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1 OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM
INSTITUTO FEDERAL DE
EDUCAÇÃO, CIÊNCIA E TECNOLOGIA
PARAÍBA
AULA 05Teoria Literária II
Kelly Sheila Inocêncio Costa Aires
Maria Analice Pereira da Silva
Marta Célia Feitosa Bezerra
O tempo na narrativa 
ficcional
 � Perceber a diferença entre tempo do 
enunciado e tempo da enunciação.
 � Perceber a complexa descontinuidade 
temporal nos romances do século XX.
 � Discernir, segundo a classificação de Benedito 
Nunes, tempo físico e tempo psicológico.
 � Compreender a categoria literária do tempo como 
indissociável dos elementos constituintes da narrativa.
UNIDADE 01
74
O tempo na narrativa ficcional
2 Começando a história
Caro aluno,
Chegamos à aula 5 da disciplina de Teoria Literária II. Nela, vamos, dando 
continuidade ao estudo das categorias analíticas que compõem o texto ficcional, 
destinar especial atenção ao estudo do tempo.
Importa-nos, sobremaneira, a apreensão dessa categoria enquanto componente 
narrativo que se entrelaça com os outros elementos constitutivos, dotando a obra 
de um todo complexo, em que suas partes estão intrinsecamente ligadas, em 
que cada uma é elemento importante para a compreensão da trama narrativa.
Vamos, a partir das diversas teorias que embasam seu estudo, tentar perceber 
a diferença entre tempo cronológico e tempo psicológico e de como a sua 
categorização vai importar na economia da obra.
Figura 1 
Fonte: Ilustração Raoni Xavier
75
AULA 05
3 Tecendo o conhecimento
Confesso-te, Senhor, que não sei ainda o que é tempo, e, no 
entanto, sei que pronuncio estas palavras no tempo. Sei também 
que há muito estou falando do tempo, e que este “muito” não é 
outra coisa senão uma duração de tempo. Como posso saber 
isso se ignoro o que seja o tempo?Será que não sei exprimir o 
que sei? Ai de mim, que nem ao menos sei o que ignoro.
(Confissões, Santo Agostinho)
De todas as categorias de análise que estruturam a narrativa ficcional é, talvez, 
a categoria do tempo que exija uma percepção mais aguçada, exatamente pelo 
seu caráter etéreo, abstrato. O tempo não é algo que identifiquemos através 
de uma marca concreta, assim como os personagens, o narrador, o espaço. É 
preciso uma atenção pormenorizada em sua inserção, sobretudo, porque a ele 
se liga intrinsecamente outra categoria, que é a do espaço, cujo estudo se dará, 
de forma mais ampliada, na aula seguinte.
Aristóteles, n’A Poética, já destinava boa parte de suas observações ao tempo. 
Você deve lembrar que, para Aristóteles, a representação de uma ação humana é a 
base estrutural da poesia lírica, da tragédia, da epopeia e da comédia. Os gêneros 
literários se classificam, considerando a imitação (mimese) de uma ação humana.
Esperamos que o conceito de mimese tenha ficado bem sedimentado, mas não é 
demais lembrar que, para Aristóteles, essa imitação de uma ação humana considera, 
sobremaneira, a capacidade de seu autor, a imaginação e o jogo com as palavras.
Quando Aristóteles, n’A poética (2007, p. 24), diferencia a tragédia da epopeia, 
ele o faz também em relação ao tempo. Se não vejamos:
A poesia épica emparelha-se com a tragédia em serem ambas imitação 
metrificada de seres superiores; a diferença está em que aquela se compõe 
num metro uniforme e é narrativa. Também na extensão; a tragédia, com 
efeito, empenha-se, quanto possível, em não passar duma revolução do 
sol ou superá-la de pouco; a epopeia não tem duração delimitada e nisso 
difere. Não obstante, primitivamente, procediam assim tanto nas tragédias 
como nas epopeias.
