Text Material Preview
1 OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM INSTITUTO FEDERAL DE EDUCAÇÃO, CIÊNCIA E TECNOLOGIA PARAÍBA AULA 05Teoria Literária II Kelly Sheila Inocêncio Costa Aires Maria Analice Pereira da Silva Marta Célia Feitosa Bezerra O tempo na narrativa ficcional � Perceber a diferença entre tempo do enunciado e tempo da enunciação. � Perceber a complexa descontinuidade temporal nos romances do século XX. � Discernir, segundo a classificação de Benedito Nunes, tempo físico e tempo psicológico. � Compreender a categoria literária do tempo como indissociável dos elementos constituintes da narrativa. UNIDADE 01 74 O tempo na narrativa ficcional 2 Começando a história Caro aluno, Chegamos à aula 5 da disciplina de Teoria Literária II. Nela, vamos, dando continuidade ao estudo das categorias analíticas que compõem o texto ficcional, destinar especial atenção ao estudo do tempo. Importa-nos, sobremaneira, a apreensão dessa categoria enquanto componente narrativo que se entrelaça com os outros elementos constitutivos, dotando a obra de um todo complexo, em que suas partes estão intrinsecamente ligadas, em que cada uma é elemento importante para a compreensão da trama narrativa. Vamos, a partir das diversas teorias que embasam seu estudo, tentar perceber a diferença entre tempo cronológico e tempo psicológico e de como a sua categorização vai importar na economia da obra. Figura 1 Fonte: Ilustração Raoni Xavier 75 AULA 05 3 Tecendo o conhecimento Confesso-te, Senhor, que não sei ainda o que é tempo, e, no entanto, sei que pronuncio estas palavras no tempo. Sei também que há muito estou falando do tempo, e que este “muito” não é outra coisa senão uma duração de tempo. Como posso saber isso se ignoro o que seja o tempo?Será que não sei exprimir o que sei? Ai de mim, que nem ao menos sei o que ignoro. (Confissões, Santo Agostinho) De todas as categorias de análise que estruturam a narrativa ficcional é, talvez, a categoria do tempo que exija uma percepção mais aguçada, exatamente pelo seu caráter etéreo, abstrato. O tempo não é algo que identifiquemos através de uma marca concreta, assim como os personagens, o narrador, o espaço. É preciso uma atenção pormenorizada em sua inserção, sobretudo, porque a ele se liga intrinsecamente outra categoria, que é a do espaço, cujo estudo se dará, de forma mais ampliada, na aula seguinte. Aristóteles, n’A Poética, já destinava boa parte de suas observações ao tempo. Você deve lembrar que, para Aristóteles, a representação de uma ação humana é a base estrutural da poesia lírica, da tragédia, da epopeia e da comédia. Os gêneros literários se classificam, considerando a imitação (mimese) de uma ação humana. Esperamos que o conceito de mimese tenha ficado bem sedimentado, mas não é demais lembrar que, para Aristóteles, essa imitação de uma ação humana considera, sobremaneira, a capacidade de seu autor, a imaginação e o jogo com as palavras. Quando Aristóteles, n’A poética (2007, p. 24), diferencia a tragédia da epopeia, ele o faz também em relação ao tempo. Se não vejamos: A poesia épica emparelha-se com a tragédia em serem ambas imitação metrificada de seres superiores; a diferença está em que aquela se compõe num metro uniforme e é narrativa. Também na extensão; a tragédia, com efeito, empenha-se, quanto possível, em não passar duma revolução do sol ou superá-la de pouco; a epopeia não tem duração delimitada e nisso difere. Não obstante, primitivamente, procediam assim tanto nas tragédias como nas epopeias. 76 O tempo na narrativa ficcional Ao falar da tragédia, cuja principal característica é a atuação dos personagens, Aristóteles diz que o tempo é o da duração da própria ação dramática, que não deve durar mais de um dia. Já na epopeia, gênero marcado não mais pela atuação e sim pela narração, o tempo não é limitado, no entanto obedece a uma sequência de princípio, meio e fim. Percebemos, por isso, que na concepção aristotélica, esses modos de narrar privilegiavam o tempo cronológico, o tempo medido em relação à duração das ações e dos movimentos. Perceba que Aristóteles já apontava para uma diferença em relação ao tempo da ação e ao tempo da narração, o que nos permite dizer que o tempo da enunciação é um e o tempo