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1ºAula Geografia e Turismo: um olhar interdisciplinar Objetivos de aprendizagem Ao término desta aula, vocês serão capazes de: • compreender a relação interdisciplinar existente entre a Geografia e o Turismo; • entender o fenômeno turístico enquanto objeto de interesse da Geografia; • conhecer as diversas atividades que o geógrafo pode exercer no campo turístico; • analisar o turista inserido na abordagem geográfica. Prezados(as) acadêmicos, É provável que alguns de vocês estejam se perguntando: Por que estudar uma disciplina que trata do Turismo, em um curso de graduação em Geografia? Qual seria a relação entre esses dois campos do conhecimento? Pois bem, minha intenção nessa disciplina e, sobretudo nesta primeira aula, é mostrar a vocês que a Geografia e o Turismo possuem muito mais aproximações do que distanciamentos. Em certo sentido, pode-se dizer que a Ciência Geográfica e o fenômeno turístico complementam-se na medida em que utilizam o mesmo objeto de estudo: a sociedade, o meio ambiente e suas diversas relações. Nessa perspectiva, os espaços ditos geográficos, onde ocorrem essas relações e transformações também são utilizados pelo Turismo, para a realização de várias atividades. Vamos, então, aprofundar um pouco mais essa discussão? Mas antes, vamos conhecer os objetivos da aprendizagem desta aula: Bons estudos! 6Geografia, Turismo e Território Seções de estudo 1 - Geografia e Turismo: abordagens iniciais 1. Geografia e Turismo: abordagens iniciais 2. Os agentes e o processo: geógrafos, turistas e implicações geográficas 1.1 - A relação da Geografia com o Turismo e do Turismo com a Geografia Disponível em: <http://geografianaserpapinto.blogspot.com.br/2015/10/materia- para-o-1-teste-de-geografia-9ano.html>. Acesso em: 21/11/2017. Para iniciarmos a apresentação e o debate sobre a relação da Geografia com o Turismo e vice-versa, iremos explorar um pouco mais adiante, alguns conceitos acerca do Turismo. Porém, já alerto que, devido ao caráter complexo e multidisciplinar e da relativa juventude da atividade turística enquanto atividade socioeconômica, não há consenso em uma definição única que delimite e distinga o Turismo dos demais setores. Ao contrário, atualmente existe um amplo debate acadêmico em relação aos conceitos, elementos formadores, origens e demais aspectos inerentes a essa atividade. Nesse sentido, os conceitos elaborados pelos teóricos das áreas de Ciências Sociais e Humanas contribuem para a compreensão do Turismo (OMT, 2001, p. 35). Primeiramente é interessante notar que o Turismo tem uma dinâmica própria, pois pode ser objeto de estudo acadêmico, é considerado um fenômeno social, uma área de atuação profissional, uma atividade de lazer e um setor da economia (BECKER, 2014, p. 53). Rodrigues (2001) aprofunda ainda mais essa reflexão, pois para a autora, o Turismo: É certamente um fenômeno complexo, designado por distintas expressões: uma instituição social, uma prática social, uma frente pioneira, uma processo civilizatório, um sistema de valores, um estilo de vida – um produtor, consumidor e organizador de espaços – uma “indústria”, um comércio, uma rede imbricada e aprimorada de serviços (RODRIGUES, 2001, p. 49-50). Assim, no campo teórico ainda não representa uma ciência independente, necessitando dessa forma, de uma ação interdisciplinar com as diferentes áreas do conhecimento, dentre as quais está a Geografia. E esta se faz fundamental por oferecer o campo de atuação da oferta turística - o espaço geográfico. Além disso, a Geografia e o Turismo mantêm fortes ligações com o ambiente natural, sendo o espaço geográfico o resultado da interferência humana na natureza, (re)criando paisagens humanas e humanizadas (BECKER, 2014, p. 53-56). Nesse caso, a utilização do espaço geográfico pelo Turismo, que por sua vez é objeto da Geografia, está pautada na produção e consumo do espaço, sendo expresso pela materialização territorial e pelas relações sociais que são