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O tempo na narrativa ficcional
Ao falar da tragédia, cuja principal característica é a atuação dos personagens, 
Aristóteles diz que o tempo é o da duração da própria ação dramática, que 
não deve durar mais de um dia. Já na epopeia, gênero marcado não mais pela 
atuação e sim pela narração, o tempo não é limitado, no entanto obedece a uma 
sequência de princípio, meio e fim. Percebemos, por isso, que na concepção 
aristotélica, esses modos de narrar privilegiavam o tempo cronológico, o tempo 
medido em relação à duração das ações e dos movimentos.
Perceba que Aristóteles já apontava para uma diferença em relação ao tempo 
da ação e ao tempo da narração, o que nos permite dizer que o tempo da 
enunciação é um e o tempo do enunciado é outro.
Complicou? Vamos entender, então.
Existe, na narração, um tempo datado, o tempo que pode ser medido, o tempo 
cronológico que, embora fictício, registra-se por meio de dias, meses, anos. Esse 
tempo marca o momento da ação, portanto, o tempo do enunciado. A partir 
dessa ação, o discurso do narrador pode respeitar ou desrespeitar essa ordem, 
segundo a sua perspectiva, o que seria o tempo da enunciação. 
Vamos a um exemplo prático:
Em Memórias Póstumas de Brás Cubas, romance de Machado de Assis, há uma 
quebra de linearidade em relação ao tempo, ou seja, o discurso da enunciação 
é bem diferente do discurso do enunciado. Se você bem se lembra, o narrador-
personagem começa a sua história pela morte da personagem-título, para, 
só depois, voltar ao seu nascimento. Veja que, no tempo do enunciado, a 
linearidade se apresenta como nascimento e morte, mas o narrador, a seu bel 
prazer, inverte essa sequência, de acordo com suas intenções e de acordo com 
o tipo de organização que pretende imprimir a seu texto.
Você certamente já se deparou com algum tipo de narrativa em que o personagem, 
numa espécie de flashback, volta-se para uma ação passada, na tentativa de 
revisitá-la, compreendê-la ou explicá-la. A ação se passou em um tempo, mas o 
personagem está em outro, no tempo da enunciação. Paul Ricouer distingue o 
tempo narrado (enunciado) do tempo da narração (enunciação). Nesse sentido, 
há uma diferenciação entre narrativa histórica, em que o tempo é real, datado 
cronologicamente, e a narrativa ficcional, em que os tempos não apresentam, 
necessariamente, relação com a realidade.
Se os tempos, na narrativa ficcional, não têm de apresentar uma relação com a 
realidade, também não existe uma regra determinante de seu uso. Por isso os 
saltos, os lapsos, as descontinuidades e as inversões temporais são possíveis; não 
77
AULA 05
só isso, eles vão representar um recurso que garante a originalidade estilística de 
cada autor. À luz dessas múltiplas possibilidades narrativas, nas quais o tempo é 
configurado determinando e mediando os fatos e acontecimentos do enredo, 
resgatamos a tipologia de Benedito Nunes (2002), que direcionará nossos estudos, 
na qual ele menciona a existência do tempo psicológico e do tempo físico. 
3.1 Tempo físico e tempo psicológico.
Benedito Nunes (2002) considera que o tempo psicológico pode ser caracterizado 
como aquele em que há um permanente desencontro com as medidas temporais 
objetivas, que são as marcas concretas do tempo cronológico, do tempo do 
calendário, os anos, os meses, as horas, os minutos: uma hora pode parecer-
nos tão curta quanto um minuto, se a vivermos intensamente; um minuto pode 
parecer-nos tão longo quanto uma hora, se nos entediamos. Reforçando uma 
definição para essa classificação do tempo, podemos dizer, também, que ele se 
compõe de momentos imprecisos, que se aproximam ou tendem a fundir-se, 
o passado indistinto do presente, abrangendo, ao sabor de sentimentos e 
lembranças, intervalos heterogêneos incomparáveis.