do enunciado é outro. Complicou? Vamos entender, então. Existe, na narração, um tempo datado, o tempo que pode ser medido, o tempo cronológico que, embora fictício, registra-se por meio de dias, meses, anos. Esse tempo marca o momento da ação, portanto, o tempo do enunciado. A partir dessa ação, o discurso do narrador pode respeitar ou desrespeitar essa ordem, segundo a sua perspectiva, o que seria o tempo da enunciação. Vamos a um exemplo prático: Em Memórias Póstumas de Brás Cubas, romance de Machado de Assis, há uma quebra de linearidade em relação ao tempo, ou seja, o discurso da enunciação é bem diferente do discurso do enunciado. Se você bem se lembra, o narrador- personagem começa a sua história pela morte da personagem-título, para, só depois, voltar ao seu nascimento. Veja que, no tempo do enunciado, a linearidade se apresenta como nascimento e morte, mas o narrador, a seu bel prazer, inverte essa sequência, de acordo com suas intenções e de acordo com o tipo de organização que pretende imprimir a seu texto. Você certamente já se deparou com algum tipo de narrativa em que o personagem, numa espécie de flashback, volta-se para uma ação passada, na tentativa de revisitá-la, compreendê-la ou explicá-la. A ação se passou em um tempo, mas o personagem está em outro, no tempo da enunciação. Paul Ricouer distingue o tempo narrado (enunciado) do tempo da narração (enunciação). Nesse sentido, há uma diferenciação entre narrativa histórica, em que o tempo é real, datado cronologicamente, e a narrativa ficcional, em que os tempos não apresentam, necessariamente, relação com a realidade. Se os tempos, na narrativa ficcional, não têm de apresentar uma relação com a realidade, também não existe uma regra determinante de seu uso. Por isso os saltos, os lapsos, as descontinuidades e as inversões temporais são possíveis; não 77 AULA 05 só isso, eles vão representar um recurso que garante a originalidade estilística de cada autor. À luz dessas múltiplas possibilidades narrativas, nas quais o tempo é configurado determinando e mediando os fatos e acontecimentos do enredo, resgatamos a tipologia de Benedito Nunes (2002), que direcionará nossos estudos, na qual ele menciona a existência do tempo psicológico e do tempo físico. 3.1 Tempo físico e tempo psicológico. Benedito Nunes (2002) considera que o tempo psicológico pode ser caracterizado como aquele em que há um permanente desencontro com as medidas temporais objetivas, que são as marcas concretas do tempo cronológico, do tempo do calendário, os anos, os meses, as horas, os minutos: uma hora pode parecer- nos tão curta quanto um minuto, se a vivermos intensamente; um minuto pode parecer-nos tão longo quanto uma hora, se nos entediamos. Reforçando uma definição para essa classificação do tempo, podemos dizer, também, que ele se compõe de momentos imprecisos, que se aproximam ou tendem a fundir-se, o passado indistinto do presente, abrangendo, ao sabor de sentimentos e lembranças, intervalos heterogêneos incomparáveis. Vamos lembrar aqui do conto Cinco Minutos de José de Alencar, que é um exemplo interessante de tempo psicológico. O conto, disponível para leitura no seguinte endereço: http://objdigital.bn.br/Acervo_Digital/Livros_eletronicos/ cincominutos.pdf, conta a estória de um encontro amoroso que se sucede porque o personagem principal atrasa-se cinco minutos para tomar o bonde, no horário costumeiro. Por se atrasar cinco minutos, é obrigado a tomar um bonde num horário diferente. Senta-se ao lado de uma jovem e descobre nela o seu grande amor. O fato é que a história é contada na forma de um relato, ou seja, depois do fato acontecido, quando o casal já está junto há muito tempo. Mais ainda, érelatado através de uma carta endereçada à prima. Analisemos, então. O tempo do acontecimento é um, o tempo do relato e o tempo da carta são outros. Há, portanto, instâncias temporais diferentes. Há um descompasso entre o tempo cronológico e o tempo psicológico. Interessante ainda perceber que, do ponto de vista cronológico, a instância marcada “cinco minutos” é absolutamente irreal, quando se trata do enredo mencionado. Todo o acontecimento vivido e narrado não poderia se dar em cinco minutos. Mas, caro aluno, estamos tratando de