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Senso comum?

Sociologia

PUC-RIO


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Filosofia da Política Ciência Política
Definição Houaiss para verbete 'Filosofia': "investigação da dimensão essencial e ontológica do mundo real, ultrapassando a opinião refletida do senso comum que se mantém cativa da realidade empírica e das aparências sensíveis"; "no âmbito das relações com o conhecimento científico, conjunto de princípios teóricos que fundamentam, avaliam e sintetizam as ciências particulares, contribuindo para o desenvolvimento destes muitos ramos do saber" (HOUAISS, 2009: 897). Definição Houaiss para verbete 'Ciência': "corpo de conhecimentos sistematizados adquiridos via observação, identificação, pesquisa e explicação de determinadas categorias de fenômenos e fatos, e formulados metódica e racionalmente"; "cada um dos inúmeros ramos particulares e específicos do conhecimento, caracterizados por sua natureza empírica, lógica e sistemática, baseada em provas, princípios, argumentações ou demonstrações que garantam ou legitimem a sua validade" (HOUAISS, 2009: 463).
Definição Houaiss de 'política': Para o verbete ‘política’: "arte ou ciência de governar"; "arte ou ciência de organização, direção e administração de nações ou Estados"; "arte de guiar ou influenciar o podo de governo pela organização de um partido, influência da opinião pública, aliciação de eleitores etc."; "habilidade no relacionar-se com os outros, tendo em vista a obtenção de resultados desejados" (HOUAISS, 2009: 1519).
Palavra chave: Essência; Metafísica; Palavra chave: Prova; História.
Antítese: É possível estabelecer o senso comum ou a opinião de um indivíduo isolado como conceitos opostos tanto ao campo da filosofia da política quanto ao campo da ciência política. Pois hora são expressos com base em informações já dadas, isentas de investigação (senso comum), e hora em meras conjecturas individuais não relacionadas ao esforço cientifico, ao esforço empírico em burca de provas (opinião).
Definição Bobbio: "Estabelecer com clareza e precisão o que se entende ou o que se deva entender por Filosofia da política (ou Filosofia política, como prefere o uso comum) não é tarefa fácil. É tão grande a variedade de opiniões a respeito, que o melhor caminho a  seguir parece ser o de propor, como ponto de partida, não uma definição a priori ou estipulativa, mas uma definição do tipo que hoje se chamaria ostensiva, isto é, deduzida do trabalho realizado pelos historiadores do pensamento político dos casos particulares para chegar ao problema geral, o problema da existência e da própria possibilidade de uma reflexão filosófica sobre o fenômeno político." (BOBBIO, 1993: 493). Definição Bobbio: "A expressão Ciência política pode ser usada em sentido amplo e não técnico para indicar qualquer estudo dos fenômenos e das estruturas políticas, conduzido sistematicamente e com rigor, apoiando num amplo e cuidadoso exame dos fatos expostos com argumentos racionais. nesta acepção, o termo 'ciência' é utilizado dentro do significado tradicional como oposto a 'opinião'. Assim, 'ocupar-se cientificamente de política' significa não se abandonar a opiniões e crenças do vulgo, não formular juízos com base em dados imprecisos, mas apoiar-se nas provas dos fatos. Neste sentido, a expressão não é nova, mas usada largamente no século passado"; "Em sentido mais limitado e mais técnico, abrangendo uma área muito bem delimitada de estudos especializados e em parte institucionalizados, com cultores ligados entre si que se identificam como 'cientistas políticos', a expressão Ciência política indica uma orientação de estudos que se propõe aplicar à análise do fenômeno político, nos limites do possível, isto é, na medida em que a matéria o permite, mas sempre com maior rigor, a metodologia das ciências empíricas (sobretudo no elaboração e na codificação derivada da filosofia neopositivista). Em resumo, Ciência política, em sentido estrito e técnico, corresponde à 'ciência empírica da política' ou à 'ciência da política', tratada com base na metodologia das ciências empíricas mas desenvolvidas, como a física, a biologia, etc. Quando hoje se fala do desenvolvimento da Ciência política nos referimos às tentativas que vêm sendo feitas com maior ou menos sucesso, mas tendo em vista uma gradual acumulação de resultados e a promoção do estudo da política como ciência empírica rigorosamente compreendida." (BOBBIO, 1993: 164).
Diferença: "Neste sentido mais específico de 'ciência', a Ciência política vem cada vez mais se distinguindo da pesquisa, voltada não mais para a descrição daquilo 'que deve ser', pesquisa esta à qual convém mais propriamente dar o nome de 'filosofia política', usada comumente. Aceitando-se esta distinção, as obras clássicas do pensamento politico são, em sua maior parte, obras nas quais mal se distingue aquele que pertence à filosofia, enquanto os 'cientistas políticos' contemporâneos tendem a caracterizar as próprias obras como 'científicas' , para acentuar aquilo que as distingue da filosofia. Embora não seja o caso de deter0se sobre o conceito de 'filosofia política', enquanto diferente da Ciência política, é conveniente, pelo menos, advertir que voltam a fazer parte da noção de filosofia política como estudo orientado deontologicamente, tanto as construções racionais da ótima república, que deram vida ao filão das 'utopias', quanto as idealizações ou racionalizações de um tipo de regime possível ou já existente, características das obras clássicas do pensamento político moderno (como Hobbes, Locke, Rousseau, Kant, Hegel). Mais do que distinguindo entre projeção utópica ou idealizante e análise empírica, Sartori individualiza a diferença entre filosofia política e Ciência política, na falta de operatividade ou aplicabilidade da primeira, pois 'a filosofia não é... um pensar para aplicar, um pensar em função da possibilidade de traduzir a ideia no fato', enquanto a ciência 'é teoria que reenvia à pesquisa, tradução da teoria prática', afinal um 'projetar para intervir" (BOBBIO, 1993: 164).

