos, foi-se firmando alguma jurisprudência pátria.

Somente em setembro de 1990, pela vez primeira, o direito positivo brasileiro viu surgir base legal autorizando o Poder Judiciário a pôr em prática a desconsideração da pessoa jurídica, na defesa de consumidor que venha a ser lesado em direito seu por procedimento do fornecedor (Lei nº. 8.078/90, o Código de Proteção e Defesa do Consumidor, art. 28).

Observa FÜHRER  que alguma legislação pátria, bem antes do Código de Defesa do Consumidor, de certa forma, previa algo semelhante à desconsideração, como a CLT (art. 2°, § 2º.) e o Decreto-lei nº. 1.736/79, que responsabilizam, além da pessoa jurídica diretamente envolvida, também ou alternativamente empresas coligadas ou sócios-dirigentes.

Conforme várias fontes, o Anteprojeto de Código Civil submetido à apreciação do Senado Federal, há mais de uma década, prevê a incorporação da teoria da desconsideração ao Código, verbis:

 

"A pessoa jurídica não pode ser desvirtuada dos fins estabelecidos no ato constitutivo, para servir de instrumento ou cobertura à prática de atos ilícitos,  ou abusivos, caso em que poderá o juiz, a requerimento de qualquer dos sócios ou do Ministério Público, decretar a exclusão do sócio responsável, ou tais sejam as circunstâncias, a dissolução da sociedade.

"Parágrafo único. Neste caso, sem prejuízo das demais sanções cabíveis, responderão, conjuntamente com os da pessoa jurídica, os bens pessoais do administrador ou representante que dela se houver utilizado de maneira fraudulenta ou abusiva, salvo se norma especial determinar a responsabilidade solidária de todos os membros da administração."

 

Demonstra a jurisprudência que a maioria das práticas que ensejam o recurso à desconsideração da pessoa jurídica, para alcançar a pessoa física eivada de maus propósitos que por trás daquela se esconde, partem de sócios altamente majoritários, detentores da quase totalidade do capital societário, quando mais não sejam firmas familiares, fictícias, unipessoais ou, até, inexistentes (sem registro legal). Nessas hipóteses, os bens auferidos com o negócio estarão em nome daquele sócio quase dono, e a pessoa jurídica não terá patrimônio que garanta e honre os compromissos em seu nome assumidos, em denominados "golpes do colarinho branco".

A desconsideração da pessoa jurídica pode ser invocada em todos os casos de fraude: à lei, ao contrato, contra credores ou à execução; e não somente quanto a dívidas em dinheiro como na obrigação de não fazer ou qualquer outra descumprida em que pareça cabível e recomendável. 

O ilustre jurista português Ferrer Correia afirma que: "A desconsideração se impõe quando a separação entre sociedade e sócio seja invocada para legitimar soluções que sejam contrárias quer ao fim da disposição concreta da lei, quer a uma verdade contratual expressa ou tácita, quer ainda aos princípios gerais da boa fé, do abuso de direito e de fraude”. 

FÁBIO ULHOA COELHO sublinhou que: "o instituto da pessoa jurídica, e especialmente o princípio da autonomia patrimonial, representam elementos típicos de um Direito inserido no sistema de livre iniciativa", de importância basilar para a ordem jurídica do capitalismo. Todavia, essa autonomia patrimonial pode "dar ensejo à realização de fraudes, em prejuízo de credores ou de objetivo fixado por lei". Em tais casos, "a teoria da desconsideração suspende a eficácia episódica do ato constitutivo da pessoa jurídica, para fins de responsabilizar direta e pessoalmente aquele que perpetrou um ato fraudulento ou abusivo de sua autonomia patrimonial" ("Lineamento da Teoria da Desconsideração da Pessoa Jurídica", "Rev. do Advogado", AASP, 1992, nº 36, p. 38).

 

Magnífica síntese encontra-se na obra monumental de J. LAMARTINE CORRÊA DE OLIVEIRA, onde ele ensina que:     "O que importa basicamente é a verificação da resposta adequada à seguinte pergunta: no caso em exame, foi realmente a pessoa jurídica que agiu, ou foi ela mero instrumento nas mãos de outras pessoas, físicas ou jurídicas? Se é em verdade uma outra pessoa que está a agir, utilizando a pessoa jurídica como escudo, e se é essa utilização da pessoa jurídica, fora de sua função, que está tornando possível o resultado contrário à lei, ao contrato, ou às coordenadas axiológicas fundamentais da ordem jurídica (bons costumes, ordem pública), é necessário fazer com que a imputação se faça com predomínio da realidade sobre a aparência”. 