literatura e, à escrita literária é facultado o descumprimento daquilo que rege a vida real, exatamente porque a literatura transita livremente entre os diversos estatutos da escrita. Por isso mesmo, o http://objdigital.bn.br/Acervo_Digital/Livros_eletronicos/cincominutos.pdf http://objdigital.bn.br/Acervo_Digital/Livros_eletronicos/cincominutos.pdf 78 O tempo na narrativa ficcional cumprimento do tempo cronológico não se aplica aos textos literários, porque o tempo envolve e depende de aspectos que vão além da concretude de um fato: o estilo do autor, a originalidade, o contexto, a subjetividade e tantos outros. Em Em Busca do Tempo perdido, de Marcel Proust, há uma passagem singular daquilo que estamos falando a respeito do tempo psicológico. O personagem-narrador, adulto, vivendo em um tempo cronológico muito distante dos acontecimentos de sua infância, no exato momento em que se depara com um doce, chamado Madeleine, muito comum em sua época de menino e o põe na boca, imediatamente, o efeito provocado em seu paladar leva o personagem a um tempo distante, e, a partir daí, ele se transporta a um outro mundo, com outros personagens, outras ações. Essa rememoração se reporta a um período da vida do personagem que está muito distante da vida real, ou seja, da vida narrada. Há aí, portanto, um absoluto descompasso entre tempo cronológico, que não duraria mais de um minuto e o tempo psicológico que, dentro de um minuto, cobriu uma vida inteira. Aquele gosto era o do pedaço de madalena que nos domingos de manhã em Combray (pois nos domingos eu não saía antes da hora da missa) minha tia Leôncia me oferecia, depois de o ter mergulhado no seu chá da índia ou de tília, quando ia cumprimentá-la em seu quarto [...] E mal reconheci o pedaço de madalena molhado no chá que minha tia me dava (embora ainda não soubesse, e tivesse de deixar para muito mais tarde tal averiguação, por que motivo aquela lembrança me tornava tão (feliz), eis que a velha casa cinzenta, de fachada para a rua, onde estava o seu quarto, veio aplicar-se, como um cenário de teatro, ao pequeno pavilhão que dava para o jardim... Poderíamos nos reportar ainda à narrativa bíblica, no episódio do Sacríficio de Abraão, texto contido no Velho Testamento. Erich Auerbach, (2002, p. 11) em Mímesis, tratando da distinção entre estatuto histórico e estatuto literário, mostra-nos que o tempo na narrativa bíblica não é um marcador cronológico; é, muito mais, um índice de caracterização da personalidade do personagem ou do poder das ordens divinas. Quando Deus diz a Abraão que ele deve acordar muito cedo, ele não está se referindo ao horário, mas à característica dele como ser madrugador. Obviamente, enquanto texto literário, o texto bíblico é esvaziado de seus componentes textuais reais, não necessitando de um cumprimento temporal concreto, passando a apresentar aquilo que Benedito Nunes chama de tempo mítico. Auerbach compreende que algumas marcas temporais no texto bíblico simbolizam não a representação de um tempo físico e concreto, mas uma alusão à atitude de Abraão. Veja o seguinte trecho: 79 AULA 05 Deus disse: “Toma teu filho, teu único, que mamas, Isaac, e vai à terra de Moriá, e lá o oferecerás em holocausto sobre uma montanha que eu te indicarei.” Abraão se levantou cedo, selou seu jumento e tomou consigo dois de seus servos e seu filho Isaac. Ele rachou a lenha do holocausto e se pôs a caminho para o lugar que Deus lhe havia indicado. No terceiro dia, Abraão, levantando os olhos, viu de longe o lugar. Para Auerbach, a utilização de termos como “cedo”, “No terceiro dia”, na narrativa bíblica, não tem a função de precisar o tempo, de demarcar cronologicamente uma situação, e sim, de ressaltar o caráter ordeiro, cumpridor, submisso e fiel de Abraão. Obviamente isso se deve ao cumprimento de uma função no texto bíblico, mas serve para nos mostrar que a alusão ao tempo, nas narrativas, nem sempre é marca de sua contagem cronológica. Enquanto o tempo psicológico nas narrativas decorre de demandas subjetivas da interioridade, o tempo físico se traduz como mensurações precisas baseadas em estalões unitários constantes, para o cômputo da duração. Ele seria a experiência do movimento exterior das coisas no mundo, podendo ser a