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Platão?

Filosofia

PUC-RIO


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Estudante PD

Há mais de um mês

            

A palavra grega psykhé é o termo usado por muitos escritores da Antiguidade para o entendimento do que viríamos a chamar na língua latina de anima ou alma. Desde Homero, ela ganha contornos de fumaça, sombra, uma aspecto menos denso daquilo que é o corpo. A própria Filosofia, com Anaxímenes, entende que a alma é um sopro, uma espécie de ar em movimento e que move as coisas corpóreas, refrigerando-as e mantendo-as em movimento (basta notar que o cadáver não respira, por isso o corpo morre ou fica em repouso).

No entanto, a partir de concepções místicas e religiosas, tais como o orfismo e o pitagorismo, a noção de alma foi ganhando contornos mais conceituais, ainda que de forma dialética, sem pretender formar uma posição absoluta sobre ela ou demonstrar o que ela seja. Platão foi o responsável por essa mudança. Em vários textos, este autor aborda questões sobre a alma, mas nem sempre uma posição que seja unívoca. Falaremos de algumas delas, de modo a compreender que possam se tratar de um conjunto.

Em primeiro lugar, quando de uma tentativa de definir o Homem, vê-se que ou é corpo, ou é um misto de corpo e alma, ou é a alma. Isso porque, diante da discussão, fica evidente que o corpo é efêmero, transitório e parte de uma estrutura. A alma é a unidade intrínseca (ou psíquica, como será dito mais tarde) ao homem. O homem é a sua alma.

Já num outro diálogo, a alma é vinculada à linguagem, mas, estando associada ao corpo, padece da relação com esse. Assim, quando o corpo está mal, a alma também pode ficar doente e o tratamento deveria ser realizado à base do que chamamos hoje de terapia psicossomática (psique = alma; soma = corpo). Essa posição só reforça a anterior de ser a alma a unidade psíquica do homem.

Em uma terceira abordagem, o corpo é tratado como o lugar em que habita a alma sendo ele a expressão ou o sinal (semainei; sema = sinal, parece-se com soma) da alma. Sendo assim, a alma é diferente do corpo e usa-o como instrumento para realização dos seus desígnios.

 

Mas somente nos diálogos de maturidade Platão consegue dar um delineamento sobre o assunto com maior riqueza de detalhes. Ao conceber a realidade em diferentes instâncias, sensível e inteligível (sendo esta última a base do conhecimento, já que é estável, imóvel, imutável, eterna, idêntica, incriada, etc.), o mundo das ideias, como objeto do conhecimento, precisaria de um sujeito que lhe fosse semelhante. É assim que a alma é compreendida como princípio de movimento, gerando a vida, mas participando do que é divino.

É através da alma que o homem conhece, segundo Platão. O corpo e as sensações explicam “como” são as coisas. A alma e a inteligência explicam “o que” são as coisas. É por isso que a alma é esse trânsito entre os dois mundos, inteligível e sensível, ainda que suas características sejam dadas pelo mundo inteligível. A alma tem de se assemelhar àquilo que ela busca ou aspira: as ideias. E ainda que encarnada em um corpo, a morte refere-se somente a essa parte material, divisível, múltipla, instável. A alma como unidade não se dissolve, mas busca, segundo os mitos escatológicos que Platão narra, o aperfeiçoamento a partir de uma série de ciclos reencarnatórios. A expiação se dá pelas faltas cometidas em vidas passadas que a alma guarda na memória e ao contemplar o inteligível faz sua escolha da vida que quer viver. Então, põe-se novamente em movimento para realizar sua trajetória, mas o corpo torna-se um obstáculo e a faz esquecer parcialmente o que contemplou no mundo inteligível. É assim que ela busca o conhecimento como tentativa de purificação da alma, através da inteligência. A alma é, pois, sujeito do conhecimento.

CABRAL, João Francisco Pereira. "Imortalidade da alma em Platão"; Brasil Escola. Disponível em <https://brasilescola.uol.com.br/filosofia/imortalidade-alma-platao.htm>. Acesso em 25 de maio de 2019.

