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Sociologia?

Sociologia

PUC-RIO


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Há mais de um mês

Vamos compreender o relativismo social (ou cultural) segundo o ponto de vista de dois autores: (I) Hegel; (II) Wagner.

I) HEGEL:

Por ‘trabalho’, Hegel compreende ser o elemento que diferencia o homem do animal. O animal busca na natureza um abrigo ponto, uma caverna em tempos de chuva, uma árvore em tempos de sol, já o homem derruba uma árvore e construí seu abrigo. O animal quando tem fome caça e come sua presa crua, o homem cozinha a carne antes de comer. Nesse sentido trabalho é a modificação da natureza pelo homem, se por um lado os animais, é natural ao homem o trabalho, ou seja, uma ‘mediação entre o homem e seu mundo’” (ABBAGNANO, 2007: 1148 – 1149). Dessa forma a reprodução material da vida do homem deve ser compreendida neste exato termo, o trabalho. A materialidade é indispensável elemento na manutenção da vida. O homem precisa se abrigar e precisa comer, caso contrário padecerá. Sua sobrevivência, a satisfação das necessidades materiais da vida do homem então é mediado pela trabalho, pelo esforço humano de adaptação da natureza. “É só na satisfação das necessidades por meio do T. que o ser humano é realmente humano: porque se educa tanto teoricamente, através dos conhecimentos que o T. exige, quanto na prática, por se habituar à ocupação, adequando sua própria atividade à natureza da matéria e adquirindo aptidões universalmente válidas.” (ABBAGNANO, 2007: 1148 – 1149). Hegel também contempla em sua descrição as particularidades dos marcos culturais de uma sociedade complexa, o que produz no debate categorias como ‘costume’ e ‘ocupação’, “o homem civilizado é educado no costume e na necessidade da ocupação” (ABBAGNANO, 2007: 1148 – 1149), mas é em Marx que encontramos a continuidade teórica dessas categorias. Assumindo em larga medida o conceito Hegeliano de trabalho, Marx vai além. Em Hegel o princípio do trabalho é a sobrevivência, em Marx o trabalho adquire um pesa muito maior pois passa a ser “a própria realização ou produção de sua vida, é um modo de vida determinado” (ABBAGNANO, 2007: 1149), no sentido de que “‘Produzindo seus meios de subsistência, os homens produzem indiretamente sua própria vida material’” (ABBAGNANO, 2007: 1149). Segundo Marx, o homem é em si o seu trabalho e o que o seu trabalho é produz, o que torna também possível afirmar o caráter social do homem, o seu ser social, pois seu trabalho e sua produção está em relação direta com o que lhe é externo (a natureza / a fábrica) e com os demais indivíduos que compartilham este mesmo espaço.

O caráter de classe surge quando o debate sobre o trabalho assume os contornos do trabalho alienante. A condição de sujeito só é possível nos termos da não-alienação, “as relações de T. [ler trabalho] e de produção constituem a trama ou a estrutura autêntica da história, da qual são reflexo as várias formas da consciência” (ABBAGNANO, 2007: 1149). Entretanto a sociedade organizada segundo a lógica capitalista-burguesa é mediada pela existência de um grupo de pessoas que detém os meios de produção e um grupo de pessoas que detém apenas sua capacidade de trabalhar. Assim o trabalho passa a ser encarado como mercadoria e como elemento alienante por ser tratar da “condição de vida que lhe é imposta pelas relações das quais participa como objeto, e não mais como sujeito” (ABBAGNANO, 2007: 1149), e nessa condição o proletariado se despersonaliza e perde sua condição de sujeito da própria história. Se as ideias é condição da consciência humana, também é condição do ser social, do sujeito. Se é verdade que “Até hoje, a história de toda a sociedade é a história das lutas de classe.” (Marx, 1999: ), também é verdade que as ideias, que a consciência, e a condição de sujeito são mediadas pela luta de classes, ou seja, pela exploração, alienação, subjugação de uma classe por outro: “O que demonstra a história das ideias senão que a produção intelectual se reconfigura com a produção material? As ideias dominantes em todas as épocas sempre foram aquelas das classes dominantes.” (Marx, 1999: 66).

