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A base da antropologia atual é afirmação do principio de alteridade e a negação do etnocentrismo. Explique.

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LR

 

Antes de explicar a frase, definições prévias são necessárias:

I) ALTERIDADE: O princípio da Alteridade é o de “Ser outro, colocar-se ou constituir-se como outro” (ABBAGNANO, 2007: 34). Alteridade não se trata nem de diversidade, nem de diferença, ou seja, não é “puramente numérica” como a diversidade, tampouco implica “a determinação da diversidade” como a diferença o sempre exige. A Alteridade trata-se então de uma relação dialética, que Hegel define da seguinte forma: a Alteridade “acompanha todo o desenvolvimento dialético da Idéia, porque é inerente ao momento negativo, intrínseco a esse desenvolvimento. De fato, tão logo estejam fora do ser indeterminado, que tem como negação o nada puro, as determinações negativas da Idéia tornam-se, por sua vez, alguma coisa de determinado, isto é, um ‘ser outro’ que não aquilo mesmo que negam. ‘A negação — não mais como o nada abstrato, mas como um ser determinado e um algo — é somente forma para esse algo, é um ser outro’” (ABBAGNANO, 2007: 34). Assim, por Alteridade compreendesse ser uma distinção não numérica, desprendida da necessidade de determinar as diversidades, que se constrói através da relação dialética com do todo, onde o eu individual existir mediante contato com o outro.

II) ETNOCENTRISMO: O controverso Etnocentrismo trata-se da “Tese de quem afirma a centralidade e superioridade de sua própria cultura” (ABBAGNANO, 2007: 452). Apesar do profundo enraizamento dessa tese, as criticas por ela geradas são muitas. Lévi-Strauss é um dos grandes nomes do Anti-Etnocentrismo: “Contra a perpectiva etnocêntrica, equiparada a uma espécie de ‘canibalismo intelectual’ baseado no preconceito segundo o qual o que não pertence à nossa cultura não passa de barbárie, o antropólogo francês aduz o argumento principal: esse é precisamente o ponto de vista dos bárbaros.” (ABBAGNANO, 2007: 452). Levi-Strauss acusa aqueles que defendem e optam metodologicamente pela tese etnocêntrica de possuírem as mesmas características incivilizadas que procuram entre os povos considerados incivilizados: “De fato, quando pretendemos estabelecer uma discriminação de valor entre as culturas, identificamo-nos completamente com o que tentamos negar: ‘O bárbaro é acima de tudo o homem que acredita na barbárie.’.” (ABBAGNANO, 2007: 452). Entretanto, deve-se mencionar que há também aqueles que, apesar de não serem a favor do etnocentrismo, são anti-anti-etnocêntricos: “O antiantietnocentrismo convida [...] a aceitar com absoluta seriedade o fato de que os ideais da justiça procedimental e da igualdade humana são desenvolvimentos culturais provinciais, recentes e excêntricos e perceber que nem por isso vale menos a pena lutar por eles; insiste no fato de que os ideais podem ser locais e ligados a uma cultura e apesar disso constituem a maior esperança da espécie.” (ABBAGNANO, 2007: 452).

Retomando a questão: A base da antropologia atual é afirmação do principio de alteridade e a negação do etnocentrismo. Feitas as definições acima, fica claro que a antropológica deve ter como base o princípio de Alteridade, da ação de distinção mediada pela relação dialética com do todo, onde o eu individual existir mediante contato com o outro. Também fica clara que não pode etnocêntrica, ou seja, tampouco o antropólogo considerar a própria cultura central e superior que a cultura de outros povos. Essas questões estão todas presentes na Antropologia de Roy Wagner.