            

A palavra grega psykhé é o termo usado por muitos escritores da Antiguidade para o entendimento do que viríamos a chamar na língua latina de anima ou alma. Desde Homero, ela ganha contornos de fumaça, sombra, uma aspecto menos denso daquilo que é o corpo. A própria Filosofia, com Anaxímenes, entende que a alma é um sopro, uma espécie de ar em movimento e que move as coisas corpóreas, refrigerando-as e mantendo-as em movimento (basta notar que o cadáver não respira, por isso o corpo morre ou fica em repouso).

No entanto, a partir de concepções místicas e religiosas, tais como o orfismo e o pitagorismo, a noção de alma foi ganhando contornos mais conceituais, ainda que de forma dialética, sem pretender formar uma posição absoluta sobre ela ou demonstrar o que ela seja. Platão foi o responsável por essa mudança. Em vários textos, este autor aborda questões sobre a alma, mas nem sempre uma posição que seja unívoca. Falaremos de algumas delas, de modo a compreender que possam se tratar de um conjunto.

Em primeiro lugar, quando de uma tentativa de definir o Homem, vê-se que ou é corpo, ou é um misto de corpo e alma, ou é a alma. Isso porque, diante da discussão, fica evidente que o corpo é efêmero, transitório e parte de uma estrutura. A alma é a unidade intrínseca (ou psíquica, como será dito mais tarde) ao homem. O homem é a sua alma.

Já num outro diálogo, a alma é vinculada à linguagem, mas, estando associada ao corpo, padece da relação com esse. Assim, quando o corpo está mal, a alma também pode ficar doente e o tratamento deveria ser realizado à base do que chamamos hoje de terapia psicossomática (psique = alma; soma = corpo). Essa posição só reforça a anterior de ser a alma a unidade psíquica do homem.

Em uma terceira abordagem, o corpo é tratado como o lugar em que habita a alma sendo ele a expressão ou o sinal (semainei; sema = sinal, parece-se com soma) da alma. Sendo assim, a alma é diferente do corpo e usa-o como instrumento para realização dos seus desígnios.

 

Mas somente nos diálogos de maturidade Platão consegue dar um delineamento sobre o assunto com maior riqueza de detalhes. Ao conceber a realidade em diferentes instâncias, sensível e inteligível (sendo esta última a base do conhecimento, já que é estável, imóvel, imutável, eterna, idêntica, incriada, etc.), o mundo das ideias, como objeto do conhecimento, precisaria de um sujeito que lhe fosse semelhante. É assim que a alma é compreendida como princípio de movimento, gerando a vida, mas participando do que é divino.

É através da alma que o homem conhece, segundo Platão. O corpo e as sensações explicam “como” são as coisas. A alma e a inteligência explicam “o que” são as coisas. É por isso que a alma é esse trânsito entre os dois mundos, inteligível e sensível, ainda que suas características sejam dadas pelo mundo inteligível. A alma tem de se assemelhar àquilo que ela busca ou aspira: as ideias. E ainda que encarnada em um corpo, a morte refere-se somente a essa parte material, divisível, múltipla, instável. A alma como unidade não se dissolve, mas busca, segundo os mitos escatológicos que Platão narra, o aperfeiçoamento a partir de uma série de ciclos reencarnatórios. A expiação se dá pelas faltas cometidas em vidas passadas que a alma guarda na memória e ao contemplar o inteligível faz sua escolha da vida que quer viver. Então, põe-se novamente em movimento para realizar sua trajetória, mas o corpo torna-se um obstáculo e a faz esquecer parcialmente o que contemplou no mundo inteligível. É assim que ela busca o conhecimento como tentativa de purificação da alma, através da inteligência. A alma é, pois, sujeito do conhecimento.

CABRAL, João Francisco Pereira. "Imortalidade da alma em Platão"; Brasil Escola. Disponível em <https://brasilescola.uol.com.br/filosofia/imortalidade-alma-platao.htm>. Acesso em 25 de maio de 2019.

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LR

Há mais de um mês

Platão é inicialmente influenciado pela filosofia de Sócrates e posteriormente influenciado pelos pitagóricos. Os pensamentos socráticos, que nos auxiliarão a compreender a ideia da imortalidade da alma, são:

3. A alma é a razão: “Não é possível conhecer a virtude e agir virtuosamente se não soubermos o que é a razão, e não saberemos o que é a razão se não soubermos o que é a alma (pkykhé) enquanto inteligência racional a essência da alma é a razão; e a ignorância, a doença da alma e origem de todos os vícios.” (CHAUI, 2002: 201).