Vamos lembrar aqui do conto Cinco Minutos de José de Alencar, que é um 
exemplo interessante de tempo psicológico. O conto, disponível para leitura no 
seguinte endereço: http://objdigital.bn.br/Acervo_Digital/Livros_eletronicos/
cincominutos.pdf, conta a estória de um encontro amoroso que se sucede 
porque o personagem principal atrasa-se cinco minutos para tomar o bonde, no 
horário costumeiro. Por se atrasar cinco minutos, é obrigado a tomar um bonde 
num horário diferente. Senta-se ao lado de uma jovem e descobre nela o seu 
grande amor. O fato é que a história é contada na forma de um relato, ou seja, 
depois do fato acontecido, quando o casal já está junto há muito tempo. Mais 
ainda, érelatado através de uma carta endereçada à prima.
Analisemos, então. O tempo do acontecimento é um, o tempo do relato e o 
tempo da carta são outros. Há, portanto, instâncias temporais diferentes. Há um 
descompasso entre o tempo cronológico e o tempo psicológico. Interessante 
ainda perceber que, do ponto de vista cronológico, a instância marcada “cinco 
minutos” é absolutamente irreal, quando se trata do enredo mencionado. Todo 
o acontecimento vivido e narrado não poderia se dar em cinco minutos.
Mas, caro aluno, estamos tratando de literatura e, à escrita literária é facultado o 
descumprimento daquilo que rege a vida real, exatamente porque a literatura 
transita livremente entre os diversos estatutos da escrita. Por isso mesmo, o 
http://objdigital.bn.br/Acervo_Digital/Livros_eletronicos/cincominutos.pdf
http://objdigital.bn.br/Acervo_Digital/Livros_eletronicos/cincominutos.pdf
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O tempo na narrativa ficcional
cumprimento do tempo cronológico não se aplica aos textos literários, porque 
o tempo envolve e depende de aspectos que vão além da concretude de um 
fato: o estilo do autor, a originalidade, o contexto, a subjetividade e tantos outros.
Em Em Busca do Tempo perdido, de Marcel Proust, há uma passagem singular daquilo 
que estamos falando a respeito do tempo psicológico. O personagem-narrador, 
adulto, vivendo em um tempo cronológico muito distante dos acontecimentos 
de sua infância, no exato momento em que se depara com um doce, chamado 
Madeleine, muito comum em sua época de menino e o põe na boca, imediatamente, 
o efeito provocado em seu paladar leva o personagem a um tempo distante, e, a 
partir daí, ele se transporta a um outro mundo, com outros personagens, outras 
ações. Essa rememoração se reporta a um período da vida do personagem que está 
muito distante da vida real, ou seja, da vida narrada. Há aí, portanto, um absoluto 
descompasso entre tempo cronológico, que não duraria mais de um minuto e o 
tempo psicológico que, dentro de um minuto, cobriu uma vida inteira.
Aquele gosto era o do pedaço de madalena que nos 
domingos de manhã em Combray (pois nos domingos 
eu não saía antes da hora da missa) minha tia Leôncia me 
oferecia, depois de o ter mergulhado no seu chá da índia 
ou de tília, quando ia cumprimentá-la em seu quarto [...] E 
mal reconheci o pedaço de madalena molhado no chá que 
minha tia me dava (embora ainda não soubesse, e tivesse 
de deixar para muito mais tarde tal averiguação, por que 
motivo aquela lembrança me tornava tão (feliz), eis que a 
velha casa cinzenta, de fachada para a rua, onde estava o 
seu quarto, veio aplicar-se, como um cenário de teatro, ao 
pequeno pavilhão que dava para o jardim...