II) WAGNER:

Roy Wagner, em A invenção da cultura (2010), é o mais específico e ao mesmo tempo o mais completo dos autores citados para compreender esse debate. Para Wagner o antropólogo imerso em seu campo de pesquisa, seja ele na periferia de uma grande cidade ou em uma tribo muito pouco conhecida no mundo ocidental, deve compreender que está ali na condição de um inventor da cultura daquele povo, mas não apenas isso, deve também compreender que está ali também se inventando uma cultura para ele mesmo. Nesse sentido, o autor caminha mostrando como se posiciona a ideia de cultura, e para tanto aponta o que há de mais singular: “o antropólogo usa sua própria cultura para estudar outras, e para estudar a cultura em geral” (WAGNER, 2010: 28), trata-se portanto de uma objetividade relativa, pois “A objetividade absoluta exigiria que a antropólogo não tivesse nenhum viés e portanto nenhuma cultura” (WAGNER, 2010:  28). Essa relação, somente se faz possível pois a figura do antropólogo é a ponte da cultura entre ele e de por quem por ele é observado na condição de objeto de estudo), e o que de fato existe é ela em si, a própria relação, pois a cultura que está sendo radiografada frutifica a partir do universo do antropólogo, este, portanto, acredita Wagner, é um inventor de culturas, “No ato de inventar outra cultura, o antropólogo inventa a sua própria e acaba por reinventar a própria noção de cultura.” (WAGNER, 2010: 31). E é isso que gera no antropólogo a necessidade de tornar a cultura uma coisa, de efetuar um processo objetivo capaz de tornar a cultura visível. E o que torna a cultura visível, são os momentos que se vive a inadequações com o ‘novo’, com o ‘diferente’. É o momento do choque cultural, onde as discrepâncias são objetificadas enquanto entidade. E é neste mesmo momento que ‘uma cultura’ é enfim inventada: “A invenção das culturas, e da cultura em geral, muitas vezes começa com a invenção de uma cultura particular, e esta, por força do processo de invenção, ao mesmo tempo é e não é a própria cultura do inventor.” (WAGNER, 2010: 37). Para Wagner todo ser humano é um antropólogo, um inventor de cultura. Todo homem possui uma herança cultural, e possui porque todo homem nasce e cresce imerso um determinado patrão de vida materialmente e socialmente consolidado através dos séculos. Em outras palavras, todo homem possui para um conjunto de convenções compartilhadas através de uma processo de invenção coletiva da cultura. E esse conjunto de convenções são as ferramentas socias que garantem a reprodutividade da própria vida, na medida em que o torna apto a se comunidade e a compreender as experiências que se apresentam inevitavelmente ao longo da vida. São dois os aspectos elementares aqui: 1) A invenção é o princípio da cultura, e há humanidade sem cultura; 2) É cíclica a seguinte relação: a comunicação é o conjunto de associações e convenções compartilhadas, a o conjunto de associações e convenções compartilhadas é o que permite a comunicação. Expressão e comunicação são interdependentes: nenhuma é possível sem a outra. (WAGNER, 2010:76). Toda experiência e todo compreensão sobre ela, é uma de invenção, ou seja, a relação dialética entre a materialidade concreta da vida e o pensamento gerado por ela, o que elementarmente é o princípio da cultura. Mas a invenção só é possível mediante a existência de um conjunto de associações e convenções compartilhadas, pois é esse conjunto é o que é a própria comunicação e também o que gera a comunicação. A invenção só se concluir quando ela é comunicada, mas não apenas comunicada, mas é expressada, significada. Se a comunicação só “é possível mediante o compartilhamento de associações derivadas de certos contextos convencionais por aqueles que desejam se comunicar.” (WAGNER, 2010: 80), e expressão é mediada de antemão pelo contexto e pelas convenções já dadas, já naturalizadas do indivíduo e no coletivo, por exemplo “A moralidade é uma espécie de significado , um significado com direção, propósito e motivação, e não um substrato sistêmico” (WAGNER, 2010:82). Toda expressão carrega em si um significado. A invenção da cultura é uma relação dialético da experiência e do pensamento, e para tal é necessário a preexistência um conjunto de informações, mas esse processo só se conclui mediante o esforço comunicativo, e o esforço comunicativo é também expressivo, ou seja o ato de expressar algo carrega em si um significado fruto dos sentimentos individuais ou coletiva gerados da experiência vivida, o só se expressa algo através do esforço comunicativo. Ou seja, assim como o antropólogo ou homem algum no mundo, não é tabula rasa, a invenção também não parte do nada, nunca há uma primeira invenção, há um ciclo continuo de invenção e reinvenção da cultura gerado pelo espontaneísmo e pela criatividade tipicamente humana.

Referência bibliográfica:

WAGNER, Roy. A invenção da cultura. São Paulo: Cosac Naify, 2010.

ABBAGNANO, Nicola. Dicionário de Filosofia. São Paulo: Martins Fontes, 2007.

MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. Manifesto Comunista. Rio de Janeiro: Vozes, 1999, 9ª ed.

Vamos compreender o relativismo social (ou cultural) segundo o ponto de vista de dois autores: (I) Hegel; (II) Wagner.

