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Todos países modernos, assumem funções Administrativas, mas nem todos possuem o regime administrativo, escreveu MAURICE HAURIOU. Concorda?


2 resposta(s)

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Especialistas PD

Há mais de um mês

Sobre essa afirmação, Gilles Cistac, Professor Associado da Faculdade de Direito da Universidade Eduardo Mondlane, esclarece:

"Assumir funções administrativas" significa simplesmente providenciar às necessidades de ordem pública e assegurar o funcionamento de alguns serviços públicos para satisfação do interesse geral e a gestão dos assuntos de interesse público.

(...)

De modo geral, um Estado pode desempenhar essas funções sem confiá-las a um poder jurídico especial, elas se desempenham, então, sob o controlo do poder jurídico ordinário que é do judicial.

O Reino Unido é o tipo mais acabado desses Estados sem regime administrativo. Com efeito, existem serviços administrativos pouco centralizados, em que todos os agentes da Administração Pública são sujeitos ao controlo dos tribunais comuns e às leis ordinárias como qualquer cidadão e só eles actuam em relação com os particulares com prévia intervenção do Poder judicial.

Nesta perspectiva, o direito é "um", no sentido de que, em princípio são as mesmas regras que regem todas as relações jurídicas dentro de um mesmo Estado, qualquer que seja a natureza dessas relações jurídicas.

Para ser mais rigoroso, isto não quer dizer que não existe um ‘Direito Administrativo’ nos países anglosaxónicos. Em bom rigor, em todos os Estados, quaisquer que sejam, existe necessariamente, do ponto de vista material, um conjunto de regras que se chama "Direito Administrativo", que rege a organização e as competências das autoridades administrativas e define os direitos e as garantias dos administrados quando eles sofrem um prejuízo em relação às essas autoridades. O que não existe nesses países é um “modelo europeu” e, sobretudo, um “modelo francês” de Direito Administrativo.

Todavia, as diferenças entre o regime administrativo de tipo francês e o "regime angloamericano’ residem menos nas realidades do que nas formulações que lhe exprimem. FRANCIS-PAUL BÉNOIT demonstrou perfeitamente que as diferenças consistem no que ‘as regras administrativas específicas, apesar do seu número e importância, são apresentadas como sendo um carácter excepcional e derrogatório do direito comum que seria o direito privado; e que este, apesar de que ele regula muito pouco a actividade da Administração Pública, é apresentado como o direito comum da sua acção. Pois, trata-se, antes de tudo, de uma questão de hábito face às necessidades e inevitáveis regras administrativas específicas’.

Na prática, pode-se verificar, de uma maneira geral, que, apesar das diferenças que subsistem entre os dois sistemas, os direitos administrativos dos países anglosaxónicos continuam a se desenvolver e distinguir-se de uma maneira mais clara dos princípios do Direito Privado.

Os Estados que têm um regime administrativo apresentam caracteres diferentes . Por um lado, todas as funções administrativas são fortemente centralizadas e confiadas a um poder único; por outro lado, esse poder, enquanto que jurídico, isto é, enquanto que encarregado de estabelecer as normas jurídicas que regularão a sua própria actividade e actuação, não é o Poder judicial, mas o Poder Executivo.

Resultam dessa situação várias consequências: os agentes administrativos não estão sob a autoridade directa dos tribunais comuns e das leis gerais, mas sim sob a autoridade hierárquica de superiores que pertencem ao Poder Executivo e a sua actuação é regulada por leis e regulamentos especiais; as autoridades administrativas gozam do "privilégio da execução prévia", e as suas decisões gozam de "executoriedade" sem que seja necessário nenhuma autorização prévia do Poder judicial; os agentes administrativos processados em responsabilidade têm, até um determinado ponto, uma garantia administrativa; não existe só uma espécie de jurisdição, mas uma dualidade de jurisdições, isto é, há uma jurisdição administrativa ao lado da jurisdição comum, e essas duas ordens de jurisdições são constitucionalmente separadas.

Por outras palavras, "A Administração, (...) desenvolve-se fora de qualquer interferência dos tribunais judiciais, dos quais é independente. A Administração actua pela "via administrativa", não pela "via judicial"".

No regime administrativo, existe um conjunto de regras próprias aplicáveis às actividades administrativas e distintas das que regem os particulares nas relações entre eles, que constituem um direito diferente do Direito Privado: o Direito Administrativo.”

Portanto, se considerado o sentido estrito de regime jurídico é possível sim concordar com a afirmação MAURICE HAURIOU.

 

Sobre essa afirmação, Gilles Cistac, Professor Associado da Faculdade de Direito da Universidade Eduardo Mondlane, esclarece:

"Assumir funções administrativas" significa simplesmente providenciar às necessidades de ordem pública e assegurar o funcionamento de alguns serviços públicos para satisfação do interesse geral e a gestão dos assuntos de interesse público.