4. A razão é o poder da alma: “A razão é a capacidade de chegar às ideias das coisas pela distinção entre aparência sensível e realidade, entre opinião e verdade, entre imagem e conceito, acidente e essência. A razão é o poder da alma para conhecer as essências das coisas.” (CHAUI, 2002: 201).

5. A alma é diferente do corpo: “A alma é diferente do corpo; é a consciência de si, das coisas, do bem e do mal, da justiça e da virtude. É a inteligência enquanto reflexão (conhecimento de si mesma) e interrogação sobre a verdade e realidade das coisas; é o poder intelectual para descobrir em si mesma e por si mesma a verdade e para dar a si mesma e por si mesma as regras da vida ética virtuosa.” (CHAUI, 2002: 201-202).

Com isso surge a ideia de que “conhecer é lembrar”, o que “sugere que alma é imortal” (CHAUI, 2002: 301). E assim Platão aceita “a teoria órfico-pitagórica da reencarnação ou transmigração das almas e da filosofia como purificação ou ascese esperitual para vencer a ‘roda dos nascimentos’.” (CHAUI, 2002: 301). Os argumentos (provas) que explicam a ideia da imortalidade da alma são, resumidamente, os seguintes:

1) “prova pela reminiscência: a alma pode conhecer a verdade porque se recorda ou se lembra dela, e a reminiscência da verdade pressupõe que esta tenha sido contemplada numa outra vida;” (CHAUI, 2002: 301).

2) “prova pela simplicidade: o que é composto por natureza tende a separar-se, as partes dividindo-se e distanciando-se, de sorte que o composto morre ou desaparece; ora, a parte racional é imaterial e simples como as ideias e, por sua simplicidade, não pode desfazer-se, separar-se, desaparecer ou morrer;” (CHAUI, 2002: 301).

3) “prova pela participação da alma na ideia de vida: a alma é o sopro vital, o princípio de vida de todas as coisas e, portanto, não pode receber nem participar do que é contrário à sua ideia ou à sua essência, isto é, a morte;” (CHAUI, 2002: 301).

4) “prova pelo principio do movimento daquilo que move a si mesmo: aquilo que é movido por outro deixa de se mover quando a causa do movimento cessa; a alma não é movida por nada, mas move todas as coisas e move a si mesma; o que move a si mesmo é inengendrado e o que é inengendrado é imortal;” (CHAUI, 2002: 301).

5) “prova pela imutabilidade do incorpóreo: somente os corpos aumentam ou diminuem, mudam-se nos seus contrário e podem ser destruídos pela ação de outros corpos, mas o que é imaterial ou incorpóreo não aumenta nem diminui e nada há que possa destruí-lo de fora; a alma, sendo imaterial, não sofre transformações em sua essência e por isso permanece sempre; sendo eterna, é imortal.” (CHAUI, 2002: 302).

Chauí ainda esclarece que: “Aparentemente, as provas da imortalidade da alma estariam em contradição com a teoria da transmigração ou da reencarnação, pois esta pressupõe que a alma seja afetada pelos vícios do corpo, pelas paixões da concupiscência e da cólera, não sendo portanto imutável nem simples e não podendo ser imortal. Na verdade, porém, o peso do corpo e das paixões sobre a alma, que leva Platão a dizer que o corpo é prisão da alma, não destrói sua imortalidade. A essência da alma não é transformada pelo corpo, mas prejudicada por ele, isto é, o corpo pode criar obstáculos para que a alma realize plenamente sua natureza e é por este motivo que está submetida à ‘roda dos nascimentos’, destinada a libertar-se cada vez mais dos elementos corpóreos para, finalmente, não mais precisar nascer.” (CHAUI, 2002: 302).

Referência bibliográfica:

CHAUI, Marilena. Introdução à história da filosofia: Dos pré-socráticos a Aristóteles. 2. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2008

Essa pergunta já foi respondida por um dos nossos estudantes