Poderíamos nos reportar ainda à narrativa bíblica, no episódio do Sacríficio 
de Abraão, texto contido no Velho Testamento. Erich Auerbach, (2002, p. 11) 
em Mímesis, tratando da distinção entre estatuto histórico e estatuto literário, 
mostra-nos que o tempo na narrativa bíblica não é um marcador cronológico; 
é, muito mais, um índice de caracterização da personalidade do personagem ou 
do poder das ordens divinas. Quando Deus diz a Abraão que ele deve acordar 
muito cedo, ele não está se referindo ao horário, mas à característica dele como 
ser madrugador. Obviamente, enquanto texto literário, o texto bíblico é esvaziado 
de seus componentes textuais reais, não necessitando de um cumprimento 
temporal concreto, passando a apresentar aquilo que Benedito Nunes chama 
de tempo mítico. Auerbach compreende que algumas marcas temporais no 
texto bíblico simbolizam não a representação de um tempo físico e concreto, 
mas uma alusão à atitude de Abraão. Veja o seguinte trecho:
79
AULA 05
Deus disse: “Toma teu filho, teu único, que mamas, Isaac, e 
vai à terra de Moriá, e lá o oferecerás em holocausto sobre 
uma montanha que eu te indicarei.”
Abraão se levantou cedo, selou seu jumento e tomou consigo 
dois de seus servos e seu filho Isaac. Ele rachou a lenha do 
holocausto e se pôs a caminho para o lugar que Deus lhe 
havia indicado. No terceiro dia, Abraão, levantando os olhos, 
viu de longe o lugar.
Para Auerbach, a utilização de termos como “cedo”, “No terceiro dia”, na narrativa 
bíblica, não tem a função de precisar o tempo, de demarcar cronologicamente 
uma situação, e sim, de ressaltar o caráter ordeiro, cumpridor, submisso e fiel 
de Abraão. Obviamente isso se deve ao cumprimento de uma função no texto 
bíblico, mas serve para nos mostrar que a alusão ao tempo, nas narrativas, nem 
sempre é marca de sua contagem cronológica.
Enquanto o tempo psicológico nas narrativas decorre de demandas subjetivas da 
interioridade, o tempo físico se traduz como mensurações precisas baseadas em 
estalões unitários constantes, para o cômputo da duração. Ele seria a experiência do 
movimento exterior das coisas no mundo, podendo ser a medida do movimento, ou 
a relação entre o movimento anterior e o posterior, independendo da consciência 
do sujeito. Diferindo, ainda, do tempo psicológico, o tempo físico se caracteriza 
pela ordem objetiva, que se apoia na conexão entre causa e efeito, como forma 
de sucessão regular dos eventos naturais.
Para Benedito Nunes, o tempo físico se apoia no princípio de causalidade, ou 
seja, as coisas acontecem como sucessão regular dos eventos naturais. Se algo 
acontece posteriormente a outro acontecimento, significa dizer que esse algo 
é efeito e, portanto, a ordem em que esses eventos aparecem na narrativa não 
pode ser invertida (o efeito não pode vir antes da causa). Por exemplo, não 
podemos imaginar que uma água despejada volte ao copo, a não ser como um 
efeito especial, recurso bastante utilizado no cinema.
Benedito nos fala ainda do tempo histórico, uma caracterização do tempo físico 
ou cronológico que representa a duração das formas históricas de vida, dividido 
em intervalos curtos (guerras, revoluções, migrações, movimentos religiosos, 
sucessos políticos) e intervalos longos, que correspondem a uma rede complexa 
de fatos ou a um processo (formação da cidade grega, desenvolvimento do 
feudalismo, advento do capitalismo). Na literatura brasileira temos várias obras, 
sobretudo os romances históricos, que se caracterizam por seguir essa sequência 
temporal cronológica marcada por acontecimentos históricos, haja vista romances 
como As minas de prata e A guerra dos mascates, de José de Alencar, Os sertões, 
80
O tempo na narrativa ficcional
de Euclides da Cunha, O tempo e o vento, de Érico Veríssimo, e os mais recentes 
como Agosto, de Rubem Fonseca, e Olga, de Fernando Morais.