O S.T.J também, vem entendendo que os bens dos sócios respondem solidariamente com os da pessoa jurídica.  Vejamos:

 

DESCONSIDERAÇÃO DA PESSOA JURÍDICA. PRESSUPOSTOS. EMBARGOS DE DEVEDOR.   É POSSÍVEL DESCONSIDERAR A PESSOA JURÍDICA USADA PARA FRAUDAR CREDORES.(Resp. nº 86502/SP (9600047596), Rel. Ministro Ruy Rosado de Aguiar -  04ª Turma, 26/08/96 - pg. 29693)

  

SOCIEDADE POR COTAS DE RESPONSABILIDADE LIMITADA - CHEQUE SEM FUNDOS - DESCONSIDERAÇÃO DA PERSONALIDADE JURÍDICA - SÓCIO DIRIGENTE RESPONSABILIDADE SOLIDÁRIA E ILIMITADA - ART. 10 DO DECRETO 3708/10

A emissão de cheque sem provisão de fundos, por sócio-gerente majoritário de sociedade por cotas de responsabilidade limitada, constitui ato ilícito e fraudulento a provocar a incidência do Art. 10 do Decreto 3708/10 e a desconsideração da personalidade jurídica da sociedade mercantil, a fim de permitir que seu dirigente responda solidária e ilimitadamente pela dívida, notadamente quando a empresa não possuir bens suficientes para solvê-la.

A Disregard Doctrine, de origem Anglo-Saxônica, é o instrumento de que se vale o direito para coibir que a personalidade jurídica seja usada como anteparo para a fraude e para a prática de atos ilícitos, violadores do bom ordenamento jurídico.

Se o Estado reconhece personificação às sociedades mercantis, através da ficção da personalidade jurídica, segundo as regras normativas, pode determinar os limites para essa concessão, bem como retirar-lhe a eficácia, ainda que temporariamente, a fim de viabilizar a fiel observância das normas legais. (Agravo de Instrumento nº 219258-9, 3ª. Câmara Cível do TAMG, Belo Horizonte, Rel. Juiz Dorival Guimaraes Pereira, Unânime, 21.08.96, Publ. RJTAMG 64/79     01.08.97  210197).

 

PENHORA - SOCIEDADE POR COTAS DE RESPONSABILIDADE LIMITADA DESCONSIDERAÇÃO DA PERSONALIDADE JURÍDICA

Embora as pessoas jurídicas, em princípio, não se confundam com os sócios, é penhorável bem pertencente a sociedade, em ação dirigida contra sócio, se o executado e detentor de considerável percentual das cotas sociais, em virtude dessa dupla personalidade não poder constituir óbice a ação do estado no cumprimento do direito creditício do exequente, sendo possível a incidência da teoria da desconsideração da pessoa jurídica com o fim de se evitar que a empresa se transforme em veículo contrário aos interesses da justiça e afete a dignidade do poder judiciário.

(Apelação nº 238119-9, 3ª. Câmara Cível do TAMG, Uberlandia, Rel. Juíza Jurema Brasil Marins, Unânime, 25.06.97).

  

O Código Civil de 2002 adotou a DESCONSIDERAÇÃO DA PESSOA JURÍDICA em seu art. 50 que disciplinain verbis:

 

“Art. 50.  Em caso  de abuso da personalidade jurídica, caracterizado pelo desvio de finalidade, ou pela confusão patrimonial, pode o juiz decidir, a requerimento da parte, ou do Ministério Público quando lhe couber intervir no processo, que os efeitos de certas e determinadas relações de obrigações sejam estendidos aos bens particulares dos administradores ou sócios da pessoa jurídica."

 

 Diante do exposto, e, sustentado pela legislação, doutrina e jurisprudência acima citada, requerer a V. Exa., a DESCONSIDERAÇÃO DA PERSONALIDADE JURÍDICA da empresa Ré a fim de que os bens dos sócios respondam pelo débito, especialmente MOACIR, C.P.F –, incluindo-o como sujeito passivo da presente execução. 

 

Desconsiderada a personalidade jurídica para atingir os bens de MOACIR, requer:

 

I – Seja oficiada a Receita Federal a fim de esta informe a declaração de Bens de MOACIR;

 

II – Seja efetivado o bloqueio de numerários em eventuais contas bancárias de MOACIR, via SISTEMA BACEN, nos termos da lei.

 

 

Nestes termos, pede deferimento.

 

Belo Horizonte, 09 de fevereiro de 2007.

 

 

ADVOGADO

OAB/MG - XXXX

tenta seguir esse modelo, veja se cabe no caso em hipótese, desenvolva a seus modelos propríos seja feliz.

User badge image

MARCO

Há mais de um mês

A desconsideração da separação entre o patrimônio da pessoa jurídica e o patrimônio particular das pessoas físicas ou outras pessoas jurídicas que a constituíram só é possivel por meio de decisão judicial, que como todas as decisões judiciais, deve respeitar o contraditório e a ampla defesa. 

Essa pergunta já foi respondida por um dos nossos estudantes