inerentes a tal processo. Há ainda que se salientar que a Geografia acolhe o Turismo no sentido acadêmico, na medida em que a “Geografia: é uma das poucas disciplinas em que o turismo tem sido reconhecido como área de interesse e, como tal, vem sendo estudado sob a denominação de geografia do turismo, geografia turística, geografia da recreação ou geografia recreacional” (REJOWSKI, 2001, p.19). Ainda contribuindo com essa discussão, Rodrigues (2001) explica que: O Turismo na sua enorme complexidade reveste-se de tríplice aspecto com incidências territoriais específicas em cada um deles. Trata- se de fenômeno que apresenta áreas de dispersão (emissoras), áreas de deslocamento e áreas de atração (receptoras). É nestas que se manifesta materialmente o espaço turístico ou se reformula o espaço anteriormente ocupado. É aqui também que se dá de forma mais acentuada o consumo do espaço (RODRIGUES, 2001, p. 43). Você sabe quando o fenômeno turístico passou a ser objeto de interesse da Geografia? O estudo do Turismo através da Ciência geográfica surgiu no continente europeu com J. Stradner no início do século XX, relacionado a pesquisas sobre impactos gerados a partir do fenômeno do ócio. Posteriormente, outras pesquisas foram feitas na Alemanha e na Espanha. Porém, de forma mais concreta disseminada, “o estudo do Turismo no âmbito da Geografia acentua-se a partir da década de sessenta, respondendo o acelerado desenvolvimento do fenômeno, ligado à prosperidade econômica que marcou o período de pós-guerra nos países centrais do capitalismo” (RODRIGUES, 2001, p. 40). Já no decorrer da década de 1970, os estudos e pesquisas relacionados à área incorporam as abordagens da Geografia Crítica, Humanista e Cultural (CASTRO, 2006, p. 19). Nessa década, o interesse dos geógrafos passou a se realizar também na América Latina, principalmente na Argentina e no México. No Brasil, pode-se dizer que os estudos são mais recentes e estão vinculados ao desenvolvimento do Turismo no país, sobretudo no final da década de 1970, quando a atividade turística passou a ser chamada de indústria sem chaminés, expressão que foi utilizada enquanto uma estratégia para a imagem do país, enaltecendo seu desenvolvimento econômico ocorrido também a partir do Turismo. A partir da década de 1980, a Geografia passa a discutir e contribuir para 7 o planejamento turístico, fato que se deve à diversificação e segmentação do Turismo no país e de sua relevância para o crescimento nos âmbitos social, econômico e cultural. Além disso, o desenvolvimento tecnológico também é parte integrante dessa relação, uma vez que as questões de acessibilidade, melhoria no sistema de transporte, ampliação da oferta de infraestrutura adequada, surgimento de novas tecnologias nas áreas de comunicação e informação permitiram que a maior parte do planeta pudesse ser visitada pelo ser humano. Nesse sentido, distâncias foram aos poucos, encurtando-se e permitindo que um número maior de pessoas circulasse pelos espaços geográficos. Sem dúvidas, ao longo do tempo, a temática referente ao âmbito do Turismo vem ganhando campo nas pesquisas com abordagem geográfica, na medida em que o Turismo passa a se constituir em uma atividade que interfere nas diferentes perspectivas: política, social, econômica, ambiental e cultural, na organização, desenvolvimento e (re)produção do espaço geográfico (GRIZIO, 2011, p. 97). Por outro lado, muitos pesquisadores têm se dedicado à temática e passaram a adotar a terminologia Geografia do Turismo para as discussões que tratam a ciência geográfica na perspectiva da atividade turística. Ou seja, o Turismo e a Geografia desenvolvem seus caminhos teóricos e conceituais em perspectivas semelhantes, porém, não podemos deixar de lembrar que esses campos de estudo têm suas especificidades e objetivos próprios. 