Mas você poderia perguntar: como identificar tudo isso na obra literária? Nesse 
ponto chegamos a uma outra caracterização de tempo bastante pertinente que 
é, no dizer de Benedito Nunes, a do tempo linguístico.
3.2 Como dizer o tempo
Para além da classificação em tempo físico ou cronológico, a utilização de 
determinadas palavras é aquilo que vai determinar o eixo temporal a partir 
do qual determinados eventos se ordenam. Veja que não é simplesmente a 
relação de causa e feito entre um evento e outro. É a forma como essa situação 
se transfigura através da linguagem.
Cada vez que dizemos algo, esse exato momento da expressão, da fala, é o agora, 
ou seja, é o presente da enunciação funcionando como eixo que vai delimitar 
a linha temporal que os eventos devem seguir. O tempo próprio da linguagem 
é o tempo da enunciação. O passado e o futuro vão se situar como “pontos de 
vista” para trás ou para adiante a partir de um presente.
São as expressões adverbiais como “hoje”, “ontem”, “amanhã”, “depois” que vão, 
na fala, indicar uma retrospecção ou uma prospecção, considerando o momento 
da fala, o tempo da enunciação.
Observe, caro aluno, que o tempo linguístico não se reduz às divisões do tempo 
cronológico, porque vai revelar as próprias relações subjetivas no interior do 
discurso. Veja o que diz Benedito (1995, p. 22) a respeito dessas relações na narrativa:
É a partir dos personagens, dos enunciados a respeito deles 
ou daquelesque proferem, que fica demarcado o presente 
da enunciação: os dêiticos, hoje, amanhã, depois, funcionam 
dentro de um intercâmbio linguístico que se passa entre esses 
interlocutores, e sem o qual o enquadramento cronológico 
seria um molde abstrato. O tempo linguístico dependerá 
do ponto de vista da narrativa, seja da visão onisciente ou 
impessoal, de proximidade ou de participação (narração 
em terceira pessoa) do narrador sobre os personagens, 
seja de sua visão identificada com um deles (narração em 
primeira pessoa).
Vamos entender esse pensamento: primeiramente, você lembra do conceito 
de dêiticos, em seus estudos de linguística? Se não, dedique um pouco de 
seu tempo e volte ao material de linguística, a fim de aclarar esse conceito. Em 
81
AULA 05
segundo lugar, conforme o que você estudou na aula dedicada ao narrador, 
viu que o ponto de vista refere-se à caracterização do narrador, ou seja de que 
ângulo a narrativa é conduzida. No dizer de Benedito, a narrativa obedece a uma 
ordem própria de configuração do tempo porque considera a interrelação de 
seus elementos constitutivos como narrador, personagens, espaços e é, a partir 
deles, que o tempo se constrói.
A depender da intenção e do estilo do narrador, o tempo pode aparecer como 
uma construção anacrônica, ou seja, estabelece-se um pacto entre autor e leitor 
no qual se compreende que os acontecimentos narrados não pertencem à voz 
que os anuncia porque, muitas vezes, o próprio narrador abstrai a diferença entre 
presente e passado.
Essa anacronia é muito mais frequente nas narrativas do século XX. Como 
ruptura com a narrativa do século XIX, que procurou legitimar a ficção pela 
verossimilhança das situações, buscando uma representação do real, com base no 
conhecimento das leis naturais, a narrativa do século XX volta-se para o interior 
do sujeito, para a compreensão introspectiva do personagem. Assim sendo, a 
narrativa liberta-se da exigência de obediência ao princípio de causalidade, ou 
seja, tentando transfigurar o interior do sujeito, o pensamento do personagem, 
que não segue nenhum tipo de linearidade, também a narrativa vai fugir de uma 
sequência, inclusive temporal. Os pensamentos, à medida que surgem na mente 
do sujeito, não diferenciam presente, passado e futuro. Tentando transfigurar 
esse movimento interior, também a narrativa vai espelhar esse mundo caótico e 
irregular, cuja trama é construída com base em momentos imprecisos, voltados da 
direção do passado ou do futuro, através de um discurso muitas vezes imbricado 
e complexo. É essa descontinuidade temporal que justifica a denominação de 
certos romances como romances de fluxo da consciência. Eles incorporaram à sua 
trama as mudanças que ocorriam, simultaneamente, no interior dos personagens.
