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Relação entre a sociologia e as instituições partidárias.Defina dominação carismática de Max Weber? explique o papel atribuído aos partidos políticos?


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Weber apresenta o conceito de Carisma “para caracterizar uma forma muito peculiar de poder” (BOBBIO, 1993: 149). Neste esforço o sociólogo “analisa a existência dos líderes, cuja autoridade se baseia, não no caráter sagrado de uma tradição nem na legalidade ou racionalidade de uma função, mas num dom, isto é, na capacidade extraordinaria que eles possuem.” (BOBBIO, 1993: 149). A dominação carismática (aquela legitimada não por leis, e sim pelo dom extraordinário do líder), “se impõem como tais no anúncio e realização de uma missão de caráter religioso político, bélico, filantrópico, etc” (BOBBIO, 1993: 149). Os que se deixam dominar são “Aqueles que reconhecem este dom” e por isso “reconhecem igualmente o dever de seguir o chefe carismático, a quem obedecem segundo regras que ele dita, em virtude da própria credibilidade carismática, e não em virtude de pressões ou de cálculo” (BOBBIO, 1993: 149). O carisma é então o que legitima, ao menos incialmente, o poder do líder carismático, e digo inicialmente porque no longo prazo o carisma não basta, havendo a necessidade de apresentar um retorno concreto a confiança (concessão de legitimidade) dada. “Mias, a influencia do Carisma nasce e perdura, se a missão é deveras cumprida, isto é, se oferece provas eficazes e uteis, capazes de robustecer a fé dos sequazes.” (BOBBIO, 1993: 149). Há no líder carismático um teor revolucionário, que é em um dado momento seu grande trunfo, mas em outro representa seu maior limite, pois a revolução pressupõe mudanças, transformação, movimentação, mas o fim da revolução (segundo a hipótese weberiana) tende a uma conveniente estabilização, a uma estruturação do poder. “Toda a expressão do processo carismático, as novas regras, a força, as provas que demonstram a legitimidade do Carisma e da missão se colocam, de modo revolucionário em relação a situação institucionalizada, mediante uma experiência social que exige conversão (metanóia) nas atitudes e comportamentos dos sequazes, como do próprio chefe.” (BOBBIO, 1993: 149). “Assim esboçada, a situação carismática é, ao mesmo tempo, forte e lábil. Seus limites se vão configurando à medida que surge a conveniência de dar uma estrutura permanente, formalmente organizada, ao papel do chefe, dos sequazes e sucessores.” (BOBBIO, 1993: 149).

Posteriormente, Michel retoma o conceito weberiano de Carisma, e atualiza seu sentido. Para o autor, a existência do líder carismático “coincide sempre no mundo moderno com a fase primitiva dos partidos de massa, com a fase em que a doutrina se apresenta às massas como algo nebuloso e incoerente, que necessita de um papa infalível para ser interpretada e adaptada às circunstâncias” (LIGUORI, 2017: 473). Em comentário feito por Gramsci a respeito do sentido dado por Michel do conceito weberiano de Carisma, se compreende o seguinte: “Se por um lado o líder carismático é uma figura que G. [ler ‘Gramsci’] relega a uma fase ainda não moderna da política, não ainda de massa, por outro seu surgimento pode ser também o sinal, agora certamente moderno, de uma situação de impasse político, no qual o equilíbrio de forças em campo não permite a vitória de um grupo sobre outro: ‘Em certos momentos de ‘anarquia permanente’ devida ao equilíbrio estático das formas em luta, um homem apresenta a ‘ordem’, isto é, a ruptura por meios excepcionais do equilíbrio mortal’ (...). O líder carismático pode então apresentar-se lá onde há uma ‘crise orgânica’ que ameaça com a destruição de ambos os contendores; escreve G. no Texto C: ‘Quando se verificam estas crises, a situação imediata torna-se delicada e perigosa, pois abre-se o campo às soluções de força, à atividade de potência ocultas representadas pelos homens providenciais ou carismáticos’ (...).LINGUORI, 2017: 473-474). Por fim, basta salientar que há na dominação carismática um caráter personalista. É possível citar ao menos dois exemplos: 1) Alemanha – ditadura direitista de Hitler foi promovida muito em função do caráter carismático do líder; 2) URSS – ditadura aparentemente esquerdista de Stalin (ATENÇÃO, de Stalin, e não de Lenin, muito menos de Trotsky que inclusive, ao discordar do rumo político da URSS após a morte de Lenin, foi assassinado por Stalin).