1.2 - Conceituando Turismo e inserindo a temática no campo da Geografia Disponível em: <http://www.liegebarbalho.com/mapa-do-turismo-brasileiro/>.Acesso em: 21/11/2017. O conceito mais utilizado para definir Turismo é o da Organização Mundial do Turismo – OMT, que em 1994 orientou que “o turismo compreende as atividades realizadas pelas pessoas durante suas viagens e estadas em lugares diferentes do seu entorno habitual, por um período consecutivo inferior a um ano, por lazer, negócios ou outros” (OMT, 2001, p. 3, destaques meus). Note que no trecho por mim destacado percebemos que o Turismo implica deslocamento, movimento físico de pessoas, sendo estas, chamadas na terminologia turística de turistas. O sociólogo Reinaldo Dias aponta o Turismo como uma “prática social e cultural orientada para atender às necessidades psicossociológicas dos turistas, que geram incontáveis interações sociais [...] provocando mudanças sociais e culturais” (DIAS, 2005, p. 19, destaques meus). Aqui destaco as transformações que o Turismo provoca em pessoas e lugares, sendo essas positivas ou negativas, o que chamamos de impactos socioambientais. Ou seja, todos esses elementos: espaço, interação social, ambiente natural, cultura, são objetos de reflexão, análise e interpretação da Geografia e do Turismo. Trago também para a discussão, o conceito elaborado pelo geógrafo Marcos Aurélio Tarlombani da Silveira, cujo entendimento do Turismo está no pressuposto de que é uma: [...] atividade que consiste no deslocamento de pessoas provisório e limitado no tempo e no espaço, de tal modo que não implica na transferência do local habitual de residência e que possui motivações diversas [...] e que tem, por um lado, como subjacente ao aproveitamento desse tempo de deslocamento, um desejo de evasão por parte do ser humano do seu território cotidiano e, por outro lado, a busca por novos espaços e culturas de forma mais ou menos vinculada e que não deixará de produzir efeitos de ordem econômica, social, cultural e ambiental. Portanto, entende-se o turismo como uma atividade que produz e consome espaços, sendo responsável por novas territorialidades [...] (apud CASTRO, 2006, p.41). Albach; Gândara (2011) nos revelam suas percepções sobre esse assunto, de acordo com a pesquisa realizada por eles que questiona a relação da Geografia com o Turismo, na qual propõem a seguinte indagação, que por sinal também é o título do artigo: Existe uma Geografia do Turismo? Vejamos: Para Coriolano e Mello e Silva (2005, p.21) “a Geografia é a ciência do espaço e o Turismo concretiza-se nos espaços geográficos”. Por meio dela, é possível compreender as singularidades dos lugares onde se habita e onde se faz turismo, saber o que o diferencia e aproxima os seres humanos, entender as formas de relações socioespaciais, ou como diferentes sociedades interagem com a natureza nessa construção. Para estes autores “a incumbência da Geografia do Turismo é ler o mundo, explicar e interpretá-lo, para entender a mobilidade dos fluxos turísticos” (CORIOLANO E MELLO E SILVA, 2005, p.22) (ALBACH; GÂNDARA, 2011, p. 6). Como exemplo prático, proponho que reflitamos um pouco a respeito dessa relação: como imaginar e planejar uma viagem sem ter conhecimentos prévios sobre os elementos geográficos como clima, aspectos geomorfológicos, recursos hídricos, cultura local? Como determinar qual segmento do Turismo pode ser desenvolvido em determinado local sem contar com a disponibilidade dos aspectos físicos, humanos e biológicos inerentes ao campo da Geografia? Como 8Geografia, Turismo e Território desenvolver o Turismo em um ambiente natural, tornando-o um negócio economicamente rentável e com o mínimo de impacto ambiental negativo? As respostas a essas e outras diversas questões estão relacionadas às contribuições do campo do conhecimento da Geografia para o Turismo! Por outro lado, quando o Turismo estuda as formas, a organização e os impactos dessa atividade nos contextos ambiental, social e econômico, remete à Geografia algumas noções e estratégias no uso e planejamento do território, da utilização dos espaços e da paisagem, descrição de fluxos turísticos, implicações geradas a partir