medida do movimento, ou a relação entre o movimento anterior e o posterior, independendo da consciência do sujeito. Diferindo, ainda, do tempo psicológico, o tempo físico se caracteriza pela ordem objetiva, que se apoia na conexão entre causa e efeito, como forma de sucessão regular dos eventos naturais. Para Benedito Nunes, o tempo físico se apoia no princípio de causalidade, ou seja, as coisas acontecem como sucessão regular dos eventos naturais. Se algo acontece posteriormente a outro acontecimento, significa dizer que esse algo é efeito e, portanto, a ordem em que esses eventos aparecem na narrativa não pode ser invertida (o efeito não pode vir antes da causa). Por exemplo, não podemos imaginar que uma água despejada volte ao copo, a não ser como um efeito especial, recurso bastante utilizado no cinema. Benedito nos fala ainda do tempo histórico, uma caracterização do tempo físico ou cronológico que representa a duração das formas históricas de vida, dividido em intervalos curtos (guerras, revoluções, migrações, movimentos religiosos, sucessos políticos) e intervalos longos, que correspondem a uma rede complexa de fatos ou a um processo (formação da cidade grega, desenvolvimento do feudalismo, advento do capitalismo). Na literatura brasileira temos várias obras, sobretudo os romances históricos, que se caracterizam por seguir essa sequência temporal cronológica marcada por acontecimentos históricos, haja vista romances como As minas de prata e A guerra dos mascates, de José de Alencar, Os sertões, 80 O tempo na narrativa ficcional de Euclides da Cunha, O tempo e o vento, de Érico Veríssimo, e os mais recentes como Agosto, de Rubem Fonseca, e Olga, de Fernando Morais. Mas você poderia perguntar: como identificar tudo isso na obra literária? Nesse ponto chegamos a uma outra caracterização de tempo bastante pertinente que é, no dizer de Benedito Nunes, a do tempo linguístico. 3.2 Como dizer o tempo Para além da classificação em tempo físico ou cronológico, a utilização de determinadas palavras é aquilo que vai determinar o eixo temporal a partir do qual determinados eventos se ordenam. Veja que não é simplesmente a relação de causa e feito entre um evento e outro. É a forma como essa situação se transfigura através da linguagem. Cada vez que dizemos algo, esse exato momento da expressão, da fala, é o agora, ou seja, é o presente da enunciação funcionando como eixo que vai delimitar a linha temporal que os eventos devem seguir. O tempo próprio da linguagem é o tempo da enunciação. O passado e o futuro vão se situar como “pontos de vista” para trás ou para adiante a partir de um presente. São as expressões adverbiais como “hoje”, “ontem”, “amanhã”, “depois” que vão, na fala, indicar uma retrospecção ou uma prospecção, considerando o momento da fala, o tempo da enunciação. Observe, caro aluno, que o tempo linguístico não se reduz às divisões do tempo cronológico, porque vai revelar as próprias relações subjetivas no interior do discurso. Veja o que diz Benedito (1995, p. 22) a respeito dessas relações na narrativa: É a partir dos personagens, dos enunciados a respeito deles ou daquelesque proferem, que fica demarcado o presente da enunciação: os dêiticos, hoje, amanhã, depois, funcionam dentro de um intercâmbio linguístico que se passa entre esses interlocutores, e sem o qual o enquadramento cronológico seria um molde abstrato. O tempo linguístico dependerá do ponto de vista da narrativa, seja da visão onisciente ou impessoal, de proximidade ou de participação (narração em terceira pessoa) do narrador sobre os personagens, seja de sua visão identificada com um deles (narração em primeira pessoa). Vamos entender esse pensamento: primeiramente, você lembra do conceito de dêiticos, em seus estudos de linguística? Se não, dedique um pouco de seu tempo e volte ao material de linguística, a fim de aclarar esse conceito. Em 81 AULA 05 segundo lugar, conforme o que você estudou na aula dedicada ao narrador, viu que o ponto de vista refere-se à caracterização do narrador, ou seja de que ângulo a narrativa é conduzida. No dizer de Benedito, a narrativa obedece a uma ordem própria de configuração do tempo porque considera a interrelação de seus elementos constitutivos como