Sobre Partidos Políticos: “Segundo a famosa definição de Weber, o Partido político é ‘uma associação... que visa um fim deliberado, seja ele ‘objetivo’ como a realização de um plano com intuitos materiais ou ideais, seja ‘pessoal’, isto é, destinado a obter benefícios, poder e, consequentemente, glória para os chefes e sequazes, ou então voltado para todos esses objetivos conjuntamente’. Essa definição põe em relevo o caráter associativo do partido, a natureza da ação essencialmente orientada à conquista do poder político dentro de uma comunidade, e a multiplicidade de estímulos e motivações que levam a uma ação política associada, concretamente à consecução de fins ‘objetivos’ /ou ‘pessoais’. Assim concebido, o partido compreende formações sociais assaz diversas, desde os grupos unidos por vínculos pessoais e particularistas às organizações complexas de estilo burocrático e impessoal, cuja a característica comum é a de se moverem na esfera do poder político. Para tornar mais concreta e específica esta defini~~ao é usual sublinhar que as associações que podemos considerar propriamente partidos surgem quando o sistema político alcançou um certo grau de autonomia estrutural, de complexidade interna e de divisão de trabalho que permitam, por um lado, um processo de tomada de decisões politicas em que participem diversas partes do sistema e, por outro, que, entre essas partes, se incluam, por principio ou de fato, os representantes daqueles a quem as decisões políticas se referem. Daí que, na noção de partido, entrem todas as organizações da sociedade civil surgidas no momento em que se reconheça teórica ou praticamente ao povo o direito de participar na gestão do poder político. É com este fim que ele se associa, cria instrumentos de organização e atua.” (BOBBIO, 1993: 898-899).

Referências bibliográficas:

BOBBIO, Norberto. Dicionário de Política. Brasília: Adunb, 1993.

 LINGUORI, Guido. Dicionário Gramsciano. São Paulo: Boitempo, 2017.

Weber apresenta o conceito de Carisma “para caracterizar uma forma muito peculiar de poder” (BOBBIO, 1993: 149). Neste esforço o sociólogo “analisa a existência dos líderes, cuja autoridade se baseia, não no caráter sagrado de uma tradição nem na legalidade ou racionalidade de uma função, mas num dom, isto é, na capacidade extraordinaria que eles possuem.” (BOBBIO, 1993: 149). A dominação carismática (aquela legitimada não por leis, e sim pelo dom extraordinário do líder), “se impõem como tais no anúncio e realização de uma missão de caráter religioso político, bélico, filantrópico, etc” (BOBBIO, 1993: 149). Os que se deixam dominar são “Aqueles que reconhecem este dom” e por isso “reconhecem igualmente o dever de seguir o chefe carismático, a quem obedecem segundo regras que ele dita, em virtude da própria credibilidade carismática, e não em virtude de pressões ou de cálculo” (BOBBIO, 1993: 149). O carisma é então o que legitima, ao menos incialmente, o poder do líder carismático, e digo inicialmente porque no longo prazo o carisma não basta, havendo a necessidade de apresentar um retorno concreto a confiança (concessão de legitimidade) dada. “Mias, a influencia do Carisma nasce e perdura, se a missão é deveras cumprida, isto é, se oferece provas eficazes e uteis, capazes de robustecer a fé dos sequazes.” (BOBBIO, 1993: 149). Há no líder carismático um teor revolucionário, que é em um dado momento seu grande trunfo, mas em outro representa seu maior limite, pois a revolução pressupõe mudanças, transformação, movimentação, mas o fim da revolução (segundo a hipótese weberiana) tende a uma conveniente estabilização, a uma estruturação do poder. “Toda a expressão do processo carismático, as novas regras, a força, as provas que demonstram a legitimidade do Carisma e da missão se colocam, de modo revolucionário em relação a situação institucionalizada, mediante uma experiência social que exige conversão (metanóia) nas atitudes e comportamentos dos sequazes, como do próprio chefe.” (BOBBIO, 1993: 149). “Assim esboçada, a situação carismática é, ao mesmo tempo, forte e lábil. Seus limites se vão configurando à medida que surge a conveniência de dar uma estrutura permanente, formalmente organizada, ao papel do chefe, dos sequazes e sucessores.” (BOBBIO, 1993: 149).