Informações complementares:

Primeiramente é necessário determinar qual é o objeto da Ciência Política (sinônimo de Sociologia política). Estamos tratando aqui do “ramo das ciências sociais que estuda os fenômenos do poder” (DUVERGER, 1968: 24). Mas há duas formas de verificar os fenômenos do poder, capaz de modificar o olhar que se tem da disciplina: A ciência política é uma ciência do Estado ou uma ciência do poder? Duverger defende a segunda opção, pelo seu caráter “mais ‘operacional’” (DUVERGER, 1968: 13). A questão é se devemos ou não compreender o Estado (enquanto um possível fenômeno de poder) como objeto único da ciência, e não logo o poder em si, para além do Estado. A concepção de uma ciência do Estado vem  da compreensão de que Política é o “conhecimento de totó que se relaciona com a arte de governar um Estado e de dirigir suas relações com os demais Estados” (DUVERGER, 1968: 14). Essa noção de política pressupõe que o Estado é “uma categoria particular de agrupamentos humanos, de sociedades”, cujos sentidos podem ser dois: “Estado-nação e Estado-governo” (DUVERGER, 1968: 14). Ambas os sentidos são formas bastante restritas de tratar o Estado. O primeiro carrega um forte teor conjuntural (datado), “O Estado, no sentido de Estado-nação, designa a sociedade nacional, quer dizer, um tipo de comunidade, nascida no fim da Idade Média e que é hoje o mais fortemente organizado e o melhor integrado” (DUVERGER, 1968: 14), ou seja, trata-se do Estado Moderno. O problema dessa definição é que não há um consenso a respeito da continuidade ou da descontinuidade do termo Estado. Há quem defenda que o Estado (Moderno) inaugurado por Maquiavel, aquele ‘novo’ que nasce da desagregação do mundo Feudal, em defesa da descontinuidade do termo (BOBBIO, 1987: 67-68). Entretanto há quem defenda sua continuidade, por não considera o Estado Moderno um fenômeno de fato ‘novo, na medida em que se apresenta como mais do que possível realizar analises comparativas com o Estado descrito, por exemplo por Aristóteles (Grécia antiga) (BOBBIO, 1987: 70). O segundo sentido é também bastante restrito pois considera que os únicos atores políticos relevantes são aqueles que de fato ocupam um espaço no Estado (instituição), desconsiderando que há diversos outros atores políticos (nacionais e internacionais) de muitíssima relevância, o mercado (nacionais e internacional) e a sociedade civil são exemplos disso, restritivo pois a noção de Estado é a de um “Estado-governo [que] designa os governantes, os chefes desta sociedade nacional” (DUVERGER, 1968: 14) e ninguém mais. Assumir a Ciência (Sociologia) Política como uma ciência do Estado é relega-la ao mesmo patamar que a sociologia urbana, jurídica, religiosa, mas claramente a disciplina vai muito além do que as especificidades já citadas (pelos motivos inclusive já expostos). A Ciência Política compreendida como uma ciência do poder considera-se ser também a ciência “do governo, da autoridade, do mando, em todas as sociedades humanas e não apenas na sociedade nacional” (DUIVERGER, 1968: 14), e dessa forma ela se mostra acumulativa, ampla (multidimensional e complexa), e não restrita. Duverger defende a ciência do poder nos seguintes aspectos:

1. “Fazer da sociologia política a ciência do Estado, isolando o estudo de uma sociedade nacional do das outras sociedades, é sugerir, implicitamente, que o Estado e a sociedade nacional são de natureza diversa da dos demais grupos humanos. Essa tendência se prende a uma teoria, nascida com o próprio Estado no fim da Idade Média: o da ‘soberania’, que dominou o pensamento jurídico até a Primeira Guerra Mundial. O Estado seria uma espécie de sociedade perfeita, não dependendo de nenhuma outra e dominando todas as restantes: seria, assim, ‘soberano’. Os governantes do Estado teriam, em consequência, uma qualidade particular, de que os chefes dos demais grupos não partilhariam, e que se chamava, igualmente, ‘soberania’. As duas noções, de ‘soberania do Estado’ e de ‘soberania no Estado’ correspondem, respectivamente, aos conceitos de Estado-nação e de Estado-governo’, que se descreveu acima.” (DUVERGER, 1968: 15).

2. “Os sustentadores da ‘sociologia [ciência] política = ciência do poder’ tendem, pelo contrário, a pensar que o poder no Estado não difere, por natureza, do que ele representa em outras sociedades humanas e que ele se distingue dos demais unicamente pela perfeição de sua organização interna ou pelo grau de obediência que obtém. Implicitamente, eles rejeitam a teoria da soberania. Mais exatamente: consideram-na como um sistema de valores, que teve importância em certos momentos da História, que a conserva ainda em parte, mas que não tem significação científica e não corresponde a uma realidade positiva” (DUVERGER, 1968: 15-16).

3. “Do ponto de vista científico, a concepção da ‘sociologia política = ciência do poder’ é superior a primeira. Não se pode dizer que ela está mais de acordo com a realidade, pois as definições dos diferentes ramos da ciência servem unicamente para estabelecer fronteiras, a fim de possibilitar a repartição de pesquisas entre especialistas. A superioridade verdadeira da concepção ‘sociologia política = sociologia do poder’ é que ela é mais operacional do que a outra: somente ela permite, de fato, a verificação de sua hipótese básica. Ao estudar de maneira comparativa, o poder em todos os grupos humanos, poder-se-á descobrir as diferenças de natureza entre o poder no Estado e o poder nos outros grupos, quando essas diferenças existirem.” (DUVERGER, 1968: 16).

* Poder: “Em seu significado mais geral, (...) a capacidade ou a possibilidade de agir, de produzir efeitos. Tanto pode ser referida a indivíduos e a grupos humanos como a objetos ou a fenômenos naturais (como na expressão Poder calorífico, Poder de absorção).” (BOBBIO, 1993: 993).  E “em sentido especificamente social, ou seja, na sua relação com a vida do homem em sociedade”, o Poder assume sua forma mais precisa, a do “Poder do homem sobre o Homem”, e isso significa dizer que o Poder “pode ir desde a capacidade geral de agir, até à capacidade do homem em determinar o comportamento do homem” (BOBBIO, 1993: 993). “O homem é não só o sujeito mas também o objeto do Poder social. E Poder social a capacidade que um pai tem para dar ordens a seus filhos ou a capacidade de um Governo de dar ordens aos cidadãos.” (BOBBIO, 1993: 993).

Referencias bibliográficas:

DUVERGER, Maurice. Sociologia Política. Rio de Janeiro: Companhia Editora Forense, 1968.

BOBBIO, Norberto. Estado, governo, sociedade: por uma teoria geral da política. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987.

BOBBIO, Norberto. Dicionário de Política. Brasília: Adunb, 1993.

HOUAISS, Antônio. Dicionário Houaiss da língua portuguesa. Rio de Janeiro: Objetiva, 2009.

