O curso de introdução à economia
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O curso de introdução à economia


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não há certezas matemáticas sobre as causas dos fenômenos estudados; geralmente existem diversos fatores causais, e não é fácil determinar quais os predominantes, especialmente no caso de fenômenos mais complexos. Nos casos acima, especificamente, pode-se dizer que não há consenso entre economistas sobre o que tenha sido a causa principal dos fenômenos indicados.
	Por outro lado, há importantes mensagens relacionadas à abordagem analítica adotada em Economia que podem ser transmitidas, e bem absorvidas, mesmo num curso introdutório. Três merecem destaque especial. 
	A busca do maior ganho. A primeira se refere à forma como a teoria econômica estiliza o comportamento dos agentes econômicos (ou seja, de quem produz, vende, compra, consome \u2014 indivíduos, organizações, empresas produtivas). A hipótese básica adotada é a de que esses agentes têm o que se pode chamar de comportamento maximizador; suas ações são, em essência, determinadas pela busca de uma maximização do ganho: maior lucro, maior renda, maior quantidade de bens para consumo, maior satisfação derivada desse consumo, etc., com o menor custo possível. Os trabalhadores preferem maiores salários a salários pequenos, e os capitalistas maiores lucros a lucros menores. Todos buscam maximizar seus ganhos \u2014 levadas em conta, naturalmente, as restrições dadas pelos recursos disponíveis, pelas oportunidades abertas a esses agentes, e pelas informações de que estes dispõem com relação a tais oportunidades. 
	Essa ideia tem, sem dúvida, severas limitações como uma explicação geral do comportamento humano: é fácil pensar em indivíduos, ou coletividades, cujas ações derivam primordialmente de outros tipos de motivação, que não o maior ganho individual. Há, evidentemente, ações altruístas, ou motivadas primordialmente por considerações éticas ou religiosas, ou culturalmente determinadas. Nem tudo pode ser explicado por uma simples busca de ganho econômico. De fato há uma ampla literatura crítica dessa noção de um \u201chomem econômico\u201d (homo \u153conomicus é a expressão latina que se costuma usar nesse contexto), ou seja, de pessoas (ou empresas) que agissem sempre racionalmente, buscando seu maior ganho individual. Sociólogos argumentam com a complexidade do comportamento humano, que não poderia ser reduzido ao de um \u201cautômato\u201d respondendo a incentivos econômicos. Outros sustentam que seria inviável supor que os indivíduos (ou, em geral, os agentes econômicos) se comportassem sempre de acordo com uma racionalidade econômica, quando se reconhece que muitos fazem uma série de coisas irracionais. Por exemplo: jogar na loteria pode ser visto como algo economicamente irracional, considerando a quase nula probabilidade de ganho de cada apostador. E alguns experimentos recentes têm verificado um comportamento diverso do que seria esperado pela hipótese de maximização racional de ganhos, em certas circunstâncias \u2014 o que tem atraído o interesse de muitos economistas para o estudo de aspectos psicológicos da escolha econômica (um dos ganhadores do Prêmio Nobel de Economia em 2002 foi um especialista em Psicologia com pesquisas na área de escolha econômica). 
	Mas o que os economistas em geral sustentam é que, sem ignorar que o comportamento humano tenha determinações complexas, e que, em várias circunstâncias, pessoas possam agir de forma economicamente \u201cirracional\u201d, a hipótese da maximização do ganho como determinante básico das ações dos agentes econômicos tem grande valor explicativo, principalmente nas modernas economias de mercado, levando a conclusões que se ajustam razoavelmente bem à realidade. É importante ressaltar que a hipótese não pressupõe autômatos dedicados unicamente à busca de maiores lucros, máximas vantagens monetárias. O altruísmo pode também mostrar racionalidade, por exemplo. Se você pretende doar para uma instituição de caridade, e procura antes saber como essa instituição aplica o dinheiro, quais os projetos envolvidos, quantas pessoas são atendidas \u2014 você estará buscando, de forma \u201cracional\u201d, garantir que sua doação seja bem aplicada e cumpra, da melhor maneira possível, suas intenções filantrópicas. Avaliando as possibilidades (as várias instituições que poderiam ser objeto de sua doação), você escolherá aquela que propicie a maximização dos efeitos benéficos de sua iniciativa. É o que chamamos acima de comportamento maximizador. 