Posteriormente, Michel retoma o conceito weberiano de Carisma, e atualiza seu sentido. Para o autor, a existência do líder carismático “coincide sempre no mundo moderno com a fase primitiva dos partidos de massa, com a fase em que a doutrina se apresenta às massas como algo nebuloso e incoerente, que necessita de um papa infalível para ser interpretada e adaptada às circunstâncias” (LIGUORI, 2017: 473). Em comentário feito por Gramsci a respeito do sentido dado por Michel do conceito weberiano de Carisma, se compreende o seguinte: “Se por um lado o líder carismático é uma figura que G. [ler ‘Gramsci’] relega a uma fase ainda não moderna da política, não ainda de massa, por outro seu surgimento pode ser também o sinal, agora certamente moderno, de uma situação de impasse político, no qual o equilíbrio de forças em campo não permite a vitória de um grupo sobre outro: ‘Em certos momentos de ‘anarquia permanente’ devida ao equilíbrio estático das formas em luta, um homem apresenta a ‘ordem’, isto é, a ruptura por meios excepcionais do equilíbrio mortal’ (...). O líder carismático pode então apresentar-se lá onde há uma ‘crise orgânica’ que ameaça com a destruição de ambos os contendores; escreve G. no Texto C: ‘Quando se verificam estas crises, a situação imediata torna-se delicada e perigosa, pois abre-se o campo às soluções de força, à atividade de potência ocultas representadas pelos homens providenciais ou carismáticos’ (...).LINGUORI, 2017: 473-474). Por fim, basta salientar que há na dominação carismática um caráter personalista. É possível citar ao menos dois exemplos: 1) Alemanha – ditadura direitista de Hitler foi promovida muito em função do caráter carismático do líder; 2) URSS – ditadura aparentemente esquerdista de Stalin (ATENÇÃO, de Stalin, e não de Lenin, muito menos de Trotsky que inclusive, ao discordar do rumo político da URSS após a morte de Lenin, foi assassinado por Stalin).

Sobre Partidos Políticos: “Segundo a famosa definição de Weber, o Partido político é ‘uma associação... que visa um fim deliberado, seja ele ‘objetivo’ como a realização de um plano com intuitos materiais ou ideais, seja ‘pessoal’, isto é, destinado a obter benefícios, poder e, consequentemente, glória para os chefes e sequazes, ou então voltado para todos esses objetivos conjuntamente’. Essa definição põe em relevo o caráter associativo do partido, a natureza da ação essencialmente orientada à conquista do poder político dentro de uma comunidade, e a multiplicidade de estímulos e motivações que levam a uma ação política associada, concretamente à consecução de fins ‘objetivos’ /ou ‘pessoais’. Assim concebido, o partido compreende formações sociais assaz diversas, desde os grupos unidos por vínculos pessoais e particularistas às organizações complexas de estilo burocrático e impessoal, cuja a característica comum é a de se moverem na esfera do poder político. Para tornar mais concreta e específica esta defini~~ao é usual sublinhar que as associações que podemos considerar propriamente partidos surgem quando o sistema político alcançou um certo grau de autonomia estrutural, de complexidade interna e de divisão de trabalho que permitam, por um lado, um processo de tomada de decisões politicas em que participem diversas partes do sistema e, por outro, que, entre essas partes, se incluam, por principio ou de fato, os representantes daqueles a quem as decisões políticas se referem. Daí que, na noção de partido, entrem todas as organizações da sociedade civil surgidas no momento em que se reconheça teórica ou praticamente ao povo o direito de participar na gestão do poder político. É com este fim que ele se associa, cria instrumentos de organização e atua.” (BOBBIO, 1993: 898-899).

Referências bibliográficas:

BOBBIO, Norberto. Dicionário de Política. Brasília: Adunb, 1993.

 LINGUORI, Guido. Dicionário Gramsciano. São Paulo: Boitempo, 2017.

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