A maior rede de estudos do Brasil

Qual a relação entre iluminismo ,antropologia e evolucionismo?


1 resposta(s)

User badge image

LR

Há mais de um mês

O Iluminismo, a Antropologia e o Evolucionismo relacionam-se pela chave do Funcionalismo. A Antropologia e a Sociologia funcionalista surge em resposta crítica ao evolucionismo, e motivados especialmente pelas transformações da Revolução Industrial e do sentimento iluminista de valorização da ciência e recusa das explicações metafísicas (divinas).

O funcionalismo é o “Termo adotado nas ciências humanas para indicar doutrinas e métodos de pesquisa que fazem uso do conceito , diversamente entendido e definido, de função” (ABBAGNANO, 2007: 550). Assim o funcionalismo pode incidir em diversas áreas, como a psicologia, a antropologia, a sociologia, a pedagogia, etc. A Antropologia funcionalista surge em resposta as teorias de ‘biologização das relações sociais’, ou seja, em resposta as teorias do Evolucionismo, e é norteada especialmente por três autores: Malinowski, Dukheim e Radcliffe-Brown.

-- A contribuição de Malinowski ao funcionalismo diz respeito especialmente aos seus “os métodos [qualitativos] de trabalho sistemático de campo” (BOBBIO, 1993: 46). Seu livro Os Argonautas do Pacífico Ocidental (1979) quebra com a tradição evolucionista e dá início ao período moderno da antropologia. As bases do antropólogo na tentativa de compreender uma cultura desconhecida, deveria ser perfeitamente sistematizáveis em termos de valores e categorias, o que exigia do pesquisador uma atitude por lado de caráter emocional, que pressupõe abertura e tolerância em relação ou ‘outro’” e por outro “de caráter intelectual, que pressupõe disciplina e controle voltados aos próprios valores morais e categorias de percepção e de entendimento presentes inevitavelmente no mundo do investigador” (QUEIROZ, 2005: 108). O método qualitativo de Malinowski compreendia o fato social em sua totalidade: “O fato social, nessa perspectiva, só adquire sentido no interior do contexto cultural que o configura. Se esse fato for isolado de seu contexto, ele poderá parecer absurdo e irracional.” (QUEIROZ, 2005: 110). Não ignorava com isso a utilidade do método quantitativo, mas salientava que haviam aspectos da vida imensuráveis: “além de um levantamento de dados quantitativos, uma avaliação dos imponderáveis da vida social, do colorido emocional presente nos eventos, que escapam ao controle numérico e exigem do pesquisador uma abertura emocional e intuitiva” (QUEIROZ, 2005: 110).

-- Para  Durkheim função era a “correspondência entre uma instituição e as necessidades de uma organismo social, vale dizer, como a atividade pela qual uma instituição contribui para a manutenção do organismo” (ABBAGNANO, 2997: 548) Para Durkheim existe uma relação de causa e efeito, mas não no sentido de gerar um telo, uma finalidade: “quando se procura explicar um fenômeno social, é preciso pesquisar separadamente a causa eficiente que o produz e a função que ele cumpre” (DURKHEIM, 1966: 97). Durkheim não acredita no finalismo porque a própria realidade gera mudanças de acordo com as necessidades, mesmo que seja uma mobilidade inconsciente. Ao passo que economia, religião e família são singularidades importantes para a manutenção da vida, é na apreciação dessas singularidades, vistas como coisas por serem tanto externas ao homem como generalizadas no senso comum, que se torna possível destacar determinados comportamentos como categorias, como fatos/fenômenos sociais. O autor afirma também que o único método que compete a Sociologia é o comparativo, sendo assim a empiria é fundamental, desde que entendida de acordo com sua composição, a fim de traçar uma análise indutiva das ações a serem verificadas. O trabalho de campo de Durkheim, gerou o livro A divisão social do trabalho (1999). Para Durkheim os frutos econômicos que a divisão do trabalho pudessem vir a proporcionar, não eram tão importantes quando o efeito moralizante que a divisão do trabalho poderia representar. Aqui o funcionalismo de Durkheim se apresenta: Havendo a necessidade de organização social, a divisão do trabalho social é o fato social que cumpre essa função. Isso significa dizer que, mais do que o aspecto econômica do trabalho, o seu aspecto moralmente estruturante era o que tornava a divisão do trabalho social de extrema importância para a manutenção da sociedade. Essa lógica também se apresenta por outras vias: A moral é mais importante que do que a ciência, pois é uma questão moral não ignorar os conhecimentos da Ciência, mas a moral em si não é objeto da ciência; A ideia se senso comum é a anterior a definição de um crime, você reprova não por ser um crime, e sim é crime porque você reprova.