(...)

De modo geral, um Estado pode desempenhar essas funções sem confiá-las a um poder jurídico especial, elas se desempenham, então, sob o controlo do poder jurídico ordinário que é do judicial.

O Reino Unido é o tipo mais acabado desses Estados sem regime administrativo. Com efeito, existem serviços administrativos pouco centralizados, em que todos os agentes da Administração Pública são sujeitos ao controlo dos tribunais comuns e às leis ordinárias como qualquer cidadão e só eles actuam em relação com os particulares com prévia intervenção do Poder judicial.

Nesta perspectiva, o direito é "um", no sentido de que, em princípio são as mesmas regras que regem todas as relações jurídicas dentro de um mesmo Estado, qualquer que seja a natureza dessas relações jurídicas.

Para ser mais rigoroso, isto não quer dizer que não existe um ‘Direito Administrativo’ nos países anglosaxónicos. Em bom rigor, em todos os Estados, quaisquer que sejam, existe necessariamente, do ponto de vista material, um conjunto de regras que se chama "Direito Administrativo", que rege a organização e as competências das autoridades administrativas e define os direitos e as garantias dos administrados quando eles sofrem um prejuízo em relação às essas autoridades. O que não existe nesses países é um “modelo europeu” e, sobretudo, um “modelo francês” de Direito Administrativo.

Todavia, as diferenças entre o regime administrativo de tipo francês e o "regime angloamericano’ residem menos nas realidades do que nas formulações que lhe exprimem. FRANCIS-PAUL BÉNOIT demonstrou perfeitamente que as diferenças consistem no que ‘as regras administrativas específicas, apesar do seu número e importância, são apresentadas como sendo um carácter excepcional e derrogatório do direito comum que seria o direito privado; e que este, apesar de que ele regula muito pouco a actividade da Administração Pública, é apresentado como o direito comum da sua acção. Pois, trata-se, antes de tudo, de uma questão de hábito face às necessidades e inevitáveis regras administrativas específicas’.

Na prática, pode-se verificar, de uma maneira geral, que, apesar das diferenças que subsistem entre os dois sistemas, os direitos administrativos dos países anglosaxónicos continuam a se desenvolver e distinguir-se de uma maneira mais clara dos princípios do Direito Privado.

Os Estados que têm um regime administrativo apresentam caracteres diferentes . Por um lado, todas as funções administrativas são fortemente centralizadas e confiadas a um poder único; por outro lado, esse poder, enquanto que jurídico, isto é, enquanto que encarregado de estabelecer as normas jurídicas que regularão a sua própria actividade e actuação, não é o Poder judicial, mas o Poder Executivo.

Resultam dessa situação várias consequências: os agentes administrativos não estão sob a autoridade directa dos tribunais comuns e das leis gerais, mas sim sob a autoridade hierárquica de superiores que pertencem ao Poder Executivo e a sua actuação é regulada por leis e regulamentos especiais; as autoridades administrativas gozam do "privilégio da execução prévia", e as suas decisões gozam de "executoriedade" sem que seja necessário nenhuma autorização prévia do Poder judicial; os agentes administrativos processados em responsabilidade têm, até um determinado ponto, uma garantia administrativa; não existe só uma espécie de jurisdição, mas uma dualidade de jurisdições, isto é, há uma jurisdição administrativa ao lado da jurisdição comum, e essas duas ordens de jurisdições são constitucionalmente separadas.

Por outras palavras, "A Administração, (...) desenvolve-se fora de qualquer interferência dos tribunais judiciais, dos quais é independente. A Administração actua pela "via administrativa", não pela "via judicial"".

No regime administrativo, existe um conjunto de regras próprias aplicáveis às actividades administrativas e distintas das que regem os particulares nas relações entre eles, que constituem um direito diferente do Direito Privado: o Direito Administrativo.”

Portanto, se considerado o sentido estrito de regime jurídico é possível sim concordar com a afirmação MAURICE HAURIOU.

 

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Ramon Oliveira

Há mais de um mês

A história do contato entre o direito inglês da common Law e o direito romano-germânico da Europa continental é, com freqüência, marcada pelo signo da incompreensão mútua. Já lamentava o grande juscomparatista René David em sua conhecida obra “Os grandes sistemas do direito contemporâneo”, a presença de “tantas opiniões errôneas e preconceitos nos países do continente europeu acerca da teoria das fontes do direito inglês”1, atentando para a necessidade de se melhor conhecê-lo. Idêntica atitude, contudo, se verifica do outro lado do Canal da Mancha, como o próprio David admite:

o jurista inglês – que subestima a continuida

Essa pergunta já foi respondida por um dos nossos estudantes