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O que seria a "a multiplicação das vozes"?

Segundo o livro "A Invenção do Psicológico".


3 resposta(s)

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Rômulo

Há mais de um mês

Representa a influência obtida pela polifonia flamenga.

 

Em trechos do Livro, o autor, Luís Cláudio Mendonça Figueiredo, diz o seguinte:

 

"A multiplicação das vozes e a confusão das línguas encontram uma expressão cristalina na música contrapontista que começou a se desenvolver na Europa desde o século XI e alcançou seu apogeu no século XV, no estilo flamengo da composição polifônica. À partir dos países baixos, daquela mesma Antuérpia por onde iniciamos e que na época pertencia ao ducado de Borgonha, a polifonia flamenga (ou escola borgonhesa) difundiu-se pelas cidades e côrtes européias.
Em contraposição à música sacra medieval -a voz coletiva, repetitiva, envolvente e funcional do cantochão -,às músicas profanas e danças populares e, finalmente, à música trovadoresca - em que já se reconhece a marca de uma individualidade em canções simples e funcionais que eram, fundamentalmente, suportes sonoros para textos poéticos, a polifonia flamenga institui a dispersão e a autonomia das vôzes (cf. Caznók. 1992). Vozes humanas e instrumentos entoam diferentes melodias, às vêzes com textos diferentes, sendo uns profanos e outros sagrados, uns cívicos e oulros líricos, às vezes em línguas diferentes e ... tudo ao mesmo tempo. Há composições escritas para mais de trinta vozes, o que excede em muito a nossa capacidade auditiva.
A polifonia flamenga impõe uma audição horizontal; não havia uma clara e permanente segregação de figura e fundo. Todas as vozes recebem o mesmo status e o ouvido transita entre elas sem jamais percebessem que uma se destaca na superfície enquanto as demais acompanham a um nível de maior profundidade. São vozes não hierarquizadas concorrendo em condi~ões de igualdade pela atenção do ouvinte.
As vozes falam muito. mas pouco se fazem entender em qualquer sentido extra-musícal. A funcionalidade sagrada ou lírica se perde junto às mensagens dos textos que se tornam ininteligíveis. As vozes, ao se fazerem autônomas, instituem a autonomia da música em relação às palavras e da audição musical em relação às funções sociais e religiosas. O que vale são os sons nas suas móveis e cambiantes harmonias. Há uma ênfase na composição, com tudo que o termo carrega de técnica artesanal e artifício. Há uma preocupação com o deleite sensorial, com o experimental e com o lúdico.
O canto gregoriano tem, enquanto gênero, uma identidade tão bem definida que todos os cantos se parecem uns com os outros: na polifonia da escola borgonhesa, não só há diferentes compositores imprimirão seus estilos pessoais às suas obras, como a identidade foi de tal forma trabalhando que cada composição, no limite, não se parece nem consigo mesma, no sentido de que as diversas vozes autonomas não conservam uma relação de permanência necessária com o todo de que fazem parte. Uma composição escrita para quatro vozes pode ser cantada a três se faltarem os elementos da quarta voz..."


Abçs

Representa a influência obtida pela polifonia flamenga.

 

Em trechos do Livro, o autor, Luís Cláudio Mendonça Figueiredo, diz o seguinte:

 

"A multiplicação das vozes e a confusão das línguas encontram uma expressão cristalina na música contrapontista que começou a se desenvolver na Europa desde o século XI e alcançou seu apogeu no século XV, no estilo flamengo da composição polifônica. À partir dos países baixos, daquela mesma Antuérpia por onde iniciamos e que na época pertencia ao ducado de Borgonha, a polifonia flamenga (ou escola borgonhesa) difundiu-se pelas cidades e côrtes européias.
Em contraposição à música sacra medieval -a voz coletiva, repetitiva, envolvente e funcional do cantochão -,às músicas profanas e danças populares e, finalmente, à música trovadoresca - em que já se reconhece a marca de uma individualidade em canções simples e funcionais que eram, fundamentalmente, suportes sonoros para textos poéticos, a polifonia flamenga institui a dispersão e a autonomia das vôzes (cf. Caznók. 1992). Vozes humanas e instrumentos entoam diferentes melodias, às vêzes com textos diferentes, sendo uns profanos e outros sagrados, uns cívicos e oulros líricos, às vezes em línguas diferentes e ... tudo ao mesmo tempo. Há composições escritas para mais de trinta vozes, o que excede em muito a nossa capacidade auditiva.
A polifonia flamenga impõe uma audição horizontal; não havia uma clara e permanente segregação de figura e fundo. Todas as vozes recebem o mesmo status e o ouvido transita entre elas sem jamais percebessem que uma se destaca na superfície enquanto as demais acompanham a um nível de maior profundidade. São vozes não hierarquizadas concorrendo em condi~ões de igualdade pela atenção do ouvinte.
As vozes falam muito. mas pouco se fazem entender em qualquer sentido extra-musícal. A funcionalidade sagrada ou lírica se perde junto às mensagens dos textos que se tornam ininteligíveis. As vozes, ao se fazerem autônomas, instituem a autonomia da música em relação às palavras e da audição musical em relação às funções sociais e religiosas. O que vale são os sons nas suas móveis e cambiantes harmonias. Há uma ênfase na composição, com tudo que o termo carrega de técnica artesanal e artifício. Há uma preocupação com o deleite sensorial, com o experimental e com o lúdico.
O canto gregoriano tem, enquanto gênero, uma identidade tão bem definida que todos os cantos se parecem uns com os outros: na polifonia da escola borgonhesa, não só há diferentes compositores imprimirão seus estilos pessoais às suas obras, como a identidade foi de tal forma trabalhando que cada composição, no limite, não se parece nem consigo mesma, no sentido de que as diversas vozes autonomas não conservam uma relação de permanência necessária com o todo de que fazem parte. Uma composição escrita para quatro vozes pode ser cantada a três se faltarem os elementos da quarta voz..."


Abçs
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Rômulo

Há mais de um mês

Eu que agradeço Luan! Não conhecia o livro e já estou lendo. Obrigado!

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