do planejamento da atividade, além das questões que relativas às políticas públicas e privadas aplicadas ao Turismo e ao espaço (SALES, 2010, p. 278). Você conseguiu perceber que, para além das relações das áreas de estudo, há diversas contribuições mais práticas que a Geografia faz ao Turismo e que o Turismo faz à Geografia? Então, podemos agora pensar sobre outro questionamento, sendo este apontado pela pós-doutora em Geografia do Turismo pela Universidade de Paris I, Adyr Balastreri Rodrigues: “A geografia serve para entender o turismo ou o turismo serve para entender a geografia?” Veja o que a pesquisadora diz sobre essa relação: Podemos dizer que a geografia do turismo serve para alimentar e irrigar a reflexão na geografia. O contrário também é válido – é necessário aprofundar-se na reflexão geográfica para entender o fenômeno no turismo, contemplando sua natureza complexa e multifacetada, percorrendo os campos econômico, sociológico, antropológico, psicológico, cultural, político, jurídico, ideológico, com significativas incidências espaciais (RODRIGUES, 2003, p. 95). Note que, se faz urgente, fundamental e trata-se de uma operação contínua a necessidade do aprofundamento dos significados desses campos, percebendo sua complexidade e a sua interdisciplinaridade, já que a questão apontada acima não encontra atualmente resposta definitiva em nenhum manual. Além disso, os temas tratados nessa fusão Geografia e Turismo extrapolam os campos supracitados, pois abarcam também temas que envolvem as práticas sociais, o imaginário, as relações de produção e consumo, as formas e imagens, dentre outros. A relação fundamental nas pesquisas em Geografia e Turismo se dá no espaço turístico. Elementos do espaço geográfico e do espaço turístico acabam por compor as temáticas de pesquisas afins em Geografia e Turismo, evidenciando a necessária e positiva constituição de um caráter multi e interdisciplinar (ALBACH, GÂNDARA, 2011, p. 8). Nesse sentido, entendendo que “o turismo é a única prática social que consome elementarmente espaço” (CRUZ, 2003, p. VI, destaque da autora), a Geografia não aborda apenas o âmbito científico do fenômeno turístico, mas sim se refere à dimensão socioespacial da prática social do turismo. E é esse tipo de análise que nos interessa nessa disciplina. 2 - Os agentes e o processo: geógrafos, turistas e implicações geográficas 2.1 - O geógrafo e o turismo Já entendemos que o Turismo, por ser uma atividade dinâmica e que necessita da interdisciplinaridade com outras áreas do conhecimento, representa um agente que interfere na construção e produção do espaço geográfico, estando intrinsecamente conectado a essa categoria, pois vários elementos conceituais da mesma são utilizados como produtos ou atrativos turísticos, como por exemplo: o lugar, a paisagem e o território. Você não sabe as diferenças conceituais desses elementos e a relação com o Turismo? Fique tranquilo(a), pois eles serão abordados mais detalhadamente na próxima aula. Por enquanto, seria interessante nos perguntar: Como o trabalho do geógrafo pode contribuir com a atividade turística? Veja o que a Cartilha Turismo & Profissões produzida pelo Ministério do Turismo em 2010 aponta para a área da Geografia. Vejamos: Podemos perceber que são diversas as áreas de contribuição do profissional ligado à Geografia para o campo e a atividade operacional e de gestão do Turismo. Além disso, são várias as temáticas de estudo que aliam Geografia e Turismo, as quais destacamos abaixo e ao longo da disciplina discutiremos e aprofundaremos um pouco mais: espaço geográfico,organização espacial, tempo, espaço rural e urbano, lugar, território, territorialidades, território turístico, desterritorializar e reterritoralizar, paisagem, produção espacial, técnica, natureza, patrimônio histórico e artístico, sentimentode patrimônio, comunidade, turismo comunitário, arranjo produtivo, litoral, região, regionalização, cidade, cultura, mundo, local, população, rede, relação sociedade/natureza