- Wagner e a negação do etnocentrismo: “Que a nossa realidade se apoie nessa ideologia e nos seus pressupostos corolários, não implica maiores problemas que os que cada um de nós pode ter que resolver no seu dia a dia. O problema para a prática antropológica (que é, lembremos, um problema ético) é o “etnocentrismo etnológico”, o efeito do mascaramento desse modo nosso de criatividade, ou seja, o uso de “nossa própria realidade como um controle para a invenção de culturas”, e, portanto, a invenção de “culturas que contrastam com parte de nosso esquema conceitual, e não com sua totalidade” (Wagner 2010: 218-219). A equação entre a Cultura como polo marcado e as culturas como polos não marcados permite resolver as coisas desse modo e manter as distinções de base do universalismo versus relativismo. O preço a pagar não somos nós que o pagamos: é “a essência da criatividade deles” que “é desnaturada e obscurecida” (idem) ao mesmo tempo em que se produz o “banimento intelectual da invenção e da relatividade da convenção em prol da ratificação de nosso próprio mundo convencional” (Wagner 2010: 234).” (RAMO Y AFFONSO, 2015: 64).

- Wagner o princípio de Alteridade: “A questão agora é a de imaginar os modos de penetrar esta virtualidade, de participar dessa “ontologia relacional” e deixar-nos afetar e alterar pelo “nexo de alteridade”: “a diferença ou ponto de vista implicado em Outrem” (Viveiros de Castro 2001: 09). As consequências éticas e metodológicas dessa intenção ainda estão por ser desdobradas; o primeiro passo, em qualquer caso, é o de des-atualizar o mesmo da antropologia, torná-lo explícito, desmascará-lo – mesmo este que diz respeito, entre outros aspectos, à individualidade do próprio antropólogo, à sua natureza de entidade acabada que “faz” coisas, como cultura (ou teses), à sua reificação acadêmica. Pois, apesar das boas intenções que carregamos na mochila, a experiência de uma relação outra com outrem, a real “invenção” da cultura, é algo que sempre deve ser apreendido pela primeira vez. “Precisamos ser capazes”, diz Wagner, “de experienciar nosso objeto de estudo, diretamente, como significado alternativo, em vez de fazê-lo indiretamente, mediante sua literalização ou redução aos termos de nossas ideologias” (Wagner 2010: 66).” (RAMO Y AFFONSO, 2015: 68).

Para Wagner todo ser humano é um antropólogo, um inventor de cultura. Todo homem possui uma herança cultural, e possui porque todo homem nasce e cresce imerso um determinado patrão de vida materialmente e socialmente consolidado através dos séculos. Em outras palavras, todo homem possui para um conjunto de convenções compartilhadas através de uma processo de invenção coletiva da cultura. E esse conjunto de convenções são as ferramentas socias que garantem a reprodutividade da própria vida, na medida em que o torna apto a se comunidade e a compreender as experiências que se apresentam inevitavelmente ao longo da vida. São dois os aspectos elementares aqui: 1) A invenção é o princípio da cultura, e há humanidade sem cultura; 2) É cíclica a seguinte relação: a comunicação é o conjunto de associações e convenções compartilhadas, a o conjunto de associações e convenções compartilhadas é o que permite a comunicação. Expressão e comunicação são interdependentes: nenhuma é possível sem a outra. (WAGNER, 2010:76). Toda experiência e todo compreensão sobre ela, é uma de invenção, ou seja, a relação dialética entre a materialidade concreta da vida e o pensamento gerado por ela, o que elementarmente é o princípio da cultura. Mas a invenção só é possível mediante a existência de um conjunto de associações e convenções compartilhadas, pois é esse conjunto é o que é a própria comunicação e também o que gera a comunicação. A invenção só se concluir quando ela é comunicada, mas não apenas comunicada, mas é expressada, significada. Se a comunicação só “é possível mediante o compartilhamento de associações derivadas de certos contextos convencionais por aqueles que desejam se comunicar.” (WAGNER, 2010: 80), e expressão é mediada de antemão pelo contexto e pelas convenções já dadas, já naturalizadas do indivíduo e no coletivo, por exemplo “A moralidade é uma espécie de significado , um significado com direção, propósito e motivação, e não um substrato sistêmico” (WAGNER, 2010:82). Toda expressão carrega em si um significado. A invenção da cultura é uma relação dialético da experiência e do pensamento, e para tal é necessário a preexistência um conjunto de informações, mas esse processo só se conclui mediante o esforço comunicativo, e o esforço comunicativo é também expressivo, ou seja o ato de expressar algo carrega em si um significado fruto dos sentimentos individuais ou coletiva gerados da experiência vivida, o só se expressa algo através do esforço comunicativo. Ou seja, assim como o antropólogo ou homem algum no mundo, não é tabula rasa, a invenção também não parte do nada, nunca há uma primeira invenção, há um ciclo continuo de invenção e reinvenção da cultura gerado pelo espontaneísmo e pela criatividade tipicamente humana.