-- Radcliffe-Brown: compreende a função “de uma atividade social recorrente (p.ex., a punição dos crimes ou uma cerimónia fúnebre) como ‘o papel que ela desempenha na vida social como um todo e, por isso, a contribuição que ela dá para a manutenção da continuidade estrutural’ (ABBAGNANO, 2007: 548). Em um momento onde as ciências humanas se viram diante da necessidade da atualização de suas bases teóricas e metodológicas. A conjuntura global pedia que a compreensão a respeito da política, dos Estados e seus regimes fosse revisada, “seja pela descoberta de que no continente africano continuavam a existir e a funcionar sistemas políticos "tradicionais", quando, no resto do mundo, sistemas desse tipo estavam desaparecendo rapidamente. A série de pesquisas que se ocuparam, pela primeira vez, do estudo dos sistemas políticos tradicionais na África combinam os métodos de trabalho sistemático de campo' de Malinowski com a perspectiva sociológica funcional de Durkheim, retomada por Radcliffe-Brown.”(BOBBIO, 1993: 46). O funcionalismo da política, verificável em Radcliffe-Brown assumia uma perspectiva teórica que definia “de modo unilateral: a manutenção da ordem e da coesão social. A política estava a serviço do conjunto da organização, nunca na perspectiva de uma estratificação não igualitária dos grupos.” (BOBBIO, 1993: 46).

Referencias Bibliográficas:

DURKHEIM, Émile. As regras do método sociológico. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 4ed, 1966.

DURKHEIM, Émile. 1999. Da divisão do trabalho social, São Paulo: Martins Fontes:1-109..

QUEIROZ, Marcos S. Antropologia, saúde e medicina: uma perpectiva teórica e partir da teoria da ação comunicativa de Habermas. In MANAYO, Maria Cecília de Souza (org). Críticas e atuantes: ciências sociais e humanas em saúde na América Latina. Rio de Janeiro, FIOCRUZ, 2005.

ABBAGNANO, Nicola. Dicionário de Filosofia. São Paulo: Martins Fontes, 2007.

BOBBIO, Norberto; MATTEUCCI, Nicola; PASQUINO, Gianfranco. Dicionário de Política. 5. ed. Brasília: Edunb, 1993.

O Iluminismo, a Antropologia e o Evolucionismo relacionam-se pela chave do Funcionalismo. A Antropologia e a Sociologia funcionalista surge em resposta crítica ao evolucionismo, e motivados especialmente pelas transformações da Revolução Industrial e do sentimento iluminista de valorização da ciência e recusa das explicações metafísicas (divinas).

O funcionalismo é o “Termo adotado nas ciências humanas para indicar doutrinas e métodos de pesquisa que fazem uso do conceito , diversamente entendido e definido, de função” (ABBAGNANO, 2007: 550). Assim o funcionalismo pode incidir em diversas áreas, como a psicologia, a antropologia, a sociologia, a pedagogia, etc. A Antropologia funcionalista surge em resposta as teorias de ‘biologização das relações sociais’, ou seja, em resposta as teorias do Evolucionismo, e é norteada especialmente por três autores: Malinowski, Dukheim e Radcliffe-Brown.

-- A contribuição de Malinowski ao funcionalismo diz respeito especialmente aos seus “os métodos [qualitativos] de trabalho sistemático de campo” (BOBBIO, 1993: 46). Seu livro Os Argonautas do Pacífico Ocidental (1979) quebra com a tradição evolucionista e dá início ao período moderno da antropologia. As bases do antropólogo na tentativa de compreender uma cultura desconhecida, deveria ser perfeitamente sistematizáveis em termos de valores e categorias, o que exigia do pesquisador uma atitude por lado de caráter emocional, que pressupõe abertura e tolerância em relação ou ‘outro’” e por outro “de caráter intelectual, que pressupõe disciplina e controle voltados aos próprios valores morais e categorias de percepção e de entendimento presentes inevitavelmente no mundo do investigador” (QUEIROZ, 2005: 108). O método qualitativo de Malinowski compreendia o fato social em sua totalidade: “O fato social, nessa perspectiva, só adquire sentido no interior do contexto cultural que o configura. Se esse fato for isolado de seu contexto, ele poderá parecer absurdo e irracional.” (QUEIROZ, 2005: 110). Não ignorava com isso a utilidade do método quantitativo, mas salientava que haviam aspectos da vida imensuráveis: “além de um levantamento de dados quantitativos, uma avaliação dos imponderáveis da vida social, do colorido emocional presente nos eventos, que escapam ao controle numérico e exigem do pesquisador uma abertura emocional e intuitiva” (QUEIROZ, 2005: 110).