narrador, personagens, espaços e é, a partir deles, que o tempo se constrói. A depender da intenção e do estilo do narrador, o tempo pode aparecer como uma construção anacrônica, ou seja, estabelece-se um pacto entre autor e leitor no qual se compreende que os acontecimentos narrados não pertencem à voz que os anuncia porque, muitas vezes, o próprio narrador abstrai a diferença entre presente e passado. Essa anacronia é muito mais frequente nas narrativas do século XX. Como ruptura com a narrativa do século XIX, que procurou legitimar a ficção pela verossimilhança das situações, buscando uma representação do real, com base no conhecimento das leis naturais, a narrativa do século XX volta-se para o interior do sujeito, para a compreensão introspectiva do personagem. Assim sendo, a narrativa liberta-se da exigência de obediência ao princípio de causalidade, ou seja, tentando transfigurar o interior do sujeito, o pensamento do personagem, que não segue nenhum tipo de linearidade, também a narrativa vai fugir de uma sequência, inclusive temporal. Os pensamentos, à medida que surgem na mente do sujeito, não diferenciam presente, passado e futuro. Tentando transfigurar esse movimento interior, também a narrativa vai espelhar esse mundo caótico e irregular, cuja trama é construída com base em momentos imprecisos, voltados da direção do passado ou do futuro, através de um discurso muitas vezes imbricado e complexo. É essa descontinuidade temporal que justifica a denominação de certos romances como romances de fluxo da consciência. Eles incorporaram à sua trama as mudanças que ocorriam, simultaneamente, no interior dos personagens. Sabemos que o uso do fluxo da consciência não é uma prática exclusiva dos romances do século XX. Machado de Assis, por exemplo, já se utilizava desse recurso, e com bastante maestria, no século XIX. No entanto, foi no século XX que o homem viu-se engolido, deslocado em um mundo que não o compreende, à deriva de seus próprios desejos. Essa incompletude e incompreensão do mundo que o cerca o fazem voltar-se para dentro de si mesmo, para encontrar essa profusão de sentimentos e desejos que se realizam somente no plano da abstração, do pensamento. Na literatura brasileira, muitos são os escritores que se utilizam do fluxo da consciência como recurso máximo e único de expressão frente ao mundo moderno. Podemos destacar Clarice Lispector, Caio Fernando Abreu, João 82 O tempo na narrativa ficcional Gilberto Noll e muitos outros. Mas, insistimos em um ponto: essa não é uma característica exclusiva das narrativas do século XX. É nesse sentido, caro aluno, que nossa prática de pesquisadores deve se voltar para as possibilidades que o texto fornece, independentemente do seu contexto de produção. Veja a seguir um trecho do romance Canoas e Marolas (1999, p. 24), de João Gilberto Noll: Peixes andavam em grupos sob as águas e atrás o garoto solfejava ruídos quase agradáveis. Olhei para o pulso quase perfurando com os olhos o relógio e pouco vi das manchas que deveriam ser os números. Sons de uns cascos de cavalos pareciam anunciar um cortejo. Fui para a frente do quiosque e vi a rua. Um outdoor exibia um sorriso impecável. Nada ilustrava mais a manhã do que aquele sorriso morto. Não sei, talvez porque eu estivesse à procura da garota que se dizia minha filha e que trabalhava na preparação para a melhor das mortes. Aliás, naquele momento já não sabia mais se iria mesmo ao encontro dela ou ficaria enfim por ali com o garoto à beira do rio, tentando alguns expedientes para nosso sustento, pequenos furtos talvez; por enquanto não, por enquanto ainda tinha algum dinheiro, e esse seria usado entre aquelas matilhas de vira-latas que viviam por ali; jogaria um osso ou outro às vezes e eles me protegeriam quando fosse necessário me defender: então eu gritaria pega esfola fere mata come até! Meus cães fariam isso por mim ao menor grito, em troca lhes daria osso, pelanca, gordura que sobrasse de alguma pobre refeição. Claro, seria covardia esquecer nessas alturas o encontro com minha filha naquela casa onde até agora um pouco ficara, se bem estava lembrado, se não me confundia. Canoas e Marolas traz a história de um personagem, João das Águas, que viaja a uma ilha distante em busca de