Wagner, em A invenção da Cultura (2010), explica o aspecto cíclico da invenção da cultura da seguinte forma: “Os vários contextos de uma cultura obtêm suas características significativas uns dos outros, por meio da participação de elementos simbólicos em mais de um contexto. Eles são inventados uns a partir dos outros, e a ideia de que alguns dos contextos reconhecidos em  uma cultura são "básicos" ou "primários", ou representam o "inato",  ou de que suas propriedades são de algum modo essencialmente objetivas ou reais, é uma ilusão cultural.” (WAGNER, 2010: 83). Essa ilusão é a chave no processo, “uma ilusão necessária, que faz parte do viver em uma cultura e do inventá-la” (WAGNER, 2010, p. 83), é , desenhando-se o mundo à maneira como se crê, que a cultura é experiênciada e inventada continuamente, não somente perpetuando seus contextos nesse processo de “invenção uns a partir dos outros e uns por meio dos outros” (WAGNER, 2010, p.94), como também os estendendo pois não apenas se mantém o que se aprende, como também se adapta o que foi ensinada as novas realidades que possuam concretamente surgir:“Isso significa que não podemos apelar para a força de algo chamado ‘tradição’, ‘educação’ ou orientação espiritual para dar conta da continuidade cultural – ou, na verdade, da mudança cultural. As associações simbólicas que as pessoas compartilham, sua ‘moralidade’, ‘cultura’, ‘gramática’ ou ‘costumes’, duas ‘tradições’, são tão dependentes de continua reinvenção quanto as idiossincrasias, retalhes e cacoetes que elas percebem em si mesmas ou no mundo que as cerca. A invenção perpetua não apenas as coisas que ‘aprendemos’, como a língua ou boas maneiras, mas também as regularidades de nossa percepção, como cor e sim, e mesmo o tempo e o espaço.” (WAGNER, 2010, p.94).

O coletivo e o convencional dialogam com o individual e idiossincrático, desta forma fazem sentido, “contextos coletivos só podem ser retirados e reconhecidos como tais ao serem continuamente filtrados através das malhas do individual e do particular, e as características individuais e particulares do mundo só podem ser retiradas e reconhecidas com tais ao serem filtradas através das malhas do convencional.” (WAGNER, 2010, p.95) É a convenção que define sob quais circunstâncias o ator irá movimentar. Em um só momento, a invenção se dá com o intuito de ratificar a orientação convencional, conforme o texto: “A necessidade da invenção é dada pela convenção cultural e a necessidade da convenção cultural é dada pela invenção.” (WAGNER, 2010, p. 96). Estas têm entre si, portanto, uma relação dialética, o que configura uma relação de interdependência: “Inventamos para sustentar e restaurar nossa orientação convencional; aderimos a essa orientação para efetivar o poder e os ganhos que a invenção nos traz.” (WAGNER, 2010, p.96).

 

Referências bibliográficas:

WAGNER, Roy. A invenção da cultura. São Paulo: Cosac Naify, 2010.

RAMO Y AFFONSO, A. M. . O antropologo e a vida. In Teoria & Sociedade (UFMG) , v. Num. Espec, p. 62, 2015.

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