Hermenêutica

Saiba mais sobre o conceito de hermenêutica no Direito. Nesta série de aulas vamos apresentar a interpretação das normas constitucionais e os princípios de interpretação

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Aulas de Hermenêutica

Mutação Constitucional e Reforma Constitucional - Regras e Princípios. - Teoria

Apresentação dos conceitos de mutação constitucional e de reforma constitucional, e suas diferenças, e de como se dá a aplicação e a interpretação de regras e princípios constitucionais.

TRANSCRIÇÃO

E aí, pessoal? Tudo tranquilo?
Vamos começar hoje o nosso terceiro tópico do programa que vai falar de hermenêutica. O nome parece difícil, mas você vão ver que a matéria é super de boa.
Para começar, a gente precisa saber o que é hermenêutica. Para especificar mais, na aula de hoje, falaremos de mutação constitucional, reforma constitucional e depois de regras e princípios.
Mas vamos voltar para a hermenêutica. A hermenêutica é uma área da filosofia que estuda a teoria da interpretação.
Fica fácil deduzir que, no direito, a hermenêutica serve para estudar a interpretação das normas. A função de interpretar a constituição de um estado fica nas mãos do exegeta.
É ele quem vai tentar descobrir os significados dos termos constitucionais. Vocês se lembram da Pirâmide de Kelsen.
A constituição está lá no topo e valida todo o ordenamento jurídico. Por isso, é importante a gente saber bem qual é o alcance da constituição, para poder sacar também a abrangência das normas infraconstitucionais.
Vamos ver algumas regras, só para a gente começar a falar de interpretação. Essa interpretação deve acontecer com base na história das ideologias, das realidades sociais, econômicas e políticas do estado.
É assim que entenderemos o verdadeiro significado do texto constitucional. A primeira regra para a interpretação, que é fundamental, é que não cabe interpretação nos casos em que não houver dúvida.
Por exemplo, o artigo 1º da Constituição. A terceira regra é que a interpretação tem que levar em conta o sistema como um todo.
Ou seja, um conflito entre normas pode ser sempre solucionado através de uma interpretação sistemática orientada por princípios constitucionais. É importante também estar atento para a diferença entre reforma constitucional e mutação constitucional.
A reforma é a mudança no texto constitucional por meio de mecanismos determinados pelo poder constituinte originário. Ela pode alterar, suprimir ou acrescentar artigos no texto original.
Já a mutação não é uma alteração concreta. Ela é uma alteração no significado e no sentido interpretativo do texto constitucional.
Ou seja, a transformação não está no texto em si, como a gente já viu, e o texto fica exatamente como ele estava. A mutação é um processo informal e mostra como as normas jurídicas podem ser dinâmicas.
Para continuar a introdução do assunto, vamos falar sobre regras e princípios. A doutrina considera que tanto regras quanto princípios são espécies de normas diferentes, que não têm hierarquia entre si enquanto referenciais para a pessoa que as está interpretando.
No entanto, um sistema não pode ser composto só de princípios ou regras. Um sistema formado só de regras seria rígido demais, já que não teríamos abertura para avaliar os diferentes casos concretos.
Já o sistema só de princípios seria flexível demais. Ia ser difícil direcionar as condutas e os comportamentos.
Aí, a gente entende porque não dá para dizer qual dos dois é mais importante ou mais necessário no ordenamento jurídico. Na real, são espécies normativas diferentes que desempenham funções diferentes e complementares, e uma não pode ser concebida sem a outra.
E como a gente aplica e interpreta esses princípios e essas regras? A aplicação e interpretação dos princípios e das regras é feita com base em postulados normativos inespecíficos que são a ponderação, que se dá a partir da atribuição de pesos, e a concordância prática e a proibição de excessos, ou seja, a tentativa de garantir a manutenção de uma eficácia mínima dos direitos fundamentais, e em postulados normativos específicos, como a igualdade, a razoabilidade e a proporcionalidade.
Para definir as diferenças entre regras e princípios, o Canotilho estabelece alguns critérios. Primeiro, grau de abstenção.
Podemos dizer que os princípios têm um grau de abstenção relativamente elevado, enquanto as regras têm um grau de abstenção relativamente reduzido. Segundo, o grau de determinabilidade na aplicação do caso concreto.
A partir disso, a gente pode dizer que, como os princípios são vagos e indeterminados, eles exigem a mediação do legislador ou do juiz nos casos concretos, para que eles possam ser concretizados, enquanto as regras têm aplicação direta. Terceiro, o caráter de fundamentalidade nos sistemas das fontes de direito.
Os princípios têm papel fundamental no ordenamento jurídico, diferentemente das regras. Quarto, proximidade da ideia de direito.
Quer dizer que os princípios são padrões enraizados na ideia de justiça ou na ideia de direito, enquanto as regras podem apresentar conteúdo meramente funcional. Por último, natureza normogenética, e aí, os princípios atuam como fundamento para as regras.
O Barroso vai definir as regras como relatos descritivos a partir dos quais se chega a uma conclusão. Essa conclusão acontece mediante subsunção, que significa inclusão em algo maior, diante do enquadramento de um fato a uma previsão abstrata.
Uma regra só não incide sobre um fato se for inválida, se houver outra mais específica, ou se ela não estiver em vigor. Já em relação aos princípios, o caso concreto tem que ser analisado, e aí o intérprete vai determinar o peso de cada princípio, para inclusive poder resolver qualquer conflito.
A aplicação dos princípios é graduada a partir de outras normas ou situações reais. O Robert Alexy também apresenta uma tese para diferenciar princípios de regras.
Para ele, as regras são normas que são sempre satisfeitas ou não satisfeitas, porque, se a gente está falando de uma regra válida, ela deve ser cumprida exatamente como está sendo pedido. Os princípios são mandados de otimização, são normas que determinam que algo seja realizado da melhor maneira, e na melhor medida possível dentro das condições jurídicas e fáticas.
Elas podem ser satisfeitas em graus variados. A diferença entre regras e princípios é uma distinção qualitativa, e não uma distinção de grau.
O Barroso ensina uma coisa importante para a gente. Ele diz que alguns princípios podem ser aplicados como regras, ou seja, da maneira como está definido sem passar pela ponderação, e, por outro lado, as regras também podem ser ponderadas.
Isso acontece quando um princípio com um núcleo de sentido ao qual a gente atribui uma natureza de regra, como, por exemplo, o princípio da dignidade humana. Já as regras, se não forem ponderadas, podem acabar gerando alguma inconstitucionalidade ou ainda violar o fim que ela quer alcançar.
Esse tópico sobre hermenêutica ainda tem duas aulas. Na próxima, a gente vai falar do conceito de derrotabilidade e de normas de segundo grau.
Até. ...

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