Sabemos que o uso do fluxo da consciência não é uma prática exclusiva dos 
romances do século XX. Machado de Assis, por exemplo, já se utilizava desse 
recurso, e com bastante maestria, no século XIX. No entanto, foi no século XX que 
o homem viu-se engolido, deslocado em um mundo que não o compreende, 
à deriva de seus próprios desejos. Essa incompletude e incompreensão do 
mundo que o cerca o fazem voltar-se para dentro de si mesmo, para encontrar 
essa profusão de sentimentos e desejos que se realizam somente no plano da 
abstração, do pensamento.
Na literatura brasileira, muitos são os escritores que se utilizam do fluxo da 
consciência como recurso máximo e único de expressão frente ao mundo 
moderno. Podemos destacar Clarice Lispector, Caio Fernando Abreu, João 
82
O tempo na narrativa ficcional
Gilberto Noll e muitos outros. Mas, insistimos em um ponto: essa não é uma 
característica exclusiva das narrativas do século XX. É nesse sentido, caro aluno, 
que nossa prática de pesquisadores deve se voltar para as possibilidades que o 
texto fornece, independentemente do seu contexto de produção.
Veja a seguir um trecho do romance Canoas e Marolas (1999, p. 24), de João 
Gilberto Noll:
Peixes andavam em grupos sob as águas e atrás o garoto 
solfejava ruídos quase agradáveis. Olhei para o pulso quase 
perfurando com os olhos o relógio e pouco vi das manchas 
que deveriam ser os números. Sons de uns cascos de cavalos 
pareciam anunciar um cortejo. Fui para a frente do quiosque 
e vi a rua. Um outdoor exibia um sorriso impecável. Nada 
ilustrava mais a manhã do que aquele sorriso morto. Não 
sei, talvez porque eu estivesse à procura da garota que se 
dizia minha filha e que trabalhava na preparação para a 
melhor das mortes. Aliás, naquele momento já não sabia 
mais se iria mesmo ao encontro dela ou ficaria enfim por ali 
com o garoto à beira do rio, tentando alguns expedientes 
para nosso sustento, pequenos furtos talvez; por enquanto 
não, por enquanto ainda tinha algum dinheiro, e esse seria 
usado entre aquelas matilhas de vira-latas que viviam por 
ali; jogaria um osso ou outro às vezes e eles me protegeriam 
quando fosse necessário me defender: então eu gritaria 
pega esfola fere mata come até!
Meus cães fariam isso por mim ao menor grito, em troca 
lhes daria osso, pelanca, gordura que sobrasse de alguma 
pobre refeição.
Claro, seria covardia esquecer nessas alturas o encontro com 
minha filha naquela casa onde até agora um pouco ficara, 
se bem estava lembrado, se não me confundia.
Canoas e Marolas traz a história de um personagem, João das Águas, que viaja a 
uma ilha distante em busca de conhecer sua filha, fruto de um relacionamento 
amoroso do passado, com uma enfermeira, cujo nome nem ele mesmo se 
lembra. A narrativa é, o tempo inteiro, entrecortada por outras histórias que nada 
têm em comum com o propósito da viagem. Esse pequeno trecho é bastante 
ilustrativo daquilo que vimos afirmando em relação ao fluxo da consciência. 
Observe que a atenção do narrador é desviada continuamente, reproduzindo 
uma ação que acontece em seus pensamentos: olhar o pulso, ver a rua, ouvir 
os sons do cortejo, ver o outdoor, são sensações, são choques que nos atingem 
diariamente sem que percebamos. A narrativa, então, tenta seguir essa falta de 
linearidade, essa profusão caótica de acontecimentos. Observe também que 
83
AULA 05
os verbos são utilizados no futuro do pretérito: ficaria, seria, usaria, protegeriam, 
gritaria, fariam, indicando uma ação que poderá acontecer, mas o personagem 
continua imóvel, o tempo só passa em pensamento.