I) HEGEL:

Por ‘trabalho’, Hegel compreende ser o elemento que diferencia o homem do animal. O animal busca na natureza um abrigo ponto, uma caverna em tempos de chuva, uma árvore em tempos de sol, já o homem derruba uma árvore e construí seu abrigo. O animal quando tem fome caça e come sua presa crua, o homem cozinha a carne antes de comer. Nesse sentido trabalho é a modificação da natureza pelo homem, se por um lado os animais, é natural ao homem o trabalho, ou seja, uma ‘mediação entre o homem e seu mundo’” (ABBAGNANO, 2007: 1148 – 1149). Dessa forma a reprodução material da vida do homem deve ser compreendida neste exato termo, o trabalho. A materialidade é indispensável elemento na manutenção da vida. O homem precisa se abrigar e precisa comer, caso contrário padecerá. Sua sobrevivência, a satisfação das necessidades materiais da vida do homem então é mediado pela trabalho, pelo esforço humano de adaptação da natureza. “É só na satisfação das necessidades por meio do T. que o ser humano é realmente humano: porque se educa tanto teoricamente, através dos conhecimentos que o T. exige, quanto na prática, por se habituar à ocupação, adequando sua própria atividade à natureza da matéria e adquirindo aptidões universalmente válidas.” (ABBAGNANO, 2007: 1148 – 1149). Hegel também contempla em sua descrição as particularidades dos marcos culturais de uma sociedade complexa, o que produz no debate categorias como ‘costume’ e ‘ocupação’, “o homem civilizado é educado no costume e na necessidade da ocupação” (ABBAGNANO, 2007: 1148 – 1149), mas é em Marx que encontramos a continuidade teórica dessas categorias. Assumindo em larga medida o conceito Hegeliano de trabalho, Marx vai além. Em Hegel o princípio do trabalho é a sobrevivência, em Marx o trabalho adquire um pesa muito maior pois passa a ser “a própria realização ou produção de sua vida, é um modo de vida determinado” (ABBAGNANO, 2007: 1149), no sentido de que “‘Produzindo seus meios de subsistência, os homens produzem indiretamente sua própria vida material’” (ABBAGNANO, 2007: 1149). Segundo Marx, o homem é em si o seu trabalho e o que o seu trabalho é produz, o que torna também possível afirmar o caráter social do homem, o seu ser social, pois seu trabalho e sua produção está em relação direta com o que lhe é externo (a natureza / a fábrica) e com os demais indivíduos que compartilham este mesmo espaço.

O caráter de classe surge quando o debate sobre o trabalho assume os contornos do trabalho alienante. A condição de sujeito só é possível nos termos da não-alienação, “as relações de T. [ler trabalho] e de produção constituem a trama ou a estrutura autêntica da história, da qual são reflexo as várias formas da consciência” (ABBAGNANO, 2007: 1149). Entretanto a sociedade organizada segundo a lógica capitalista-burguesa é mediada pela existência de um grupo de pessoas que detém os meios de produção e um grupo de pessoas que detém apenas sua capacidade de trabalhar. Assim o trabalho passa a ser encarado como mercadoria e como elemento alienante por ser tratar da “condição de vida que lhe é imposta pelas relações das quais participa como objeto, e não mais como sujeito” (ABBAGNANO, 2007: 1149), e nessa condição o proletariado se despersonaliza e perde sua condição de sujeito da própria história. Se as ideias é condição da consciência humana, também é condição do ser social, do sujeito. Se é verdade que “Até hoje, a história de toda a sociedade é a história das lutas de classe.” (Marx, 1999: ), também é verdade que as ideias, que a consciência, e a condição de sujeito são mediadas pela luta de classes, ou seja, pela exploração, alienação, subjugação de uma classe por outro: “O que demonstra a história das ideias senão que a produção intelectual se reconfigura com a produção material? As ideias dominantes em todas as épocas sempre foram aquelas das classes dominantes.” (Marx, 1999: 66).