conhecer sua filha, fruto de um relacionamento amoroso do passado, com uma enfermeira, cujo nome nem ele mesmo se lembra. A narrativa é, o tempo inteiro, entrecortada por outras histórias que nada têm em comum com o propósito da viagem. Esse pequeno trecho é bastante ilustrativo daquilo que vimos afirmando em relação ao fluxo da consciência. Observe que a atenção do narrador é desviada continuamente, reproduzindo uma ação que acontece em seus pensamentos: olhar o pulso, ver a rua, ouvir os sons do cortejo, ver o outdoor, são sensações, são choques que nos atingem diariamente sem que percebamos. A narrativa, então, tenta seguir essa falta de linearidade, essa profusão caótica de acontecimentos. Observe também que 83 AULA 05 os verbos são utilizados no futuro do pretérito: ficaria, seria, usaria, protegeriam, gritaria, fariam, indicando uma ação que poderá acontecer, mas o personagem continua imóvel, o tempo só passa em pensamento. Mikhail Bakhtin (2000, p. 243), em seus estudos sobre a narrativa, percebe o tempo em perfeita comunhão com o espaço, por isso mesmo, não o percebe isoladamente, como categoria estanque. Veja o que diz o teórico: “o tempo se revela acima de tudo na natureza: no movimento do sol e das estrelas, no canto do galo, nos indícios sensíveis e visuais das estações do ano. Tudo isso é relacionado com os momentos que lhe correspondem na vida do homem. O trabalho dos olhos que veem combina-se com um processo muito complexo do pensamento. Quaisquer que sejam porém, o nível de profundidade e o grau de generalização desse processo cognitivo, este nunca se separa totalmente do trabalho a que se dedicam os olhos, não se separa do indício sensível e concreto, não se separa da palavra viva e imaginativa. O pensamento de Bakhtin retoma uma discussão empreendida em nossas aulas, sobretudo, no que diz respeito às categorias analíticas da narração. Nenhuma categoria pode ser vista isoladamente de sua relação com as outras partes constituintes da narração e, se estamos falando de narração, nenhuma lógica pode se impor que não considere a lógica da imaginação artística. Mais importante do que fazer um mero levantamento formal do tempo é buscar a função do tempo dentro da narrativa. Essa busca revela se o tempo é uma categoria importante ou não para a trama, ou para a situação que o enredo oferece. Por exemplo, em Dom Casmurro, de Machado de Assis, o tempo que Bentinho passa no Seminário não é compatibilizado, porque não interessa para a trama narrativa. Muito mais importante é o reencontro com Capitu,são os pensamentos e sentimentos que advêm da saudade. Mais importante do que meramente reconhecer o tempo enquanto categoria de estudo é discerni-lo a partir do texto literário. Cada narrativa se estrutura a partir de um estilo, de uma necessidade e, portanto, desse modo, o tempo aparecerá diluído, disfarçado, aviltado, linear, anacrônico, porque o ato de narrar implica o apelo à imaginação e a esta nenhuma amarra pode se aplicar. Exercitando Para melhor sedimentar as informações apresentadas nessa aula, solicitamos que você, a título de exercício, responda ao seguinte questionário: 84 O tempo na narrativa ficcional 1) Na concepção aristotélica de poética, o tempo constitui-se exclusivamente como: a) físico b) cronológico c) psicológico d) linguístico 2) Por tempo da enunciação entendemos: a) o tempo da ação no momento em que se fala. b) o tempo da ação no momento em que ela acontece. c) a fala em relação a uma ação que poderá acontecer. d) a coincidência entre tempo de fala e tempo da ação. 3) Compreende-se o conceito de anacronia em relação ao tempo como: a) uma sequência temporal de acontecimentos. b) um lapso temporal na condução da narrativa. c) a simultaneidade de acontecimentos em um mesmo espaço de tempo. d) a falta de linearidade entre tempo do enunciado e tempo da enunciação. 4) Os romances do século XX vão se utilizar do fluxo da consciência como um recurso que a) mimetiza a realidade e aponta para uma possível transformação. b) torna a narrativa mais complexa e por isso mais interessante ao leitor. c) volta-se ao interior do sujeito, reproduzindo a dinâmica do pensamento. d) tende a reproduzir a fala, por isso a desobediência às normas gramaticais. 