Mikhail Bakhtin (2000, p. 243), em seus estudos sobre a narrativa, percebe o 
tempo em perfeita comunhão com o espaço, por isso mesmo, não o percebe 
isoladamente, como categoria estanque. Veja o que diz o teórico: 
“o tempo se revela acima de tudo na natureza: no movimento 
do sol e das estrelas, no canto do galo, nos indícios sensíveis 
e visuais das estações do ano. Tudo isso é relacionado com 
os momentos que lhe correspondem na vida do homem. O 
trabalho dos olhos que veem combina-se com um processo 
muito complexo do pensamento. Quaisquer que sejam 
porém, o nível de profundidade e o grau de generalização 
desse processo cognitivo, este nunca se separa totalmente 
do trabalho a que se dedicam os olhos, não se separa do 
indício sensível e concreto, não se separa da palavra viva e 
imaginativa. 
O pensamento de Bakhtin retoma uma discussão empreendida em nossas aulas, 
sobretudo, no que diz respeito às categorias analíticas da narração. Nenhuma 
categoria pode ser vista isoladamente de sua relação com as outras partes 
constituintes da narração e, se estamos falando de narração, nenhuma lógica 
pode se impor que não considere a lógica da imaginação artística.
Mais importante do que fazer um mero levantamento formal do tempo é buscar 
a função do tempo dentro da narrativa. Essa busca revela se o tempo é uma 
categoria importante ou não para a trama, ou para a situação que o enredo 
oferece. Por exemplo, em Dom Casmurro, de Machado de Assis, o tempo que 
Bentinho passa no Seminário não é compatibilizado, porque não interessa para 
a trama narrativa. Muito mais importante é o reencontro com Capitu,são os 
pensamentos e sentimentos que advêm da saudade. 
Mais importante do que meramente reconhecer o tempo enquanto categoria de 
estudo é discerni-lo a partir do texto literário. Cada narrativa se estrutura a partir 
de um estilo, de uma necessidade e, portanto, desse modo, o tempo aparecerá 
diluído, disfarçado, aviltado, linear, anacrônico, porque o ato de narrar implica 
o apelo à imaginação e a esta nenhuma amarra pode se aplicar.
Exercitando
Para melhor sedimentar as informações apresentadas nessa aula, solicitamos 
que você, a título de exercício, responda ao seguinte questionário:
84
O tempo na narrativa ficcional
1) Na concepção aristotélica de poética, o tempo constitui-se exclusivamente como:
a) físico
b) cronológico
c) psicológico
d) linguístico
2) Por tempo da enunciação entendemos:
a) o tempo da ação no momento em que se fala.
b) o tempo da ação no momento em que ela acontece.
c) a fala em relação a uma ação que poderá acontecer.
d) a coincidência entre tempo de fala e tempo da ação.
3) Compreende-se o conceito de anacronia em relação ao tempo como:
a) uma sequência temporal de acontecimentos.
b) um lapso temporal na condução da narrativa.
c) a simultaneidade de acontecimentos em um mesmo espaço de tempo.
d) a falta de linearidade entre tempo do enunciado e tempo da 
enunciação.
4) Os romances do século XX vão se utilizar do fluxo da consciência como 
um recurso que
a) mimetiza a realidade e aponta para uma possível transformação.
b) torna a narrativa mais complexa e por isso mais interessante ao leitor.
c) volta-se ao interior do sujeito, reproduzindo a dinâmica do 
pensamento.
d) tende a reproduzir a fala, por isso a desobediência às normas 
gramaticais.