Filosofia da Política Ciência Política
Definição Houaiss para verbete 'Filosofia': "investigação da dimensão essencial e ontológica do mundo real, ultrapassando a opinião refletida do senso comum que se mantém cativa da realidade empírica e das aparências sensíveis"; "no âmbito das relações com o conhecimento científico, conjunto de princípios teóricos que fundamentam, avaliam e sintetizam as ciências particulares, contribuindo para o desenvolvimento destes muitos ramos do saber" (HOUAISS, 2009: 897). Definição Houaiss para verbete 'Ciência': "corpo de conhecimentos sistematizados adquiridos via observação, identificação, pesquisa e explicação de determinadas categorias de fenômenos e fatos, e formulados metódica e racionalmente"; "cada um dos inúmeros ramos particulares e específicos do conhecimento, caracterizados por sua natureza empírica, lógica e sistemática, baseada em provas, princípios, argumentações ou demonstrações que garantam ou legitimem a sua validade" (HOUAISS, 2009: 463).
Definição Houaiss de 'política': Para o verbete ‘política’: "arte ou ciência de governar"; "arte ou ciência de organização, direção e administração de nações ou Estados"; "arte de guiar ou influenciar o podo de governo pela organização de um partido, influência da opinião pública, aliciação de eleitores etc."; "habilidade no relacionar-se com os outros, tendo em vista a obtenção de resultados desejados" (HOUAISS, 2009: 1519).
Palavra chave: Essência; Metafísica; Palavra chave: Prova; História.
Antítese: É possível estabelecer o senso comum ou a opinião de um indivíduo isolado como conceitos opostos tanto ao campo da filosofia da política quanto ao campo da ciência política. Pois hora são expressos com base em informações já dadas, isentas de investigação (senso comum), e hora em meras conjecturas individuais não relacionadas ao esforço cientifico, ao esforço empírico em burca de provas (opinião).
Definição Bobbio: "Estabelecer com clareza e precisão o que se entende ou o que se deva entender por Filosofia da política (ou Filosofia política, como prefere o uso comum) não é tarefa fácil. É tão grande a variedade de opiniões a respeito, que o melhor caminho a  seguir parece ser o de propor, como ponto de partida, não uma definição a priori ou estipulativa, mas uma definição do tipo que hoje se chamaria ostensiva, isto é, deduzida do trabalho realizado pelos historiadores do pensamento político dos casos particulares para chegar ao problema geral, o problema da existência e da própria possibilidade de uma reflexão filosófica sobre o fenômeno político." (BOBBIO, 1993: 493). Definição Bobbio: "A expressão Ciência política pode ser usada em sentido amplo e não técnico para indicar qualquer estudo dos fenômenos e das estruturas políticas, conduzido sistematicamente e com rigor, apoiando num amplo e cuidadoso exame dos fatos expostos com argumentos racionais. nesta acepção, o termo 'ciência' é utilizado dentro do significado tradicional como oposto a 'opinião'. Assim, 'ocupar-se cientificamente de política' significa não se abandonar a opiniões e crenças do vulgo, não formular juízos com base em dados imprecisos, mas apoiar-se nas provas dos fatos. Neste sentido, a expressão não é nova, mas usada largamente no século passado"; "Em sentido mais limitado e mais técnico, abrangendo uma área muito bem delimitada de estudos especializados e em parte institucionalizados, com cultores ligados entre si que se identificam como 'cientistas políticos', a expressão Ciência política indica uma orientação de estudos que se propõe aplicar à análise do fenômeno político, nos limites do possível, isto é, na medida em que a matéria o permite, mas sempre com maior rigor, a metodologia das ciências empíricas (sobretudo no elaboração e na codificação derivada da filosofia neopositivista). Em resumo, Ciência política, em sentido estrito e técnico, corresponde à 'ciência empírica da política' ou à 'ciência da política', tratada com base na metodologia das ciências empíricas mas desenvolvidas, como a física, a biologia, etc. Quando hoje se fala do desenvolvimento da Ciência política nos referimos às tentativas que vêm sendo feitas com maior ou menos sucesso, mas tendo em vista uma gradual acumulação de resultados e a promoção do estudo da política como ciência empírica rigorosamente compreendida." (BOBBIO, 1993: 164).
Diferença: "Neste sentido mais específico de 'ciência', a Ciência política vem cada vez mais se distinguindo da pesquisa, voltada não mais para a descrição daquilo 'que deve ser', pesquisa esta à qual convém mais propriamente dar o nome de 'filosofia política', usada comumente. Aceitando-se esta distinção, as obras clássicas do pensamento politico são, em sua maior parte, obras nas quais mal se distingue aquele que pertence à filosofia, enquanto os 'cientistas políticos' contemporâneos tendem a caracterizar as próprias obras como 'científicas' , para acentuar aquilo que as distingue da filosofia. Embora não seja o caso de deter0se sobre o conceito de 'filosofia política', enquanto diferente da Ciência política, é conveniente, pelo menos, advertir que voltam a fazer parte da noção de filosofia política como estudo orientado deontologicamente, tanto as construções racionais da ótima república, que deram vida ao filão das 'utopias', quanto as idealizações ou racionalizações de um tipo de regime possível ou já existente, características das obras clássicas do pensamento político moderno (como Hobbes, Locke, Rousseau, Kant, Hegel). Mais do que distinguindo entre projeção utópica ou idealizante e análise empírica, Sartori individualiza a diferença entre filosofia política e Ciência política, na falta de operatividade ou aplicabilidade da primeira, pois 'a filosofia não é... um pensar para aplicar, um pensar em função da possibilidade de traduzir a ideia no fato', enquanto a ciência 'é teoria que reenvia à pesquisa, tradução da teoria prática', afinal um 'projetar para intervir" (BOBBIO, 1993: 164).