-- Para  Durkheim função era a “correspondência entre uma instituição e as necessidades de uma organismo social, vale dizer, como a atividade pela qual uma instituição contribui para a manutenção do organismo” (ABBAGNANO, 2997: 548) Para Durkheim existe uma relação de causa e efeito, mas não no sentido de gerar um telo, uma finalidade: “quando se procura explicar um fenômeno social, é preciso pesquisar separadamente a causa eficiente que o produz e a função que ele cumpre” (DURKHEIM, 1966: 97). Durkheim não acredita no finalismo porque a própria realidade gera mudanças de acordo com as necessidades, mesmo que seja uma mobilidade inconsciente. Ao passo que economia, religião e família são singularidades importantes para a manutenção da vida, é na apreciação dessas singularidades, vistas como coisas por serem tanto externas ao homem como generalizadas no senso comum, que se torna possível destacar determinados comportamentos como categorias, como fatos/fenômenos sociais. O autor afirma também que o único método que compete a Sociologia é o comparativo, sendo assim a empiria é fundamental, desde que entendida de acordo com sua composição, a fim de traçar uma análise indutiva das ações a serem verificadas. O trabalho de campo de Durkheim, gerou o livro A divisão social do trabalho (1999). Para Durkheim os frutos econômicos que a divisão do trabalho pudessem vir a proporcionar, não eram tão importantes quando o efeito moralizante que a divisão do trabalho poderia representar. Aqui o funcionalismo de Durkheim se apresenta: Havendo a necessidade de organização social, a divisão do trabalho social é o fato social que cumpre essa função. Isso significa dizer que, mais do que o aspecto econômica do trabalho, o seu aspecto moralmente estruturante era o que tornava a divisão do trabalho social de extrema importância para a manutenção da sociedade. Essa lógica também se apresenta por outras vias: A moral é mais importante que do que a ciência, pois é uma questão moral não ignorar os conhecimentos da Ciência, mas a moral em si não é objeto da ciência; A ideia se senso comum é a anterior a definição de um crime, você reprova não por ser um crime, e sim é crime porque você reprova.

-- Radcliffe-Brown: compreende a função “de uma atividade social recorrente (p.ex., a punição dos crimes ou uma cerimónia fúnebre) como ‘o papel que ela desempenha na vida social como um todo e, por isso, a contribuição que ela dá para a manutenção da continuidade estrutural’ (ABBAGNANO, 2007: 548). Em um momento onde as ciências humanas se viram diante da necessidade da atualização de suas bases teóricas e metodológicas. A conjuntura global pedia que a compreensão a respeito da política, dos Estados e seus regimes fosse revisada, “seja pela descoberta de que no continente africano continuavam a existir e a funcionar sistemas políticos "tradicionais", quando, no resto do mundo, sistemas desse tipo estavam desaparecendo rapidamente. A série de pesquisas que se ocuparam, pela primeira vez, do estudo dos sistemas políticos tradicionais na África combinam os métodos de trabalho sistemático de campo' de Malinowski com a perspectiva sociológica funcional de Durkheim, retomada por Radcliffe-Brown.”(BOBBIO, 1993: 46). O funcionalismo da política, verificável em Radcliffe-Brown assumia uma perspectiva teórica que definia “de modo unilateral: a manutenção da ordem e da coesão social. A política estava a serviço do conjunto da organização, nunca na perspectiva de uma estratificação não igualitária dos grupos.” (BOBBIO, 1993: 46).

Referencias Bibliográficas:

DURKHEIM, Émile. As regras do método sociológico. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 4ed, 1966.

DURKHEIM, Émile. 1999. Da divisão do trabalho social, São Paulo: Martins Fontes:1-109..

QUEIROZ, Marcos S. Antropologia, saúde e medicina: uma perpectiva teórica e partir da teoria da ação comunicativa de Habermas. In MANAYO, Maria Cecília de Souza (org). Críticas e atuantes: ciências sociais e humanas em saúde na América Latina. Rio de Janeiro, FIOCRUZ, 2005.

ABBAGNANO, Nicola. Dicionário de Filosofia. São Paulo: Martins Fontes, 2007.

BOBBIO, Norberto; MATTEUCCI, Nicola; PASQUINO, Gianfranco. Dicionário de Política. 5. ed. Brasília: Edunb, 1993.

Essa pergunta já foi respondida por um dos nossos estudantes