e unidade Fonte: Adaptado de Mtur (2010, p. 31; 32). Avaliar os impactos sa atividade de Turismonas diversas áreas: litoral, rural, natural, urbana, urbana não litorânea. Realizar estudos e fornecer subsídios para organizar a atividade turística como consumidora dos lugares Analisar motivações turísticas ligadas ao uso da imagem do destino turístico para despertar o desejo de mobilidade das pessoas. Atuar em equipes interdisciplinares para o planejamento e gestão de políticas públicas. Atuar na capacitação de profissionais do Turismo - guias, condutores - conscientizando sobre a importância da manutenção do equilíbrio socioambiental. Estudar as potencialidades turísticas, com ênfase nos aspectos naturais da localidade. Exemplos de atividades que podem ser exercídas pelo Geográfo, no Turismo: O profissional da Geografia pode estar presente em todas as etapas da prática do Turismo para prevenir ou minimizar os impactos da atividade turística sobre o espaçõ geográfico. Estudar as potencialidades turísticas naturais Participar no planejamento e gestão de políticas públicas Elaborar estudos sobre a atividade turística como consumidora de lugares Avaliar os impactos da atividade turística no espaço geográfico 9 geoambiental (ALBACH, GÂNDARA, 2011, p. 9). Importante também salientar que, como o enfoque geográfico perpassa a questão da interação homem/meio ambiente, a atuação do geógrafo pode se operacionalizar no sentido de contribuir para o Turismo e, em paralelo, para a atuação do turismólogo, nas seguintes ações: [...] identificar fluxos, localizar áreas turísticas, fatores e efeitos espaciais do turismo, comportamento de diferentes grupos de turistas na perspectiva de formas de instalações turísticas e processos da organização espacial. Ora nos processos de desenvolvimento e organização espacial, ora nos seus impactos, os geógrafos constroem referências essenciais para a elaboração de novas postulações sobre o espaço turístico, além de oferecer subsídios às políticas de ordenamento, planejamento e gestão da atividade (CASTRO, 2006, p. 20). 2.2 - O turismo, o turista: a abordagem e interesses geográficos Disponível em: <https://www.organicsnewsbrasil.com.br/hoje-e-dia-de/hoje-e-dia- do-turista/>. Acesso em: 21 de nov. 2017. A doutora em Geografia Física Nair Apparecida Ribeiro de Castro apresentou em sua Tese de doutoramento defendida em 2006, a qual foi intitulada O lugar do Turismo na Ciência geográfica: contribuições teórico-metodológicas à ação educativa, contribuições no sentido de compreender o lugar assumido pelo Turismo enquanto atividade produtiva e prática social no contexto da Geografia. Nesse sentido, a pesquisadora nos mostra que a base da relação da Geografia com o Turismo consiste no “fato de o deslocamento espacial situar-se no centro da prática social do turismo, uma vez que os produtos turísticos são consumidos in situ e a demanda é que se desloca” (CASTRO, 2006, p. 30). De fato, o deslocamento é um dos elementos fundamentais para a experiência turística, sendo esta ainda relacionada ao destino turístico e ao consumo do produto turístico. Mas o que é demanda no Turismo? Pode-se dizer que a demanda vinculada à atividade turística é “formada por um conjunto de consumidores – ou possíveis consumidores – de bens e serviços turísticos” (OMT, 2001, p. 39). Ou seja, quando falamos em demanda para o Turismo, basicamente estamos falando de turistas que buscam produtos e serviços no mercado turístico a fim de satisfazer suas diversas necessidades. Mas há uma diferença do mercado turístico em relação aos outros mercados: “não é o produto que se desloca até o consumidor; é este que se desloca para um local onde é oferecido o produto turístico” (DIAS, 2005, p. 53). E como a demanda turística se desloca? Rodrigues (2001) nos ajuda a entender essa questão: A demanda se desloca através dos fluxos – aéreos, terrestres, fluviais, marinhos e oceânicos – que também incidem concretamente no território. No caso dos transportes aéreos, marítimos