 
	A regularidade empírica é, pode-se dizer, o principal argumento a favor da hipótese de um comportamento voltado à maximização de ganhos: ao longo de décadas, acumulou-se uma vastíssima literatura empírica que, partindo desse pressuposto, obtém bons resultados, do ponto de vista de sua adequação ao mundo real e ao senso comum. 
	Ora, isso tem grande relevância prática. Se as pessoas costumam em geral agir buscando o maior ganho individual, daí decorre que elas responderão a incentivos econômicos. Por exemplo: se o preço de um bem sobe, o custo de seu uso aumenta, e portanto pode-se esperar que seu consumo diminua. E o contrário, se o preço cai. Essas relações simples de causa e efeito abrem caminho para o entendimento de um amplo conjunto de fenômenos (e não apenas fenômenos econômicos) e podem, também, informar medidas de política. 
	Dois exemplos tópicos podem ilustrar o alcance abrangente dessa relação entre a introdução de um incentivo (ou desincentivo) econômico e uma reação subsequente. O primeiro se refere ao comportamento de professores de ensino fundamental nos Estados Unidos, diante da introdução de um sistema de testes (adotados em vários estados daquele país) que previa recompensas para as escolas cujos alunos se saíssem bem, e penalidades para aquelas onde os resultados fossem maus. Esses incentivos (positivos ou negativos) atingiam também os professores de turmas individuais: em casos extremos, eles poderiam ser demitidos. Um estudo estatístico feito em escolas públicas de Chicago revelou que cerca de 5% dos professores responderam a esses incentivos de forma um tanto inesperada: \u201ccorrigindo\u201d uma parte dos testes de suas turmas, antes que os resultados fossem apurados. Há evidência de que esse tipo de adulteração ocorreu também em outros estados que adotaram prática similar. Vê-se, nesse caso, que um incentivo econômico fez com que certo número de professores (logo quem!) adotasse um comportamento ditado apenas por seu interesse pessoal, ainda que ferindo diretamente a ética. Apesar de o grupo de fraudadores ter sido proporcionalmente pequeno, isso teve consequências: pelo menos um estado americano foi levado a rever o sistema de incentivos, em parte para evitar que fossem apropriados por meio de expedientes ilícitos. \ufffd 
	O outro exemplo aponta para uma possível utilização daquelas relações de causa e efeito no desenho de políticas públicas. Diminuir a propagação de doenças sexualmente transmissíveis é certamente um objetivo importante de política \u2014 inclusive de política econômica, pois tais moléstias impõem um custo elevado à sociedade. Tem sido observado que o consumo de bebidas alcoólicas por jovens favorece tal propagação, na medida em que está associado a uma maior incidência de relações sexuais sem proteção. Nesse sentido, poder-se-ia supor que um aumento no preço de bebidas, desestimulando seu consumo, pudesse influir na difusão daquelas moléstias. Pois um estudo cuidadoso, com técnicas estatísticas que controlam o efeito de outros possíveis fatores causais, chegou exatamente a essa conclusão: a maior incidência de impostos sobre cerveja está relacionada a uma menor ocorrência de doenças sexualmente transmissíveis.\ufffd 
	Esses exemplos sugerem que a hipótese comportamental básica da análise econômica não só tem relevância empírica, e em situações as mais variadas, como pode indicar instrumentos para a consecução de objetivos de política. Para dar outro exemplo: muitos lamentam a prática, tão disseminada em nossas grandes cidades, da pichação de paredes com iniciais ou símbolos, às vezes como forma de competição entre turmas de adolescentes. Se se julga necessário combater