5) Na análise de uma obra literária, a categoria do tempo deve ser considerada a) em sua linearidade cronológica. b) como aspecto dissociado das marcas estilísticas do texto. c) com base nas marcas linguísticas que apontam para sua referenciação. d) a partir de suas relações com as outras categorias, sobretudo a do narrador. 85 AULA 05 4 Aprofundando seu conhecimento A fim de alargar seus estudos no que diz respeito à categoria analítica do tempo e ao fluxo da consciência, sugerimos a leitura de O tempo no romance, de Jean Pouillon. O autor trata de questões que envolvem a indivisibilidade entre história e discurso e considera o fluxo da consciência como o recurso mais adequado à eliminação da cisão entre o romance e a vida real. Nada mais importante para aprofundar o conhecimento do que o contato com a obra literária. Por isso, consideramos imprescindível a leitura de textos como: Ulisses, de James Joyce A Paixão segundo G. H., de Clarice Lispector Mrs. Dalloway e Viagem ao farol, de Virgínia Woolf Satolep, de Vítor Ramil Penélope, de Dalton Trevisan Em todas essas referências, o tempo se encontra diluído, enviesado, condutor das angústias e incertezas dos personagens, que, imobilizados pelo mundo adverso que os cerca, se estagnam na indefinição e no reconhecimento do passado e do futuro. Não podemos deixar de indicar o filme As Horas, porque, além do trabalho magistral da direção e dos atores, aborda, de forma sublime, a questão do tempo. O filme As Horas é baseado no livro homônimo de Michael Cunningham, e, necessariamente, sobre Mrs. Dalloway - inicialmente chamado de As Horas -, de Virginia Woolf. Conta a história de três mulheres que vivem em épocas diferentes, mas igualadas por algum momento da vida que, pelo sofrimento, pela angústia tornam-se iguais. Todas elas possuem alguma ligação com a escritora Virgínia Woolf, sendo, uma delas, a própria escritora. O filme mostra os conflitos pessoais por elas vividos, mas aborda, de maneira sublime, o relato de um único dia na vida dos personagens. São histórias que falam sobre o tempo e que, sobretudo, jogam com ele. Figura 2 Fonte: http://2.bp.blogspot. com/-t-P_-TkgS_0/T-EOcpGu- dyI/AAAAAAAABpo/WRpmM- PedmZc/s1600/as+horas.JPG 86 O tempo na narrativa ficcional 5 Trocando em miúdos Na concepção do tempo, enquanto categoria analítica, partimos da definição aristotélica, para, embasados na definição de Benedito Nunes, considerá-lo a partir de sua categorização em tempo físico e psicológico. A partir desse entendimento, fizemos um breve passeio sobre as divisões que o autor propõe, como tempo histórico e tempo linguístico. Essa teorização é, sem dúvida, bastante importante. Todavia, mais importante ainda talvez seja considerar o tempo e sua análise como um elemento que está em constante diálogo com os outros elementos da narrativa e, por isso, se define a partir e em consonância com o todo da obra literária. 6 Autoavaliando Ao final dessa aula é preciso que você tenha uma resposta afirmativa às seguintes questões? Concebo o tempo, na narrativa, como uma categoria que está em constante diálogo com os outros elementos constituintes? Sou capaz de compreender a diferença entre tempo cronológico e tempo psicológico? Tenho segurança o bastante para demonstrar aos meus alunos que as marcas temporais, na narrativa, muitas vezes indicam outros aspectos importantes do ato de narrar? Compreendo o conceito de fluxo da consciência? 87 AULA 05 Referências ALENCAR, José de. Cinco Minutos/A viuvinha. São Paulo: Ática, 1996. ARISTÓTELES, HORÁCIO, LONGINO. A poética clássica. São Paulo: Cultrix, 2007. BACHELARD, Gaston. A dialética da duração. São Paulo: Ática, 1994. BAKHTIN, Mikhail. Estética da criação verbal. São Paulo: Martins Fontes, 2000. BÍBLIA DE JERUSALÉM. São Paulo: Paulus, 2003. GOUVEIA, Arturo. Teoria da literatura: fundamentos sobre a natureza da literatura e das categorias narrativas. João Pessoa: Editora Universitária/UFPB, 2011. NOLL, João Gilberto. Canoas e marolas. Rio de Janeiro: Objetiva, 1999. NUNES, Benedito. O tempo na narrativa. São Paulo: Ática, 2002. PROUST, Marcel. No caminho de Swann. Em busca do tempo perdido. Trad. Mário Quintana. Porto Alegre: Globo, 2006. SANTO AGISTINHO. Confissões. São Paulo: Edições Paulinas, 1984.