e oceânicos circunscrevem-se no espaço através dos equipamentos de embarque e desembarque, que não deixam de ser significativos. Há que se considerar-se ainda, no capítulo dos fluxos, os não-visíveis, como os fluxos de capitais e da informação. Esses fluxos, quando mapeados, fornecem importantes fontes de dados para o estudo das conexões, em qualquer escala geográfica que se quer enfocar (RODRIGUES, 2001, p. 22-23). Na prática, o deslocamento proporciona a prática sócio espacial e (re)cria fluxos turísticos, que são entendidos como mercado, no enfoque do capital. Tal prática condiciona tanto a questão do deslocamento para o destino, como as relações sociais que o turista estabelece com os indivíduos nos locais visitados (CASTRO, 2006, p. 31). Logicamente que tais afirmações estão (cor) relacionadas às inúmeras outras abordagens e dependem de fatores demográficos, sociais, culturais, econômicos, e sobretudo, psicológicos que irão determinar as motivações dos turistas para se deslocar à determinado destino. Nesse sentido, tais questões são importantes para compreender os processos de territorialidades que surgem nos espaços geográficos, tanto no sentido material, como no simbólico. Nesse último sentido, “os espaço se reveste, então, de visões simbólicas, formadas não por um projeto de reconstrução objetiva do mundo, mas por sonhos ou por arquétipos culturais subliminares, que acabam globalizando-se” (RODRIGUES, 2001, p. 26). Castro (2006, p. 26) ainda aponta que “outro tema de interesse do geógrafo sobre a prática social do turista refere-se às relações de sociabilidade que ele estabelece com os anfitriões”. Nesse sentido, Mário Carlos Beni, um dos maiores especialistas em Turismo no Brasil, esclarece que o consumo do produto turístico, aqui entendido inicialmente como espaço, afeta e é afetado por: Um elaborado complexo processo de decisão sobre o que visitar, onde, como e a que preço. Neste processo intervêm inúmeros fatores de realização pessoal e social de natureza emocional, econômica, cultural, ecológica e científica que ditam a escolha dos destinos, a permanência, os meios de transporte e o alojamento, bem como o motivo da viagem em si para a fruição material como subjetiva de sonhos, desejos, imaginação projetiva, 10Geografia, Turismo e Território de enriquecimento existencial histórico- humanístico, profissional, de expansão de negócios. Este consumo é feito por meio de roteiros interativos espontâneos ou dirigidos, compreendendo a compra de bens e serviços da oferta original e diferencial das atrações e dos equipamentos a ela agregados em mercados globais com produtos de qualidade e competitivos (BENI, 2000, p. 35). Diante dessas assertivas, pode-se refletir e produzir algumas considerações, a saber: 1) os elementos que constituem a territorialidade do fenômeno turístico são: deslocamento, motivação, infraestrutura básica e destino turístico; 2) o uso, produção e consumo do território turístico produzem uma espacialidade complexa, sendo necessária sua análise abrangendo as dimensões: econômica, simbólica, comportamental e sociológica (CASTRO, 2006, p. 42). Agora que já entendemos essa dinâmica, podemos também compreender que, de fato: O interesse do geógrafo em relação ao entendimento do comportamento espacial do turista, bem como as diferentes motivações que levam as pessoas a viajar [...] tornou possível a compreensão de certos procedimentos espaciais como a locomoção e a orientação, além dos mapas mentais como representação do espaço como referência. O referencial teórico humanista tem dado sustentação teórica à pesquisa na abordagem geográfica do turismo, tanto no âmbito das relações entre anfitriões e visitantes quantono âmbito de seu comportamento espacial (CASTRO, 2006, p. 32). Dessa forma, ao entendermos que a Geografia do Turismo é o estudo do fluxo turístico e das suas transformações pela demanda, ficará clara a existência do Turismo, pois é através da realimentação dos fluxos que o Turismo é produzido. Na