5) Na análise de uma obra literária, a categoria do tempo deve ser considerada
a) em sua linearidade cronológica.
b) como aspecto dissociado das marcas estilísticas do texto.
c) com base nas marcas linguísticas que apontam para sua referenciação.
d) a partir de suas relações com as outras categorias, sobretudo a 
do narrador.
85
AULA 05
4 Aprofundando seu conhecimento
A fim de alargar seus estudos no que diz respeito à categoria analítica do tempo 
e ao fluxo da consciência, sugerimos a leitura de O tempo no romance, de Jean 
Pouillon. O autor trata de questões que envolvem a indivisibilidade entre história 
e discurso e considera o fluxo da consciência como o recurso mais adequado à 
eliminação da cisão entre o romance e a vida real.
Nada mais importante para aprofundar o conhecimento do que o contato com 
a obra literária.
Por isso, consideramos imprescindível a leitura de textos como:
Ulisses, de James Joyce
A Paixão segundo G. H., de Clarice Lispector
Mrs. Dalloway e Viagem ao farol, de Virgínia Woolf
Satolep, de Vítor Ramil
Penélope, de Dalton Trevisan
Em todas essas referências, o tempo se encontra diluído, enviesado, condutor 
das angústias e incertezas dos personagens, que, imobilizados pelo mundo 
adverso que os cerca, se estagnam na indefinição e no reconhecimento do 
passado e do futuro.
Não podemos deixar de indicar o filme As Horas, porque, além do trabalho 
magistral da direção e dos atores, aborda, de forma sublime, a questão do tempo.
O filme As Horas é baseado no livro homônimo de 
Michael Cunningham, e, necessariamente, sobre 
Mrs. Dalloway - inicialmente chamado de As Horas -, 
de Virginia Woolf. Conta a história de três mulheres 
que vivem em épocas diferentes, mas igualadas por 
algum momento da vida que, pelo sofrimento, pela 
angústia tornam-se iguais. Todas elas possuem alguma 
ligação com a escritora Virgínia Woolf, sendo, uma 
delas, a própria escritora. O filme mostra os conflitos pessoais por elas 
vividos, mas aborda, de maneira sublime, o relato de um único dia na vida 
dos personagens. São histórias que falam sobre o tempo e que, sobretudo, 
jogam com ele.
Figura 2 
Fonte: http://2.bp.blogspot.
com/-t-P_-TkgS_0/T-EOcpGu-
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86
O tempo na narrativa ficcional
5 Trocando em miúdos
Na concepção do tempo, enquanto categoria analítica, partimos da definição 
aristotélica, para, embasados na definição de Benedito Nunes, considerá-lo 
a partir de sua categorização em tempo físico e psicológico. A partir desse 
entendimento, fizemos um breve passeio sobre as divisões que o autor propõe, 
como tempo histórico e tempo linguístico. Essa teorização é, sem dúvida, bastante 
importante. Todavia, mais importante ainda talvez seja considerar o tempo e 
sua análise como um elemento que está em constante diálogo com os outros 
elementos da narrativa e, por isso, se define a partir e em consonância com o 
todo da obra literária.
6 Autoavaliando
Ao final dessa aula é preciso que você tenha uma resposta afirmativa às 
seguintes questões?
Concebo o tempo, na narrativa, como uma categoria que está em constante 
diálogo com os outros elementos constituintes?
Sou capaz de compreender a diferença entre tempo cronológico e tempo 
psicológico?
Tenho segurança o bastante para demonstrar aos meus alunos que as marcas 
temporais, na narrativa, muitas vezes indicam outros aspectos importantes do 
ato de narrar?
Compreendo o conceito de fluxo da consciência?
87
AULA 05
Referências
ALENCAR, José de. Cinco Minutos/A viuvinha. São Paulo: Ática, 1996.
ARISTÓTELES, HORÁCIO, LONGINO. A poética clássica. São Paulo: Cultrix, 2007.
BACHELARD, Gaston. A dialética da duração. São Paulo: Ática, 1994.
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