II) WAGNER:

Roy Wagner, em A invenção da cultura (2010), é o mais específico e ao mesmo tempo o mais completo dos autores citados para compreender esse debate. Para Wagner o antropólogo imerso em seu campo de pesquisa, seja ele na periferia de uma grande cidade ou em uma tribo muito pouco conhecida no mundo ocidental, deve compreender que está ali na condição de um inventor da cultura daquele povo, mas não apenas isso, deve também compreender que está ali também se inventando uma cultura para ele mesmo. Nesse sentido, o autor caminha mostrando como se posiciona a ideia de cultura, e para tanto aponta o que há de mais singular: “o antropólogo usa sua própria cultura para estudar outras, e para estudar a cultura em geral” (WAGNER, 2010: 28), trata-se portanto de uma objetividade relativa, pois “A objetividade absoluta exigiria que a antropólogo não tivesse nenhum viés e portanto nenhuma cultura” (WAGNER, 2010:  28). Essa relação, somente se faz possível pois a figura do antropólogo é a ponte da cultura entre ele e de por quem por ele é observado na condição de objeto de estudo), e o que de fato existe é ela em si, a própria relação, pois a cultura que está sendo radiografada frutifica a partir do universo do antropólogo, este, portanto, acredita Wagner, é um inventor de culturas, “No ato de inventar outra cultura, o antropólogo inventa a sua própria e acaba por reinventar a própria noção de cultura.” (WAGNER, 2010: 31). E é isso que gera no antropólogo a necessidade de tornar a cultura uma coisa, de efetuar um processo objetivo capaz de tornar a cultura visível. E o que torna a cultura visível, são os momentos que se vive a inadequações com o ‘novo’, com o ‘diferente’. É o momento do choque cultural, onde as discrepâncias são objetificadas enquanto entidade. E é neste mesmo momento que ‘uma cultura’ é enfim inventada: “A invenção das culturas, e da cultura em geral, muitas vezes começa com a invenção de uma cultura particular, e esta, por força do processo de invenção, ao mesmo tempo é e não é a própria cultura do inventor.” (WAGNER, 2010: 37). Para Wagner todo ser humano é um antropólogo, um inventor de cultura. Todo homem possui uma herança cultural, e possui porque todo homem nasce e cresce imerso um determinado patrão de vida materialmente e socialmente consolidado através dos séculos. Em outras palavras, todo homem possui para um conjunto de convenções compartilhadas através de uma processo de invenção coletiva da cultura. E esse conjunto de convenções são as ferramentas socias que garantem a reprodutividade da própria vida, na medida em que o torna apto a se comunidade e a compreender as experiências que se apresentam inevitavelmente ao longo da vida. São dois os aspectos elementares aqui: 1) A invenção é o princípio da cultura, e há humanidade sem cultura; 2) É cíclica a seguinte relação: a comunicação é o conjunto de associações e convenções compartilhadas, a o conjunto de associações e convenções compartilhadas é o que permite a comunicação. Expressão e comunicação são interdependentes: nenhuma é possível sem a outra. (WAGNER, 2010:76). Toda experiência e todo compreensão sobre ela, é uma de invenção, ou seja, a relação dialética entre a materialidade concreta da vida e o pensamento gerado por ela, o que elementarmente é o princípio da cultura. Mas a invenção só é possível mediante a existência de um conjunto de associações e convenções compartilhadas, pois é esse conjunto é o que é a própria comunicação e também o que gera a comunicação. A invenção só se concluir quando ela é comunicada, mas não apenas comunicada, mas é expressada, significada. Se a comunicação só “é possível mediante o compartilhamento de associações derivadas de certos contextos convencionais por aqueles que desejam se comunicar.” (WAGNER, 2010: 80), e expressão é mediada de antemão pelo contexto e pelas convenções já dadas, já naturalizadas do indivíduo e no coletivo, por exemplo “A moralidade é uma espécie de significado , um significado com direção, propósito e motivação, e não um substrato sistêmico” (WAGNER, 2010:82). Toda expressão carrega em si um significado. A invenção da cultura é uma relação dialético da experiência e do pensamento, e para tal é necessário a preexistência um conjunto de informações, mas esse processo só se conclui mediante o esforço comunicativo, e o esforço comunicativo é também expressivo, ou seja o ato de expressar algo carrega em si um significado fruto dos sentimentos individuais ou coletiva gerados da experiência vivida, o só se expressa algo através do esforço comunicativo. Ou seja, assim como o antropólogo ou homem algum no mundo, não é tabula rasa, a invenção também não parte do nada, nunca há uma primeira invenção, há um ciclo continuo de invenção e reinvenção da cultura gerado pelo espontaneísmo e pela criatividade tipicamente humana.

Referência bibliográfica:

WAGNER, Roy. A invenção da cultura. São Paulo: Cosac Naify, 2010.

ABBAGNANO, Nicola. Dicionário de Filosofia. São Paulo: Martins Fontes, 2007.

MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. Manifesto Comunista. Rio de Janeiro: Vozes, 1999, 9ª ed.

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Eloisa Portia

Há mais de um mês

Uma reação de "estranhamento", muito conhecida na antropologia como alteridade.

https://www.contioutra.com/antropologia-a-ciencia-da-alteridade/

Essa pergunta já foi respondida por um dos nossos especialistas