perspectiva científica, a condição do turista é inerente aos condicionantes da cultura local, ou seja, o turista interage/absorve/influencia fatores que podem inserir determinados “lugares e culturas no processo da economia-mundo, ou seja, na integração do local com o global e vice-versa” (SANTOS, 2010, p. 21). Nesse sentido, as relações sociais e culturais realizadas através dos deslocamentos proporcionaram ao fenômeno turístico um caráter de atividade de consumo e produção global. Logicamente que tais processos nem sempre são benéficos, tanto para os indivíduos, como para o ambiente no qual os visitados vivem. Dessa forma, a ciência geográfica entendida como a ciência da análise, pesquisa interpretação das ações do ser humano em seu espaço, transformando-o conforme seus desejos e necessidades, tem no Turismo mais um objeto de análise, sendo fundamental a relação destes para o equilíbrio socioambiental da atividade turística. Os geógrafos devem estar sempre atentos a essa dinâmica a fim de oportunizarem estudos voltados à complexidade do Turismo como mais um aporte para a realização de pesquisas a nível local, regional e global (SANTOS, 2010, p. 21). Retomando a aula Chegamos, assim, ao final da primeira aula. Espera- se que agora tenha ficado mais claro o entendimento de vocês sobre a relação da Geografia e do Turismo, sobretudo em âmbito interdisciplinar. Além disso, o papel do geógrafo em relação à atividade turística e sua importância enquanto pesquisador do espaço turístico. 1 – Geografia e Turismo: abordagens iniciais Nesta seção, aprendemos que o Turismo tem uma dinâmica própria, pois pode ser objeto de estudo acadêmico. É considerado um fenômeno social, uma área de atuação profissional, uma atividade de lazer e um setor da economia. Nesse sentido, necessita de uma ação interdisciplinar com as diferentes áreas do conhecimento, dentre as quais está a Geografia. E esta se faz fundamental por oferecer o campo de atuação da oferta turística - o espaço geográfico. Além disso, aprendemos alguns conceitos sobre o turismo, bem como as diversas contribuições mais práticas que a Geografia faz ao Turismo e que o Turismo faz à Geografia. Por fim, percebemos que a Geografia não aborda apenas o âmbito científico do fenômeno turístico, mas sim se refere à dimensão socioespacial da prática social do turismo. 2 – Os agentes e o processo: geógrafos, turistas e implicações geográficas Aqui, apresentamos a discussão de que como o trabalho do geógrafo pode contribuir com a atividade turística e entendemos que ele pode estar presente em todas as etapas da prática do turismo, no sentido de prevenir ou minimizar os impactos da atividade turística sobre o espaço geográfico. Além disso, conhecemos alguns conceitos relacionados ao turismo, como: demanda, mercado, produto, sobretudo enfatizando a perspectiva do turista enquanto agente produtor de relações sociais e culturais realizadas através dos deslocamentos. ALBACH, V. M.; GÂNDARA, J. M. G. Existe uma geografia do turismo? Revista Geográfica de América Centra. Número Especial EGAL. Costa Rica, p. 1-16, II sem. 2011. Disponível em: <http://www.revistas.una.ac.cr/index.php/geografica/article/ view/1804>. Acesso em: 13/03/2018. BECKER, E. L. S. Geografia e Turismo: uma introdução ao estudo de suas relações. Revista Rosa dos Ventos. Caxias do Sul/ RS, v. 6, n. 1, p. 52-65, jan./mar. 2014. Disponível em: <http://ucs. br/etc/revistas/index.php/rosadosventos/article/view/2333>. Acesso em: 13/03/2018. Vale a pena Vale a pena ler 11 GRIZIO, E. V. O Turismo na ótica geográfica. Acta Scientiarum. Human and Social Sciences, Maringá, v. 33, n. 1, p. 97- 105, 2011. Disponível em: <http://periodicos.uem.br/ojs/index. php/ActaSciHumanSocSci/article/download/9089/9089>. Acesso em: 13/03/2018. Disponível em: <http://www.turismo.gov.br/>. Ministério do Turismo. Disponível em: <http://www.publicacoesdeturismo. com.br/>. Base de dados de livros e artigos científicos na área do Turismo. Vale a pena acessar Minhas anotações