Informações complementares:

Primeiramente é necessário determinar qual é o objeto da Ciência Política (sinônimo de Sociologia política). Estamos tratando aqui do “ramo das ciências sociais que estuda os fenômenos do poder” (DUVERGER, 1968: 24). Mas há duas formas de verificar os fenômenos do poder, capaz de modificar o olhar que se tem da disciplina: A ciência política é uma ciência do Estado ou uma ciência do poder? Duverger defende a segunda opção, pelo seu caráter “mais ‘operacional’” (DUVERGER, 1968: 13). A questão é se devemos ou não compreender o Estado (enquanto um possível fenômeno de poder) como objeto único da ciência, e não logo o poder em si, para além do Estado. A concepção de uma ciência do Estado vem  da compreensão de que Política é o “conhecimento de totó que se relaciona com a arte de governar um Estado e de dirigir suas relações com os demais Estados” (DUVERGER, 1968: 14). Essa noção de política pressupõe que o Estado é “uma categoria particular de agrupamentos humanos, de sociedades”, cujos sentidos podem ser dois: “Estado-nação e Estado-governo” (DUVERGER, 1968: 14). Ambas os sentidos são formas bastante restritas de tratar o Estado. O primeiro carrega um forte teor conjuntural (datado), “O Estado, no sentido de Estado-nação, designa a sociedade nacional, quer dizer, um tipo de comunidade, nascida no fim da Idade Média e que é hoje o mais fortemente organizado e o melhor integrado” (DUVERGER, 1968: 14), ou seja, trata-se do Estado Moderno. O problema dessa definição é que não há um consenso a respeito da continuidade ou da descontinuidade do termo Estado. Há quem defenda que o Estado (Moderno) inaugurado por Maquiavel, aquele ‘novo’ que nasce da desagregação do mundo Feudal, em defesa da descontinuidade do termo (BOBBIO, 1987: 67-68). Entretanto há quem defenda sua continuidade, por não considera o Estado Moderno um fenômeno de fato ‘novo, na medida em que se apresenta como mais do que possível realizar analises comparativas com o Estado descrito, por exemplo por Aristóteles (Grécia antiga) (BOBBIO, 1987: 70). O segundo sentido é também bastante restrito pois considera que os únicos atores políticos relevantes são aqueles que de fato ocupam um espaço no Estado (instituição), desconsiderando que há diversos outros atores políticos (nacionais e internacionais) de muitíssima relevância, o mercado (nacionais e internacional) e a sociedade civil são exemplos disso, restritivo pois a noção de Estado é a de um “Estado-governo [que] designa os governantes, os chefes desta sociedade nacional” (DUVERGER, 1968: 14) e ninguém mais. Assumir a Ciência (Sociologia) Política como uma ciência do Estado é relega-la ao mesmo patamar que a sociologia urbana, jurídica, religiosa, mas claramente a disciplina vai muito além do que as especificidades já citadas (pelos motivos inclusive já expostos). A Ciência Política compreendida como uma ciência do poder considera-se ser também a ciência “do governo, da autoridade, do mando, em todas as sociedades humanas e não apenas na sociedade nacional” (DUIVERGER, 1968: 14), e dessa forma ela se mostra acumulativa, ampla (multidimensional e complexa), e não restrita. Duverger defende a ciência do poder nos seguintes aspectos:

1. “Fazer da sociologia política a ciência do Estado, isolando o estudo de uma sociedade nacional do das outras sociedades, é sugerir, implicitamente, que o Estado e a sociedade nacional são de natureza diversa da dos demais grupos humanos. Essa tendência se prende a uma teoria, nascida com o próprio Estado no fim da Idade Média: o da ‘soberania’, que dominou o pensamento jurídico até a Primeira Guerra Mundial. O Estado seria uma espécie de sociedade perfeita, não dependendo de nenhuma outra e dominando todas as restantes: seria, assim, ‘soberano’. Os governantes do Estado teriam, em consequência, uma qualidade particular, de que os chefes dos demais grupos não partilhariam, e que se chamava, igualmente, ‘soberania’. As duas noções, de ‘soberania do Estado’ e de ‘soberania no Estado’ correspondem, respectivamente, aos conceitos de Estado-nação e de Estado-governo’, que se descreveu acima.” (DUVERGER, 1968: 15).

2. “Os sustentadores da ‘sociologia [ciência] política = ciência do poder’ tendem, pelo contrário, a pensar que o poder no Estado não difere, por natureza, do que ele representa em outras sociedades humanas e que ele se distingue dos demais unicamente pela perfeição de sua organização interna ou pelo grau de obediência que obtém. Implicitamente, eles rejeitam a teoria da soberania. Mais exatamente: consideram-na como um sistema de valores, que teve importância em certos momentos da História, que a conserva ainda em parte, mas que não tem significação científica e não corresponde a uma realidade positiva” (DUVERGER, 1968: 15-16).

3. “Do ponto de vista científico, a concepção da ‘sociologia política = ciência do poder’ é superior a primeira. Não se pode dizer que ela está mais de acordo com a realidade, pois as definições dos diferentes ramos da ciência servem unicamente para estabelecer fronteiras, a fim de possibilitar a repartição de pesquisas entre especialistas. A superioridade verdadeira da concepção ‘sociologia política = sociologia do poder’ é que ela é mais operacional do que a outra: somente ela permite, de fato, a verificação de sua hipótese básica. Ao estudar de maneira comparativa, o poder em todos os grupos humanos, poder-se-á descobrir as diferenças de natureza entre o poder no Estado e o poder nos outros grupos, quando essas diferenças existirem.” (DUVERGER, 1968: 16).

* Poder: “Em seu significado mais geral, (...) a capacidade ou a possibilidade de agir, de produzir efeitos. Tanto pode ser referida a indivíduos e a grupos humanos como a objetos ou a fenômenos naturais (como na expressão Poder calorífico, Poder de absorção).” (BOBBIO, 1993: 993).  E “em sentido especificamente social, ou seja, na sua relação com a vida do homem em sociedade”, o Poder assume sua forma mais precisa, a do “Poder do homem sobre o Homem”, e isso significa dizer que o Poder “pode ir desde a capacidade geral de agir, até à capacidade do homem em determinar o comportamento do homem” (BOBBIO, 1993: 993). “O homem é não só o sujeito mas também o objeto do Poder social. E Poder social a capacidade que um pai tem para dar ordens a seus filhos ou a capacidade de um Governo de dar ordens aos cidadãos.” (BOBBIO, 1993: 993).

Referencias bibliográficas:

DUVERGER, Maurice. Sociologia Política. Rio de Janeiro: Companhia Editora Forense, 1968.

BOBBIO, Norberto. Estado, governo, sociedade: por uma teoria geral da política. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987.

BOBBIO, Norberto. Dicionário de Política. Brasília: Adunb, 1993.

HOUAISS, Antônio. Dicionário Houaiss da língua portuguesa. Rio de Janeiro: Objetiva, 2009.

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Farley Aguiar

Há mais de um mês

O conhecimento vulgar (popular ou senso comum) baseia-se, principalmente, na experiência pessoal, portanto, empírico sensorial, sem sistematização. Portanto, o Conhecimento popular é o saber que preenche nossa vida diária e que se possui sem o haver procurado ou estudado, sem a aplicação de um método e sem haver refletido sobre algo. Por outro lado, O conhecimento científico baseia-se na experimentação e na lógica, sendo suas características: amplitude, profundo, não sensitivo, objetivo, sistemático, crítico, real, experimental e verificável.

 

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